“MATADOURO 5”: O CÔMICO E O TRÁGICO EM KURT VONNEGUT

O cômico e o trágico em Vonnegut Por ocasião da morte de Moacyr Scliar, Luís Fernando Veríssimo, em sua coluna no “Estado de São Paulo”, dizia que nenhum outro escritor brasileiro dominou como Scliar “aquela estreita faixa da imaginação entre o cômico e o trágico frequentada por Kafka e Vonnegut”.

A propósito, Kurt Vonnegut – no seu último livro, “A Man without a Country” (2005) – observa que o humor é uma resposta quase fisiológica ao medo. Ao explicar como o humor funciona, pergunta por que o creme de leite – que vem em pequenas caixinhas de papelão (e não em latas, como no Brasil) – custa tão caro. Ora – diz ele – considere que responder perguntas é difícil. Elas põem à prova nossa inteligência e ficamos envergonhados quando damos a resposta errada. Encabulados pela pergunta sobre o preço do creme de leite nos calamos.

Então, quem perguntou oferece a resposta. “Porque as vacas detestam se agachar em cima daquelas caixinhas.” Aliviados, rimos. Não porque a frase seja engraçada. Mas porque sentimos alívio ao saber que não existe “a” resposta correta. Absolvidos, relaxamos a tensão e achamos graça.

Muitas das narrativas de Vonnegut têm a estrutura das piadas, com a tensão que cresce até que, no momento certo, a virada certeira e inesperada providencia o alívio. Mas não se deixe enganar. Vonnegut é um moralista. E é, também, profundo conhecedor da cultura norte-americana e filósofo das tragédias fabricadas pelo homem.

Autor do best-seller “Matadouro 5” – também aplaudido pela crítica literária – Kurt Vonnegut morreu em 2007, aclamado como grande figura do humor negro e satirista social inimitável. O humor negro reconhece o absurdo das “coisas da vida” e as transforma em matéria para riso. Mas a classificação de Vonnegut seja como humorista seja como escritor de literatura de ficção científica limita a compreensão de sua obra, que foi profundamente inovadora, tanto na forma como no conteúdo. Escritor original, de fato merece o lugar ao lado de Kafka que lhe confere Luís Fernando Veríssimo. Na voz de Doris Lessing, Vonnegut foi inigualável: escritor que “dá nome aos lugares que melhor conhecemos.”

“Matadouro 5” (L&PM Editores) tem como pano de fundo a destruição de Dresden em 1945. Em 14 de dezembro de 1944, as forças alemãs e aliadas se enfrentaram na batalha das Ardenas, quando 120.000 alemães e 75.000 americanos morreram. Kurt Vonnegut estava lá.

O choque entre alemães e aliados culminou dois meses mais tarde com a destruição de Dresden em 14 de fevereiro de 1945, em ataque liderado pelas forças britânicas. Embora, naquela época, as forças aliadas tivessem declarado que Dresden era centro de transportes e comunicação, hoje se sabe que sua destruição não serviu a nenhum propósito militar. A rede ferroviária de Dresden não foi afetada pelo ataque. Mas 135.000 civis indefesos morreram incinerados
por tempestade de fogo de mais de 500º.

Depois da Segunda Grande Guerra, varreu-se a catástrofe de Dresden para debaixo do tapete. As histórias militares evitavam mencionar o episódio que permaneceu classificado durante algum tempo.
As autoridades britânicas evitaram gabar-se do feito, porque entenderam que não encontrariam apoio nem entre os ingleses nem entre os aliados para o bombardeio da população indefesa de uma das cidades mais bonitas da Europa.

Durante algum tempo fingiu-se que a cidade tivesse alguma importância militar. Não era o caso. David Irving documentou os fatos em “A destruição de Dresden” (Nova Fronteira).

A tragédia resultou da indiferença grosseira de seus promotores? De vingança? A destruição ocorreu antes que a existência dos campos de concentração se tornasse conhecida e a única explicação para o descaso que se seguiu à carnificina é aquela oferecida por um militar no livro de Vonnegut: a história verdadeira deixaria muito perturbada qualquer pessoa dotada de consciência.

Mais civis morreram carbonizados em Dresden do que em Hiroshima. Mas foi através da leitura de “Matadouro 5” que a maioria dos norte-americanos tomou conhecimento da tragédia pela primeira vez. A experiência de Kurt Vonnegut durante a Segunda grande Guerra lhe deu material para criar Billy Pilgrim, o protagonista do romance. A guerra do Vietnã lhe ofereceu o momento para 3 contar a história de Dresden. Hoje, da Líbia ao Afeganistão, sobram motivos para relembrá-la.

