JOSÉ SARAMAGO: ESCRITOR DE FICÇÃO CIENTÍFICA

Causa e Efeito

por Robert Silverberg

tradução de Jorge Candeias
artigo publicado em 24.06.2003

Uma das tentativas mais perspicazes de definir a ficção científica feitas até hoje foi um ensaio intitulado “Social Science Fiction” escrito em 1953 por – quem havia de ser? – Isaac Asimov para o soberbo livro de Reginald Bretnor, Modern Science Fiction. Isaac tinha a dizer o seguinte nessa época:

Suponhamos que estamos em 1880 e que temos um grupo de três escritores interessados em escrever uma história do futuro acerca de um veículo imaginário que se move sem cavalos através de uma qualquer fonte de energia interna; por outras palavras, uma carruagem sem cavalos. Podemos mesmo inventar uma palavra e chamar-lhe automóvel.

O escritor X gasta a maior parte do seu tempo a descrever como trabalharia a máquina, explicando o funcionamento de um motor de combustão interna, pintando em palavras o quadro dos esforços do inventor, o qual, após numerosos falhanços, acaba por criar um modelo bem sucedido. O clímax do enredo é o drama da máquina enquanto vai avançando, aos soluços, à velocidade gigantesca de trinta quilómetros por hora, por entre uma dupla multidão de admiradores ruidosos, possivelmente vencendo um cavalo e charrete que haviam sido desafiados para uma corrida. Isto é ficção científica tecnológica.

O escritor Y inventa o automóvel num instante, mas então aparece um bando de bandidos cruéis com a intenção de roubar a valiosa invenção. Começam por raptar a bela filha do inventor, a qual é ameaçada com todos os horrores menos a violação (nestas histórias de aventuras, as raparigas existem para serem salvas e não têm outros usos). O jovem assistente do inventor lança-se ao salvamento. Só através do uso do recém-inventado automóvel poderá ele alcançar o seu intento. Atira-se para o deserto à inaudita velocidade de trinta quilómetros por hora a fim de recolher a rapariga que teria morrido de sede se ele tivesse confiado num cavalo, por mais rápido e confiável que fosse o seu galope. Isto é ficção científica de aventuras.

O escritor Z já tem o automóvel aperfeiçoado. Existe uma sociedade na qual ele já é um problema. Por causa do automóvel nasceu uma gigantesca indústria petrolífera, foram pavimentadas auto-estradas por toda a nação, a América transformou-se numa terra de viajantes, as cidades estenderam-se até aos subúrbios – e que fazer aos acidentes de viação? Homens, mulheres e crianças são mortos por automóveis mais depressa que pela artilharia ou por bombas lançadas de aviões. Que pode ser feito? Qual a solução? Isto é ficção científica social.

Deixarei ao leitor a decisão sobre qual é o tipo mais maduro e qual (lembre-se de que estamos em 1880) é socialmente mais significativo. Mantenha presente que não é fácil escrever ficção científica social. É fácil prever um automóvel em 1880, mas é muito difícil prever um problema de tráfego. Aquele é apenas uma extrapolação do caminho de ferro. Este é completamente novo e inesperado.

Acabei há pouco tempo de ler um romance espantoso de FC escrito por um escritor cujo trabalho é provavelmente desconhecido para a maioria de vós: o português José Saramago. O romance intitula-se Ensaio Sobre a Cegueira e é um exemplar assombroso da ficção científica social de Asimov: um exame das consequências sociais de um único desvio aterrador da nossa realidade.

Talvez o livro seja na verdade fantasia em vez de ficção científica, uma vez que o ponto de partida de Saramago não é fácil de aceitar ao pé da letra e ele não faz nenhuma tentativa de fornecer uma explicação científica. Limita-se a explaná-lo, solta-o para gerar o enredo e deixa a história seguir o seu curso sem nunca tentar fornecer qualquer tipo de explicação sobre como tal coisa poderia ter ocorrido. Não importa. Mesmo que a situação inicial seja basicamente fantástica, o tratamento que recebe é puramente ciencio-ficcional: o firme e meticuloso exame das consequências – todas elas – de um único e notável afastamento da realidade que conhecemos. Tal como o próprio autor declarou numa entrevista há um par de anos, “Não há muita imaginação noEnsaio Sobre a Cegueira, há apenas a aplicação sistemática das relações de causa e efeito”.

Ele estabelece a sua situação especulativa na primeira página: no meio de um tráfego urbano intenso (a cidade nunca é mencionada; talvez seja Lisboa) o primeiro carro da fila do meio pára no sinal vermelho e permanece parado quando o semáforo muda para verde. Começam a soar buzinas. Condutores saem dos carros para investigar. Algum tipo de colapso? Não. O condutor do carro parado grita “Estou cego, estou cego.” De um momento para o outro perdera a visão. A única coisa que vê é um brilho branco.

“São coisas que acontecem”, diz uma mulher. “Vai passar. Às vezes são nervos”. Um bom samaritano oferece-se para levar o desgraçado para casa, e é o que faz, levando-o para o seu apartamento, próximo dali, e deixando-o lá. (E roubando-lhe o carro quando se vai embora.) O homem percorre o apartamento aos encontrões, em confusão. A mulher chega a casa: ele explica-lhe o seu estado. À pressa, ela folheia a lista telefónica, encontra um oftalmologista, chama um táxi quando descobre que o carro desapareceu, e leva-o para o consultório.

