“MULHER MARAVILHA”: DOS QUADRINHOS PARA A TV

William Moulton Marston, um conhecido psicólogo americano, era um ávido leitor de HQ, mas também um de seus maiores críticos. Marston, professor de psicologia da Columbia University, autor de livros, colaborador da revista Reader’s Digest e palestrante, foi o inventor de um teste de pressão sanguínea que se tornaria um dos componentes para o polígrafo (detector de mentiras).

Ellie Wood Walker

Marston também era defensor do feminismo. Através de seus textos publicados, ele dava conselhos a mulheres e apresentava seu ponto de vista a respeito do casamento, da obediência ao homem e da posição da mulher na sociedade. Para ele, uma mulher deveria ocupar o cargo de Presidente da República. Como psicólogo, Marston atacou o universo dos super-heróis dos quadrinhos, acusando-o de machista por não dar às mulheres personagens com os quais poderiam identificar-se. Em sua opinião, as meninas não desejavam ser meninas porque não existiam personagens femininas fortes e carismáticas, apenas mulheres que apareciam para atrapalhar o herói ou criar situações nas quais eles poderiam mostrar sua superioridade.

As críticas de Marston chamaram a atenção da DC Comics, que o convidou a assessorar seus roteiristas, oferecendo-lhes o ponto de vista psicológico dos personagens e como deveriam ser passados para o público adolescente.

Nesta sua função, ele recebia os textos e fazia observações a respeito de mudanças que deveriam ser feitas nos personagens ou mesmo nas histórias. Com o tempo, ele foi convidado a criar um super-herói que refletisse suas teorias.

Assim surgiu a Mulher-Maravilha, que Marston criou utilizando o nome de Charles Moulton. Fisicamente bonita, feminina, extremamente inteligente e com a força de muitos homens, a personagem, que surgiu em um universo masculino, utilizava roupas provocantes (para a época).

Vivendo situações que atraíam o interesse masculino, entre elas, a de ser presa e amarrada, ficando à mercê de seus opressores, a Mulher-Maravilha sempre dava a volta por cima. Para as mulheres, as situações representavam a idéia de que era possível libertar-se de suas ‘amarras da sociedade masculina’.

Estudioso da cultura grego-romana, Marston criou um universo para sua personagem que remonta esta cultura. Batizada de Diana, a personagem era uma amazona que vivia na Ilha Paraíso (também conhecida com Themyscira ou Temiscira), localizada no Triângulo das Bermudas.

Cathy Lee Crosby

 

A Mulher-Maravilha fez sua estréia nos quadrinhos no dia 8 de dezembro de 1941, ganhando uma edição própria em 1942. Nessa época, os EUA estavam entrando na 2ª Guerra Mundial, o que levou os meios de comunicações americanos, sem exceção, a serem convocados para atuarem em favor dos aliados e contra o nazismo. Assim, as histórias da heroína foram situadas no mesmo período.

Na Ilha Paraíso, as amazonas são seres imortais, nascidas de moldes de barro, vivendo por conta própria, sem a necessidade da presença do homem. Um dia, um acidente aéreo leva o piloto do avião, Major Steve Trevor, a ser socorrido por elas. Diana, filha da Rainha Hipólita, é a escolhida para levá-lo de volta aos EUA, onde deverá permanecer para ajuda-los a derrotar o nazismo.

Utilizando a bandeira americana encontrada no avião, as amazonas fabricam o uniforme da Mulher-Maravilha. Entre os acessórios, o laço da verdade (em referência ao detector de mentiras criado por Marston); braceletes feito de um material existente apenas na Ilha, capazes de repelir balas ou qualquer outro tipo de munição; e uma tiara, através da qual poderia se comunicar com a Ilha (a tiara também servia de bumerangue). Seu meio de transporte era um avião invisível, controlado pela mente.

Richard Eastham como o General Phil Blankenship

Além dos nazistas, algumas vezes representados pela Baronesa Paula Von Guther, a Mulher-Maravilha também enfrentava super-vilões, como Cheeta, Mulher-Leopardo, Giganta e, é claro, Marte, o Deus da Guerra, que desejava destruir as amazonas, amantes da paz, para continuar a instigar os homens à guerra.

Após a morte de Marston em 1947, a personagem nos quadrinhos continuou vivendo suas aventuras, chegando à década de 1960, quando surgiu a Garota-Maravilha, Donna Troy, uma órfã salva pela heroína. Através de um raio, Diana lhe dá super-poderes, tornando-a sua auxiliar no combate ao mau. Nesse período também surgiu I-Ching, um chinês mestre das artes marciais que se torna amigo de Diana.

Na década de 1970, a personagem foi atacada por outro psicólogo, Frederic Wertham, que a acusava de ser lésbica. Para ele, qualquer mulher que defendesse o feminismo só poderia ser homossexual. Assim, a personagem reduziu seu discurso feminista e passou a idolatrar o Major Steve Trevor.

O próximo passo da personagem foi adentrar o mundo da televisão. A primeira tentativa ocorreu na década de 1960, quando um piloto de cinco minutos chegou a ser produzido pelos mesmos responsáveis por “Batman”. Seguindo a mesma linha cômica, o primeiro roteiro foi escrito por Stan Hart e Larry Siegel, da revista Mad, o qual foi reescrito por Stanley Ralph Ross, da série “Batman”.

Na história, Diana vivia nos EUA em um pequeno apartamento, junto com sua mãe, Hipólita, que estava decepcionada com a filha por ela ainda ser solteira e ficar perdendo tempo em salvar o mundo. Diana, por sua vez, era uma jovem sem graça, como um patinho feio, que se transformava na Mulher-Maravilha. Quando se olhava no espelho, se via linda e maravilhosa. A personagem era interpretada por Ellie Wood Wallas e seu reflexo no espelho era Linda Harrison. Confiram o vídeo abaixo.

