“UMA PRINCESA DE MARTE”, DE EDGAR RICE BURROUGHS

Embora Edgar Rice Burroughs seja mais lembrado por criar o rei das selvas Tarzan, o autor produziu dezenas de obras em sua carreira, criando mitologias bem vastas, como a do reino de Pellucidar, localizado no centro da Terra; e a saga do planeta Barsoom.

E é essa última que chega agora ao Brasil no livro Uma Princesa de Marte, lançamento da Editora Aleph. Burroughs começou a trabalhar na trama em 1911, publicando-a pela primeira vez em 1912, de forma seriada nas páginas de All-Story. Nesta época, tanto autor quanto livro tinham outros nomes. A história foi originalmente batizada como Under the Moons of Mars (Sob as Luas de Marte), e Burroughs usou o pseudônimo Norman Bean, que deveria ter saído como Normal Bean. A famosa aventura só foi publicada como livro em 1917.

Embora ainda em início de carreira, Burroughs já demonstra em Uma Princesa de Marte grande talento, ao começar pelo modo que apresenta a história. O escritor se coloca no lugar do leitor, retratando toda a aventura como se fosse o diário de John Carter, o personagem principal do livro, que nos é apresentado como tio de Burroughs, que por sua vez está lendo o tal diário.

John Carter é um capitão confederado que, depois do fim da Guerra Civil, tenta junto de um amigo conseguir dinheiro fácil explorando minas. Após entrar em confronto com indígenas, Carter se esconde numa caverna, acabando por ser misteriosamente transportado para Marte.

Já no outro planeta, Carter logo descobre possuir habilidades sobre-humanas, já que a gravidade de Marte é diferente da Terra, permitindo assim que Carter seja capaz de atos de grande destreza física, podendo, por exemplo, saltar vários metros de altura sem esforço algum. Pouco tempo depois que chega a Marte, ele entra em contato com sua população: monstruosas criaturas verdes com quatro braços, dedicadas ao combate.

Com o passar do tempo e a convivência, Carter aprende a língua deste povo e fica a par de vários fatos sobre o planeta. Para começar, seus habitantes não o chamam de Marte, mas sim de Barsoom. Os marcianos verdes não são a única raça presente. Há também os marcianos vermelhos, fisicamente bem parecidos com os terráqueos.

Entre diversas outras coisas, Carter aprende os costumes do povo que o capturou, e é através destes costumes que ele, primeiramente por acidente, ganha uma importante posição entre eles. Com uma cultura totalmente dedicada ao combate, é também deste modo que os marcianos verdes avançam de posto, matando seu rival e tomando seu lugar. Graças a isso, Carter logo se encontra numa estranha posição, sendo ao mesmo tempo cativo e um dos principais guerreiros deste povo.

Enquanto se dá conta de que os marcianos verdes, embora muito honrados, em sua maioria não apresentam praticamente nenhum sentimento mais terno, como amor ou amizade, Carter entra em contato com outra refém: Dejah Thoris, a princesa de Helium, por quem se apaixona perdidamente.

Está montado então o cenário para a verdadeira aventura de John Carter, que fará de tudo para conquistar o coração da mulher que ama e para libertá-los do cativeiro, no processo mudando toda a estrutura de Barsoom para sempre.

Mesmo apresentando diferentes sociedades, até certo ponto bem desenvolvidas, Uma Princesa de Marte não é um livro muito complexo, sendo na verdade um grande romance de aventura, bem fiel ao seu período histórico, quando este gênero foi mais popular.

Ainda assim, Burroughs consegue, nos detalhes de Barsoom, criar uma mitologia bem construída e empolgante, com povos em guerra, animais exóticos e um modo de vida que é claramente uma crítica ao próprio homem, que sempre encontra desculpas para guerrear.

Leitura divertida e agradável, essa primeira aventura de John Carter tem também grande importância histórica para os fãs da ficção, já que as histórias de Barsoom serviram de inspiração para inúmeras outras obras, como o filme Avatar, fato que vem sendo bastante destacado pela editora, e que foi confirmado pelo próprio diretor James Cameron. Assim que lemos as descrições das montarias usadas pelos marcianos verdes, fica clara a influência que o livro teve principalmente na vida animal alienígena apresentada em Avatar.

Mas o impacto de Uma Princesa de Marte na cultura pop vai mais além, incluindo dez outros livros (muitos deles não estrelados por Carter) e adaptações para outras mídias, inclusive o vindouro primeiro filme com atores produzido pela Pixar. John Carter of Mars será lançado nos cinemas em 2012, com Taylor Kitsch (o Gambit de X-Men Origens: Wolverine) no papel de Carter e contando ainda com Willem Dafoe, Lynn Collins, Dominic West, Mark Strong e outros no elenco.

Porém, existe outro filme, Princess of Mars, lançado no ano passado diretamente em DVD, pouco conhecido pelo público em geral. Produção de baixo orçamento, o longa-metragem tem Antonio Sabato Jr. no papel de Carter e a estrela pornô Traci Lords como Dejah Thoris.

Até mesmo o recentemente falecido artista Frank Frazetta se rendeu ao mito de John Carter, produzindo ilustrações usadas nas reedições dos livros. Carter também foi adaptado para os quadrinhos, tendo até encontrado Tarzan em uma minissérie, e aparecendo ainda nas páginas de A Liga Extraordinária. Mas os leitores de quadrinhos prezam o personagem principalmente pela influência que teve na criação do super-herói espacial Adam Strange, obviamente inspirado em Carter, sendo assim como ele um terráqueo transportado para outro planeta, no caso Rann, onde se torna um grande guerreiro e conhece o amor de sua vida.

Fica a torcida para que, depois de quase 100 anos de atraso, possamos acompanhar todas as histórias do planeta Barsoom, um épico que ajudou a definir a ficção científica mundial.
>> HQ MANIACS – por Leonardo Vicente Di Sessa

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