“VISÃO ALIENÍGENA”: ASSEMBLEIA ESTELAR

Com Assembleia Estelar: Histórias de Ficção Científica Política (Devir Livraria, 400 pág.), Marcello Simão Branco organizou uma antologia de textos variados e interessantes, ressaltando a FC brasileira em vez da estrangeira, já que dos catorze autores só três são americanos – Le Guin, Card e Sterling -, se bem que estes estão entre os mais conscientes de diferenças culturais e perspectivas mais internacionais.

A introdução da antologia abrange a história da FC como a “literatura de mudança”, para usar a frase de James Gunn (autor não citado pelo organizador), e oferece um bom panorama do gênero desde suas origens em Platão com A República, passando por Thomas More e sua “utopia”, para chegar aos tempos modernos. Partindo da tradição política, Branco associa obras de FC com vários eventos históricos, como a revolução soviética, as guerras mundiais e a guerra fria, citando autores de diversas tendências como Heinlein e Pohl, até as modernas ou pós-industriais. Além do mais, apresentam-se as vertentes mais críticas como as do feminismo, ecologia e cyberpunk, esta última, curiosamente sem definir e sem mencionar William Gibson, um dos mais influentes autores docyberpunk.

O panorama de tendências brasileiras oferece uma meta-história do gênero, passando por etapas satíricas, eugenistas, aventureiras, e utópicas que apareceram entre o final do século 19 até os anos 40 do século 20. Na história da FC mais contemporânea, passa por fases da Primeira Onda dos anos 60, para as distopias de autores dos 70 protestando contra o regime militar, para chegar à Segunda Onda a partir dos anos 80. Segundo Branco, entre os tópicos políticos abordados por esta geração há políticas relacionadas à região amazônica, divergências históricas em forma de histórias alternativas, e visões mais pessimistas ou satíricas como as de autores cyberpunks. Porém, omite-se a menção da Terceira Onda, que só surge na apresentação do conto do escritor Flávio Medeiros, uma geração que focaliza assuntos e perspectivas mais internacionais.

A introdução de Branco tem um propósito duplo: oferece uma ampla visão do gênero ao mesmo tempo que serve para explicar a trajetória da FC brasileira desde o século 19 até a atualidade. Isto preenche as lacunas porque a perspectiva da antologia não é de oferecer textos representativos de várias épocas nem de ilustrar tendências específicas; ao invés, quase todos os textos são contemporâneos de 2010. O que falta na introdução é uma justificativa ou discussão da escolha ou princípio organizador dos mesmos. Por isso, a ordem dos textos parece aleatória, mudando de assunto e de época sem transição. O editor afirma que seguiu o modelo de Asimov em Election Day 2084 (1984), dizendo que esta coletânea “inspirou a organização deste que você tem nas mãos”, mas não elabora mais. Por isso, tentarei uma organização temática própria, sem seguir a ordem do índice.

Ditadura e Rebelião

A época da ditadura é lembrada em textos da guerrilha e a luta esquerdista. A evocação da ditadura está presente no conto “O Gabinete Blindado” de André Carneiro, mas de forma subjetiva porque é narrado por uma jovem lutando contra um regime repressor. A militância e a liberação sexual evocam os anos 60, época da militância do próprio autor. Portanto, o interessante do texto recai justamente no uso de uma voz narrativa feminina, técnica utilizada nesta e só em mais uma história, a de Ursula K. Le Guin, “O Dia Antes da Revolução” (1974). O conto da autora americana é sobre uma militante anarquista que, na terceira idade, se lembra da sua juventude e sua vida de luta. Mesmo à beira da morte, ela lembra que a revolução é um processo que continuará com ou sem ela. A evocação subjetiva de experiência política é convincente nestes contos, que trazem finais ambíguos ou abertos para especulação, em contraste com os outros da coletânea.

Redemocratização

Entre os tópicos abordados pelos autores brasileiros está a da redemocratização. No texto do autor português Luís Filipe Silva, “Queda de Roma, antes da Telenovela”, o idealismo democrático e grandes metas políticas estão mortos. Sem memória da luta contra regimes ditatoriais, a televisão toma conta de tudo. Em “Trunfo de Campanha,” Roberto de Sousa Causo lida com o problema ético de um herói de guerra pressionado para participar da política galáctica, enquanto em “Saara Gardens”, Ataíde Tartari imagina uma eleição que determinará o futuro do deserto do Saara num contexto global. A corrupção ou manipulação política brasileira agora aparece num palco mais amplo. No caso de Causo, existe um fim menos cínico do que as histórias de Silva ou Tartari, mas todos questionam o futuro da política brasileira e sua possível expansão.

