LUIS NELSON BRÁS DE OLIVEIRA

Seja como escritor ou como organizador de antologias, Nelson de Oliveira sempre pautou seu trabalho por um equilíbrio entre a experimentação literária formal e uma observação minuciosa e realista do cotidiano. Seu livro mais recente leva a experimentação mais longe, em um romance sombrio e cáustico que flerta abertamente com o gênero da ficção científica.

Poeira: Demônios e Maldições retrata o Brasil em outra realidade – um mundo futurista ou uma dimensão alternativa, o autor não chega a bater o martelo em relação a isso – na qual a publicação e a circulação de livros foram proibidas por decreto presidencial. Como um Brasil alternativo, contudo, ainda será o Brasil, a ordem não é cumprida de imediato. Milhares de livros devem ser cadastrados nas monstruosas bibliotecas construídas para armazenar os volumes. Já que não param de aparecer novos livros mesmo com a interdição, a solução do governo é fazer de conta que nada aconteceu e continuar construindo depósitos para os livros que em tese não deveriam existir.

Organizador das controversas antologias Geração 90 – aquelas mesmas que acabaram por colar em seus participantes o rótulo de “transgressores” que hoje alguns deles renegam – Oliveira conduz sua história pelos pontos de vista de um diretor de biblioteca, Frederico, e dos personagens que gravitam em torno dele: sua mulher, Estela; sua filha, Renata; o genro, Rodrigo, e um investigador chamado Pedro Penna, em obscura missão oficial no  complexo que abriga a biblioteca – onde os títulos ainda não catalogados tomam conta de todas as dependências, como banheiros, refeitórios e até as lajes externas. Em um cenário nonsense e apocalíptico no qual as estrelas incendeiam o céu e o caos urbano é a paisagem cotidiana, os personagens vão gradativamente desaparecendo à medida que mais e mais livros novos, editados depois da interdição, misteriosamente se espalham pela biblioteca – dois mistérios que têm uma resolução sarcástica e com um pé no fantástico.

Embora sua produção literária consagrada pela crítica – e de corte mais afeito ao realismo – aborde temas e conceitos bastante diversos desse universo de fantasia e ficção científica, Oliveira não é um estranho ao meio. Ele organizou, em 2007, a coletânea Futuro Presente (Editora Record) e revistas de um projeto chamado Portal, partindo da premissa de cruzar em um mesmo espaço escritores mais ligados à literatura de gênero e os que praticam a chamada “ficção literária” ou “literatura mainstream” (e aí a questão da dificuldade de nomear os conceitos quando o assunto é ficção científica fica claro, uma vez que há prosa “literária” em ficção científica e o que se entende comercialmente por “mainstream” se ajustaria melhor aos
best-sellers, por exemplo, do que à literatura de viés mais artístico).

O novo livro é, contudo, um dos raros textos de ficção científica escritos por Nelson com seu próprio nome. O autor já ensaiara incursões no gênero com o nome de Luiz Bras – foi assim que assinou seu conto na antologia Futuro Presente, por exemplo. É também o último livro de Nelson de Oliveira – doravante, as obras do autor saem assinadas por sua “persona” Luiz Bras.
>> MUNDO LIVRO – por Carlos André Moreira

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