A ILHA DO DR. MOREAU, DE H. G. WELLS

O que eles narram não é apenas engenhoso; é também simbólico de processos que de algum modo são inerentes a todos os destinos humanos” (Jorge Luis Borges).

Apresentamos nossas escusas a Zafón por adiarmos a coluna dedicada a mais um de seus livros e interpormos esta dedicada ao romance do inglês Herbert George Wells (1866-1946), recentemente reeditado no Brasil. Trata-se de um dos livros mais impressionantes que tivemos o prazer de ler e gostaríamos de aproveitar o calor das primeiras impressões para registrarmos nosso entusiasmo.

A ilha do Dr. Moreau foi escrito em 1896. Da infância trazemos a vaga lembrança de assistir uma adaptação cinematográfica da obra. O prefácio da nova edição revela outra de 1996. O enredo é relativamente conhecido: após o naufrágio do navio que o conduzia, o protagonista Charles Prendick é resgatado e vai parar em remota ilha do Pacífico, onde conhece o Dr. Moreau. Puxando o fio da memória, lembra-se de reportagem que lera em Londres, revelando as atrocidades cometidas por ele, o que levou ao seu autoexílio. Estabeleceu-se na ilha, contudo, não para penitenciar-se, mas para continuar seus experimentos sem interferência. E que experiências seriam estas? A transformação de animais selvagens em homens.

Prendick não desvenda os fatos imediatamente. Na escuna em que foi acolhido, estranha a presença de diversos animais — uma onça, um lhama, cães e coelhos — e a aparência do auxiliar do médico que cuidou de si. Este médico, Montgomery, por sua vez, é assistente de Moreau. No primeiro contato com o empregado de Montgomery, Prendick repara na parte inferior de seu rosto, que “se projetava para a frente, lembrando um focinho, e sua boca entreaberta mostrava dentes brancos que eram os maiores que eu já vi numa boca humana”. Sentindo o esbarrão de Prendick, “virou-se com uma agilidade animal”. Devido à latitude em que se encontrava, o personagem atribuiu a aparência do indivíduo — e dos demais que apareceram — às peculiaridades regionais de algum povo desconhecido dos europeus de então. Ninguém procura no extravagante a primeira resposta. Para sossegar sua estranheza, contentou-se com a solução oferecida pela geografia.

Desembarcando na ilha, não sem dificuldade e deparando-se com a recusa inicial de Moreau em recebê-lo, Prendick vê-se impedido de descansar devido à sucessão de urros que identificou como da onça da escuna. Afasta-se do quarto onde instalado e resolve explorar o local, como alternativa a continuar escutando aqueles uivos nos quais se concentrava “todo o sofrimento do mundo”. Nesta forçada excursão, conhece parte do território. Vê cenas ininteligíveis, que desafiam sua resposta inicial aos tipos físicos encontrados. A outra parte ele conhecerá depois, fugindo de Moreau e Montgomery. Si os indivíduos encontrados não apresentavam características endêmicas, intui-se uma segunda hipótese, igualmente errônea mas alarmante: Moreau transformaria pessoas em animais?

Temendo ser o próximo, Prendick foge e alcança a outra parte da ínsula.Encontra uma aldeia que reúne os mais diversos e estapafúrdios tipos. Acomoda-se numa cabana onde a figura de aspecto idoso incita os demais a repetir “A Lei” durante insólita e hipnótica ladainha:

“Não andar de quatro pés, essa é a Lei. Então não somos homens?
“Não beber com a língua, essa é a Lei. Então não somos homens? (…)

E assim por diante. O toque de mestre de Wells aparece neste capítulo na constatação: “Não havia sinal de fogo”. Já presenciamos pessoas vivendo nas ruas, lado a lado com cães. Sabemos de outras que vivem entocadas em casas abarrotadas e imundas, como nem os roedores admitem, pois mudam-se quando a permanência é insustentável. Já passamos na calçada por indivíduos cujo odor anunciou a exclusão do banho de entre seus hábitos. Conhecemos outro que se alimenta exclusivamente do encontrado nas caçambas de lixo. Apesar do esforço, não conseguimos lembrar-nos de uma só espécie animal que faça uso do fogo. Vemos homens que vivam como animais, mas animais que vivam como homens é de tal forma inusitado que Prendick deparou-se com o indício mas não conseguiu assimilá-lo.

