“NATIMORTO”: ENTRE O ÚTERO E A FORCA

“Quadrinista trabalha demais e não tem retorno nenhum”, afirmou Lourenço Mutarelli ao comentar seu afastamento das HQs. Aqueles que amaldiçoaram o tratamento que o país dispensa aos seus autores, porém, já não têm do que reclamar: a verve maldita de Mutarelli continua gerando iguarias.

 

Respeitadíssimo nounderground pela virulência de suas HQs, o artista se consolidou como romancista e vem progressivamente conquistando espaço no cinema. Primeiro, tivemos as animações deNina (2004) e a adaptação de seu romance O cheiro do ralo (2006). Agora, o circuito comercial recebe Natimorto(2009), filme de estreia do diretor Paulo Machline, que adapta seu romance O natimorto: um musical silencioso.

No longa, um caça-talentos (o próprio Mutarelli) recebe uma cantora (Simone Spoladore) em São Paulo, com a promessa de apresentá-la a um maestro. A chegada dela, porém, põe seu casamento em cheque, e o agente propõe à cantora algo inusitado: embora mal se conhecessem, eles dividiriam um quarto de hotel do qual ele decide não sair mais, deixando para trás uma profissão, uma esposa (Betty Gofman) e todo o asco que o mundo lhe inspirava.

Surpreendida, a cantora busca um “meio termo”: ela poderia deixar o quarto quando bem entendesse e não teria nenhuma obrigação conjugal com o agente que se considera assexuado. Dessa forma, no quarto esfumaçado pelos cigarros acesos quase ininterruptamente, firma-se o pacto que fundamenta um dos filmes nacionais mais instigantes já produzidos.

“Eu vou cantar para você dormir”

Natimorto é praticamente um filme “em primeira pessoa”, ancorado no ponto de vista do agente. Permanecemos com ele quando a cantora sai, visualizamos apenas as lembraças dele e ­– consequentemente – compartilhamos com ele o peso cada vez mais maior do seu retiro. Da cantora, por sua vez, temos apenas o que é expressamente manifesto: suas palavras, seus gestos e sua presença. Tanto sua ausência quanto sua intimidade são preservadas (nada sabemos do que ela cala).

Nada mais acertado, portanto, que o recurso utilizado para apresentar sua “voz da pureza” (para usar palavras do agente): se temos contato com a arte dela por meio do filtro impressionista do protagonista, que pureza seria mais convicente que o próprio silêncio? Cada vez que ela canta, o que fica evidente não é o canto em si, mas a calmaria que ele lhe proporciona.

Calmaria, aliás, é algo raro no longa. A tensão reina do início ao fim e amadurece conforme o arranjo das personagens é posto à prova pelos altos e baixos de sua rotina. Garantir que esse amadurecimento transpareça nas atuações é, a propósito, um dos grandes desafios do filme.

Como sua personagem exige, Mutarelli começa desajeitado e artificial, como alguém que “fala como se escrevesse”, mascarando um temperamento rancoroso que só se despe do autopoliciamento nas agressões contra ela. Por sua vez, Spoladore administra uma doçura que desaparece conforme o mundo externo lhe apresenta possibilidades mais promissoras que o “regime semiaberto” ao qual se submeteu. Quanto menos ela “depende” do agente, mais ela faz valer sua privacidade no trato com ele.

“Eu só me vejo invertido”

Não há nada, porém, que chacoalhe mais a rotina de ambos do que aquilo que podemos considerar a coluna dorsal do filme: a crença do agente, logo compartilhada pela cantora, de que as fotos de advertência dos maços de cigarro de alguma forma se relacionam com as cartas do tarô. Como cada um fuma exatamente um maço por dia, as tentativas de ler a sorte nas mensagens de advertência norteiam-nos dia após dia, fornecendo as precauções e os temores que impedem que sua convivência reclusa se limite ao tédio e ao ócio.

Advém daí, também, a principal motivação e o principal temor do protagonista. Seu grande anseio é livrar-se da decadência mundana, tendo como ideal a pureza dos natimortos. Para isso, providencia um útero (um quarto de hotel, depois uma banheira) e uma mãe (a cantora com quem o sexo se configura um tabu). Seu medo é personificar o enforcado. A cama vazia assume o papel da forca e, conforme a ausência da cantora se torna mais frequente, cada despertar traz um novo calafrio na contemplação dos maços.

Há quem possa afirmar que essa premissa da convivência de um casal entre quatro paredes tem fortes paralelos com longas do Arnaldo Jabor. Cuidado: Natimorto está paraEu sei que vou te amar como um delírio de Antonin Artaud está para uma vinheta de Hans Donner. A visceralidade que Mutarelli cultivava no underground continua plenamente reconhecível. Nessa travessia, sem fazer concessões, sua autenticidade resiste incólume. Permanece pura, como os natimortos.
>> CONTRAFORMA – por Cid Vale Ferreira

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