A LITERATURA FANTÁSTICA DO PARÁ: VICENTE CECIM E A VIAGEM A ANDARA

Há 32 anos, Andara emergia dos sonhos do escritor Vicente Franz Cecim. Uma região imaginária, que fez da Amazônia sua matéria-prima, uma floresta sagrada de águas, peixes, aves. Paraíso encantado onde tudo pode acontecer. “Árvores podem falar com os homens, aves que caem do céu se transformam instantaneamente em terra, retornando ao pó, o vento vem nos contar histórias, tu podes te deparar com uma mulher alada.

Há muitos outros seres alados em Andara, talvez anjos ou sejam demônios, que descem do céu com suas asas negras, com suas asas brancas para conviver com os seres humanos”, descreve Cecim sobre sua terra enfeitiçada.

Andara fez sua primeira aparição em 1979, no livro “A Asa e a Serpente e Manifestos Curau”, publicação que inaugura “Viagem a Andara, o Livro Invisível”, obra fantasma, que vai tomando corpo à medida que são escritos cada um dos doze livros que até agora insurgiram da imaginária floresta de Cecim. “Quando os livros escritos de Andara tiverem deixado de existir um dia, a ‘Viagem a Andara, o Livro Invisível’ que não é escrito continuará existindo em sua existência de não-livro”, diz o autor, que relança sua primeira obra dentro do projeto “Orgulho de Ser do Pará”, do DIÁRIO, promovido pelo Grupo RBA de Comunicação.

“A Asa e a Serpente e Manifestos Curau” inaugurou um dos mergulhos mais abissais a uma Amazônia reinventada, rompendo a fronteira entre prosa e poesia, numa fusão entre o natural e o sobrenatural, o profano e o sagrado, para se lançar numa intensa busca metafísica do sentido do ser e da vida.

“Andara é lugar de sonhar, Andara é a imaginação em liberdade, Andara quer abolir a razão do ato de escrever. Andara é quase um manifesto prático contra a literatura regionalista, mimética, que geralmente se limitava a copiar, e copiar mal, a realidade amazônica. Mas a realidade é oculta em si mesmo: se disfarça em sua epiderme.

Fazer literatura assim é ampliar o ilusório”, defende Vicente, que buscou nas memórias de infância o alimento de sua escrita.

“Meu único alimento foi a literatura oral, as lendas, os mitos, que aprendi desde criança a admirar através da minha mãe, Yara Cecim, que nos contava, não os contos dos irmãos Grimm, de Perrault, que tem coisas geniais, mas umas histórias delirantes da região, para nos fazer dormir, a mim e aos meus irmãos. O sono vinha, mas como um portal de acesso a todo esse mundo feérico. Não sabíamos mais o que era natural e o que era sobrenatural”.

A literatura fantástica de Cecim arrebatou a crítica pelo país, e alcançou reconhecimento além mar. “Ò Serdespanto”, lançado em Lisboa em 2001, foi apontado como o segundo melhor livro do ano. Tempos antes, em 1980, Cecim recebeu o prêmio Revelação de Autor da APCA – Associação Paulista de Críticos de Arte, por sua segunda obra, “Os animais da terra”. Em 1988, o

Grande Prêmio da Crítica da APCA, nessa década somente atribuído também a Hilda Hilst, Cora Coralina e Mário Quintana. Em 1994, “Silencioso como o Paraíso” foi aclamado pelo jornalista e crítico literário Leo Gilson Ribeiro como “um dos mais perfeitos livros surgidos no Brasil nos últimos dez anos, encanto a que Guimarães Rosa chamava de ‘peregrinação álmica’”.

O crítico gaúcho Antônio Hohlfeldt, no Correio do Povo, também viu na escrita inventiva de Cecim aproximação com as palavras do autor mineiro. “Depois de Guimarães Rosa, o paraense Vicente Cecim é o responsável por um dos mergulhos mais fantásticos e essenciais que a literatura brasileira já realizou sobre o sentido do homem.” E Oscar D’Ambrosio, no Jornal de Tarde, de São Paulo, endossou o diálogo: “Ler Viagem a Andara é penetrar em narrativas poéticas subversivas e míticas que trazem à tona, sempre renovado, o aforismo roseano: Viver é perigoso.”

Cecim e Rosa como alquimistas em suas criações. “Minha escritura tem a mesma má intenção da de Guimarães Rosa: abolir as fronteiras artificialmente demarcadas entre a prosa e a poesia. Mas, talvez, principalmente, porque Rosa fez com o Sertão a mesma coisa que eu estou tentando fazer com a Amazônia: transmudar, ele, o Sertão, eu, a Amazônia, no que eu chamo de regiões metáforas da vida”.
>> DIÁRIO DO PARÁ – da Redaçao

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