Fato e que, após algum transtorno, Moreau decide esclarecer seu hóspede. O “cientista” é descrito como corpulento, de barbas e cabelos brancos e rosto quadrado. Wells, antes de firmar-se como jornalista e escritor, foi aluno e professor-assistente na Midhurst Grammar School, estudando em seguida com Thomas Huxley (), o conhecido “buldogue de Darwin”. Não conhecemos a relação de mestre e discípulo e podemos enganar-nos, mas a descrição de Moreau remeteu-nos ao retrato daquele. Seus motivos são expostos no capítulo XIV. Variam entre o positivismo científico do século XIX e o messianismo, agregando sofismas e argumentos de autoridade. Ao contrário de Huxley, Moreau não era nem cientista, nem humanista. Em nossa concepção, estes termos são sinônimos necessários. Temos na conta desta categoria de pessoas aqueles indivíduos que se dedicaram a ampliar os campos do conhecimento humano, ou mantê-los ampliados, ou ainda, levaram este conhecimento para aplicá-lo pelo mundo. São os Sabin, Curie, Edson e Franklin que ilustram nossa História. Moreau é o antípoda de Albert Schweitzer, por exemplo, prêmio Nobel da Paz de 1952. Schweitzer foi exímio organista, que se formou em Medicina com o específico intuito de levar alívio à África, onde aos rigores da natureza adicionou-se a inclemência dos que se apresentaram como colonizadores. Construiu e equipou ao menos um hospital com fundos levantados em concertos nos quais se apresentava.

Moreau soluciona em definitivo a dúvida de Prendick. O que ele via não eram homens e mulheres transformados em animais, mas o contrário. “São animais recortados e esculpidos até adquirirem novas formas”. A crueldade seria idêntica, em nossa opinião. Percebe-se sua preocupação em comprovar suas ideias e sua indiferença à dor decorrente. Adquiriu a insensibilidade de Mengele ou daquele que manipula químicos visando produzir um abortivo eficiente. Seu intento declarado é único: “encontrar o limite extremo da plasticidade de uma forma viva”. E só, sem aplicação prática em benefício de alguém, como questionou Prendick em outra passagem. Por maior sofrimento que causasse, reconhecia a vanidade de seus esforços e logo perdia o interesse pelos espécimes alterados.Rapidamente voltavam a ser o que eram antes, mesmo deformados. Eles regrediam.

Um dos mais cativantes representantes do povo animal — assim são referidos no livro — é o derivado de um cachorro São Bernardo. Ligou-se ao personagem quando ele ficou sozinho na ilha, montava guarda, protegia seu sono. Lembramos de Roger Grenier, no muitas vezes relidoDa dificuldade de ser cão, citando o poeta Rilke: “Sua semelhança confidencial e admirativa é tal que alguns dentre eles parecem ter renunciado a seus hábitos mais antigos, adotando até nossos erros. É exatamente isso que os torna trágicos e sublimes”. Outra figura é o homem-macaco, que despreza as palavras comuns e prefere repetir as que não entende, alegando desenvolver um grande pensamento. Após a leitura, desconfiamos que o sujeitinho escapou da ilha e veio ter ao Brasil, onde proliferou e seus descendentes hoje ocupam os mais diversos cargos.

Todos eles, contudo, regrediram. Parece-nos uma impropriedade vocabular falar em “regressão”. Os “pacientes” de Moreau sequer deixaram de ser o que eram. Após o experimento, perderam a forma original, foram hipnotizados e condicionados. Em relação a estes seres, Moreau cometeu o mesmo erro dos ascetas: não se aperfeiçoa o espírito mutilando o corpo. Portanto, não haveria como voltar de um ponto que não foi atingido. Afastada a interferência humana, retomaram seus hábitos, fosse qual fosse o tempo transcorrido. Retomadadefinitiva, pois as parciais davam-se diariamente, à noite. Estamos convictos de que ao homem é impossível regredir — aqui, sim, no sentido próprio — a estágios animalescos e de dócil submissão a comandos acompanhados de reforços ou punições. Felizmente, todos os anos temos o Big Brother Brasil para sedimentar-nos a convicção. “Então não somos homens?”.
>> DIGESTIVO CULTURAL – por Ricardo de Mattos

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