FICÇÃO CIENTÍFICA CRESCE COM O SURGIMENTO DE AUTORES JOVENS

Se a psico-história, campo científico inventado pelo escritor Isaac Asimov na série Fundação, existisse, ela forneceria cenários positivos sobre a atual produção brasileira de ficção científica (ou FC, como abreviam os fãs). Os autores, muitos deles jovens, caminham em terreno inconsistente: publicam por editoras que não pertencem ao mainstream (como Devir, Draco e Tarja Editorial), priorizam ficções breves (contos e antologias colaborativas) e carecem de leitores realmente interessados em títulos nacionais.

Mas a quantidade de material é grande. “Se não é por demanda do público, a literatura pode crescer por oferta. E há uma oferta de autores e livros que leva a um esforço para conquistar espaço nas livrarias e chamar a atenção de leitores potenciais”, justifica Roberto de Sousa Causo, escritor e crítico que milita pela FC desde 1983, quando participava de fanzines.

Por enquanto, William Gibson, Philip K. Dick, Arthur C. Clarke — traduzidos pelos selos Aleph e Rocco — e outros nomes clássicos são presença esmagadora nas estantes. Segundo explica Causo, temas caros a escritores internacionais (de hegemonia anglófona) são geralmente preteridos pelos brasileiros. “Os autores não se sentiam na obrigação de seguir exatamente técnicas e visões de mundo cientificistas que a ficção internacional apresentava. No momento atual, persiste uma falta de intimidade do brasileiro com o tema científico. É comum que elementos de horror ou fantasia sejam introduzidos numa história com tema de ficção científica”, analisa o especialista, editor de antologias de contos e novelas brasileiros pela Devir e de uma coluna dedicada ao assunto no portal Terra Magazine.

Mesmo minúscula se comparada ao cânone de língua inglesa, a FC brasileira é peculiar e consegue acompanhar tendências estrangeiras, como os subgêneros new weird (aliança com fantasia e horror) e steampunk (retrofuturismo ambientado na época da tecnologia a vapor). O momento é de renovação: reedições de escritos fundamentais — como Duna (Aleph), de Frank Herbert — e novidades nacionais. Títulos contemporâneos que têm feito sucesso lá fora pouco a pouco chegam aqui, como obras do norte-americano Jeff VanderMeer (A situação, em pré-venda pela Tarja) e do inglês China Miéville, em breve pela mesma editora. “O que acontece agora é um recomeço. A dificuldade é essa: como promover no Brasil um gênero que ainda está se encontrando, quando o mercado não se manteve atualizado com as transformações internacionais”, completa Causo.

O diplomata Hélio Franchini Neto escolheu a capital futurista  para viver em 2004 e lançou seu livro de estreia, Distopia (Carlos Moura/CB/D.A Press)

O diplomata Hélio Franchini Neto escolheu a capital futurista para viver em 2004 e lançou seu livro de estreia, Distopia


Distopia, de Hélio Franchini Neto

“Se foi! Tiros e explosões! O que o Sr. ouviu foi uma daquelas idiotices comuns aos libertaristas, mais uma tentativa isolada de algum exagerado, que acreditou poder resolver esse impasse antigo com apenas um fuzil e meia dúzia de granadas. Morreu ninguém além do atacante. Dois feridos, um deles perdeu a perna com aquela segunda granada. É meio horripilante mesmo ver aquele sangue todo jorrando. Coisas da guerra. A gente se acostuma com tudo, juro. Antigamente, eu não conseguiria nem olhar um cortinho qualquer. E o cheiro dos medicamentos e ataduras, misturado ao ferroso do sangue, credo! Hoje, nem sinto mais.

Não sei como os sensores não indicaram a aproximação do defunto. Dizem que eles captam tudo, mas sempre tem um que consegue enganá-los. Toda criação humana, como qualquer uma dessas máquinas, leva consigo o risco de se ver ultrapassada por outro raciocício inventivo. Nenhuma tecnologia é páreo para uma ou umas cabeças intransigentes. Isso já haviam pontificado desde tempos muito antigos, por um tal Hobbes.”


Assembleia estelar: histórias de ficção científica política, editado por Marcello Simão Branco

“O fato é que o gênero guarda uma relação de afinidade com a política por três motivos. Primeiro, porque temas de caráter político se fazem presentes, ainda que de forma indireta, nos enredos e na caracterização das sociedades em uma história. Em segundo, porque a política é uma das atividades mais presentes, seja em seu contexto próprio (ideologias, instituições, processos de decisão), seja nas pequenas decisões políticas, que realizamos em nosso relacionamento pessoal, social e profissional.

Uma das máximas da FC é que ela é a literatura da mudança. Ela foge do chamado realismo — menos no sentido escapista e mais no sentido crítico –, na medida em que lida com as transformações científico-tecnológicas e seus impactos sociais, comportamentais e políticos. Ray Bradbury, um dos maiores autores norte-americanos do gênero, é incisivo ao defender que a FC tem por função precípua evitar futuros possíveis, ao indicar onde podemos estar errando nos caminhos que levarão ao futuro.”


Os melhores contos brasileiros de ficção científica, editado por Roberto de Sousa Causo

“A ficção científica é a literatura esquecida do século XX no Brasil. Poucos se lembram que algumas das figuras mais importantes das letras nacionais a exercitaram. Uma das razões do esquecimento talvez esteja no fato de que muitas dessas aventuras no terreno da “literatura de mudança” se constituam em textos menores, dentro das obras grandes nomes. O presidente negro ou o choque das raças (1926), o único romance escrito por Monteiro Lobato (1882-1948), é um livro que os seus cultores e estudiosos preferem esquecer — claramente inspirado em H.G. Wells (1866-1946), é uma apreciação do futuro de 2228, momento da ascensão de um candidato negro à presidência dos Estados Unidos. O romance é uma espécie de libelo em favor da política racial norte-americana — então de claro apartheid –, que o autor percebia como tensão a impulsionar esse país rumo ao progresso e ao dinamismo social, que já o caracterizavam no início do século XX. Segundo Lobato, fenômeno exatamente contrário ao racismo mulato do Brasil, que atirava o país na indolência — indolência que se constata, aliás, no fato do único brasileiro no livro ser hóspede do cientista estrangeiro e de sua filha, os “Bensons”. No romance, o brasileiro apenas observa o futuro dos outros, através do “porviroscópio” criado pelos estrangeiros.”

Os pioneiros

Os primeiros textos nacionais datam do século 19, quando a ficção científica como vertente literária ainda engatinhava: narrativas com elementos místicos, folclóricos e espirituais, como O doutor Benignus (1875), do português naturalizado brasileiro Augusto Emílio Zaluar, seriam inconcebíveis em obras de Júlio Verne e H.G. Wells, por exemplo. É considerado o livro inaugural do gênero no país. Causo indica a utopia urbana Zanzalá (1928), de Afonso Schmidt. Outra dica, de inspiração tropical: A Amazônia misteriosa (1925), de Gastão Cruls, “um romance de um mundo perdido”. Ele também recomenda A filha do Inca (1930), de Menotti Del Picchia. A obra narra a jornada exploradora de militares na serra do Caiapó, no planalto central: os viajantes deparam com descobertas científicas incríveis.

Uma boa quantidade de clássicos pode ser lida em títulos da Pulsar, selo de FC da editora Devir. Causo editou os volumes Os melhores contos brasileiros de ficção científica — com uma história de Machado de Assis — e uma cotinuação, com o subtítulo Fronteiras — presença de Lima Barreto e Lygia Fagundes Telles. Ele prepara antologia de novelas e noveletas, com reedição de Zanzalá. Outro lançamento importante, não necessariamente de textos canônicos, é Assembleia estelar: histórias de ficção científica política, compêndio internacional organizado pelo cientista político e jornalista Marcello Simão Branco.
>> CORREIO BRAZILIENSE – por Felipe Moraes

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