“CAPRICA” E CARETAS

Caprica é derivada da bem-sucedida série Battlestar Galáctica, por sua vez remake expandido da nostálgica série de TV com mesmo nome, lançada nos anos 1980 e ainda em exibição em canais como o TCM. Trata-se de um prequel: Caprica inicia 58 anos antes dos eventos de Battlestar Galáctica, e procura explicar o porquê do famigerado confronto entre humanos e cylons nos confins do espaço sideral.

No universo ficcional da série, a humanidade habita planetas espalhados pelo espaço. Um deles, de nome Caprica, parece uma parábola dos EUA contemporâneo. Nesse planeta, jovens de uma sociedade super high tech, altamente consumista e plena de bens materiais, entregam-se a orgias e ultraviolência em ambientes de realidade virtual. Intrigas políticas pontuam o cenário de “prosperidade decadente” do planeta Caprica, onde a religião é politeísta, inspirada na mitologia grega. O tema do racismo vem embutido na figura dos Tauron, povo de outro planeta que vive à margem da sociedade capricana. Tal referência aos chicanos nos EUA começa no casting: o tauron mais importante nesse longa-metragem piloto, Joseph Adama, é representado pelo ator Esai Morales. Sua contraparte é o supercientista W.A.S.P. Daniel Graystone (Eric Stoltz), mistura de Craig Venture e Steve Jobs, responsável pela sofisticada tecnologia cibernética apresentada no filme. A propósito, vale observar que o design da tecnologia de Caprica, embora absorva uma determinada iconografia contemporânea, cita notadamente o design de produção da série Battlestar Galáctica original dos anos 1980, como é de se esperar em produtos dessa natureza.

O Dr. Daniel Graystone é o pai de Zoe, talvez a estrela principal do núcleo de protagonistas da série – e certamente a pivô de tudo o que vem pela frente. Gênio da computação e típica adolescente em crise, Zoe desenvolveu uma réplica virtual de si mesma, aparentemente perfeita, que vive no universo do V-club – a boate virtual na qual os jovens de Caprica praticam sexo desregrado, extravasam a agressividade e emulam sacrifícios humanos. Nesse panorama, uma dissidência vem ganhando força entre os jovens desapontados com o hedonismo extremado e o culto politeísta da sociedade capricana. Zoe, sua amiga e seu namorado começam a se envolver com essa “nova onda”. Após um desentendimento com sua mãe, Zoe e o namorado resolvem deixar Caprica. No trem a caminho de Geminon, o namorado de Zoe se revela um homem-bomba. Em nome de “um só Deus” e numa ridícula (porque óbvia demais) citação dos atentados da Al Qaeda em Londres, o garoto explode o trem sacrificando Zoe e mais um monte de gente, entre eles a mulher e filha do tauron Joseph Adama. O evento aproxima Adama do Dr. Greystone, que por sua vez se lança a um projeto obcecado de reaver sua filha por meio do “backup” de Zoe que habita o V-club. Finalmente, o Dr. Greystone consegue transferir a mente duplicada de Zoe para um corpo artificial denominado cylon, desenvolvido como protótipo encomendado pelas forças armadas de Caprica. Quando Zoe acorda no corpo do cylon, a fábula de Battlestar Galáctica parece se esclarecer: a guerra entre humanos e cylons tem origem num conflito familiar envolvendo uma garotinha “rebelde”.O piloto de Caprica me fez lembrar ainda outro trabalho apresentado na SFRA 2010, “The Jetsons as Anti–Science Fiction”, de Darren Harris-Fain (Shawnee State University). Harris-Fain propõe que a animação Os Jetsons deve ser considerada “anti-ficção científica” pois, apesar de toda a sua fábula ser ambientada num futuro povoado por espaçonaves, robôs e tecnologia “avançada”, estruturas sociais consideradas ultrapassadas, típicas dos anos 1950, continuam celebradas pelo desenho, como o patriarcalismo, relações de trabalho enviesadas e demais aspectos de uma agenda superada ou pelo menos frontalmente questionável. Nessa perspectiva, Os Jetsons não apresentaria novum algum, pelo menos não no sentido pretendido pelo crítico Darko Suvin[1]. Portanto, não cumpriria uma função fundamental da ficção científica: propor alternativas genuínas de futuro ou revisões acuradas de nosso presente. Particularmente, eu não seria tão severo em relação ao pobre desenho animado, até porque se trata, em larga medida, de um texto paródico. A meu ver, o trabalho de Harris-Fain sugere um certo risco interpretativo, algo um tanto quanto equivalente a condenar Os Simpsons como uma animação politicamente incorreta. Por outro lado, no caso de Caprica, uma série para TV que pouco ou nada tem de efetivamente paródico – a não ser que consideremos paródia uma narrativa dispersa, ou o produto de uma matriz ramificada de mídia -, de fato a idéia de “anti-ficção científica” parece fazer mais sentido. Caprica parece servir de novo exemplo inspirador a uma determinada crítica ideológica do cinema de gênero que já associou o cinema de ficção científica a discursos de ratificação do status quo. Valeria a pena assistir a série à luz de autores como Judith Hess Wright (“Genre Films and the Status Quo”, em Barry Keith Grant, ed., Film Genre Reader II, Austin, Univ. of Texas Press, 1995, pp. 41-9), ou ainda Michael Stern (“Making Culture into Nature”, em Annette Kuhn, ed., Alien Zone: Cultural Theory and Contemporary Science Fiction Cinema, London: Verso, 1990, pp. 66-72). Segundo Judith Hess Wright, gêneros cinematográficos objetivam exclusivamente “produzir satisfação ao invés de reação”, e filmes de ficção científica em especial “sugerem que a ciência é boa na medida em que serve à manutenção da estrutura de classe existente.” (Wright apud J. P. Telotte, Science Fiction Film, Cambridge: Cambridge Univ. Press, 2001, p. 43). Minha primeira impressão é a de que séries ou filmes como Caprica servem de munição a esse tipo de crítica da ficção científica, eclipsando todo uma variedade de filmes do gênero que coloca em xeque estruturas sociais conservadoras, na melhor tradição que remonta a Swift ou Voltaire

