SÉRIES DE TV: O QUE ESPERAR DA PRÓXIMA TEMPORADA?

Os canais dos EUA, em especial a rede aberta, estão passando pelo período de produção de pilotos de novos projetos que serão avaliados. Alguns serão aprovados e transformados em séries de TV, outros poderão passar pelo processo de reestruturação, que leva à produção de um novo piloto (antes que uma decisão definitiva seja tomada) e outros serão descartados; estes poderão ser oferecidos a outros canais ou, simplesmente, esquecidos.

A avaliação desses pilotos por parte dos executivos dos canais deverá ter início a partir do mês de abril. A encomenda de novas séries deverá começar a ocorrer em seguida, juntamente com os anúncios de cancelamentos de produções atuais. Assim, as séries de baixa audiência abrem espaço na programação para as estreias de novas séries. Os canais têm até o final do verão americano (que termina em agosto) para definir a grade da temporada 2011-2012, que tem início em setembro.

A cada ano, a divulgação de novos projetos e pilotos encomendados permite uma ‘leitura’ do perfil que terá as próximas temporadas americanas. Apesar de todas as mudanças tecnológicas e do surgimento de novas mídias, o comportamento básico (ou tradicional) dos canais prevalece. E o que existe de mais tradicional na TV americana é: o que fizer sucesso nas temporadas anteriores abre caminho para as próximas. É por isso que, ao longo das décadas, vimos surgir uma gama enorme de produções com repetições de temas, readaptações de situações e personagens. Mesmo aquelas produções que trazem algo de novo concentram repetições dentro de seu conteúdo. A diferença fica por conta da forma criativa com a qual os roteiristas e produtores trabalham essas questões.

Como já comentei antes, a TV americana passa pelo tradicional momento de transição entre uma década e outra. A cada década são produzidas séries que definem seu período. No entanto, nos últimos dois anos, os canais americanos ainda não conseguiram oferecer produções que sejam capazes de estabelecer o perfil do que será produzido nos próximos dez anos.Alguns sucessos isolados aqui e ali, mas que ainda não se estabeleceram como produções bases deste período. De qualquer forma, a nova leva de episódios pilotos encomendados para avaliação traz algumas ‘leituras’ interessantes.

Para a temporada de 2011-2012, foram desenvolvidos centenas de projetos, muitos dos quais não chegaram à encomenda de roteiros. Daqueles que receberam a encomenda de um episódio piloto para avaliação temos, por alto (posso ter deixado escapar algum) 100 dramas e 37 comédias (sendo que alguns projetos não tiveram seus gêneros divulgados, portanto eles foram considerados dramas).

A maioria são pilotos para canais abertos. Poucos foram os canais a cabo que divulgaram quais projetos estão com pilotos encomendados. Entre os pilotos que estão sendo produzidos, 32 são policiais ou de espionagens, 14 de ficção científica/fantasia, seis são dramas médicos, cinco de época, cinco jurídicos e três musicais.

A produção de séries de uma nova temporada explora o que foi sucesso nas anteriores. Desta forma, é fácil compreender os motivos pelos quais o gênero policial ainda é importante. Visto se tratar de histórias que agregam diversos elementos importantes no desenvolvimento de personagens e situações, eles ainda são os favoritos do público e, portanto, dos canais.

Um drama policial permite acompanhar personagens que vivem situações emocionais extremas, colocando-os entre a vida e a morte, o que gera conflitos pessoais. O gênero oferece relacionamentos humanos; situações que obrigam pessoas a confiarem umas nas outras; trabalho de equipe; soluções de ‘quebra-cabeças’; explorar conspirações; debates morais e sociais; e, é claro, cenas de perseguições, tiroteio e explosões.

Vale a pena ressaltar que a maioria das produções que marcaram a primeira década do século XXI ainda não conseguiram influenciar o perfil das novas produções, com exceção de um projeto ou outro. A série “24 Horas” é ‘vista’ em apenas três pilotos dos 32 dramas policiais/espionagens que foram encomendados: “Homeland”, para o canal Showtime, “Meet Jane”, para o Lifetime, e “Exit Estrategy”, para a Fox, que já lançou “Human Target” para substituir “24 Horas”.

A série “Lost” é ‘traduzida’ por seu ambiente e por sua narrativa paralela. Depois da estréia de “Off the Map”, em que temos um grupo de médicos tentando sobreviver às precariedades de uma clínica em um local isolado da América Latina, o canal ABC desenvolve “The River”. A história gira em torno de uma equipe de um programa de TV, que se perde na Amazônia. Suas famílias e amigos reúnem um grupo de resgate que parte para o local onde enfrentará diversos problemas.

