A LITERATURA FANTÁSTICA DE GOIÁS: O SENHOR DOS DRAGÕES

Entrevista com o escritor goiano Itamar Pires Ribeiro, que – sete anos após o lançamento de “Histórias da Terra Vazia” – estreia no romance com “Lygia entre os Dragões”

Itamar Pires Ribeiro é um comunicador nato. Informa na condição de jornalista profissional, dialoga com as musas por meio da literatura e da música, apresenta o programa Constelações na Rádio Universitária de Goiânia, e é também um grande papista, capaz de fazer o assunto mais indigente render horas e horas de conversa e informações engraçadas e eruditas. Contista premiado, venceu a Bolsa de Publicações Hugo de Carvalho Ramos de 1993, com “Contos de Solibur”. Em 2008 publicou o segundo volume de contos, “Histórias da Terra Vazia”.

Depois de sete anos de trabalho acaba de lançar “Lygia Entre os Dragões”, um romance histórico ambientado numa Goiânia de sonhos e sombras, no presente e no passado. Livro de linguagem experimental, Itamar Pires Ribeiro promove nele o diálogo entre a literatura, a música, a fotografia, HQs. Segue uma conversa sobre o presente e o passado com quem sabe falar; e escrever.

Pergunta – Você é um intelectual multifacetado: é escritor, compositor, jornalista, blogueiro, gestor cultural, apresenta um programa de rádio etc. É possível estabelecer uma conexão entre todas essas atividades? Qual a linha mestra de sua obra?
Itamar Pires Ribeiro – Todas essas atividades foram surgindo em decorrência da própria vida. A primeira, a principal opção é a literatura. Na literatura tenho trabalhos na área do conto, da crônica, do teatro, da poesia e agora do romance.

O trabalho na poesia propiciou um novo desdobramento: a construção de letras para músicas. As parcerias na área musical terminaram me levando à escrita, em parceria com Débora di Sá, do musical teatral “O Circo dos Amores Impossíveis”. O trabalho profissional que exerço no rádio, onde atualmente sou diretor de programação da Rádio Universitária, me permite uma grande proximidade diária com a música. Além das funções de direção mantenho dois programas diários — um na madrugada, Constelações, de meia noite às seis e outro de música erudita, Sala de Concertos. Ainda produzo dois outros programas no fim de semana, Clássicos do Rock e Um Jeito de Jazz.

O rádio veio como decorrência do curso e da profissão de Jornalista. Sou servidor da UFG desde 1980, época em que ingressei na Rádio Universitária. Na música eu tenho trabalhado com gente muito talentosa, meus parceiros Du Oliveira, Débora di Sá, Kan Kambai, Gustavo Veiga e Reny Cruvinel. Minha principal parceria hoje é com a cantora, compositora, atriz e circense – ou seja também um talento múltiplo – que é Débora di Sá. Ela tem uma das melhores vozes de Goiás além de uma presença de palco extraordinária. Já as atividades enquanto gestor cultural decorreram da atividade política, sou militante desde a primeira juventude, e olha que isso já tem tempo! Fui Secretário de Cultura de Goiânia, na gestão de Darci Accorsi, e diretor do Instituto Goiano do Livro, nos dois primeiros governos de Marconi Perillo. Já a atividade artística, e, principalmente, a literatura, essas não apenas surgiram na vida, para mim elas são partes essenciais da minha vida.

Eu descobri que não conseguiria viver sem a literatura lá pelos 16, 17 anos, quando resolvi me preparar para ser escritor, que é o que eu realmente queria fazer na vida. Para isso virei “rato de biblioteca”. Eu estudava no Colégio Pedro Gomes, que possuía uma boa biblioteca e fazia um curso com o qual eu pouco me identificava, era um curso de Química. A situação do ensino público naquela época era bastante conturbada, frequentemente não tínhamos todas as aulas previstas no dia, eu aproveitava aqueles momentos para ir para a biblioteca. Por sorte a parte literária da biblioteca era boa e a fome de leitura, enorme. Ali li as obras de Guimarães Rosa, Kafka, Proust, Clarice Lispector, Machado de Assis, Graciliano Ramos e tantos outros. Na UFG foi mais ou menos a mesma coisa, virei rato da biblioteca central, e também um assíduo frequentador dos sebos da Rua 4, no centro.

