O MITO DO ALIENÍGENA MAL INTENCIONADO

Por que Stephen Hawking está errado sobre o perigo da inteligência de extraterrestres?

Com o Arranjo de Telescópios Allen mantido pelo Instituto de Busca por Inteligência Extraterrestre (Seti, na sigla em inglês), no norte da Califórnia, chegará a hora em que encontraremos uma inteligência artificial (Eti). O contato provavelmente chegará mais cedo que se espera por causa da lei de Moore ─ proposta pelo cofundador da Intel, Gordon E. Moore, que propõe a duplicação da capacidade dos computadores a cada um ou dois anos. Acontece que essa curva de crescimento exponencial se aplica à maioria das tecnologias, incluindo a busca por Etis: de acordo como o astrônomo e fundador do Seti, Frank Drake, nossas pesquisas hoje são 100 trilhões de vezes mais poderosas que há 50 anos, sem previsão para o fim dessas melhorias. Se houver um ET lá fora, faremos contato. O que acontecerá quando o fizermos? Como será a resposta deles?

Questões como essas, mesmo no âmbito da ficção científica, estão sendo seriamente consideradas pelo mais antigo e um dos mais prestigiados periódicos científicos do mundo ─ Philosophical Transactions of the Royal Society A ─ que dedica 17 artigos da edição de fevereiro à “Detecção de Vida Extraterrestre e suas Consequências para a Ciência e Sociedade”. Por exemplo, várias respostas apregoam o mito de que a sociedade colapsará pelo medo ou se despedaçará pelo balburdia provocada ─ ou que os cientistas e políticos se unirão numa conspiração para ocultar a verdade. Dois desses exemplos foram testemunhados: um em dezembro de 2010, quando a Nasa anunciou, numa palestra aberta à imprensa, uma possível nova forma de vida baseada no arsênico, e outro em 1966, quando cientistas publicaram que uma rocha marciana continha evidências fósseis de vida primitiva no Planeta Vermelho e o presidente Bill Clinton se pronunciou a respeito. Agências espaciais que disputam acirradamente os recursos disponíveis como a Nasa e organizações privadas que dependem do levantamento de fundos como o Instituto Seti divulgarão em alto e bom som qualquer sinal extraterrestre que encontrarem, de micro-organismos a marcianos. Mas podemos voltar aos alienígenas?

De acordo com Stephen Hawking, devemos nos calar. “Só precisamos olhar para nós mesmos para ver como a vida inteligente pode se desenvolver e resultar em alguma coisa que não gostaríamos de encontrar”, ele explicou na série de documentários do Discovery Chanel em 2010. “Eu os imaginava viajando em naves robustas, depois de terem esgotado todos os recursos naturais de seus planetas de origem. Alienígenas tão avançados talvez pudessem ter se tornado nômades, tentando conquistar e colonizar qualquer planeta que encontrassem”. Considerando a história de confrontos entre civilizações terrestres nas quais os mais avançados escravizavam ou destruíam os menos desenvolvidos, Hawking conclui: “Se alienígenas nos visitarem um dia, eu acredito que o resultado seria muito parecido com o que aconteceu quando Cristovão Colombo pisou em terras da América, o que não foi muito agradável para os nativos americanos”.

Sou cético. Embora só possamos fazer uma tentativa em n elementos e apesar de nossa espécie ter um registro não invejável dos primeiros contatos entre civilizações, a tendência dos dados para a metade do milênio passado é encorajadora: o colonialismo está morto, a escravidão está morrendo, a porcentagem de pessoas que perece em guerras diminuiu, o crime e a violência estão em queda, liberdades civis são sendo preservadas e como testemunhamos no Egito e em outros países árabes, o desejo de ter democracias representativas está se espalhando, juntamente com a educação, ciência e tecnologia. Essas tendências tornaram nossa civilização mais inclusiva e menos exploradora. Se extrapolarmos essa tendência dos últimos 500 anos para os próximos cinco mil ou 500 mil anos, teremos uma noção de qual seria a aparência de um Eti.

Na verdade, qualquer civilização capaz de empreender longas viagens espaciais terá avançado muito além do colonialismo explorador e de fontes de energia não sustentáveis. Escravizar nativos e apoderar-se de seus recursos pode ser lucrativo a curto prazo para as civilizações terrestres, mas essa estratégia poderá não persistir nas dezenas de milhares de anos necessários para as viagens espaciais interestelares.

Nesse contexto podemos entender que as civilizações extraterrestres nos pressionam a considerar a natureza e o progresso da civilização terrestre e nos dão a esperança de que quando fizermos contato, pelo menos uma inteligência terá conseguido atingir um nível no qual a incorporação de novas tecnologias substituiu o controle das pessoas e a exploração do espaço superou a conquista de terras. Ad astra!

>> SCIENTIFIC AMERICAN – por Michael Shermer

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