FÁBIO FERNANDES: “A CIBERCULTURA É A VERDADEIRA CULTURA CONTEMPORÂNEA”

Fábio Fernandes, professor dos cursos de Tecnologia e Mídias Digitais e Jogos Digitais da PUC SP/ Foto: Pisco Del Gaiso

O universo fantástico da ficção científica povoa a cabeça do pesquisador de cibercultura Fábio Fernandes. Professor dos cursos de Tecnologia e Mídias Digitais e Jogos Digitais da PUC de São Paulo, em entrevista ao Nós da Comunicação o jornalista e tradutor nos explica como o cinema e a literatura do gênero moldaram nossa visão do futuro. “Os ciberpunks foram os primeiros a transmitir melhor esse conceito”, conta. ”A cibercultura realmente é a verdadeira cultura contemporânea”.

Nossa atual dependência da tecnologia é umas das questões levantadas em seu mais recente livro ‘Os dias da Peste’ (Tarja Editorial, 2009). Após assistir ao filme ‘Matrix’ e incomodado com histórias que apresentavam sempre o ser humano sucumbindo ao poderio das máquinas de inteligência artificial, Fábio lançou a discussão em uma história que explora a possibilidade de existir uma máquina real que pudesse adquirir consciência.

Nós da Comunicação – No livro ‘Futuros Imaginários’, o escritor Richard Barbrook citou William Gibson, autor de ‘Neuromancer’: “os projetistas foram populistas, vejam vocês; procuravam dar ao público o que este queria. E o que o público queria era o futuro”. Como a ficção científica na literatura e no cinema moldaram nossa visão do futuro? 
Fábio Fernandes –
 Essa é uma questão importantíssima. Sempre que falamos das visões de futuro relacionadas à ficção científica o imaginário popular remete ao cinema, porque, em comparação com a literatura, é uma mídia de massa. A literatura, pelo preço, não é tão convidativa, sem considerar que no cinema, na eventualidade de um problema de compreensão do idioma, há o aspecto visual. É possível transformar aquilo em uma linguagem de videoclipe ou de game. Isso não acontece com a literatura, que tem que passar pelo crivo da tradução.

Estamos lidando com dois códigos. O do cinema geralmente apresenta um futuro extremamente expandido visualmente. É exagerado, porque não se consegue atrair a atenção do espectador se não mostrar um carro voador como em ‘Blade Runner’ ou um veículo magnético, como em ‘Minority Report’, por exemplo. A literatura, por sua vez, pode ficar no âmbito do pequeno. O próprio Willian Gibson, em ‘Neuromancer’, mistura cenas que se passam a bordo de uma estação espacial e cenas que falam de implantes nanoscópicos.

A ficção científica, no cinema e na literatura, moldou nossa visão de futuro criando a cibercultura como conhecemos. De modo geral, a ficção científica nunca se propôs a ser profética. No máximo, um autor ou outro, como Arthur C.Clarke, de ‘2001 – Uma odisseia no espaço’, criador do conceito do satélite geoestacionário, que nos permite assistir em todo o mundo os jogos da Copa. Mas esse é um caso isolado.

E qual foi a contribuição dos ciberpunks?
Mais recentemente, William Gibson, Bruce Sterling e todo o pessoal do movimento ciberpunk, exploraram o universo das grandes corporações, do terceiro mundo se rebelando a sua maneira ao sucatear tecnologia, pegar informação sonegada e reaproveitar na ‘pirataria’. Os ciberpunks foram os primeiros a transmitir melhor esse conceito. Isso já existia na década de 70, mas era muito pouco disseminado sendo restrito a uma cultura geek. Os ciberpunks ajudaram a colocar isso na moda. Escrevi um livro – ‘A construção do imaginário Cyber’ (Ed. Anhembi Morumbi, 2006) – sobre a obra de Gibson, que expõe justamente essa questão, a de que graças a ele temos a cibercultura no formato que entendemos hoje. O conceito de uma matriz de dados, que já existia por alto, é mais integrado em seu livro ‘Neuromancer’. O compartilhamento de dados, a cultura hacker – menos como a de cowboys fora da lei, e mais como alguém que pode ser do bem ao se rebelar contra uma corporação – que só quer lucrar e não disponibiliza a informação que eu preciso, parte muito do Gibson e de seu grupo.

Por que nosso presente não é como imaginávamos o futuro no passado? Por que nossa vida não é tão animada e divertida com a da família Jetson e nem tão sombria quanto a Los Angeles de Blade Runner? 
O futuro no estilo Jetsons não veio e talvez não virá porque não foi feito para ser sério, mas criado como uma brincadeira que explora a possibilidade visual que atrai o olhar do espectador. Blade Runner, por exemplo, provocou um impacto tão grande, inclusive nos escritores de ficção científica, porque talvez tenha sido a primeira obra, em anos no cinema, que não apresenta ao espectador um futuro antisséptico, no qual tudo dá certo. No filme, há os replicantes, figuras interessantíssimas, iguais aos humanos, que fazem praticamente o trabalho escravo e que, de repente descobrimos que adquirem consciência, querem status de humanidade e se revoltam. É, de certa forma, uma sociedade fascista, um apartheid.

Um pouco como no filme ‘Distrito 9’?  
Gostei muito desse filme porque retrata isso nos dias de hoje. Cada vez mais são usadas situações semelhantes em que a questão é sempre o outro, não como uma força de coesão, mas com uma tendência sempre negativa: o alienígena que vai nos destruir. No caso de ‘Distrito 9’ é interessante porque os alienígenas retratados estão perdidos na Terra e viraram imigrantes ilegais. Nessa ironia do destino, nós os repelimos porque não são parecidos conosco, são insetos, feios, repulsivos. Vários artigos e ensaios sobre isso já compararam o tratamento dado aos escravizados na África e aos nativos americanos.

