“OS TRÊS ESTIGMAS DE PALMER ELDRITCH”, DE PHILIP K. DICK

A Editora Aleph continua a publicar os livros de Philip K. Dick (1928-1982), um dos melhores e mais intrigantes escritores de ficção científica de todos os tempos.

No geral, um livro de PKD já é garantia de diversão. No caso de Os Três Estigmas de Palmer Eldritch, a diversão é ainda maior, uma vez que se trata de um dos melhores livros do autor, lidando com seus temas preferidos: as múltiplas realidades e a percepção que temos delas, a possibilidade da perda da identidade, e a religião. Para não falar das drogas como indutores de estados de consciência alterados, e que são parte central do enredo.

A história situa-se num futuro indeterminado no qual a Terra está sofrendo com o calor e a constante diminuição das calotas polares. Muitos viajam para as colônias extraterrestres, nas quais as condições de vida são péssimas. Para amenizar a situação, os colonos recebem uma droga, ilegal, chamada Can-D (provavelmente para lembrar a palavra candy, doce), com a qual supostamente são capazes de entrar em contato espiritual uns com os outros; acredita-se que os espíritos daqueles que usam a droga em conjunto se fundem, transformando-se em uma nova unidade. Também recebem as miniaturas Perky Pat, reproduções do mundo e da vida na Terra. Tanto a droga quanto as miniaturas são distribuidas pelo industrial Leo Bulero.

Palmer Eldritch e um industrial interplanetário que, no momento em que a história se inicia, tinha passado 10 anos distante, a convite de alienígenas, e que acaba de voltar ao sistema solar. E Eldritch vai revolucionar os eventos entre os humanos ao trazer uma nova droga para os colonos, a Chew-Z – e aqui o nome certamente é para lembrar choose, escolha, uma vez que mais à frente na história existe uma referência à passagem bíblica da maçã, que igualmente representa uma escolha, uma opção.

A Chew-Z é muito mais poderosa e tem efeitos estranhíssimos: por exemplo, diz-se que é possível tomar a droga e passar 50 anos no mundo que ela cria para o usuário, e retornar ao “mundo real” sem que se tenha passado sequer um segundo. E nesse outro mundo, o usuário pode criar o ambiente que bem desejar.

A droga é fundamental para introduzir na história a noção característica das obras de PKD, que é a dificuldade em se estabelecer o que é real e o que é irreal. Para o autor, o mundo é composto por camadas superpostas de realidades, e todas elas podem ser tão “reais” quanto aquela em que estamos vivendo, desde que saibamos como acessá-las.

Os elementos religiosos surgem na forma de uma raça alienígena desejando perpetuar-se na forma de um deus, oferecendo-se aos humanos.

E tudo isso em cenários fantásticos, com detalhes impressionantes e criativos do dia a dia das pessoas. Como em Ubik, um de seus livros mais conhecidos, existem “consultores precognitivos”, que oferecem informações sobre o possível futuro; existe uma espécie de psiquiatra portátil, que um dos personagens sempre carrega consigo na forma de uma pasta, o dr. Smile, uma vez que precisa ser reprovado num exame mental para não ter de prestar serviço militar. Esse psiquiatra tem a função de tornar seu paciente neurótico, e não de curá-lo.

O enredo forma um gigantesco enigma em que realidade e irrealidade, vigília e sonho, se misturam de tal forma que se torna quase impossível aos personagens saberem ao certo o que está acontecendo com eles. Como ocorreria com maior complexidade em seus livros A Invasão Divina e Valis, é preciso entrar de cabeça no labirinto de opções apresentadas, e se deixar levar, até um final que, mais do que resolver os enigmas elaborados até então, propõe uma série de novas escolhas, aos personagens e aos leitores.

Um livro maravilhoso e indispensável para quem gosta do que a ficção científica tem a oferecer de melhor e mais elaborado.
>> VIMANA – por Gilberto Schoereder

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