OS MELHORES CONTOS BRASILEIROS DE FICÇÃO CIENTÍFICA – VOLUME 2

Se formos bem fundo nas raízes da construção ficcional, a imaginação  está longe de ser um atributo da razão. E se pensarmos na construção da literatura fantástica ou nas figuras que perfazem a literatura de ficção científica, as histórias são repletas de mundos fora de cogitação que surpreende a crença e evita qualquer tipo de realismo. Os personagens, aqui, não tem vida corriqueira, são assombrados por obsessões, delírios e estão sempre à mercê de forças incontroláveis, assediados pelo desconhecido e de encontro marcado com o inovador.

Na virada do último século para nossa era assistimos o crescimento do monstro e a proximidade dos múndos possíveis. Como se as narrativas fantásticas saíssem dos livros e das telas de cinema, materializando em nossos laboratórios o preconizado pela imaginação. Como os ratos com orelhas humanas, o computador enxadrista Deep Blue, o cyberman e porque não dizer o ciberespaço e a realidade virtual. Esses seres e mundos híbridos, frutos das tecnologias de informação e da comunicação mediada por computador, indicam a perda de nitidez nas fronteiras modernas entre orgânico/maquínico, natural/artificial, físico/não-físico, corpo/mente, factual/ficcional produzindo eixos de problematização entre as relações humanas e os conceitos técnicos.

O humano, no contemporâneo passa a ser entendido como um ser em continuidade com  os animais e as máquinas. O ciborgue,  figura hibridizada entre o homem e a máquina, habitante de dois mundos se configura enquanto o ponto de intersecção entre realidade e ficção. Justamente sobre esse entremeio que trata Os Melhores Contos Brasileiros de Ficção Científica (Devir, 187 pp., R$ 22), editados, reunidos e comentados por Roberto de Souza Causo. Na seleta, que inclui nomes consagrados da literatura brasileira como Lima Barreto, Lygia Fagundes Telles, Berilo Neves, Machado de Assis, entre outros.

Na seleta estão mais de cem anos de ficção científica feita por brasileiros. O que demonstra a forte presença do gênero na construção do imaginário brasileiro e na história literária nacional.  As histórias são variadas e possuem uma atmosfera que dá conta da diversidade temática que o próprio gênero pode chegar.

Apesar da diversidade que marca a antologia, o medo da guerra atômica e do pós-holocausto são o principal eixo temático dos textos, em sua maioria, escritos na década de 60, no período que foi o auge da Guerra Fria. A ficção científica espacial também está presente, assim como histórias de contatos com alienígenas. Os dois volumes, lançados com dois anos de hiato refletem que nossa literatura é, antes de tudo, um mix de referências que precisa, a todo instante ser revisitado para ser amplamente reconhecido.

Entre os maiores acertos estão: “A Vingança de Mendelejeff” (Berilo Neves), com uma história simples, mas competente de um típico cientista louco; a excelente “O Homem que Hipnotizava” (André Carneiro), criativa história sob os efeitos da auto-hipnose; “Seminário dos Ratos” (Lygia Fagundes Telles), ótima metáfora sobre a ditadura militar e suas idiossincrassias e “O Controlador” (Leonardo Nahoum), que nos explica as dificuldades que um semideus pode viver e encerra muito bem a coletânea.
>> REVISTA O GRITO! – por Fernando de Albuquerque

Anúncios

Comentários encerrados.

%d blogueiros gostam disto: