“A ILHA”, DE FLÁVIO CARNEIRO

Com A Ilha (Rocco, 208 págs.), o escritor goiano Flávio Carneiro fecha a sua Trilogia do Rio de Janeiro, iniciada com A Confissão (que resenhamos aqui em 15 de dezembro de 2007), tendo como segundo volume O Campeonato, de 2002.

Um dos mais interessantes projetos da literatura brasileira da atualidade, a trilogia trabalha obras fronteiriças entre o mainstream literário nacional e a ficção popular de gênero: o primeiro livro se aproxima do horror sobrenatural, com uma história de um vampiro emocional carioca; o segundo dialoga com a ficção de crime; e, finalmente, A Ilha é uma ficção científica que evoca a nobre tradição da utopia.

No Brasil, a utopia e sua gêmea do mal, a distopia, têm uma longa história. Na década de 1920 tivemos um Ciclo de Panfletos Utópicos que defendia a eugenia e a higienização como soluções para o subdesenvolvimento tupiniquim. Cinquenta anos depois, o mainstream recrutou as duas irmãs para, veladamente, satirizar a ditadura militar e a tecnocracia que o acompanhava. Na primeira fase, nomes como Monteiro Lobato e Rodolpho Teóphilo; e na segunda, Ruth Bueno, Chico Buarque, André Carneiro e Ignácio de Loyola Brandão.

Flávio Carneiro escapa das armadilhas desses dois momentos anteriores, já que evita ser prescritivo ou abertamente crítico, num romance que dialoga com nada menos que A Utopia (1516), de Thomas More (1478-1535), também ambientado em uma ilha. Mas se trata de um diálogo discreto, conduzido de modo apenas alusivo. Também de maneira muito condizente com o projeto geral da antologia, o livro convoca outros diálogos intertextuais: um trecho das praias do Rio de Janeiro, centrado em torno do Leme até o Morro de Santa Teresa e a Lagoa Rodrigo de Freitas, separa-se do continente e passa a vagar pelo Atlântico – como acontece com Portugal, em A Jangada de Pedra (1986), do nobelista José Saramago (1922-2010).

Garrafas começam a chegar à praia, contendo em seu interior mapas artesanais. Por meio desses, alguns dos moradores vão se dando conta de que a sua ilha pode estar se dirigindo de volta ao continente. Esses personagens – Bernardo e Clara, Pepe e Catarina, Andador e seu cachorro – se sentem intrigados pela possibilidade, e começam a se perguntar como isso seria possível. A primeira hipótese levantada seria a da deriva tectônica, fenômeno natural que, cientificamente, nunca poderia explicar o deslocamento. Mais tarde, uma complexa teoria high-tech passa a tomar forma, envolvendo clonagem e uma tecnologia revolucionária que permitiria a recriação da matéria complexa. Ao mesmo tempo em que os dois casais (em especial) realizam a sua investigação – a partir da sua sociedade low tech -, pessoas e depois construções inteiras começam a desaparecer da ilha.

A fonte dessa teoria sobre a qual eles especulam é um romance de ficção científica chamado O Projeto Genesis, escrito por um certo P. D. Deckard – nome que traz o renomado autor norte-americano Philip K. Dick (1928-1982) para o jogo intertextual de Carneiro. A exegese dessa obra de “Deckard” (homônimo do herói de O Caçador de Andróides, livro inspirador do filme Blade Runner) é que fornece as pistas que os casais de protagonistas investigam. O romance de Carneiro, porém, não tem nada do clima de paranoia habitual em Dick, e a investigação do que se passa na ilha não leva os protagonistas a situações de perigo nem a descobertas que ameacem as suas identidades. Ao contrário, mesmo com os desaparecimentos, a vida na ilha segue mansa, e os protagonistas parecem tão interessados um no outro quanto na resolução do mistério.

O autor não caracteriza a vida utópica na ilha, seja em termos políticos ou sociais. É essa vida mansa praiana – amparada por uma prosa agradável, impregnada de doçura e calor humano – uma das poucas pistas que o leitor tem para compreender como funciona a alegoria no romance. A alegoria de A Jangada de Pedra remete a um sentimento de inadequação de Portugal, em relação ao restante da Europa. Em A Ilha, parece sugerir que um certo espírito carioca, romântico, descomplicado e singelo, só poderia sobreviver com a sua separação física do resto do Brasil. Por isso, minha tendência é associar o teor do livro à minha ideia de um “sonho brasileiro” de vida mansa próxima à natureza, que estaria presente na ficção científica brasileira desde, por exemplo, a novela utópica “Zanzalá” (1936) de Afonso Schmidt (1890-1964). E nesse mesmo sentido, é interessante contrapor A Ilha ao romance tupinipunk de Fausto Fawcett, Santa Clara Poltergeist (1991), com seu relato distópico e desumanizado de Copacabana.

Mas A Ilha não se resume à evocação de um sonho brasileiro que parece ameaçado – literalmente em desintegração – pelo retorno a (ou advento de) uma realidade nacional que não lhe dá amparo, mas traz nova instância do tipo de dramatização da relação autor/leitor que Flávio Carneiro já havia favorecido em A Confissão. Desta vez, o narrador partilha do espaço em que vivem os personagens, e aponta situações e cenas a um “leitor” que às vezes parece estar ao seu lado, olhando de longe ou de perto por uma janela metafórica que representa o foco narrativo. Ele pode estar organicamente ligado às situações do romance como um supervisor ou observador daquele grande experimento aludido nas teorias de Bernardo e Clara, Pepe e Catarina. Nos livros da Trilogia do Rio de Janeiro, Carneiro parece estar criando a sua própria prática metaficcional.

Livre de peripécias e sem um enredo estrito, a narrativa de A Ilha caminha num espaço de indeterminação entre afirmação e dúvida. Um projeto engenhoso e intrigante, um bom momento daquela tendência dominante da ficção científica feita no Brasil, que emprega as imagens do gênero com objetivos programáticos e estéticos próprios do mainstream literário.
>> TERRA MAGAZINE – por Roberto de Sousa Causo

Num futuro indeterminado, os habitantes de uma ilha perdida num oceano qualquer acreditam que são os únicos sobreviventes de uma grande catástrofe, que teria varrido o resto do planeta para debaixo das águas. Até o dia em que aparecem na praia misteriosas garrafas, com mapas sugerindo a existência de um continente, não muito distante dali. A partir de então estranhos acontecimentos vão mudar, de forma radical, a rotina da ilha.

O narrador dessa aventura é um velho bibliotecário franciscano, enclausurado na torre de um convento. Cercado de livros, é ele quem conduz o leitor por um estreito caminho entre a realidade e a fantasia, num relato em que conceitos como vida artificial, campo magnético e experiências genéticas convivem com cenários paradisíacos, lembrando um passado remoto.

Em meio às cenas insólitas que vão compondo a trama, o leitor vai conhecendo personagens que encarnam a cada página a loucura, o sonho, a dúvida, vivendo sempre a um passo da próxima surpresa.

Se você é alguém de carne e osso, está em suas mãos um romance que fala sobre a dificuldade de estabelecer o que é real e o que é imaginário, o que é sonho e o que de fato aconteceu. Como diz a certa altura o narrador, confiar em romances é como confiar nas ondas do mar. Por isso, na busca dos personagens pela verdade, cabe ao leitor a última palavra sobre os mistérios que envolvem A ilha.
Texto publicado na orelha do livro)

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