Outra decorrência do curso de Jornalismo foi a minha paixão pela fotografia, o curso de Química terminou servindo e muito na hora de executar o indispensável trabalho de laboratório, o qual, antes da fotografia digital, era absolutamente imprescindível. Através do Jornalismo também me envolvi com as artes gráficas. Comecei fazendo diagramações e artes finais numa gráfica clandestina que era do PCdoB, isso quando o partido ainda se achava na clandestinidade e vivíamos a miséria da ditadura militar.

Quanto à linha mestra da minha obra literária talvez seja a tentativa de, mantendo o realismo como lastro, exercitar sempre a imaginação, perceber os desvãos da realidade e explorá-los. “Lygia entre os dragões”, romance que estou lançado agora, é justamente isso: a fusão entre o realismo, que às vezes chega ao limite do hiper-realismo na descrição de lugares, cenas reais, memórias e personagens reais, com a imaginação que vivifica o real e descobre suas estranhezas. Outra das minhas preocupações literárias é escrever sobre aquilo que conheço a fundo, por isso as minhas obras literárias mais recentes tem todas como cenário a cidade de Goiânia. Imaginação e realismo, talvez seja essa síntese. A literatura fantástica surge como um instrumento para aprofundar o conhecimento da realidade e não como um valor por si só.

Pergunta – Sua passagem pela diretoria do Instituto Goiano do Livro (IGL), entre 2000 e 2004, foi marcada por uma melhora substância na qualidade gráfica e editorial dos livros lançados via poder público em Goiás. É possível resumir como se deu esse processo?
Itamar – Eu assumi o IGL em meados de 2000. O Instituto Goiano do Livro passava por um processo de reestruturação e vivificação empreendido pela escritora Yêda Schmaltz. Por motivos particulares Yêda deixou a direção do IGL e eu assumi sua condução. A AGEPEL dispunha de uma direção muito ativa, que apoiava as iniciativas inovadoras, destaco nesse ponto o papel de Nasr Chaul e de José Eduardo Morais.

Na gestão de Yêda haviam sido criadas várias coleções literárias, que abrangiam praticamente todos os gêneros literários — ficção, poesia, ensaio, teatro, literatura infantil e infanto-juvenil — foi também criado um Conselho Editorial, que era formado por representantes da UFG, UCG, das academias, da UBE, ou seja um conselho aberto para a sociedade e muito qualificado. Quando assumi a direção já haviam sido selecionados os livros que integrariam as coleções literárias de 1999 e as obras vencedoras da Bolsa de Publicações Cora Coralina, totalizando 19 livros. Destes apenas parte da tiragem de um livro de Marieta Telles havia sido publicada, todos os outros ainda estavam em processo de finalização ou embaralhados pela burocracia. Ao longo do ano de 2000 realizamos a seleção de novas obras literárias e finalizamos o processo de publicação, com algumas reformas no formato de algumas coleções e terminamos por lançar as coleções de 1999 e 2000 em novembro de 2000.

Durante minha passagem pelo IGL nós buscamos aperfeiçoar o processo de seleção pública dos livros a serem publicados, com a edição dos editais de seleção para as coleções, tornando isso o mais transparente possível, e também qualificar o aspecto gráfico, editorial das produções. Eu contei com a ajuda inestimável de Ciça Fittipaldi, que é uma grande profissional da área editorial e que nós contratamos para colaborar na definição dos padrões de qualidade gráfica e editorial de todos os livros publicados. Cada coleção tinha uma identidade própria, mas que não se sobrepunha à individualidade do livro, da obra concreta a ser editada. Fui o responsável pelo projeto gráfico de 32 dos 51 livros que lançamos durante minha passagem pelo IGL, li cada um deles e preparei suas capas e seu projeto de miolo.

A experiência como Jornalista foi fundamental. A passagem pelo IGL me mostrou como é rica a produção literária em Goiás e como é necessário ter instrumentos para dar vazão a toda essa produção. Nos três anos que passei à frente daquele órgão publicamos 51 títulos, e esses foram rigorosamente selecionados a partir de, pelo menos, 2500 obras inéditas que foram submetidas a julgamento. Tive o prazer de publicar 27 escritores inéditos, inclusive o seu primeiro romance “Hirundo Medicinalis”. Infelizmente o trabalho do IGL não teve continuidade e hoje aquele instrumento encontra-se desativado. A Bolsa de Publicações Cora Coralina, de tanta tradição, também se encontra desativada, é uma pena.

