“FÁBULAS DO TEMPO E DA ETERNIDADE”, DE CRISTINA LASAITIS

Lançado em 2008 e já em sua segunda edição, “Fábulas do Tempo e da Eternidade” (Tarja Editorial, 206 páginas), livro de estreia da paulistana Cristina Lasaitis, é uma coletânea de contos que transitam majoritariamente entre ficção científica e fantasia, tendo como tema principal a passagem do Tempo. Com abordagens sempre particulares e estabelecendo entre si algumas interessantes conexões, os doze textos que compõem o livro destacam-se pela qualidade da escrita e pelas tramas multifacetadas, abraçando o fantástico sem nunca se descuidar do aspecto humano, com todos os sentimentos e contradições que o envolvem.
O primeiro conto, “Além do Invisível”, apresenta-nos um cenário futurístico em que a realidade virtual tornou-se a realidade, onde acompanhamos o romance de Marcos e Maya. A autora é competente em contrastar a magnitude dos cenários irreais com a decadência do mundo onde os usuários se conectam, e retrata o amor entre os dois de maneira bastante sensível, apesar das circunstâncias surreais em que a relação se situa (ou quem sabe exatamente por causa delas). A conclusão do conto é singela e enigmática, tornando-o uma boa amostra do que se seguiria nos próximos textos.

Em “As Asas do Inca”, conhecemos um poderoso imperador do império pré-colombiano obcecado pelo desejo de observar o futuro. Para isso, recorre à magia. O conto tem um tom claramente fabuloso – que a pequena introdução já antecipa – e, apesar do desfecho algo previsível, naturalmente balizado por uma lição de moral (não seria uma fábula caso não houvesse uma), consegue convencer, remetendo à natural curiosidade humana e colocando-a lado a lado com o desejo pelo poder, uma combinação que fatalmente trás consequências.

“Nascido das Profundezas” narra um encontro entre culturas num Atacama pós-apocalíptico. De um lado, os neo-atlantes, desenvolvidos em saberes e tecnologia, de outro, grupos nativos que literalmente pararam no tempo após um período de guerras e peste. A reação é de estranhamento por parte dos primeiros, e festa por parte dos segundos. A autora explora bem o cenário criado, e os desdobramentos do pano de fundo – a história por trás da história, que aqui surge adequadamente em volta de uma fogueira, contada por um velho, envolta num tom lendário – soam verossímeis dentro daquelas circunstâncias obviamente fantásticas. Um ótimo texto.

Em seguida vem “Revés Alquímico”, provavelmente o conto que menos me agradou. Nele, uma farmacêutica começa a trabalhar com um excêntrico professor amante da alquimia, e os dois metem-se com o segredo do famoso Elixir da Longa Vida. O principal problema do texto são os personagens, um tanto desinteressantes, e o tom cômico de muitas das situações, que a meu ver atrapalha por impedir um envolvimento maior com a trama. Por outro lado, os efeitos do elixir são um pouco diferentes do que seria de se supor, e a autora merece pontos pela boa sacada. Ainda assim, penso que um desenvolvimento um pouco mais sério contribuiria para um todo mais satisfatório.

A ficção científica volta em “Assassinando o Tempo”. Uma cientista brasileira está às vésperas de colocar em prática uma experiência que pode vir a provar uma teoria sem precedentes na história da Ciência: a não existência do Tempo. Dispensando a atenção necessária ao aspecto científico da trama sem soar maçante ou prolixa, a autora também acerta ao investir algum tempo no desenvolvimento da protagonista, Cláudia Mansilha. Bem trabalhado ainda na construção do suspense em torno do experimento e na especulação de possíveis desdobramentos do mesmo (nesse sentido, a oposição de grupos religiosos soa mais do que verossímil), o conto destaca-se como um dos melhores do livro.

Segue-se “A Outra Metade”, e o nível continua alto. Uma sibila* caminha pelas ruas de uma metrópole, sozinha, fadada a nunca encontrar sua alma gêmea, de quem fora separada na Criação. Porém, oferecendo um sacrifício à Solidão, a mulher tem a chance de olhar para o futuro e capturar um breve vislumbre daquela que lhe completaria de acordo com a ordem do universo – seu amor, sua outra metade. Lasaitis trata o tema com uma singeleza desconcertante num conto que merece destaque pela beleza das palavras. A solidão da sibila surge de maneira aterradora, amparada pela prosa ágil e quase lírica da autora, permeando cada linha e culminando num clímax poderoso – o encontro -, uma intensa explosão de sentimentos habilmente narrada e bem urdida. De longe, meu texto favorito.

Em “Viagem Além do Absoluto”, os dois últimos seres viventes vagam por um universo em ruínas, com a entropia alcançando seu limite. Em certo sentido, dada a temática do livro, esse conto representa seu ápice, o momento em que o Tempo e tudo mais deixarão de existir. A perspectiva do Fim por si só já desperta interesse e fascinação, e a autora é competente ao explorá-la, coroando o texto com passagens que revelam sentimentos de maneira sutil e humana.

“De Onde Viemos, Para Onde Vamos” tem como grande barato a inusitada identidade de seu narrador, uma escolha criativa e divertida que dá algo mais ao breve conto – trata-se do menor do livro. Destaque também para o ótimo final.

“Irmãos Siameses” vem em seguida. O título é autoexplicativo: os protagonistas são dois irmãos que nascem ligados pelo pescoço. O cenário é o mesmo deserto visto em “Nascido das Profundezas” (os dois contos dialogam abertamente, em dado momento). A trama foca basicamente no crescimento dos irmãos, e, em certo momento, numa dura escolha que terão de fazer. O conto naufragaria caso os personagens principais não fossem bem construídos, e, felizmente, isso não ocorre. O leitor se envolve com a narrativa na mesma medida em que se importa com os irmãos, em outra boa demonstração do bom gosto da autora na criação de personagens.

“Caçadores de Anjos” abraça novamente a fantasia, narrando a jornada de uma caçadora especializada em transformar anjos caídos em humanos. Funciona bem, com um clímax bastante intenso, mas, por outro lado, pareceu-me um tanto deslocado em meio aos outros contos do livro quanto a sua relação com a temática central. De todo modo, um bom texto.

“Os Parênteses da Eternidade” consiste numa troca de correspondências entre duas pessoas distantes alguns séculos uma da outra, através do Correio do Não-Tempo. Este conta apresenta alguns interessantes desdobramentos dos acontecimentos vistos em “Assassinando o Tempo”, além explorar alguns dos paradoxos e riscos da comunicação entre épocas diferentes. Bom como a maioria.

Fechando as Fábulas, apropriadamente, “Meia-noite”. Passado no mesmo universo de “Além do Invisível”, que abre os trabalhos, e compartilhando com este primeiro alguns personagens, a história de Syl, funcionária de uma poderosa corporação atacada por uma Inteligência Artificial dá um ótimo fechamento ao livro, remetendo diretamente ao cyberpunk das tecnologias integradas de maneira quase orgânica à vida cotidiana e dos grandes conglomerados mandando no mundo. Com um término vibrante – o último parágrafo fica na cabeça depois que se fecha o livro – o conto estabelece-se facilmente como um dos melhores da seleção e mostra definitiva do talento da autora.

“Fábulas do Tempo e da Eternidade” é uma forte recomendação. Boas leituras.
>> DEPÓSITO DE DESATINOS – por Josué de Oliveira

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