“YESHUAH – ASSIM EM CIMA ASSIM EMBAIXO”: A ÚLTIMA TENTAÇÃO

HQ que fala em gravidez de Maria, na gestação de Jesus e em sua subida aos céus levanta controvérsia em torno da leitura humanizada do mito

A gravidez secreta de Maria, o parto de Jesus, o batismo pelas mãos de João Batista, o massacre dos recém-nascidos por Herodes, as tentações: com uma ousada versão da vida de Cristo, o cartunista paulista Laudo Ferreira está “papando” os principais prêmios dos quadrinhos nacionais. Depois do Prêmio Ângelo Agostini, ele acaba de ser indicado nas categorias melhor desenhista, melhor roteirista e edição especial no prêmio HQ Mix, o mais importante da América do Sul.  

   

Yeshuah – Assim em Cima Assim Embaixo (Devir Livraria, 156 pág., R$ 23) é um projeto de 450 páginas que já consumiu 10 anos de estudos e tem três volumes (o segundo volume, O Círculo Interno, o Círculo Externo, sai em agosto). A primeira edição, com 2 mil exemplares, vende como água no deserto. Não sem polêmica: religiosos questionam o autor, que se baseou nos Evangelhos, textos apócrifos e na versão do cineasta italiano Pier Paolo Pasolini.

Por que resolveu contar a história de Jesus em quadrinhos?
Sou muito interessado em questões espirituais e também na relação do ser humano com as religiões. A história canônica de Jesus me é interessante, toda sua mitologia, digamos assim, e aí pensei em fazer algo sem reverências, sem ajoelhar e rezar, e, por outro lado, sem querer chutar o pau da barraca, sem satirizar, pois isso já foi feito à exaustão. Particularmente não acho que se criem mais polêmicas com Jesus, pois acredito que toda forma possível já foi explorada. Recentemente fizeram algo na Playboy com Jesus e umas coelhinhas, algo assim. (leia na página D4). Parti da ideia de contar uma grande aventura espiritual, a grande aventura do ser humano e o desenvolvimento de seu Deus interior, como lida com isso, como as pessoas à sua volta lidam com isso. Tirar o Jesus “sofrido” do altar e trazê-lo mais próximo, sem se preocupar se ele é isso ou aquilo.

Você trata da dúvida da traição na concepção de Jesus por Maria. Não teme os extremistas?
Quando escrevi o roteiro, optei em contar a versão canônica da concepção, ou seja, Maria concebe Jesus “virgem”. Algumas pessoas próximas, como minha própria esposa, por exemplo, questionou isso. Não era minha intenção criar outra interpretação e sim recontá-la. Como uma menina de seus 13, 14 anos lida com tudo isso? Um homem misterioso surge do nada e lhe conta coisas. Por outro lado, como sua família e seu noivo, um homem maduro, vão lidar com isso? É uma questão de, até mesmo, testar as crenças.

Ouvi que religiosos têm protestado. É verdade?
Olha, alguns evangélicos que conversaram comigo durante esse tempo aprovaram essa primeira parte e isso para mim foi de certa forma uma surpresa e uma satisfação. Não que estivesse preocupado com retaliações. Por outro lado, cheguei a ver alguns sites e blogs religiosos que desceram a lenha simplesmente por lerem alguns outros depoimentos meus. “Ele não acredita num Jesus salvador”, diziam. Não mesmo. A coisa depende da gente, ou seremos eternamente dependentes de um “papai do céu” e assim ninguém “desmama”. O próprio Jesus, tanto em textos canônicos como nos apócrifos, prega isso. Na questão da Maria, ou Miriam, houve algumas pessoas que chegaram a procurar meus endereços virtuais na net para encaminharem e-mails, dizendo-se ultrajadas pela visão que eu dei da Maria. Há uma mensagem em especial, que cheguei a responder, explicando que Maria era a heroína desse primeiro volume, e que, pelo contrário, eu não desrespeitava sua história canônica e sim reiterava, ao mostrar todo o processo, o caminho do herói pelo qual ela passa para entender tudo o que estava acontecendo consigo. Bem, não tive resposta…

A opção pelo Jesus “carnal”, segundo você, tem origem também no filme de Pasolini (O Evangelho Segundo Matheus). Por que Pasolini, logo um dos maiores críticos da leitura católica tradicional?
Sou tremendo fã desse cineasta. A forma como ele mostra as pessoas em seus filmes e em particular no Evangelho Segundo São Matheus me ajudou muito a conceber a cara desse quadrinho. Pesquisei, e muito, também a origem desse rosto que temos até hoje de Jesus e é algo que está enraizado em nós, mesmo nos que não acreditam. Queria, de alguma forma, fazer algo um pouco distante, menos “santo”, menos bonito, aí me lembrei desse filme do Pasolini que havia visto há anos. Embora não tenha criado o rosto do meu Jesus totalmente em cima do filme, a ideia veio de lá.

Qual é sua visão da religiosidade cristã?
Entendo, e acredito, em toda essa comoção que a religião causa nas pessoas, principalmente nas mais necessitadas. Porém, acredito que é fundamental se libertar de dogmas, de imposições, de “Deus disse isso”, “Jesus quer isso”. Vivemos eternamente na obrigação do dever, e não acredito nesse tipo de leitura de qualquer religião. O tal religare não é isso. Ao contrário do que possa parecer, quanto mais estudei nesses anos todos, inclusive me aprofundando em coisas como xamanismo e budismo, mais passei a compreender como tudo vem de dentro de você, do seu Deus interior, se você não mudar sua percepção das coisas não adianta só rezar para Ele nos ajudar. Tornei-me mais espiritualizado e mais ateu em relação às coisas que estão por aí.

Sua história mostra grandes cenas de epifania, visões quase lisérgicas, como nos batismos de João Batista. Essa é uma vertente que você escolheu deliberadamente? Por quê?
Sim. A concepção é muito mais interna e menos teatral, então foi a forma que achei que melhor transmitiria isso. Não carece de uma pomba descer dos céus e uma voz anunciar “Esse é meu filho amado e tal…”. É um “religar” que Jesus tem naquele momento, e que é tremendamente profundo e é seu.

É um quadrinho de grande fôlego. Qual era o projeto original?
Quando eu comecei a trabalhar nessa HQ, em 2000, a ideia era uma única parte, algo por volta de 400 a 450 páginas, pois pensei em contar a história linearmente, sequenciada, com personagens mais estudados e com perfis. Na ocasião era inviável editorialmente falar ou pensar num livro em quadrinhos com tanta página assim. Bem diferente do que vemos atualmente em trabalhos como Retalhos e Cachalote. Mas, enfim, acho que ficou mais interessante contar toda essa história em três volumes. O pesado das pesquisas basicamente foi de 2000 até 2005. Há algumas coisas pendentes ainda para ler que reservei para a terceira parte, que estou produzindo atualmente, e que não tem relação com a parte final.
>> O ESTADO DE SÃO PAULO – por Jotabê Medeiros

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