Por que, às vezes, temos a impressão de que o futuro na ficção científica é mais militarizado? Foi um cenário inspirado nas tensões da Guerra Fria? 
Há dois motivos básicos. Tem a ver com a Guerra Fria, um reflexo direto de George Orwell, que ao publicar ‘1984’ em 1949, já escreveu vendo o fim da Segunda Guerra Mundial e o totalitarismo stalinista. Outro aspecto que as pessoas falam pouco é uma certa cultura de RPG (role-playing game) que tende a dividir tudo em bloquinhos. Já tinha a bipolarização do mundo, mas que continuou muito existente no cinema. O escritor Nick Mamatas escreveu um artigo sobre o filme ‘Avatar’ dizendo que, em termos de narrativa, está 50 anos atrasado em relação à literatura de ficção científica nos Estados Unidos. Concordo com ele. Os filmes que passam hoje são adaptações de obras do Philip K. Dick, que já morreu há 30 anos.

Há exceções honrosas de filmes que pregam a premissa ciberpunk mais recente como o filme ‘Código 46’, que mostra a divisão entre muito pobres e muito ricos, o uso da tecnologia cibernética por meio de implantes ou vírus e manipulação genética. É um filme excelente, com roteiro original de Michael Winterbottom, mas poderia ter sido escrito por um autor ciberpunk da década de 80 para 90.

Por exemplo, o filme ‘Eu sou a lenda’ é baseado em um romance do Richard Matheson, um dos criadores da série ‘Além da imaginação’. A adaptação está péssima, a história original é bem melhor do que o filme do Will Smith. Nessas histórias de literatura existem mais a questão da polarização, a presença de exércitos. Ou você está de um lado ou de outro, você veste um uniforme ou o outro. Na literatura, as coisas são menos branco e preto, tudo está em tons de cinza. Nesse ponto, ela tem muito a nos ensinar e lamento que, no Brasil, a gente sofra de muito atraso nas traduções. Só nos Estados Unidos são publicados cerca de 300 títulos de ficção científica por ano.

O livro ‘Pós-Humanismo: as relações entre o humano e a técnica na época das redes’, organizado por Massimo Di Felice e Mario Pireddu, acaba de ser lançado. Como você vê a questão do pós-humano?
O pós-humano na ficção científica é uma questão que está sendo discutida há algum tempo. O livro, ‘A construção do imaginário ciborgue’, produto do meu doutorado, trata disso. O ciborgue é aquele ser misto homem-máquina; mas o pós-humano não é necessariamente isso. A gente já advoga que o pós-humano já está entre nós, em termos de geração. Quem hoje tem menos de 20 anos tem uma capacidade cognitiva muito maior. São pessoas que cresceram com internet e games e possuem um aparato cognitivo maior. A ficção científica estuda isso há mais tempo, mas na base da especulação. Estou trabalhando agora em um estudo que propõe o uso da ficção científica como um manual de instruções para o futuro. Nele, analiso a obra de John Scalzi, cuja trilogia tem como personagens principais humanos do século 22 que, em determinado momento da vida, sofrem um processo de rejuvenescimento e viram mais que humanos.

A cibercultura é a nossa verdadeira cultura contemporânea? Ou isso é apenas uma ideia supervalorizada de quem trabalha e vive mais intimamente com questões relacionadas ao ambiente digital?
Sim. A cibercultura realmente é a nossa verdadeira cultura contemporânea e quem postulou isso há mais de dez anos foi o filósofo Pierre Lévy. Em 1994 já era verdade e agora mais do que nunca. A palavra cibercultura, entretanto, serve a dois propósitos: o acadêmico e o mercadológico. Nesse momento, durante a Copa do Mundo, estamos acompanhando uma transmissão via satélite feita por uma mídia que produz material em alta definição, em alguns casos experimenta equipamento em 3D. No mundo todo, pessoas vão assistir aos jogos via web. Um colega seu, que não se sinta inserido na cibercultura, pois não tem Twitter e nem Facebook, por exemplo, tem acesso a um celular, que no mínimo, envia SMS, ou um blackberry, porque ele precisa receber e-mails a toda hora ou corre o risco de perder um caso importante. Ele está imerso na cultura digital quer queira quer não. Talvez ele não seja como eu, que não desligo o celular nem na hora de dormir, mas está inserido.

Mas você não chega ao ponto de estar numa festa, a música rolando, todo mundo dançando e você mandando mensagem pelo seu iPhone para o Twitter, não é? 
Não. Prefiro nem ir à festa (risos). Estou brincando, mas faço isso sim, é normal. Virou moda também você se exibir para seus amigos, assim como tuitar com um amigo mais famoso lhe confere certa reputação. Nesses casos, o pessoal retuita adoidado. Vivemos na cultura digital porque ela nos permeia com seus artefatos o tempo todo. No mundo inteiro vivemos várias culturas ao mesmo tempo. Se eu falo para você que a cultura do momento é a digital, não é apenas uma questão de moda. Vivemos em um planeta em que, de modo geral, nas grandes cidades, há redes de cobertura de celulares e internet. As lan houses nas periferias, por exemplo, são mais um pedaço da cultura digital. Essas pessoas estão totalmente imersas nessa cultura? Talvez não como eu e você, mas as iniciativas de inclusão digital já existem no Brasil há quase 15 anos e estão cada vez mais fortes. É uma rede ainda cheia de buracos, mas é grande.
>> NOS DA COMUNICAÇÃO – por Christina Lima

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