Hoje temos publicação de obras literárias através das coleções da Secretaria Municipal de Cultura e através das leis de incentivo estadual e municipal — pela qual inclusive “Lygia Entre os Dragões” está sendo publicada. São mecanismos importantes mas vejo que é necessário, por exemplo, criar espaços para a seleção rigorosa e a publicação dos autores inéditos, como fizemos no IGL, isso valoriza o novo autor e ajuda a projetá-lo e consolidar sua vocação.

Pergunta
 – Seu livro “Contos de Solibur” foi premiado com a Bolsa de Publicações Hugo de Carvalho Ramos, em 1993. Acredito que o tom da obra, marcado pela erudição e fantasia, remete diretamente a dois mestres: Jorge Luis Borges e J. R. R. Tolkien. Pensando um pouco na Terra Média e no conto “Tlön, Uqbar, Orbis Tertius”, podemos afirmar que você almejou “construir um mundo” ao criar Solibur de maneira tão complexa, com história, geografia, lendas e tradições?
Itamar – A ideia de criar um mundo sempre me fascinou. Aos 19 anos, quando li justamente “Tlön, Uqbar, Orbis Tertius” de Borges me senti meio roubado: puxa, olha aí o que eu queria fazer! Depois, em 1982, li uma edição incrivelmente ruim do “Senhor dos Anéis”, de Tolkien, aí sim caiu a ficha: a criação do mundo já havia sido realizada! Ora pois! Então o que fazer: recriá-lo, era a questão óbvia. “Contos de Solibur” insinua essa existência paralela, de um mundo, um universo, uma realidade que tem condutos de comunicação com a nossa do dia-a-dia, que nela interfere, que sobre ela se realiza e desdobra. A mesma temática está presente também em meu segundo livro de contos “Histórias da Terra Vazia”, de 2008, e também no atual “Lygia Entre os Dragões”.

A diferença é que na primeira obra eu ainda não tinha situado claramente os cenários em que as histórias se desdobram, poderia ser em qualquer lugar, mas tanto em “Terra Vazia”, quanto em “Lygia” o cenário é esse mesmo em que vivemos: a cidade de Goiânia. O Edival Lourenço escreveu o prefácio de meu romance e caracterizou bem um de seus elementos: os labirintos desapercebidos. Vivemos uma realidade muito mais complexa que o ramerrão do dia-a-dia, somente não nos damos ao trabalho de percebê-la em profundidade e esse é o campo da literatura. Borges diz em algum de seus contos, e talvez, borgianamente, eu esteja inventando isso, que Deus só pode criar o paraíso e que nós é que não nos percebemos estar no paraíso.

Esse é aliás um dos temas, uma das perguntas de “Lygia Entre os Dragões”: será que nossa liberdade, enquanto seres humanos, se reduz a não ver a plenitude do universo, do paraíso, como queiram, e ir edificando, pedra a pedra, crime a crime, outra coisa senão o inferno? A edificação do inferno é a obra da humanidade? Não creio nesse tipo de fatalismo, mas a questão da liberdade humana e da responsabilidade humana por todos seus atos é fundamental para a edificação de uma ética que se baseie na liberdade e não coação ou em promessas de um futuro paradisíaco.

Pergunta – Você é membro fundador de duas academias de letras, a Aparecidense e a Goianiense. Na primeira ocupa a cadeira número 2, cujo patrono é o poeta Afonso Félix de Sousa. Na Academia Goianiense sua cadeira é a 26, patroneada por José J. Veiga. É o acadêmico-fundador que indica o patrono? Se sim, qual sua relação com as obras desses autores?
Itamar – Afonso Félix de Sousa é um poeta ao qual admiro muito. Vigoroso, com veio político e forte reflexão passional, já José J. Veiga é um escritor com o qual me identifico muito. A fusão do fantástico com a realidade que ele fazia é, em certo sentido, a mesma que me proponho a fazer. O cenário muda totalmente: ele trabalhava a ambientação da pequena cidade do interior, do campo; eu, que não tenho nenhuma vivência naquele tipo de realidade, situo minha ficção na grande cidade, no ambiente puramente urbano. Veiga, Miguel Jorge e Heleno Godoy estão entre os prosadores goianos com os quais mais me identifico.