Distopia e as Políticas Neoliberais

A distopia e o futuro pesadelo também florescem com a época do neoliberalismo em meados da década de 80 e o início de 90, como vemos no caos político dos contos de Fresnot, Flory e Carqueija. A noveleta “O Cerco de Nova York” (1984) de Fresnot evoca o tema de desastre urbano na metrópole americana, onde um político populista inspira rebelião nos habitantes de Nova Iorque. Embora esta política caiba melhor no centro conservador dos EUA e não em uma cidade cosmopolita, o diário do visitante francês em busca de solidariedade e sobrevivência lembra as imagens do atentado real das torres do 11 de setembro. Em “A Pedra que Canta” (1991, atualizado em 2011) de Flory, temos outro futuro de pesadelo com o Brasil em guerra contra a Argentina. Aqui a manipulação de um jovem para assegurar uma vitória brasileira contra o velho inimigo, alude ao romance O Jogo do Exterminador (1983) de Orson Scott Card, só que o jovem brasileiro tem um “implante” feito no Japão. O fato de que o Paraguai tem um líder e investimento chineses pode se referir ao novo poder econômico asiático do século 21, e a pressão para uma vitória política e econômica do Brasil contra a rival Argentina. O conto de Carqueija, “Era do Aquário”, também lida com o nacionalismo, mas de forma abertamente irônica: um senador brasileiro, após ter sofrido vários ataques durante um breve trajeto de carro no Rio de Janeiro, fala ante uma platéia universitária para falar do triunfo da democracia do “país do futuro”, numa extrapolação da política neoliberal que só consegue dividir em vez de unir a população.

Histórias Alternativas

Duas histórias alternativas, uma sobre os integralistas no Brasil e outra sobre John F. Kennedy, são textos que continuam um movimento importante da Segunda Onda da FC brasileira. Em “Anauê”, Roberval Barcellos oferece o dilema moral do protagonista diante as ordens dos nazistas a respeito da população judaica no Brasil. O precipitado final do conto não evoca o mesmo realismo que o início, mas o conto aborda um tema relativamente tabu dentro dos estudos históricos e literários: o fascismo brasileiro. Em “O Grande Rio”, Flávio Medeiros explora uma viagem no tempo para matar o presidente Kennedy, evitando assim um futuro pesadelo que resulta da sua sobrevivência. Como escritor da Terceira Onda de FC, Medeiros ambienta sua história de conspiração inteiramente nos EUA, como admirável pesquisa, só errando a ortografia de John Connely (que deve ser Connolly).

Império

A futura sociedade baseada no consumismo é o tópico do conto “A Evolução dos Homens sem Pernas” de Fernando Bonassi. Ensaístico e abstrato, o conto elabora em página após página, como o constante consumo de bens leva à desumanização. Estes novos humanos deformados lembram os excessos de uma sociedade consumista e politicamente correta. Quase um quarto da antologia se dedica a um só texto: “O Originista” (1989) de Orson Scott Card, que utiliza personagens da série Fundação de Asimov. Mas o texto de Card trata menos de golpes da política imperial e mais da relação íntima do protagonista e sua mulher e da sua busca para garantir o futuro da humanidade após a queda inevitável do império.

Cyberpunk

Não é à toa que os últimos contos sejam de cyberpunk – um brasileiro, outro americano – sendo estes os mais críticos e chocantes da antologia. O conto de Carlos Orsi, “Questão de Sobrevivência”, parece o protótipo de FC política brasileira, não só no assunto, mas também na sua ambientação, num futuro Vale de Anhangabaú poluído, cheio de indigentes, onde a luta de classes, a questão ambiental, e o controvertido uso do leite humano lembram o melhor da FC ambiental dos anos 70 e 80, junto com uma visão cyberpunk de rebeldia. O conto de Bruce Sterling “Vemos as Coisas de Modo Diferente” (1989), explora a visão de um muçulmano em um EUA futuro já em plena decadência. Como não é de surpreender, o protagonista/narrador realiza sua jihad, mas de forma particular, sutil e insidiosa, desde sua perspectiva ou visão do mundo.

Uma crítica da antologia seria a falta de participação de mulheres, com a exceção de Le Guin. A antologia de Asimov não tem nenhuma escritora, como também se vê nas novas antologias recentes de Steampunk, Vaporpunk e Dieselpunk. Que eu saiba, até agora Lugar da Mulher É na Cozinha, antologia organizada por Martha Argel, é a única que traz só escritoras. Até a imagem da capa deAssembleia Estelar retrata três oradores masculinos, um homem branco, um homem de cor, e um robô masculino, com umas mulheres na plateia. Eu também teria gostado de ver incluído contos como “Guerra Civil” (1997) de Domingos Pellegrini. Nesta história, grupos de cachorros começam a atacar populações humanas, mas talvez não se trate de FC propriamente dita mas uma alegoria política. Existem pequenos erros ortográficos dos nomes John Wyndham, Cyril M. Kornbluth, Herberto Sales e China Miéville, mas fora isto, a edição é boa.

Em geral, Branco oferece uma sólida orientação sem ser pedante na introdução, e também nos resumos e nas biografias que antecedem os contos. Com os temas de redemocratização, mundos distópicos, histórias alternativas, caos urbano, consumismo, e tecnologia, esta antologia pode repercutir tanto para o leitor experiente, quanto ao iniciante no gênero. Representa uma antologia para provocar discussão entre fãs, leitores comuns e até entre alunos em sala de aula.

–M. Elizabeth Ginway leciona na University of Florida. Uma das maiores especialistas na ficção cientíifica do Brasil, é autora de Ficção Científica Brasileira e Visão Alienígena.
>> TERRA MAGAZINE – por M. Elizabeth Ginway

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