WILL EISNER: JORNALISTA DESCOBRE DOCUMENTOS POLÊMICOS

O jornalista e historiador de quadrinhos Ken Quattro descobriu documentos polêmicos referentes ao depoimento de Will Eisner no processo da DC Comics contra a Fox Comics, em abril de 1939.

Quattro é um grande admirador de Eisner e escreveu diversos artigos sobre a carreira do artista e a chamada Era de Ouro, as duas primeiras décadas dos super-heróis.

Um dos episódios mais interessantes do início da carreira de Eisner é a participação do artista como testemunha de defesa no processo envolvendo a Detective Comics, Inc.(hoje DC Comics) contra as empresas de Victor S. Fox, aBruns Publications, Inc. (da qual a Fox Comics fazia parte),Kable News Company e Interborough News Co.

Durante anos, Quattro tentou localizar a transcrição do processo para saber exatamente o que ocorreu naquele episódio. Ele buscou colegas em Nova York e incomodou advogados até esgotar seus recursos, sem sucesso.

Recentemente, um leitor de seu artigo Rare Eisner: Making of a Genius escreveu a ele um e-mail dizendo que possuía uma cópia da transcrição e podia lhe oferecer o arquivo em PDF. Essa pessoa preferiu ficar anônima. Quattro não discute a veracidade dos documentos disponibilizados, que parecem ser legítimos.

Os documentos relatam uma história bastante diferente da versão que foi popularizada por Will Eisner.

Antes de examinar a transcrição do processo, é preciso explicar a versão conhecida dos fatos e alguns dos personagens envolvidos.

Em 1939, a Detective Comics, Inc., de Jack S. Liebowitz e Harry Donenfeld, processou a editora de Victor S. Fox (algumas vezes referido pelos historiadores como Victor A. Fox), Bruns Publications (as revistas eram publicadas como sendo da Fox Comics), com a acusação de que haviam plagiado o Super-Homem.

Homem de Aço foi publicado pela primeira vez em abril de 1938 (de acordo com a data de todos os processos envolvendo o personagem, e não em junho de 1938, como afirmam muitas fontes), na revista Action Comics #1, da editora Detective Comics.

Por volta de fevereiro de 1939, a Fox publicou o personagem Wonderman, na revista Wonder Comics #1 (que traz a data de capa de junho de 1939).

As similaridades entre os personagens eram enormes, tanto no desenho quanto no enredo e até mesmo nos diálogos e recordatórios.

O estúdio de Jerry Iger e Will Eisner (Eisner-Iger Studio) foi contratado pela Fox para desenvolver o conteúdo da revista. Por essa razão, Eisner estava entre as testemunhas de defesa que participaram do processo.

A biografia de Victor Fox é uma grande lacuna. Muito do que se sabe sobre ele não pode ser verificado em documentos, e se baseia em relatos de seus contemporâneos. Quase todos eles possuem péssimas lembranças do editor.

Fox era um pilantra. Em 27 de novembro de 1929, antes de começar a trabalhar com quadrinhos, ele foi indiciado em Nova York, num esquema de fraude do correio envolvendo a venda de ações. Posteriormente, Fox foi preso e libertado sob fiança de 7.300 dólares.

Apesar do passado criminoso, Fox conseguiu um emprego de contador na Detective Comics e, ao verificar o sucesso dos quadrinhos e o volume de dinheiro envolvido, resolveu montar sua própria editora. Alugou um escritório no mesmo edifício e contratou freelancers e estúdios (como o de Will Eisner) para escrever e desenhar suas revistas.

DC Comics venceu o processo de plágio e Wonderman entrou para a história apenas devido a esse fato.

Até a revelação de Quattro, que será descrita mais abaixo, a única versão conhecida dos fatos era a história popularizada por Will Eisner.

Segundo Eisner, durante o processo ele foi instruído por seu sócio Jerry Iger e por Victor Fox, o maior cliente do estúdio, para mentir sobre a criação de Wonderman. Para não cometer perjúrio, Eisner revelou durante o processo que fora instruído por Iger, a pedido de Fox, para copiar Superman e dar outro nome ao personagem.

Com isso, a defesa de Fox foi destruída e sua companhia perdeu o processo. Em retaliação, Fox teria se negado a pagar mais de três mil dólares que devia ao estúdio de Eisner. Esta versão dos fatos foi contada e repetida diversas vezes ao longo das últimas décadas, por historiadores e jornalistas, sem ser contestada.

Eisner narrou essa versão a John Benson numa entrevista publicada em 1979 no fanzine Panels. Ele afirmou que se manteve firme a seus princípios e contou a verdade sobre o plágio para o juiz.

