ASSEMBLEIA ESTELAR”, MARCELLO SIMÃO BRANCO

Pode ser que eu esteja enganado, mas tenho a impressão de que já houve época em que os contos de ficção científica eram mais presentes no Brasil. Claro, já tivemos algumas revistas dedicadas ao gênero, o que facilitava as coisas, mas os livros com contos também eram mais numerosos.

E é bom que se diga que alguns dos melhores momentos da ficção científica estão nos contos, sem desmerecer os imensos volumes que vêm sendo produzidos ultimamente, às vezes em trilogias, quadrilogias e outras “gias” – alguns com histórias realmente espetaculares.
Hoje, uma das editoras que tem se dedicado à publicação dos contos do gênero é a Devir, que apresenta agora esteAssembleia Estelar, que comprova que tamanho não é documento, fazendo uma coletânea excelente do que foi chamado pelo editor de “histórias de ficção científica política”, com autores brasileiros e estrangeiros.

E o livro já inicia muito bem, com uma introdução de 26 páginas, “Afinidades Eletivas Entre Ficção Científica e Política”, escrita pelo editor Marcello Simão Branco, que por si só já valeria o livro. Ele não só apresenta algumas definições e características da política, como estabelece a relação entre ela e a literatura de ficção científica. Além disso, elabora um painel histórico das obras que circulam direta ou indiretamente pelo subgênero “fc + política”, o que mostra, entre outras coisas, a abrangência do gênero e a facilidade com que transita pelos mais variados temas.

E variadas também são as abordagens fornecidas nos contos do livro, o primeiro deles, “A Queda de Roma, Antes da Telenovela”, escrito pelo português Luís Filipe Silva, já conhecido dos fãs de fc no Brasil, em particular pelos excelentes Galxmente e Terrarium (escrito com João Manuel Barreiros). Aqui, ele imaginou um futuro com um sistema de votação que se aproximasse da perfeição, exatamente por dispensar tanto os políticos quanto seus discursos vazios, centrando-se em resoluções baseadas na lógica e na real necessidade da nação e seus habitantes.

O segundo conto é “Anauê”, do brasileiro Roberval Barcellos. Para quem ainda não sabe, “anauê” era a antiga saudação dos integralistas brasileiros. Barcellos segue um tipo de história do gênero que se tornou bastante comum entre os escritores nacionais. Imagina que, em determinado momento da história, certos acontecimentos levaram-nos em outra direção. No caso, os integralistas de Plínio Salgado derrubaram o governo de Getúlio Vargas, estabelecendo uma aliança com os nazistas, que venceram a Segunda Guerra Mundial. A partir daí, o autor desenvolve o que teria sido a sociedade brasileira do futuro nos anos 1980.

Também está presente na coletânea André Carneiro, um dos mais importantes escritores do gênero no Brasil, com o conto “Gabinete Blindado”, que remete aos anos da ditadura militar no País, contado por uma personagem em forma de memórias resgatadas, entremeadas a dúvidas e lembranças emotivas.

Roberto de Sousa Causo apresenta o conto “Triunfo de Campanha”. Causo é um dos nomes mais importantes do cenário da fc nacional, e costuma utilizar muito bem o ambiente militar para compor suas histórias, e aqui não é diferente. O conto faz parte de uma série de aventuras com o personagem Jonas Peregrino, numa galáxia cada vez mais povoada e colonizada por humanos. A história não traz qualquer ação militar propriamente dita, mas o envolvimento de militares nas tentativas de políticos em dominarem o ambiente, após o aparente e inexplicável término de uma guerra contra uma raça alienígena. A história trabalha muito bem com a forma pela qual os políticos utilizam figuras públicas, famosas, para atingir seus objetivos.

“Diário do Cerco de Nova York” foi escrito por outro dos excelentes escritores brasileiros do gênero, Daniel Fresnot, autor do sensacional livro A Terceira Expedição (1987). Cenário e narrativas excelentes que, apesar de se situar em Nova York, poderia perfeitamente ser aplicado para qualquer grande cidade do Brasil, nas quais alguns dos mesmos problemas se verificam. O centro do conto é, na verdade, a estupides humana e a facilidade com que políticos tomam decisões que afetam profundamente a vida de milhões de pessoas, sem sequer pestanejar. No caso, um prefeito de Nova York, insatisfeito com os pesados impostos que a cidade tem de pagar ao governo federal – tal como ocorre no Brasil – decide revoltar-se. Com o apoio da população, a revolta resulta num confronto armado com tropas federais.

“Saara Gardens”, de Ataíde Tartari, apresenta um mundo globalizado no qual os interesses econômicos das grandes corporações continuam tendo mais importância, utilizando-se dos políticos como ferramentas para obter o que desejam. No caso, é a transformação do deserto do Saara num verdadeiro jardim, abrindo caminho para uma especulação imobiliária como jamais se viu. Existem referências bem claras ao nosso famoso “jeitinho” de se fazer as coisas, com favorecimentos e negociatas envolvendo empreiteiras.

