O MERCADO EDITORIAL DÁ POUCAS OPORTUNIDADES OU OS BONS ESCRITORES SÃO POUCOS?

Estamos pensando a literatura e o mercado em pulos.  Se olharmos bem de perto, literatura não combina com mercado, e discuti-los assim em paralelo parece ser insensato. Realmente é. Mas nos preocupamos. Queremos ver os escritores nacionais mais publicados, com mais oportunidades, e tendo a escrita como carreira real e não hobbie. Então, como não discutir literatura e mercado?
Vamos pensar em pulos. Literatura. Mercado. Como é o cenário atual e o que nos falta, a nós, brasileiros, para termos um mercado que também dê oportunidade aos novos talentos.

Novos talentos? Quem são, onde estão? Quem os encontra? E que mercado é esse?

Novos talentos
A Copa de Literatura é um projeto – discutível — para a avaliação de romances em um determinado ano. É lúdico e sem pretensões que não a de gerar uma boa discussão literária. Foi exatamente isso o que encontramos no ano passado.

No site http://www.copadeliteratura.com.br/, em avaliação feita em janeiro de 2010, Paulo Polzonoff (@paulopolzonoff) faz considerações sobre os dois romances finalistas. Sua crítica é direta e polêmica: ele questiona o que é a literatura brasileira. Nas palavras dele, “este fenômeno que não é só comercial. Na verdade, tudo é muito simples: literatura brasileira, em geral, não é livro que se queira ler. É livro que se pretende estudar, analisar, discutir. Aquilo que parece um romance é, na verdade, um objeto de estudo — um livro praticamente didático”. Ele diz que os romances que então analisou têm linguagem artificial, parecem construídos para serem estrutura de um real belo mas insosso. “O que me obriga a repetir: falta à literatura brasileira o teste da oralidade”.

Falta à literatura brasileira oralidade. E o que mais?

Editor
Beatriz Bracher fala sobre a “culpa do editor” ( Jornal Rascunho), por meio de um acontecimento na Editora 34. Ela conta que, àquela época, ao fazer a avaliação de uma obra, ela apontou ao escritor onde o texto poderia ser melhorado. Ela diz que o autor reenviou a obra seguindo as recomendações dela, mas que, mesmo assim, o livro não foi aceito. Ela diz que se sentiu muito culpada e que, depois disso, só envia aos escritores a mesma cartinha de recusa, padronizada e sem detalhes. “Isto é o duro de ser editor: está na sua mão. Esse cara poderia ter uma carreira de escritor, poderia ter outros livros, e por causa do que aconteceu, pode ter se desviado, desistido, desanimado. Então, eu ouço muito os editores, é bom trabalhar com eles, mas quando você tem certeza de que a palavra final vai ser sua”.

O Editor envia a mesma cartinha de recusa não porque não tem mais nada a falar ao escritor, mas porque a obra não está finalizada. Há ainda arestas. Há pontos a melhorar. Mas isso não é o editor quem poderá dizer. Afinal, o editor está aí para publicar a obra. Se a obra não está pronta, não há como publicá-la. Enviar recomendações ao escritor muitas vezes é útil e é feito quando os reparos são mínimos. Mas, quando a reestruturação é grande, o que dizer ao escritor? E, mesmo que o editor o faça, como Beatriz, não é certeza de que a obra será realmente publicada. Casas editoriais mudam o seu “pessoal” com alguma regularidade. Ou seja, quem avaliou a obra daquele escritor pode não ser a mesma pessoa que irá avaliá-la quando reescrita. Casas editoriais podem mudar de estratégia de negócios, deixando um tema ou linha de lado em alguns meses. O que digo aqui é que a editora não é uma escola. Nela não há o objetivo de se instruir como escrever bem. Há somente prescrições que são seguidas por quem estiver no escritório, prescrições muitas vezes decididas não por intelectuais da literatura mas por empresários e comerciantes. O editor que conversa com o escritor muitas vezes não é o dono da editora e, assim, não pode realmente dar a ele certeza de uma publicação. Por isso a confusão. Por isso a reclamação, e justificada, dos escritores: “pô, o cara diz que a obra é boa, pede uns ajustes, eu faço e me recusam ou nem respondem?”.

O escritor deve saber ver: a tarefa do editor que seleciona obras também não é fácil e é razoavelmente cômodo culpá-lo pela recusa de uma obra. Se as editoras estivessem em um mundo ideal, elas seriam centros também de discussão literária, de avaliação franca e aberta. Mas o mercado pede pressa e as editoras cumprem, avaliando com pressa ou buscando o que é lucro certo. O mercado pede competitividade e as editoras cumprem, diminuindo o pessoal contratado e apostando na terceirização. As editoras brasileiras, aliás, conseguiram crescer e aparecer no mundo editorial pois adotaram práticas mais eficientes e agressivas de negócios. O mercado brasileiro se fortaleceu e chamou a atenção de grupos estrangeiros. Editoras brasileiras foram negociadas por grandes grupos. O fortalecimento de nossas editoras nacionais também é importante e segue um caminho que se repete em todas as áreas de negócios. Inevitável.