Pergunta – A fundação da Academia Goianiense de Letras em 2005, a despeito de uma tentativa de instituí-la na década de 1970, causou polêmica. O motivo seria porque misturava escritores conhecidos com pessoas consideradas diletantes. Tendo passado mais de cinco anos, como estão os trabalhos da AGnL?
Itamar – Atualmente a AGnL é presidida por uma pessoa extremamente capaz e dinâmica que é a escritora Malu Ribeiro. Ela já conseguiu uma sede própria, mantém um site bem elaborado de divulgação da Academia e tem desenvolvido todo um esforço para consolidar definitivamente aquela instituição. É uma instituição que tende a crescer e a se tornar relevante para a cultura em Goiás, é claro que isso vai depender dos projetos que venha a desenvolver, mas vejo o quadro com otimismo.

Pergunta – Você está lançando o romance “Lygia Entre os Dragões”. Trata-se de um romance histórico estilizado. A narrativa não é linear e o cenário é a cidade de Goiânia, do presente e do passado recente, destacando-se a luta pela redemocratização. Afora a pesquisa histórica que realizou, existe algum resquício autobiográfico no livro? Suas memórias pessoais, suas lembranças de adolescente, ajudaram na composição do texto?
Itamar – As paixões ajudaram muito. A paixão pela fotografia, que está no núcleo de uma das histórias; a paixão pelos livros, pela música, pelos cenários da cidade de Goiânia. Como você disse são vários planos narrativos que se intercalam e vão construindo o texto. Miguel Jorge, grande amigo e crítico arguto, escreveu a orelha de “Lygia Entre os Dragões” e observou que seus capítulos se estruturam quase como ensaios autônomos que tem um personagem como centro.

O primeiro plano narrativo se passa nos dias atuais, caso alguém faça as contas verá que decorrem exatamente 40 dias do início da ação até seu desfecho. Esse plano é dominado pela busca por uma explicação para alguns objetos inusitados que são encontrados pelo personagem que narra todo o livro, Alberto Alves, e tudo se move por outra busca, mas profunda e terrível: a tentativa de compreender o suicídio da mulher amada. Outros planos narrativos se desdobram na memória. Há também cenários da Goiânia dos anos 50 e 60.

Algumas das principais ações se dão no momento do lusco-fusco da ditadura militar, em 1979, quando a anistia já trouxera de volta os exilados e libertará os presos políticos, mas quando os grupos de extrema direita ainda se aventuravam em atentados e ações para apagar seus rastos. Há planos narrativos que se desenvolvem inteiramente naquela outra realidade, paralela ou alternativa, como queiram, e cuja influência é tremenda em todos os outros planos. Inevitavelmente usei todo o arsenal da memória pessoal da era final da ditadura, e também busquei muita colaboração de gente que viveu em Goiânia nos anos 50. Uma pessoa importante nesse sentido foi meu grande amigo Eduardo Benfica, que faleceu em 2006. Benfica terminou virando personagem do romance, ele achou graça quando mostrei o trecho em que ele aparece, e graças a Benfica fiquei sabendo qual era exatamente a aparência do ilustre fotógrafo Jean Luc Carpentier, um borgiano pioneiro da fotografia da jovem capital.

Pergunta – Seu estilo prima pela exatidão. Mesmo seu texto estando longe de ser seco, minimalista, como o de um Graciliano Ramos ou Hemingway, as palavras parecem contadas, nada é por acaso. “Lygia Entre os Dragões” é resultado de sete anos de trabalho. Como é seu processo criativo? Reescreve diversas vezes uma mesma página? O enredo está definido quando começa a escrever ou ele sofre mudanças ao longo do processo?
Itamar- “Lygia Entre os Dragões” foi durante anos um conto, mas nunca fiquei satisfeito com aquela condição. Parecia sempre que havia muito mais coisa, que a forma conto não consegue abranger. Suas primeiras versões são do início dos anos 90, depois de muita teima resolvi, em 2004, que não havia outro jeito de enfrentar aquele material senão sob a forma de um romance.
Como eu já tinha definido o rumo geral do romance passei a trabalhar da única forma que me foi possível fazer: através do acúmulo de fragmentos. Uma frase, um trecho, o esboço de um personagem, uma intuição: anotava tudo, transformava aquilo em um fragmento que recebia um número de série para ser depois revisitado, repensado e reescrito. A linha geral era clara, mas seu desenvolvimento completo não, quis manter sempre essa abertura, não planejar demais, não saber demais sobre a história antes que ela se realizasse em sua forma definitiva. Isso permitiu “encontrar” alguns personagens fundamentais: Hanna surgiu de um fragmento desses, e mesmo o Doutor Aquiles veio quase pronto em outro fragmento. A Lygia que dá título ao romance foi a mais fugidia de todos os personagens, não foi fácil caçá-la, apreendê-la.