“Terra Nova” também pode se enquadrar como uma influência de “Lost”, já que temos pessoas viajando pelo tempo, chegando a um local isolado e tentando sobreviver ao ambiente enquanto enfrentam os ‘outros’ que lá vivem. Ao invés de ursos polares ou fumaças cinzentas, os ‘sobreviventes’ de uma época distante enfrentam dinossauros e outros animais da pré-história.

No gênero ficção científica, destacam-se três produções que, também, podem se revelar como influências de “Fringe”. A primeira é “Alcatraz”, projeto que está sendo desenvolvido para o mesmo canal e com os mesmos responsáveis da série que, volta e meia, corre o risco de ser cancelada. Na história, temos um grande mistério em torno de uma situação que pode ser o resultado de universos (ou linha de tempo) paralelos.

O mesmo canal prepara outra produção nessa linha: “Locke & Key”, história com base em HQ que explora ambientes paralelos ao contar a história de uma família que descobre dentro de sua casa um portal capaz de levá-los a uma realidade diferente daquela em que vivem. O terceiro projeto é do canal NBC: em “REM” temos um policial que descobre estar vivendo em duas realidades diferentes. Se produzido, também pode ser apontado como influência direta de “A Origem”.

Por influência de “Glee” a TV americana investiu na produção de três pilotos de séries musicais. No entanto, foram desenvolvidos cerca de 10 projetos nessa linha: “Smash”, para a NBC, sobre os bastidores de produção de um musical da Broadway;  “Grace”, para a ABC,  situado no mundo da dança; e “Patito Feo”, da MTV, versão americana de uma série argentina voltada para o público adolescente.

Outro gênero que parece estar despertando o interesse dos canais é o faroeste. Com o sucesso de “Justified” e do filme “Bravura Indômita”, vários projetos foram desenvolvidos nessa linha, mas apenas três sobreviveram até agora. Seguindo a abordagem de “Justified” temos “Longmire”, para o canal A&E. Tal qual a série do canal FX, este projeto também é uma adaptação de obra literária, sobre um delegado do interior, de moral elevada, solitário, que dita suas próprias regras. A CBS tinha algo parecido, com “Desperado” (também adaptação de livro), mas tudo indica que o projeto não foi adiante. Já a NBC investe em “The Crossing”, ambientada no período pós-Guerra Civil. Lembrando que o AMC já encomendou a série “Hell on Wheels”, sobre a construção de uma ferrovia.

O projeto de comédia “Brave New World”, da NBC, faz uma variação sobre o tema ao apresentar um grupo que vive nos tempos atuais, trabalhando em um parque temático que recria o período no qual viveram os pioneiros americanos.

Outra série que influencia no momento é “Mad Men”, que trouxe de volta o interesse dos canais em produzir histórias ambientadas no passado recente. Foram vários projetos propostos, mas apenas dois ganharam a encomenda de um episódio piloto. Justamente aqueles que eram situados na década de 1960: “Pan Am”, pela ABC, sobre comissárias de bordo; e “Playboy”, pela NBC, sobre garçonetes em um clube noturno. Ainda existe um terceiro projeto em desenvolvimento, mas sem um canal definido: “The Drivers”, produção de Ridley Scott sobre o circuito automobilístico desse mesmo período.

Talvez influenciado por “Sherlock Holmes”, dois projetos chamam a atenção: “Poe”, no qual temos o escritor Edgar Allan Poe solucionando mistérios, e “Among Spirits”, em que Houdini e Arthur Conan Doyle fazem o mesmo. O primeiro é da ABC e o segundo do SyFy. Na linha fantasia, temos projetos de contos de fadas (“Once Upon a Time” e “Grimm”), bruxas e demônios (“Secret Circle”) e zumbis (“Awakening”), mas nada que por enquanto seja significativo.

A maioria dos pilotos que se enquadram no gênero dramático é voltada para as relações familiares ou de trabalho, mas existem alguns dramas políticos (“Georgetown” e “Projeto de Morgan Spurlock”) e sociais (“Hallelujah” e “Muscle”).

Como podem ver, são poucos projetos que propõem alguma mudança na abordagem do tradicional policial-médico-tribunal-família. As informações sobre a narrativa que será adotada por cada projeto são escassas, portanto é difícil saber se eles trarão alguma novidade. De qualquer forma, a expectativa é a de que a nova temporada apresente produções que comecem a definir o perfil da próxima década da TV americana.

>> VEJA – por Fernanda Furquim

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