NA CALADA DA NOITE

Medo, a emoção mais antiga so ser humano inspira o horror na literatura, no cinema e na TV

Medo de olhar debaixo da cama e pela fresta do guarda-roupa, medo do escuro. Em seu clássico livro, O horror sobrenatural em literatura, o escritor norte-americano H. P. Lovecraft (1890-1937) afirma que a emoção mais antiga da humanidade é o medo e o mais forte tipo é o do desconhecido. “Embora o medo seja universal, suas causas variam muito no tempo e no espaço. Cada sociedade tem os seus medos próprios, e a boa literatura de horror é justamente aquela que identifica esses pavores, trazendo-os de modo realista ou alegórico para o terreno da ficção”, diz Júlio França, professor de Teoria da Literatura da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ).

Não é possível determinar, com certeza, em que momento da história social apareceram os relatos relacionados ao horror. Contudo, a tradição literária reconhece o romantismo gótico do final do século 18 como o marco inicial, na era moderna, de uma literatura que tem na produção e na tematização do medo seu traço essencial.

“A ficção gótica é a literatura do pesadelo. Entre suas manifestações, encontramos as trilhas de fuga representadas pelos sonhos produzidos por seus autores, os quais desenvolveriam, sem saber, a potencialidade de um modelo estético que explora os medos mais profundos do ser humano”, diz Danielle da Costa, professora de Literatura e autora de A orquídea de sangue: o dandismo de Lestat de Liouncourt na obra de Anne Rice, dissertação apresentada na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) em 2004.

O Castelo de Otranto (1764), de Horace Walpole, é o primeiro romance gótico e conta a clássica história de um castelo amaldiçoado. A obra virou referência para Edgard Allan Poe, Bram Stoker, Ann Radcliffe, Clara Reeve, Charles Maturin, Mary Shelley, Daphne Du Maurier e tantos outros. A história em questão fala de Manfredo, príncipe do condado de Otranto, que sofre com uma maldição de gerações de sua família. Ela tem início no dia do casamento de seu filho, que é assassinado. É assim que começa a saga do protagonista para solucionar o mistério.

Ainda no século 18, o poeta alemão Heinrich August Ossenfelder traz para a literatura a temática de vampiro ao escrever Der Vampir. O poema trata da jovem Cristina, que recusa um pretendente a conselho de sua mãe por acreditar que ele vinha de uma região assolada por vampiros. Inconformado com a decisão da moça, o homem assume impulsos de vingança com a intenção de invadir o leito da donzela.

Outro autor de extrema influência na literatura de horror é Matthew Gregory Lewis, que detalhava cenas sangrentas e sádicas, além de criar uma atmosfera mais densa e sombria que seus antecessores. Sua obra mais popular é The Monk (1796). Situado em um convento sinistro em Madri, é um conto cheio de ambição, assassinato, incesto e centra-se na luta de um monge para manter seus votos em face da tentação e da obsessão sexual.

Mas o mais cultuado autor de horror de todos os tempos é o também norte-americano Edgar Allan Poe (1809-1849). Poeta, crítico e, sobretudo, contista, ele dominava como poucos as técnicas de narrativa e concebia a obra como um artefato produtor de emoções. “Talvez o fato de ter sido tão atento aos efeitos da literatura sobre o leitor ajude a explicar seu sucesso, já que o gênero se define, fundamentalmente, pela produção de um efeito de recepção: o medo”, afirma Júlio França.

Em seu ensaio The Philosophy of Composition, de 1846, o escritor descreve os princípios de sua criação: “Tendo escolhido um assunto novelesco e depois um efeito vivo, considero se seria melhor trabalhar com os incidentes ou com o tom – com os incidentes habituais e o tom especial ou com o contrário, ou com a especialidade tanto dos incidentes, quanto do tom – depois de procurar em torno de mim (ou melhor, dentro) aquelas combinações de tom e acontecimento que melhor me auxiliem na construção do efeito.”

Para França, Anne Rice, Stephen King e Clive Barker são autores da atualidade que conseguem, como Poe, captar e reproduzir as tensões, as angústias e os medos do mundo contemporâneo. “Arrisco dizer que obras como Entrevista com o vampiro(Rice) (esgotado)O iluminadoCarrie, a estranha (King) e Livros de sangue (Barker, esgotado) farão parte, se é que já não fazem, do cânone da literatura de horror ocidental”, diz o professor da UERJ.

TERROR OU HORROR?

Uma das dúvidas mais usuais entre os leitores e estudiosos do gênero é exatamente sobre a diferença, o porquê de alguns títulos serem rotulados de horror e outros de terror. Escritores como Ann Radcliffe e Stephen King consideram o terror uma emoção mais psicológica do que o horror, que seria mais sensorial. “Estar aterrorizado” dependeria, portanto, de um trabalho da imaginação, que especularia sobre a possibilidade de algo terrível acontecer.

Já, “estar horrorizado” seria o resultado da concretização da ameaça sendo normalmente acompanhado por uma sensação de repulsa diante da cena explícita. Mas, tanto explícito como imaginário, por que alguém procuraria, na ficção, emoções que, na vida real, são desagradáveis? Para França, buscamos o efeito catártico, o alívio após experimentarmos emoções terríveis vividas por personagens com os quais nos identificamos. “Embora tais emoções sejam por nós vivenciadas intensamente, elas não são uma ameaça real ao nosso ser. Elas produzem o efeito terapêutico de purgar nossas próprias paixões”, explica.

O HORROR NAS MÍDIAS

O horror espalhou-se pelas mídias a partir do século 19, quando as grandes obras foram rapidamente adaptadas para o teatro. O cinema, desde suas origens, valeu-se do gênero em filmes clássicos como O Golem (1920), Nosferatu (1922) e O fantasma da ópera (esgotado) (1925). Até hoje, Hollywood produz filmes de horror que são sucesso de bilheteria.

Esse tipo de história também é tema de Thriller, o mais famoso vídeoclipe de todos os tempos. Lançado por Michael Jacson em 1982, o vídeo entrou para o acervo da Biblioteca do Congresso dos Estados Unidos, por ser considerado “culturalmente significativo”.

No Brasil, programas como Incrível! Fantástico! Extraordinário!, apresentado por Almirante, na Rádio Tupi, entre 1947 e 1958, e Além, Muito Além do Além, de 1967, na TV Bandeirantes, com Zé do Caixão – personagem criado por José Mojica Marins –, exploraram o medo e o sobrenatural. No papel coveiro do cruel e sádico, Marins também esteve no cinema em À meia-noite levarei sua alma (esgotado). Nos quadrinhos, revistas como Calafrio e Kripta tiveram grande sucesso comercial.

Uma nova geração de escritores brasileiros adotou o horror como tema de seus livros. Autores como Giulia Moon, André Vianco, Santiago Nazarian, Martha Argel, Roberto Sousa Causo, Rosana Rios e Helena Gomes, entre outros, começaram a escrever em sites e blogs, sendo considerados hoje em dia os principais responsáveis pela produção do gênero no país. “Muitos de nós começamos nas redes sociais e hoje temos livros publicados”, diz Helena Gomes, co-autora de Sangue de lobo, ambientado no interior de Minas Gerais, que tem um lobisomem como protagonista.

Helena diz que não sabe as razão, mas havia um preconceito de ler história de horror que se passassem no Brasil. “Graças a Deus, isso está mudando, nosso território é muito propício para uma história de medo.”
>> REVISTA CULTURA – por Gérson Trajano

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