LITERATURA FANTÁSTICA BRASILEIRA

Vector light renderSe aquilo que escrevemos é oriundo do imaginário, o fantástico é fruto dos sonhos. Isso coloca a literatura fantástica brasileira como tendo uma gênese semionírica tinta de verde e amarelo.

Seria querer fechar os olhos a quem nos traz um legado tão importante dizer que o gênero fantástico no Brasil é algo que nasceu nas últimas décadas. Lembro-me de quando li Noite na Taverna, de Álvares de Azevedo, ainda na adolescência: ignorar que seja literatura fantástica (chamar de quê? realismo criativo? histórias pseudorreais sanguinolentas? ultra-romantismo?) é querer negar que em 1855 um brasileiro, mesmo que postumamente, teve sua narrativa fantástica publicada.

Não podemos querer usar eufemismos aqui, como bem aponta Nilto Maciel, na revista de contos Bestiário: não se trata do maravilhoso, do sobrenatural aceito, do hiperbólico, exótico ou mesmo estranho ou grotesco. Existe alguma razão prática para se negar que se produz literatura fantástica no Brasil? Por ser uma literatura de entretenimento deve-se colocá-la num patamar menor, como se fosse uma pequena arte? – isso se for considerada arte…

Temos, sim, autores de literatura fantástica. Escrevemos histórias maravilhosas e exóticas e estranhas e até mesmo grotescas, mas tudo isso é apenas a manifestação do fantástico. Seja carregado de simbolismo ou tão direto quanto o autor deseje, é assim que se produz a literatura fantástica brasileira.

É claro que há expoentes lá fora: Tolkien, Martin, Rowling, Poe, Le Guin… Mas não ofusquemos nossos olhos ao ver o brilho que trazem sem ousarmos conhecer o quão brilhantes são nossos autores. Temos obras tão profundas, e tão divertidas, quanto as que são traduzidas… Muitas delas na estante da livraria próxima da sua casa ou apenas a um clique de distância em lojas virtuais. Mas existem barreiras para se conhecer tais livros?

Ainda existem. Às vezes parece que o que se escreve em território nacional não é visto com bons olhos. Dizem que é problema de preconceito… Eu, contudo, acredito que seja apenas falta de divulgação.

Como já disse em outros momentos, se o leitor não sabe que a obra está à venda, é como se ela não tivesse sido escrita: ninguém lê o que não sabe que existe. Felizmente existem iniciativas como o Fantasticon que primam pela divulgação e fortalecimento da literatura fantástica brasileira. É uma estrada longa a ser percorrida, mas já estamos dando os primeiros passos.

Para que ajudemos esse gênero fantástico que tanto amamos a crescer, basta quatro simples passos, que consolido como princípio EDEN (afinal, o Paraíso é também um lugar fantástico, não?):

  • Escrever
  • Divulgar
  • Enfrentar
  • Nobilitar

Os autores nacionais de literatura fantástica devem Escrever sempre, aprimorando suas técnicas de narrativa, buscando inspiração e colocando no papel o melhor que puderem. É preciso ter obras de qualidade para que se busque o reconhecimento (que vem, naturalmente, com o tempo).

Leitores, autores e editores devem Divulgar a literatura fantástica brasileira. Gosta de um livro? Faça uma resenha, recomende para um amigo… Ou melhor: dê livros de presente. Editores que apoiam seus autores e buscam estar presente em eventos literários também são ferramentas inestimáveis.

Fundamentalmente, é preciso Enfrentar as barreiras do preconceito. Assumindo que a literatura fantástica seja divulgada (ver princípio acima), uma das coisas que pode impedir a leitura é o preconceito de ver o nome de um autor nacional na capa. Ajude as pessoas a formar conceitos, deixando de lado quaisquer ideias preestabelecidas.

E, por fim, é preciso Nobilitar a literatura fantástica brasileira. Nobilitar significa tanto enobrecer como celebrar, e devemos tanto fazer dessa arte algo nobre (e, portanto, respeitada) como também devemos comemorar as vitórias que conseguimos no dia a dia. Cada leitor novo que reconhece o valor das narrativas fantásticas, cada livro publicado, cada manuscrito pronto… Tudo isso representa um grandioso avanço para todos nós.

Sonhemos. E realizemos. Só assim conseguiremos uma realidade fantástica onde nossas histórias terão excelso valor.
>> LETRA IMPRESSA – por Marcelo Paschoalin

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