O conto de Miguel Carqueija – outro dos grandes nomes da fc nacional, surgido na chamada “segunda onda” do gênero no Brasil – apareceu originalmente no famoso fanzine Somnium, no final do anos 1980, compondo um cenário possível para o País no início do século 21, com, bastante ironia. Nesse futuro imaginado, tornou-se comum o assassinato de figuras políticas, com a população cansada de esperar que os políticos resolvessem os problemas da nação como deveriam, sem se envolver em escândalos atrás de escândalos.

Fernando Bonassi talvez seja mais conhecido como o autor dos roteiros dos filmes Lula, o Filho do Brasil e Carandiru, entre outros, mas também tem participação ativa no gênero. Aqui ele apresenta “A Evolução dos Homens Sem Pernas”, publicado originalmente numa antologia francesa, em 2009. Trabalha, com muita ironia e sarcasmo, com a possibilidade de mutações ocorrerem nos humanos a partir da evolução de algumas tecnologias, utilizadas sem qualquer controle. Interessante, também, que o conto é narrado no passado, dando um certo tom de conto de fadas.

Em “A Pedra que Canta”, vemos novamente Henrique Flory, que surgiu na fc nacional nos final dos anos 1980, com obras sensacionais que chamaram a atenção da crítica, antes de interromper sua produção do gênero e se dedicar a outras atividades profissionais. O conto foi publicado originalmente numa coletânea com o mesmo titulo, em 1991, e aqui ele traz uma nova versão da história de um conflito que se intensifica entre Brasil e Argentina, no ano de 2018. É uma boa oportunidade para quem ainda não conhece a obra do autor.

A excepcional escritora Ursula K. Le Guin tem publicado seu conto “O Dia Antes da Revolução”, escrito com sua capacidade habitual, mas que deverá ser melhor entendido por aqueles que conhecem seu livro Os Despossuídos (1974), uma vez que traz personagens e eventos que antecederam a história narrada na obra, que apresenta uma sociedade anarquista “quase” perfeita. O conto segue as lembranças íntimas de Laia Odo, a principal líder da revolução anarquista que mobiliza o planeta Urrás, momentos antes da rebelião se alastrar.

“O Grande Rio”, de Flávio Medeiros Jr., é uma excelente história de viagens no tempo, com ação iniciando-se num momento futuro de uma Terra alternativa, na qual o presidente John F. Kennedy não foi assassinado. Isso provocou uma alteração significativa no planeta, e para pior, de modo que um viajante tenta reverter a situação viajando no passado, mas encontrando inúmeras dificuldades.

Já bem conhecido do público de fc no Brasil, Orson Scott Card tem o conto “O Originista”, que tem como atração principal o fato de se situar no universo da série Fundação, de Isaac Asimov. Originalmente, foi publicado na antologia Foundation’s Friends (1989), no qual vários escritores elaboraram histórias baseadas no universo criado por Asimov. Até mesmo Hari Seldon está presente no conto, que centra-se no cientista Leyel Forska e sua esposa Deet, também cientista, e o envolvimento de ambos na construção da Segunda Fundação, detalhando as intrigas políticas existentes no gigantesco planeta Trantor, o centro do Império. É o conto mais longo do livro, e uma delícia; dá vontade de ler Fundação novamente.

“Questão de Sobrevivência” é de um dos autores mais atuantes e respeitados da fc nacional, Carlos Orsi. O conto foi publicado originalmente na revista Sci Fi News Contos, em 2001. Imagina a cidade de São Paulo no ano 2030, com uma crise social sem precedentes, que levou o centro da cidade a se transformar num acampamento de desfavorecidos, sofrendo com as consequências de um ataque anterior. Uma doença impede o aleitamento materno e crianças nascem com deformidades, mas uma empresa desenvolveu uma forma de “limpar” o leite, que revende a preços exorbitantes, mas apenas para os “favorecidos”. É um cenário terrível e desenvolvido com imensa competência.

Fechando o livro, o conto “Vemos as Coisas de Modo Diferente”, de Bruce Sterling, uma das figurinhas carimbadas da fc a partir dos anos 1980, sempre associado ao desenvolvimento do subgênero cyberpunk, ao lado de William Gibson. Aqui, ele compôs um cenário futuro em que o mundo islâmico se expandiu, e os EUA se tornaram um país com imensos problemas econômicos. E o contraste entre as sociedades é apresentado na narrativa de uma visita de um jornalista árabe aos EUA, onde pretende entrevistar um famoso cantor de rock, que também é um político em ascensão.

Trata-se de uma obra interessante, sempre instigante, e uma boa oportunidade; para aqueles que ainda não têm muita afinidade com a produção nacional de ficção científica, de conhecer alguns dos principais autores; para os que já conhecem, confirmar a altíssima qualidade da produção literária brasileira de ficção científica.
>> VIMANA – por Gilberto Schoereder

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