SARAMAGO E O FANTÁSTICO

Não sei se alguém estará celebrando José Saramago como o grande escritor de literatura fantástica que foi.  Seu livro mais conhecido, o “Memorial do Convento” (1982), é uma história gótico-alucinatória que envolve visões paranormais e uma máquina voadora, a Passarola de que ouvimos falar nos livros de História.  É um romance “mainstream” que flerta com a fantasia e com a proto-ficção científica, e uma referência obrigatória para qualquer estudo sobre Fantasia Ibérica.

“História do Cerco de Lisboa” (1989) é uma experiência de História Alternativa: o que seria o mundo se determinado acontecimento histórico tivesse ocorrido de modo diferente do que de fato se deu?  No livro de Saramago, isso acontece de maneira ainda mais fantástica, pois basta um revisor de provas tipográficas inserir a palavra “não” num texto, fazendo com que os Cruzados não ajudem os cristãos portugueses a retomar Lisboa, invadida pelos muçulmanos.  Saramago reconta em tom de crônica história o que teria ocorrido nesse universo paralelo ao nosso.

Em “A Jangada de Pedra” (1986) a Península Ibérica desprega-se do continente europeu e sai à deriva pelo Oceano Atlântico, carregando seus milhões de habitantes, suas culturas e civilizações.  É uma alegoria política (o viés político é um dos mais fortes na obra de Saramago) mas são notáveis a ousadia imaginativa e o modo rigoroso como ele extrapola as consequências da idéia inicial.  Isso para não falar no “Ensaio Sobre a Cegueira” (1995), uma fábula apocalíptica em que toda (quase toda) a humanidade perde a visão, fazendo desmoronar a civilização.  Uma idéia que a ficção científica já explorou de variadas formas, desde “O Dia das Trífides” (1951) de John Wyndham até “A Escuridão” (1963) de André Carneiro.

A alegoria também está presente em “As Intermitências da Morte” (2005), que tem um ponto de partida semelhante ao de “A Desintegração da Morte” do brasileiro Orígenes Lessa (1948): o que aconteceria ao mundo se de repente ninguém mais morresse?  A narrativa de Saramago se inicia no dia 1o. de janeiro, o que nos lembra a descrição da Morte feita por outro brasileiro, Augusto dos Anjos: “Faminta e atra mulher que, a 1 de janeiro / sai para assassinar o mundo inteiro / e o mundo inteiro não lhe mata a fome!”.

Não duvido que na vasta obra de Saramago existam vários outros textos que poderiam ser considerados de natureza fantástica.  Mas acho que estes exemplos bastam para mostrar que o recurso à mecânica do fantástico era algo natural no modo de pensar do escritor. Não era tentativa de imitar alguém, exorcizar uma influência, seguir uma moda.  Mas duvido que algum crítico literário, indagado sobre os grandes nomes da literatura fantástica em língua portuguesa, lembrasse espontaneamente do seu nome.  É uma dessas obras em que há uma face iluminada (o Realismo) e uma face oculta (o Fantástico).  Algo que está ali mas ninguém vê, porque não foi ensinado a ver especificamente aquilo.
>> MUNDO FANTASMO – por Braulio Tavares

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