É claro que um método de construção como este, que se baseia no fragmento e que tem permanentemente aberta a porta da intuição, demanda muito tempo para se consolidar em um texto coerente. Terminei a primeira redação geral deste romance em 2007. Deixei-o descansar por quase todo aquele ano e fui retomar seu trabalho em 2008. Já não era o momento nem dos fragmentos e nem da intuição, trabalhos a quente, mas da racional construção dos vínculos, da estruturação definitiva das partes, da revisão cuidadosa da escrita. Escrever para mim é quase sempre reescrever, sinto um grande prazer em ir explorando um texto, percebendo suas falhas, seus desvãos, suas possibilidades, por isso escrevo lentamente, senão, não tem graça.

P ergunta– “Lygia Entre os Dragões” é um romance, digamos, multimídia. Histórias em Quadrinhos, imagens trabalhadas em computador e mesmo músicas são parte fundamental de sua estrutura narrativa. Você acredita que tais estratégias, que deram outras dimensões ao texto, retirando-o da página impressa, podem ajudar a redefinir o gênero romance para o século 21? Ou pelo contrário, foram elementos explorados exclusivamente nessa obra, não devendo ser estendidos como uma proposta de tendência?

Itamar – “Lygia Entre os Dragões” bebe em muitas fontes de inspiração. Vamos achar reflexões sobre o mal, que tem antecedentes em Santo Agostinho, e também citações da saga de “Jornada nas Estrelas”, a música de Astor Piazzolla e Chico Buarque, nesse sentido é um romance “pop”. Mas não sei se esse é um nome ou definição dos mais apropriados, é também um romance fantástico, histórico, existencial, é mais um romance de “integração”. As fontes são as mais diversas possíveis, da lenda folclórica, à descrição técnica de batalhas, de processos químicos da fotografia, mas tudo serve ao propósito de inteireza do texto.

A música é uma fonte de ritmos narrativos, de climas, de evocação de memórias, de instigamento para que, se o leitor não conhecer aquela peça, que venha a conhecê-la. Isso pode ser sim uma tendência? Não sei. O fato é que hoje em dia não se pode ignorar tudo o que podemos pesquisar pela internet, tudo o que podemos ter de informação quase que instantânea, são elementos, assim como os da cultura “pop”, que podem ser usados no romance, mas não creio que isso seja o fundamental para a literatura. O romance usa esses “traços circunstanciais exigidos pelo leitor moderno” (Borges), como um recurso para capturar alguma coisa que caracteriza esse nosso tempo. Enquanto escritores estamos presos a nosso tempo, mesmo que construindo romances de ficção histórica. A literatura é um fenômeno do tempo histórico e talvez somente ela seja capaz de decifrá-lo em profundidade.

Pergunta – “Lygia Entre os Dragões” é, nitidamente, o trabalho de um autor que conhece as estruturas teóricas da produção do romance, um estudioso da estética literária. Como trazer o conhecimento erudito, quiçá acadêmico, para a produção da obra de arte?
Itamar– A teoria literária, o conhecimento da história da literatura e de suas escolas tudo isso é parte da formação básica do escritor. Não se pode ser ingênuo na literatura. É dever do escritor conhecer seu ofício, como é dever do pintor dominar sua arte, ou do cineasta, do músico. O conhecimento teórico supre bases profundas para o trabalho literário, mas evidentemente não basta para sua realização, a obra de arte é produto múltiplo do conhecimento, da razão, como queiram, e do inconsciente, Palas Athena e Orfeu.