Surpreendi-me com o conservadorismo do episódio piloto de Caprica, nem tanto em termos de estilo (o classicismo narrativo tem sobrevivido de maneira interessante nas séries de TV americanas atuais), mas sobretudo no que se refere ao design de seu universo diegético – algo que sobressalta na caracterização dos personagens e seus diálogos. Zoe é uma meninha moralista, que censura a mãe e condena a vida “vazia” de sua geração. O sexo livre, por exemplo, é moralmente condenado por Zoe e seus companheiros. Os tauron são descritos como um povo “estóico”, determinado e pleno de valores morais, mas agem como a máfia russa e se vestem como versão estereotipada da máfia italiana, talvez mais próximos do visual dos cantores de tango. Faz sentido um povo tão “estóico”, original de um planeta árido e inóspito, se comportar com tal garbo? Algumas das maiores bobagens de Caprica são nominalmente verbalizadas. Uma delas, talvez a mais bizarra e absurda, vem da personagem da “orientadora espiritual” do colégio: ela explica à amiguinha de Zoe que o rapaz que se explodiu matando dezenas no trem o fez com a melhor das intenções, pois havia encontrado nessa atitude uma maneira dedicada de combater o mal. Ora bolas, mas que mal? Transar com todo mundo é necessariamente mau? A personagem da orientadora religiosa vai se revelar ela mesma uma dissidente: prega o politeísmo institucionalizado, mas cultua o monoteísmo clandestinamente, encarado como “salvação” para o vazio existencial e “amoralismo” da sociedade capricana. Enfim, os jovens protagonistas de Caprica não pedem muita coisa do mundo: querem apenas ser ouvidos pelos pais, praticar sexo seguro com parceiro fixo e amar a um só Deus. Caso não consigam essas benesses tão morais e corretas, vestem uma cinta de bombas e explodem o metrô. Simples assim. E a alma da mocinha que morre ainda sobrevive no paraíso digital, encarna num robozão mal-encarado e deflagra uma revolta das máquinas contra a humanidade moral e religiosamente corrupta. Sinceramente, esperava mais do piloto de Caprica, mistura de Chispitas com o velho e saudoso (porque reaganista no seu devido tempo e lugar) Battlestar Galáctica.Este texto é uma anotação preliminar. Pretendo acompanhar, na medida do possível, a evolução dessa série, e talvez voltar-me a uma análise mais detida do filme-piloto, a meu ver repositório de aspectos interessantes para uma crítica do conservadorismo na ficção científica audiovisual contemporânea, bem como para a investigação de um provável “efeito anti-FC” em produtos do gênero.

__________________________

[1] Segundo Darko Suvin, “Um novum ou inovação cognitiva é um fenômeno ou relacionamento totalizador que se desvia da norma de realidade do autor e leitor implícitos.” (Metamorphoses of Science Fiction, Westford: Yale Univ. Press/New Heaven and London, 1980, p. 64). “Quantitativamente, a inovação postulada (novum) pode ser de diferentes graus de magnitude, variando do mínimo de uma discreta ‘invenção’ (gadget, técnica, fenômeno, relacionamento) ao máximo de um cenário (lócus espaço-temporal), agente (protagonista ou personagens) e/ou relações basicamente novas e desconhecidas no ambiente do autor.” (Metamorphoses of Science Fiction, p. 64). Suvin observa ainda que “(…) deve julgar-se a ficção científica pela densidade e riqueza dos objetos e agentes descritos no microcosmo do texto, parecendo-se nisso com a maioria da narrativa naturalista ou ‘realista’ e diferenciando-se totalmente da fantasia de terror. Outro modo de interpretar a distinção feita por Philmus em 1.2 consiste em criar outra tríade hegeliana, na qual a narração naturalista – que exerce um efeito de realidade empiricamente validado – seria a tese, os gêneros sobrenaturais – que carecem de tal efeito –, a antítese, e a ficção científica – onde o efeito de realidade acaba validado por uma inovação cognoscitiva – a síntese. Por sua vez, o novum essencial de qualquer relato de ficção científica deve ser julgado pelos novos insights que permita e possa permitir nas relações imaginárias, porém coerentes e deste mundo – ou seja, históricas – que apresenta.” (Metamorphoses of Science Fiction, 81).
>> CRONÓPIOS – por Alfredo Suppia

Anúncios

Comentários encerrados.

%d blogueiros gostam disto: