A RELAÇÃO DOS TELEFILMES NA PRODUÇÃO SERIADA

Van Johnson em "The Pied Piper of Hamelin", de 1957

No Brasil, a produção de telefilmes é algo raro. Quando produzidos, são chamados de “Especiais”, mas são tão poucos que nem dá para dizer que a produção desse formato existe de fato.

Nossa teledramaturgia é (praticamente) dedicada às novelas. Já vi muitas quando criança e apesar de não gostar mais de acompanhar esse tipo de programa, não sou contra sua produção. Existe público para isso. No entanto, a partir do momento que (praticamente) só se produz isso…então sou contra.

A produção televisiva deveria ser diversificada. Ao menos, nos canais de rede aberta. Isto não ocorre no Brasil e, atualmente, também não ocorre nos EUA. Repararam que eles pararam de produzir telefilmes? Tal qual as minisséries, os telefilmes estão relegados à produção da TV a cabo, onde também são oferecidas séries, desenhos animados, reality shows, documentários, talk shows e game shows. Só falta a novela…mas não sejamos exigentes (existe um canal a cabo chamado SoapNet dedicado às novelas, mas sua produção própria é mínima, quase inexistente, dedicando-se mais às reprises, como o Viva faz no Brasil).

Os telefilmes, tal qual as minisséries, contribuíram com a evolução das séries de TV americanas. Levou um bom tempo para que a produção de telefilmes tivesse início. Entre as décadas de 1940 e 1950, a TV americana contentou-se em exibir filmes produzidos para o cinema. Até a década de 1960, somente filmes produzidos antes de 1948 poderiam ser exibidos na TV, dentro de sessões de cinema criadas especialmente para isso. Estas sessões eram programadas tarde da noite, após o horário nobre. Isto porque os canais temiam que a qualidade técnica dos filmes, mesmo os antigos, ferisse a receptividade de suas séries e programas, muito embora os canais regionais intercalassem seu horário nobre com séries e filmes de cinema.

No final da década de 1950, os estúdios de cinema pressionaram os canais a negociar a exibição de filmes mais recentes em horário nobre. O fato causou problemas para as redes, visto que o valor que os estúdios queriam cobrar por seus filmes era muito maior que aquele que elas estavam dispostas a pagar. Além disso, o Sindicato dos Roteiristas se posicionou contra a decisão. Primeiro, porque a exibição em horário nobre de filmes produzidos para o cinema reduziria o espaço para uma produção própria, prejudicando a oportunidade de trabalho dos roteiristas; segundo, os roteiristas dos filmes não recebiam nenhum valor pela exibição de seu trabalho em outro veículo.

Em função disso, surgiu uma greve geral de roteiristas que teve início em 16 de janeiro de 1960. Esta paralisação é comparada com a que ocorreu em 2007, quando os roteiristas fizeram greve para receber pagamento quando seus trabalhos fossem disponibilizados em streaming na Internet.

A greve de 1960 durou seis meses, finalizando com um acordo entre as partes. Assim teve início a exibição na TV de filmes mais recentes produzidos para o cinema, o que fez surgir um público específico. O fato levou os canais a perceber o potencial da produção própria de filmes.

A primeira a investir nesse formato foi a NBC. Apesar de algumas experiências anteriores, como “The Pied Piper of Hamelin”, de 1957, filmado em Technicolor, para a DuMont Network, “See How They Run”, de 1964, é considerada a primeira produção de telefilme para a TV americana. Trata-se de uma adaptação de uma peça de teatro, estrelada por John Forsythe e Jane Wyatt, com direção de David Lowell Rich. Em função da baixa audiência, o canal levou dois anos para voltar a produzir nessa área.

Em 1966, a NBC criou o “Saturday Night at the Movies”, sessão de telefilmes produzidos quase que exclusivamente pela Universal. O primeiro teria sido “Os Audaciosos/The Name of the Game”, estrelado por Tony Franciosa, que interpretou um jornalista investigativo. A boa receptividade do telefilme fez com que o canal o transformasse em série, a qual fazia um rodízio das histórias estreladas por três atores: Robert Stack, Gene Barry e Franciosa.

A produção de telefilmes se estabeleceu quando foi exibido “The Doomsday Flight”, de Rod Serling, sobre a histeria gerada por passageiros e tripulantes de um vôo entre Los Angeles e Nova Iorque, que descobrem a presença de uma bomba no avião. A história, que mesclava melodrama, mistério e tensão, dentro de um formato antológico e com orçamento de cinema, determinou a continuidade desse tipo de produção a partir de 1967.

Os telefilmes substituíram os teleteatros, trazendo diversas histórias, sem personagens fixos, explorando situações polêmicas com uma estética cinematográfica. Competindo com os telefilmes e com os filmes de cinema, as séries adotaram, ao longo dos anos de 1960, uma narrativa e uma estética mais realista para sua produção dramática.

(E-D) Robert Stack, Gene Barry e Tony Franciosa em "Os Audaciosos"

Mas os telefilmes não eram vistos apenas como concorrentes das séries. A exemplo do que ocorreu com “Os Audaciosos”, muitos telefilmes foram produzidos com a intenção de testar público para o potencial de uma nova série.

Assim sendo, pilotos com 90 minutos de duração eram exibidos na TV em sessões de telefilmes. Se a audiência fosse boa, a série era encomendada, a exemplo de “Smith & Jones”, “Havaí 5-0”, “Kolchak”, “McCloud”, “O Casal McMillan” e “Columbo” (estes três últimos tiveram seus episódios exibidos alternadamente dentro da sessão “The NBC Mystery Movie”).

Com o passar dos anos, os telefilmes também começaram a ser utilizados como alternativa para finalizar a trama de uma série cancelada, bem como uma forma de reunir atores/personagens de um seriado de sucesso, mostrando ao público o que aconteceu com eles (são os telefilmes conhecidos como ‘reunions’).

A presença de filmes e de telefilmes em horário nobre também fez surgir séries com episódios de duração entre 75 e 90 minutos. A exemplo de “O Homem de Virgínia”, “Columbo”, “Banacek”, “Os Audaciosos”, entre outros. Em função dos telefilmes, mais profissionais do cinema migraram para a televisão. Esse formato também influenciara o surgimento das minisséries.

Como visto aqui, o estopim foi a importação de produções estrangeiras; mas a popularidade crescente dos telefilmes e a necessidade dos roteiristas de ter mais tempo para desenvolver suas histórias também serviram como influência para a produção própria de minisséries, as quais provocariam mudanças na narrativa seriada.
>> VEJA – por Fernanda Furquim

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