Já lá estão à espera seis ou sete doentes – um velho com cataratas, um rapaz estrábico, uma jovem com conjuntivite e vários outros. Mas o caso do condutor que ficou cego ao volante do seu carro é tão estranho que o médico manda-o entrar de imediato, deixando os outros à espera. Examina os olhos do homem e não encontra nada de organicamente errado. “A sua cegueira neste momento não tem explicação”, diz ao homem. À noite, em casa, conta o caso à mulher e faz uma busca infrutífera nos seus livros.

Pela manhã são relatados vários outros casos do mesmo tipo de cegueira – o brilho branco, não o habitual negrume que a perda de visão traz – por toda a cidade. Começa a parecer que se iniciou uma intrigante epidemia de cegueira.

Chegados aqui, olhemos de novo para as categorias asimovianas. O escritor da ficção científica tecnológica (a escola de FC de Hugo Gernsback) pararia a história depois da situação estar estabelecida para dar uma longa lição sobre a mecânica da visão. O resto do relato mostraria o alastrar contínuo desta inexplicável praga de cegueira e ilustraria a luta, por fim bem-sucedida, de um jovem e brilhante pesquisador médico para encontrar uma cura.

Quanto ao escritor de FC de aventuras (a escola dos Pulpsdos anos 40), dar-nos-ia a saber bastante depressa que a cegueira é o resultado de um feixe que nos é enviado do espaço por um exército de alienígenas invasores. Com a Terra inteira desmoralizada pelo ataque da cegueira instantânea, seria fácil para os monstros do espaço alcançar a sua conquista – não fossem os esforços heróicos de um bando de homens corajosos que por acaso se encontravam numa caverna subterrânea no momento do ataque e que emergem agora, ajudados por escudos contra a cegueira improvisados à pressa, para empreender uma valente guerra de defesa que termina com a completa derrota dos invasores.

Já o escritor de ficção científica social iria examinar com detalhe meticuloso a cadeia de consequências do único acontecimento estranho que põe a história em andamento, olhando para elas com atenção aos efeitos que tal acontecimento teria sobre a sociedade humana.

E é precisamente isto o que faz José Saramago. Porque acontece que as primeiras vítimas da cegueira podem ser todas relacionadas directamente com o primeiro homem, o condutor da hora de ponta. O samaritano que lhe rouba o carro cega. Também cegam o taxista que leva o primeiro cego e a sua mulher ao oftalmologista e a mulher do primeiro cego. Cegam ainda os doentes da sala de espera do oftalmologista, o rapaz estrábico, o homem com o penso no olho e os restantes. O próprio oftalmologista perde a visão. De todos aqueles que têm contacto com o primeiro cego ou o grupo das primeiras vítimas só a mulher do médico, por qualquer razão miraculosa, mantém a visão.

Os responsáveis concluem imediatamente que a cegueira é contagiosa e transmitida por contacto directo. Uma vez que ninguém compreende o que a provoca, essa teoria é tão boa como qualquer uma. Por isso, com base na “segurança pública”, as primeiras vítimas são recolhidas e confinadas, sob vigilância, num hospital psiquiátrico abandonado que acontece estar disponível. Este é o ponto em que Saramago inicia um exame da convergência entre a paranóia e o totalitarismo na civilização moderna. Passo a passo mostra-nos o regresso a um estado de natureza primitiva dentro e fora do campo – o medo da cegueira leva as pessoas, habitualmente civilizadas, a um estado próximo da selvajaria em nome da autodefesa, e só um punhado de líderes inspirados mantém sanidade suficiente para manter juntos alguns farrapos de civilização. E à medida que a cegueira continua a disseminar-se até que a sociedade colapsa por completo, compreendemos que Saramago escreveu não só um romance clássico de fim do mundo mas também uma alegoria sobre as falhas da comunicação humana na vida quotidiana.

É um romance cruel e sem remorso. É-se arrastado de uma situação terrível para a seguinte, todas elas totalmente plausíveisno contexto da situação dada, e descritas num detalhe sem piedade e credível por completo. E quando chega o final – que é mais uma libertação do que um final verdadeiro – fica-se atordoado pelo poder do livro que se acabou de ler.

Mas se o romance é assim tão bom, porque não foi nomeado para o Hugo ou para o Nebula no ano de publicação? Porque estão provavelmente a ouvir falar dele agora pela primeira vez?

Porque José Saramago não é um escritor de ficção científica, é apenas um escritor que se desviou para uma espécie de ficção científica neste romance magnífico. Porém, se bem que não tenha nenhum Hugo ou Nebula que lhe confiram crédito, as suas grandes realizações literárias não ficaram propriamente ignoradas no mundo que há fora dos limites do público leitor de FC. Em Outubro de 1998 – um par de anos após a publicação do Ensaio Sobre a Cegueira– José Saramago recebeu o Prémio Nobel da Literatura.

Publicado no número de Setembro de 2001
da revista norte-americana Asimov’s Science Fiction,
na coluna que Silverberg aí tem,
com o título genérico de 
Reflections.

>> E-NIGMA – por Jorge Candeias

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