O enredo foi considerado medíocre a série não chegou a ser produzida, levando a personagem a ter uma nova chance na década de 1970. Depois de fazer sua estréia nas séries animadas “Superman-Aquaman Hour Adventure”, de 1967, e em “Os Superamigos”, de 1973, a Mulher-Maravilha foi comprada pela Warner Brothers, que deu início ao desenvolvimento de um telefilme.

Lynda Carter como Diana Prince

A idéia de Douglas S. Cramer, responsável pelo projeto, era trazer a personagem para o tempo presente, no qual ela seria uma aliada da CIA. O telefilme estreou em 1974, com Cathy Lee Crosby no papel título.

Sendo loira, vestindo um uniforme diferente daquele popularizado pelos quadrinhos e sem superpoderes, a personagem não retratava o universo popularizado pelos quadrinhos. A produção foi atacada pela crítica e pelos fãs, levando os responsáveis a reformularem o projeto, tornando-o mais fiel ao original dos quadrinhos.

Assim surgiu outro telefilme, com Lynda Carter no papel título. Inexperiente, a atriz, que tinha sido testada para o telefilme anterior, precisou enfrentar a resistência da rede ABC que queria Joanna Cassidy (240-Robert e A Sete Palmos) no papel principal.

Por curiosidade, entre as atrizes que fizeram testes para o projeto estão Suzanne Sommers (Step By Step), Rachel Welch, Lindsay Wagner (A Mulher Biônica), e aquelas que ficariam conhecidas como as panterinhas do Charlie: Kate Jackson, Farrah Fawcett, Cheryl Ladd e Jaclyn Smith.

No papel do Major Steve Trevor, o produtor Douglas S. Cramer contratou Lyle Waggoner, que já tinha feito testes para estrelar a série “Batman”.

Lyle Waggoner como Steve Trevor

Na história, a personagem passou por algumas mudanças, em função de orçamento e desenvolvimento criativo. Para se transformar na Mulher-Maravilha, Diana dá uma espécie de pirueta, fazendo surgir um clarão. Nos quadrinhos, a mudança é feita em alta-velocidade.

A personagem também adquiriu os poderes de mudar de voz e se comunicar com os animais. Para aprisioná-la, ao invés de unir seus braceletes, os bandidos teriam que retirá-los.

O telefilme foi um sucesso levando a ABC a produzir um outro, que mais tarde seria dividido em duas partes, apresentados como os dois primeiros episódios da série produzida entre 1975 e 1979 (já lançada em DVD no Brasil).

Lynda Carter como a Mulher-Maravilha

A série somente foi aprovada pela ABC quando as redes CBS e NBC demonstraram interesse em produzi-la. Após a primeira temporada, que retratou o universo criado nos quadrinhos, a série foi cancelada. Resgatada pela CBS, a segunda temporada foi produzida levando a personagem para o tempo presente.

Com o título de “As Novas Aventuras da Mulher-Maravilha”, a personagem foi transformada em uma espécie de “As Panteras”.Entre as mudanças, Steve Trevor teve uma participação reduzida, a Ilha Paraíso e o avião invisível foram dispensados, e a personagem abandona completamente a imagem tradicional de Diana Prince, identidade secreta da Mulher-Maravilha, que tinha o objetivo de passar despercebida das pessoas que a cercavam.

Na versão da CBS, ela é uma mulher exuberante, que vive na moda, que sequer utiliza óculos (à la Clark Kent) para disfarçar. Assim, ficou ainda mais difícil aceitar o fato que ninguém percebia que Diana era a Mulher-Maravilha.

Adrianne Palicki como a Mulher-Maravilha no piloto de David E. Kelley

Para justificar a presença da heroína no tempo presente, a história apresenta um novo piloto, no qual, Diana está de volta à Ilha (uma das poucas, senão a única, referência na nova fase), onde salva a vida de Steve Trevor Jr, interpretado pelo mesmo ator. Assim, ela decide retornar aos EUA para ajudá-lo na caça a comunistas, terroristas e traidores.

Cancelada em sua terceira temporada, a série não conseguiu explorar o universo e o potencial criado em torno da heroína. Agora, com um novo projeto está se desenvolvendo, as primeiras informações divulgadas levam a crer que a personagem continuará a ser desperdiçada pela televisão. Teremos que esperar para conferir.

Estrelada por Adrianne Palicki (Friday Night Lights), a série ainda está restrita à produção de um episódio piloto. No entanto, o produtor David E. Kelley declarou em entrevistas estar confiante que a primeira temporada será encomendada, chegando ao ponto de afirmar que a série deverá estrear até 2012.

Sua confiança pode estar relacionada ao seu contrato. Alguns produtores de renome conseguem estabelecer em contrato a obrigação do canal de encomendar os primeiros episódios de projetos com potencial de atrair o interesse de um grande público. Ainda não há informações de que seja este o caso.

Esta é a segunda tentativa de dar à heroína uma nova série de TV. Entre 1997 e 1998, existiu um projeto da Warner Bothers para se produzir uma série criada por Deborah Joy Levine, responsável por “As Novas Aventuras do Superman”, com Dean Cain e Teri Hatcher.

Em 2000, surgiram informações sobre um filme para o cinema. Na época, John Cohen tinha sido contratado para escrever o roteiro, que seria produzido por Joel Silver. Posteriormente, Joss Whedon (Buffy a Caça-Vampiros) teve seu nome ligado à produção, que parece ter sido jogada para 2015.

Cloris Leachman como a Rainha Hipólita

>> VEJA – por Fernanda Furquim

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