OS SUPER-HERÓIS FICARAM MESQUINHOS

O cinema moderno transformou objetivos grandiosos em meros problemas do dia-a-dia

No cinema, o agente James Bond salvou o mundo algumas vezes. Capitão Kirk também. Os super-heróis modernos… não. Eles estão ocupados, lutando por suas pequenas rixas pessoais. E não foi só isso que mudou de uns tempos para cá. Seus objetivos também ficaram pequenos. E nós, mortais, como ficamos se os grandes atos heróicos eram a razão pela qual torcíamos nas salas de cinema? Não queremos que o mocinho derrote o vilão só porque gostamos dele e sim porque, se ele falhar, uma besteira muito grande vai acontecer. Como fazem falta aquelas motivações elevadas dos heróis mais antiguinhos! Com sua nobreza e altruísmo, faziam o mundo parecer melhor.

Nos últimos anos, as histórias dos filmes de super-heróis ficaram menores, individualistas. O personagem principal passou a ser o centro dos acontecimentos e os vilões passaram a ser o melhor amigo, o irmão, a ex-mulher, o progenitor do herói ou seus próprios receios. O Duende Verde é pai do melhor amigo de Peter Parker. O Doutor Destino, um amigo da universidade de Reed Richards, cujo acidente que deformou seu rosto conferiu poderes ao Quarteto Fantástico.

Agora, fazer o Incrível Hulk duelar com o próprio pai é imperdoável. Transformou o grande e raivoso homem verde em um personagem barato, só isso. O Hulk sempre lutou contra conquistadores de outras galáxias, robôs gigantes, lagartos mutantes. Aliás, a razão de aquele monstro horroroso se tornar herói é justamente o fato de existirem seres ainda mais terríveis do que ele soltos por aí. Se o principal objetivo do herói é evitar a morte ou ser capturado pelos caras maus, tudo bem. Ninguém quer ser um Wolverine, que foi explorado pelo exército, ou um Super-Homem, morto por seus ex-amigos. O motivo é até razoável, mas está longe de ser heroico.

Eu adorei alguns destes filmes recentes, especialmente Homem de Ferro e Batman — O Cavaleiro das Trevas. Mas, em geral, este tipo de fita está levando a ideia de “mundinho” longe demais. O conflito entre herói e vilão se transformou numa rixa com uma pequena capa ideológica para fazer com que a coisa pareça mais relevante.

E é fácil entender o porquê disso tudo. Tramas pessoais fazem a narrativa parecer, à primeira vista, mais coerente, atual e íntima. Além de ser mais estiloso em termos de roteiro fazer com que, por exemplo, o inimigo do herói, em Batman Begins, seja o cara que ensinou Bruce Wayne a se tornar… o Batman.

Por outro lado, estes atalhos fazem do mundo do herói um lugar claustrofóbico e os tornam simplesmente pessoas comuns com poderes, não mais seres com objetivos nobres. Falta a eles a coragem bruta que, aliados a estes talentos, o transformam em mais que humanos, em super. A mensagem, assim, passa a ser “não deixe que seu pai seja um canalha com você”. Quando assistíamos aos filmes mais antigos, saíamos do cinema revigorados, sonhando em salvar o Universo. “Quando você vir que o mal está destruindo o mundo, reúna suas forças e lute contra ele”, eu costumava dizer para mim mesma. Afinal, é para isso que servem os heróis.
>> REVISTA GALILEU – por Charlie Jane Anders

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