O que o escritor deve, então, fazer?

Seus pares
Se o escritor quer discutir literatura e ter sua obra aperfeiçoada, por que os eventos literários estão tão vazios? Basta ir a um evento em uma livraria, um lançamento de livro, um sarau, e, até mesmo, aos debates que ocorreram antes do Prêmio São Paulo de Literatura (que não é um evento pequeno) para constatar o óbvio: poucos se interessam em prestigiar a discussão literária, a escutar os escritores publicados. E, se você frequentar algum grupo em sua cidade, irá ver que além de poucos são sempre as mesmas pessoas que estão lá.

Vamos ver. Como poucos se reúnem para discutir literatura e criação literária mas as editoras alegam estar abarrotadas de originais de escritores? Não é uma contradição? Os escritores não deveriam estar tão – ou mais – interessados em discutir literatura e a criação quanto finalizar seus textos e enviá-los para publicação?

Tá, mas não tem evento na região em que moro. Primeiro, certifique-se de que realmente não haja. Procure a prefeitura, faculdades, pesquise na internet. Na região em que moramos, por exemplo, há pouquíssimos eventos e a maioria deles em lugares de difícil acesso. Assim, nossa saída foi encontrar nossos pares na rede. Assim, encontramos com quem conversar. Conhecemos escritores da região e até vimos um grupo de escritores de nossa região criar um grupo e blog coletivo (http://e-chaleira.blogspot.com/).

Mas não tem nada em minha região… o que fazer? Bem, gente, a rede está aí para ajudá-los. Procure seus pares na rede. Se conseguir formar um grupo, pode até reivindicar algum evento cultural em sua cidade. É difícil, mas se não fizerem algo, dificilmente uma alma caridosa irá fazer por vocês. Cultura não é prioridade de verba nas prefeituras. Façam com que seja.

A primeira leitura de avaliação de sua obra nunca, nunca mesmo, deve ser a de uma editora. Confie em seus pares. Discuta com eles. Coloque seus textos para eles lerem. É muito importante a opinião de seus leitores, não? Não a tome como guia de sua criação, apenas como mais um fator para sua autoavaliação, ok? A palavra final deve ser a do escritor, mas ninguém aprende coisa alguma se não cruzar a linha de conforto. Coloque sua obra na roda, coloque sua visão em discussão.

Onde estão os novos escritores?
Sim, onde estão vocês? Na sua região tem algum grupo de discussão? Divulgue-o. Pode divulgá-lo aqui mesmo. O importante é encontrarem-se. A criação literária é solitária, mas uma das formas de você avaliar se está em seu caminho ideal é escutar o que seus leitores têm a dizer.

Não corra atrás de fórmulas, de regrinhas, de tendências e correntes. Seu estilo só será seu se for honesto. Sua criação só valerá a pena se for honesta com seu estilo. Não corra atrás do “sucesso” editorial, trabalhe para escrever bem. Trabalhe para construir sua história literária, seu universo próprio. Grandes escritores muitas vezes só foram descobertos depois de mortos (tá, só para constar. Não precisa se desesperar, ok?)

Infelizmente, você, como a maioria da população brasileira, terá de se sacrificar. Ser escritor hoje não é profissão nem para quem é escritor já publicado. Não desista.

Indicamos alguns caminhos: grupos de discussão em sua região; grupos de discussão na rede; procure seus escritores favoritos na rede e converse com eles (aliás, leia as obras deles); veja seus escritores preferidos http://www2.tvcultura.com.br/entrelinhas/videos.asp / http://www.cronopios.com.br/tvcronopios/); leia matérias de qualidade sobre literatura e novos escritores (indicamos o jornal Rascunho); escreva sempre; leia um poema ao acordar ou antes de dormir (poesia é inspiração); procure as editoras pequenas, as que estão surgindo, e converse com seus editores; se você for bom e tiver fôlego, abra uma pequena editora com seus pares e coloque a obra de vocês no mercado; procure leitura crítica do mercado (alguns agentes fazem —http://blog.oficioeditorial.com.br/agente-literario/ –, e nós também); acredite nos bons concursos literários e envie sua produção (indicamos a seleção de Ana Cristina Melo — http://ficcaodegaveta.blogspot.com/); e, mais importante, leia de tudo, leia o que produziram os novos talentos, leia os clássicos, leia o que produziu aqueles que venceram concursos no ano passado. E vá em frente.

Acreditamos que novas oportunidades ocorram pelo aquecimento do mercado – quando se abrem mais editoras, pequenas e intelectuais; e quando editoras grandes apostam em novos talentos, como nos concursos que promovem –; pela interação entre escritores; pela chance de divulgação de sua obra – nas livrarias e em reuniões literárias –; mas nada supera a dedicação e o esforço individual.
>> OFICIO EDITORIAL – por Jack Starman – 3/04/2008

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