Pergunta – Os dragões são criaturas que assombram o imaginário da humanidade. Podem ser tanto um símbolo positivo, como os dragões elementais do Oriente, quanto negativo, como as bestas mortíferas que herdamos do Ocidente medieval. É correto afirmar que seus dragões provêem de uma reconfiguração do inconsciente coletivo a partir dessa imagem dúbia?
Itamar – Os dragões são para mim um símbolo dialético no qual se unem a representação ocidental do mal consumado e a representação oriental da sabedoria e da força viva. Lygia, a personagem, é, nesse sentido, um genuíno dragão. Não é um personagem-vítima: mulher, jovem, negra, com um destino cruel a cumprir, mas uma força que move todo o romance em seu giro. Os dragões do título vieram já no primeiríssimo momento de construção daquele texto, ainda em sua origem como conto.

Durante o romance são uma representação gráfica, um carimbo de identificação, uma criatura que se aproxima, alguma coisa que não se entende, um desvão. É evidente que ao usar um símbolo de tanta força sempre pagamos o preço devido a seu ancestral uso e abuso, se puder acrescentar uma nuance a mais: o dragão como imagem do tempo que ao mesmo que voa e devora se mantém incólume nas chamas que são ele mesmo, dou-me por muito satisfeito.

>> VERMELHO – por Ademir Luiz 
(entrevista ao Jornal Opção, de Goiânia. Publicada aqui com pequenas mudanças feitas pela redação do Vermelho)


LYGIA ENTRE DRAGÕES
(Trecho de abertura do romance)

“Desde então ela enviava sinais, insinuava sua aproximação, o que, enfim, nos consumiria, mas eu era surdo e cego. Os três cadernos foram um prenúncio, que, como acontece com a maior parte dos prenúncios, só são entendidos depois, muito depois. A morte de Hanna ocupou todo o tempo e o espaço disponível, alongou por uma sensação de meses e anos o que foram dias e semanas, restou provada para mim a estranha afirmação da física de que o tempo depende de seu observador. Para mim ficou claro que o tempo depende da agonia.

De Hanna sobraram as fotos, um atestado de óbito em nome de Hanna Eleanor Rigby de Souza, que nasceu e assim foi registrada e batizada aos 25 dias do mês de abril do ano da graça de 1974, o dia da Revolução dos Cravos, “Grândola vila morena Terra da fraternidade O povo é quem mais ordena Dentro de ti ó cidade”. Filha de um pai doido pelos Beatles e por Chaplin, e uma mãe que um pouco se parecia com ela, em tudo uma versão menor e mais tranquila, durável, persistente, terrível, uma canária filha de uma coruja. O fogo gelado dos olhos castanhos de Hanna, nunca mais. “Dentro de ti ó cidade”, enquanto no Brasil se consumia o esgoto escuro da ditadura “que há de durar para além do ano 2000”, se lascando, se fodendo de verde-e-amarelo. Ela nascia, abria o duplo farol de fogo gelado, o fogo castanho dos olhos, que talvez ainda não queimasse como queimara, tanto, tanto.

Nunca mais. Nunca mais a voz grave e, pela manhã, rouca, o riso, e a vontade de voltar para o balé: não. Sonhando com o brilho sobre os palcos, sonhando: não. E nenhuma outra daquelas filmagens bobocas, que consumiam fitas intermináveis de VHS, as quais nem ela tinha paciência para ver. As crises de choro. As agonias. O silêncio espreitando e armado com facas, garras, presas, armadilhas que estalavam em frases curtas e frias, que faziam o exato estrago necessário — não mais. Hanna Eleanor Rigby — ela e todos os solitários, os incuravelmente sós — nunca mais. Never more, dizia o corvo, never more. Pouca gente no enterro, recolhi duas pétalas de rosa, guardei-as no bolsinho da calça — o arroz de um casamento alheio. Adeus. Hanna Eleanor Rigby de Souza, 33 anos, matou-se de medo e silêncio. Um tiro, direto, na cabeça, e que, no entanto, se desviou, ricocheteando e foi se alojar numa posição inoperável, fundo, bem fundo no cérebro, apenas por um capricho sádico da natureza.”

Itamar Pires Ribeiro, goiano, é escritor, poeta e jornalista profissional. Foi Secretário de Cultura de Goiânia e um dos criadores do Fórum Goiano Sobre Cultura; dirigiu Instituto Goiano do Livro (2000-2004); produz e apresenta o programa Constelações, Rádio Universitária, onde produz e apresenta o programa musical Constelações. Como letrista, tem parcerias com Débora di Sá, Du Oliveira, Reny Cruvinel, Gustavo Veiga e Kan Kambay.

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