Anos depois, Eisner repetiu a história, dessa vez com mais detalhes, para Bob Andelman, que relatou tudo na biografia Will Eisner: A Spirited Life, lançada após a morte do artista, no dia 3 de janeiro de 2005.

Nessa versão, Iger teria pedido a Eisner que ele mentisse, dizendo que criou o personagem sem se basear no Super-Homem. Eisner negou-se afirmando que Fox tinha enviado uma carta descrevendo em detalhes o que ele queria no personagem e que era uma cópia óbvia do herói da Detective Comics. Durante seu testemunho, Eisner conta a verdade.

Esses fatos estão narrados nas páginas 44 e 45 da biografia Will Eisner: A Spirited Life.

Eisner também relatou essa versão, embora de maneira levemente disfarçada, em The Dreamer. Nela, Eisner é Eyron, Fox é Reynard (é um trocadilho, pois a palavra inglesa para raposa é fox e em francês é renard) e Heroman é o herói Wonderman.

A transcrição obtida por Quattro traz uma versão bastante diferente desses fatos. O caso foi apresentado ao juiz distrital de Nova York, John M. Woolsey, entre 6 e 7 de abril de 1939.

Quattro disponibilizou em seu site 27 páginas do processo e prometeu que continuará a postar as páginas e outros detalhes em breve.

Outras testemunhas do processo, além de Eisner, incluem Jerry Siegel, Max Gaines, Sheldon Mayer, Jerry Iger, Harry Donenfeld, Jack Liebowitz e Victor Fox. Ken Quattro ainda não disponibilizou as páginas com esses depoimentos.

Nas páginas divulgadas, William Eisner é a testemunha de defesa, interpelado tanto pelo advogado Asher Blum, representando Victor Fox e a Bruns Publications, quanto por Horace Manges, advogado da Detective Comics.

Nas páginas apresentadas da transcrição, Will Eisner afirma diversas vezes, de maneira inequívoca, que criou o personagem sem ter sido influenciado pelo Super-Homem, meses antes do lançamento de Action Comics #1. Eisner afirma que não leu a revista Action Comics #1na época de sua publicação, em 1938, mas que o fez muitos meses depois, e que criou o visual de Wonderman em 1938.

Interpelado se Fox o havia instruído na criação de Wonderman, Eisner responde: “Não, fui eu mesmo que o imaginei”.

O Eisner presente nas páginas transcritas não é o garoto idealista da versão conhecida desse episódio.

Quattro menciona um outro aspecto interessante sobre o episódio. Embora tenha negado seu conhecimento do personagem na transcrição, Will Eisner foi um dos editores para os quais Jerry Siegel e Joe Shuster enviaram a proposta do Super-Homem, antes de o personagem ser aceito pela Detective Comics. O próprio Eisner afirmou isso algumas vezes e o fato está registrado em sua biografia (Will Eisner – A Spirited Life).

Alguns outros fatos são dignos de nota. O advogado de defesa, Asher Blum, tenta sugerir que o Fantasma, personagem de Lee Falk, teria sido uma das inspirações de Wonderman.

Já Horace Manges tenta desacreditar o testemunho de Eisner. Num momento mais dramático, Manges aponta uma lacuna no depoimento escrito do artista, referente à ausência da data na qual ele teria criado Wonderman, tentando forçar Eisner a cair em contradição.

Durante o testemunho, Eisner afirma que criou Wonderman em 1938. Manges pede para que Eisner leia seu depoimento escrito, datado de março de 1939, e aponte o trecho no qual ele afirma isso. Depois de olhar o documento, Eisner explica que o fato não consta do depoimento. O advogado contra-argumenta que a ausência não é uma omissão de Eisner, mas de quem o interpelou durante seu depoimento escrito.

O juiz também é uma figura curiosa. Woolsey aparenta estar tentando abreviar o processo. Em determinados momentos, ele parece estar decidido de que se trata de plágio, que o alongamento do processo é uma perda de tempo e diversas vezes ele freia a argumentação de ambos os advogados.

Woolsey chega até mesmo a dizer a Blum que, independentemente do testemunho de Eisner, o advogado não conseguirá refutar a acusação de plágio, pois uma publicação, no caso Action Comics #1, foi lançada quase um ano antes da outra (Wonder Comics #1).

Sem dúvida, esse é um documento que joga uma luz sobre um momento obscuro da Era de Ouro. A polêmica sobre a participação de Eisner nesse episódio ainda será muito debatida por leitores e historiadores.

As 27 páginas (em inglês) podem ser vistas aqui, no site de Quattro.
>> UNIVERSO HQ – por Sérgio Codespoti

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