“Matadouro 5” começa com uma espécie de prefácio onde o autor descreve a dificuldade de escrever o livro. Em seguida entra Billy Pilgrim, viajante do tempo. A maior parte das viagens de Billy gira em torno de suas experiências como prisioneiro de guerra.

Depois de um acidente de avião, Billy deseja contar a todos suas aventuras no planeta Tralfamadore, cujos habitantes o tinham sequestrado. Entre uma e outra aventura, Billy também recebe pacientes em seu consultório de optometria, que vai muito bem, diz ele. E, porque ele é um viajante do tempo, sabe de antemão o resultado do que faz e o que vai lhe acontecer.

Enquanto a filha o repreende, Billy viaja para as linhas inimigas com outros soldados. Viaja também para a ala de doentes mentais do hospital onde ficara depois da guerra. Viaja para o jardim zoológico de Tralfamadore. Para a própria morte. Para a noite de núpcias com Valencia. Para o campo de prisioneiros de guerra. Para o matadouro (onde os americanos se hospedam em Dresden). Para uma fábrica de xarope. Para os braços de Montana…

Valencia morre a caminho do hospital onde Billy está internado depois do acidente de avião. Billy vai a Nova York falar, em entrevista de rádio, sobre o que aprendeu com os homenzinhos verdes de Tralfamadore. E viaja ainda para a mina de cadáveres de Dresden, onde trabalha desenterrando carcaças. Ali, a polícia apanha o professor secundário, Edgar Derby, com uma chaleira que ele retirara das catacumbas. Edgar Derby é preso por pilhagem, julgado e fuzilado.

Mas afinal chega a primavera. A Segunda Guerra Mundial termina e Billy sai caminhando. “Os pássaros estavam conversando. Um deles disse a Billy Pilgrim:Piu-piu-piu?”

“Matadouro 5” é também um livro sobre ele mesmo, sobre o ato de escrever e o ato de ler, segundo Jerome Klinkowitz, crítico literário e amigo de Vonnegut. Os tralfamadorianos não são invasores. Eles visitam a terra porque sentem curiosidade sobre seus habitantes. Afinal, os terráqueos são únicos seres no universo inteiro que acreditam no livre arbítrio. E acreditar no conceito de livre 4 arbítrio faz mal? Pode fazer, se as pessoas começam a acreditar que são responsáveis por tudo o que acontece e esquecem a responsabilidade maior de inventar histórias e buscar significados.

Billy Pilgrim, como Vonnegut, aceita a responsabilidade de se perguntar sobre o sentido das coisas. Ambos são escritores. Não representantes de escritores que estão ou estiveram escrevendo histórias, mas escritores da história que estamos lendo, ela mesma. Nenhum dos dois tenta representar a realidade. Ambos a inventam: assim buscam o sentido da vida. Tralfamadore é apenas uma imagem.

Os Tralfamadorianos não nos trazem novas tecnologias futuristas, mas uma nova compreensão do tempo. Essa compreensão não nos chega em termos científicos ou filosóficos, mas através da literatura e se relaciona ao propósito e significado da humanidade.

Para Klinkowitz, a preocupação de Kurt Vonnegut com a teoria literária fica clara, porque Billy Pilgrim toma parte num programa de rádio onde se discute um tópico quente daquela época: a morte do romance. Nos idos de 1960, a morte do romance era um tema tão em voga quanto é hoje a discussão sobre a morte do livro.

Billy examina os romances em Tralfamadore e chega à conclusão que se parecem a telegramas recheados de estrelas a separar grupos de símbolos. Seu anfitrião o corrige. Não existem telegramas em Tralfamadore. Telegramas implicam sequência e é exatamente dela que foge o romance tralfamadoriano. Cada grupo de símbolos é uma mensagem breve e urgente, que descreve uma situação. Os símbolos se leem ao mesmo tempo. A simultaneidade substitui a sequência. “O
autor os escolheu com cuidado, para que vistos ao mesmo tempo produzam uma imagem da vida que é bonita e surpreendente e profunda.” Não há começo nem fim, apenas momentos maravilhosos, todos eles vistos ao mesmo tempo.
>> VALOR ECONÔMICO – por Eliana Cardoso

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