UNIVERSOS DE FERRO

“O Superman só se sustenta como mito se o leitor perder o controle das relações temporais e renunciar a raciocinar com base nelas, abandonando-se, assim, ao fluxo incontrolável das histórias que lhe são contadas e mantendo-se na ilusão de um contínuo presente” 
Umberto Eco 

Talvez o público em geral não perceba, mas uma experiência arriscada está em andamento dentro do cinema comercial norte-americano. Trata-se de um investimento alto na construção – ou talvez seja melhor dizer transposição – de um universo coeso que reúne personagens e tramas de filmes diferentes numa única linha temporal e narrativa, na qual eventos ocorridos em um acarretariam consequências em outros, criando uma teia de ações e relações.

A produção que deu início a essa empreitada bizantina foi Iron Man, 2008, de John Favreau, que vertia para as telas as aventuras do playboy cientista, alcoólatra, mulherengo e bipolar Tony Stark, versão quadrinizada e bidimensional de Howard Hughes, criado em 1963 por Stan Lee (plot), Larry Lieber (roteiro) e Don Heck (desenhos) para a Marvel Comics. O diferencial de Stark era que, por motivos de saúde e para salvar a pele, envergava uma armadura vermelha e dourada e saía voando pelo mundo combatendo comunistas das mais diversas linhas. O filme foi bem nas bilheterias, apesar do pouco renome do diretor, ancorado no talento do ator Robert Downey Jr, que parece uma encarnação de Tony Stark até nos maus hábitos. A continuação começou a ser produzida, em exibição hoje, logo após os resultados de bilheteria chegarem aos escritórios da Marvel, que acabava de entrar no ramo cinematográfico e que logo seria incorporada pelo Grupo Disney.

As ambições são vastas e os cofres aparentemente fundos. Um elenco de peso foi contratado para uma nova versão do Incrível Hulk, 2008, mas o resultado final acabou decepcionando, apesar do filme ser revisitado em Iron Man 2, outro blockbuster. Pois é, três filmes concatenados, onde um personagem entra na história do outro sem pedir licença. Tony Stark aparece em Hulk e, em uma cena que só faz sentido para quem conhece os quadrinhos da Marvel, o martelo de Thor, mix de deus nórdico com herói, cujo longa está sendo dirigido neste momento por Kenneth Branagh, especialista em versões de Shakespeare para o cinema, surge depois dos créditos de Iron Man 2, e ainda existe o filme do Capitão América em pré produção. Tudo isso para desembocar num último projeto onde todos estarão reunidos, recriando o universo ficcional das HQs nas telas.

O que os fãs se perguntam, é: será que essa salada de estilos, talentos e cronogramas pode funcionar criando uma história coesa? E pior, será desejável que isso ocorra? A primeira pergunta é fácil, pois já foi feito antes, nos anos 40, e com resultados positivos em termos de bilheteria, pois os americanos lotavam os cinemas toda vez que Lon Channey, Boris Karloff e Bela Lugosi juntavam os trapinhos de seus monstros em crossovers infinitos. Esses filmes-frankenstein contavam uma única, imensa história e, se vistos hoje em dia, ainda não perderam o charme. Porém… esgotaram o veio. Nos anos 50 ninguém aguentava mais ouvir falar em lobisomens e dráculas. Tornaram-se figuras patéticas eclipsadas por novos horrores nucleares. O gótico sucumbiu ao próprio peso e o mesmo periga ocorrer aos charmosos heróis lamurientos da Marvel depois da super exposição cinematográfica.

Porque Umberto Eco já dizia que o segredo do sucesso do Superman dos anos 50 era o fato de suas histórias acontecerem num limbo, num universo “flexível” onde causa e efeito não eram diretamente ligados, onde sempre seria possível desfazer o ocorrido num episódio para voltar a um estado de latência no seguinte. Lois Lane era a eterna namorada, Lex Luthor sempre fugia da prisão apenas para ser preso outra vez e o status quo era imutável. Ao tornar tais histórias concatenadas corre-se o risco de vê-las perder o viço, tornarem-se réplicas patéticas de uma realidade opaca.

Criar um universo de ferro, onde cada ação é lógica e implica em outras poderá gerar uma reação em cadeia que desgastará tanto o público quanto os personagens. A natureza maniqueísta de cada um desses heróis possivelmente não resistirá ao peso de uma continuidade rígida, que reduzirá seus duelos titânicos à puerilidade. Por outro lado, se funcionar melhor do que os filmes de monstro da Universal, podemos, quem sabe, estar diante de uma nova maneira de contar histórias no cinema, uma revolução que, longe de ser apenar técnica, como um efeito 3D outro sensibilizador sensorial qualquer, residirá na construção de uma narrativa mais longa e mais trabalhada. Seria o primeiro passo para assistirmos a uma versão digna da Comédia Humana, de Balzac, ou, já que falamos de criação de mitos, da Bíblia, com todos os personagens unidos como elos de uma corrente. Isso sim, valeria a pena ver.
>> ACHEI USA – texto e ilustração de Octavio Aragão

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