A FICÇÃO CIENTÍFICA DOS ANOS 60 NO YOUTUBE

sexta-feira | 11 | maio | 2012

A década de 1960 foi uma era de ouro para a ficção científica cinematográfica. A corrida espacial e a Guerra Fria ocupavam as manchetes dos jornais e os cineastas soltavam a imaginação. Agora, alguns dos melhores filmes dessa época podem ser vistos de graça na internet, no site Youtube. São produções que caíram no domínio público e, portanto, podem ser disponibilizadas para download sem qualquer culpa ou acusação de pirataria. São filmes que dão um banho de criatividade em muitas produções de hoje em dia.

Semana passada eu voltei à infância assistindo a dois desses filmes, o italiano “O planeta dos homens mortos” e o americano “Passagem para o futuro”. Quando eu tinha dez anos de idade esses filmes passavam na matinê do cinema Trindade, lá no bairro da Abolição, no Rio de Janeiro. Jamais imaginei que no futuro, em 2012, eu poderia rever esses mesmos filmes na telinha do meu computador. Afinal, em 1960, computador também era coisa de ficção científica.

“O planeta dos homens mortos” está disponível no Youtube na versão em inglês, intitulada “Batlle of the worlds”. O diretor é o italiano Antonio Margueriti, que assinava seus filmes com o pseudônimo Antony Dawson. Quando esteve em Hollywood, Margueriti descobriu que seu sobrenome, em inglês, significava margarida. Cismou que iam pensar que Antonio Margarida era um cineasta gay e mudou de nome. Numa carreira que só terminou com sua morte, em 2002, este italiano dirigiu dezenas de filmes, incluindo faroestes e fitas de terror. Acabou homenageado por Quentin Tarantino que deu seu nome a um personagem do filme “Bastardos inglórios”.

Mas o nome Antonio Margueriti hoje é lembrado pela tetralogia Gamma One, quatro filmes de ficção científica que ele rodou entre 1960 e 1965, usando os mesmos cenários e as mesmas maquetes.

O “Planeta dos homens mortos” é o segundo da tetralogia. Claude Rains (“Casablanca”) é o professor Benson, um cientista excêntrico que vive isolado em uma ilha do mar Mediterrâneo no ano de 2022. Os líderes mundiais buscam sua ajuda quando um estranho planetoide se aproxima da Terra. A humanidade entra em pânico achando que é o fim do mundo, mas Benson suspeita que se trata de uma invasão extraterrestre. Quando naves espaciais são enviadas para pousar no mundo errante são interceptadas por discos voadores e começa uma guerra espacial.

As cenas do combate entre os foguetes da Terra e os discos voadores são mais realistas do que as batalhas de Guerra nas Estrelas. Os foguetes do cineasta italiano obedecem às leis da física e só disparam seus motores na hora de acelerar ou mudar de órbita. No final, os heróis conseguem penetrar no planeta e descobrem que era o lar de uma raça extinta que deixou um super computador controlando tudo. Nada mal para um filme de matinê.

Futuro
“Passagem para o Futuro” (The time travelers” no original) é mais pessimista e reflete os medos da Guerra Fria. Começa com um grupo de cientistas da Universidade da Califórnia testando uma máquina do tempo. A engenhoca parece uma enorme televisão de tela plana mas, em teoria, será capaz de mostrar cenas do passado e do futuro. Na verdade, a coisa acaba abrindo um portal, uma fenda no tempo entre o ano de 1964 e o ano de 2071. E neste mundo, 107 anos no futuro, a terra é um deserto calcinado, povoado por mutantes, resultado de uma guerra nuclear entre os Estados Unidos e a União Soviética.

Os cientistas atravessam o portal e encontram uma comunidade de humanos vivendo num paraíso tecnológico subterrâneo. As mulheres tomam banho de sol nuas em câmaras ultravioleta, os vegetais crescem instantaneamente em estufas e o teletransporte é uma realidade. Mas a ameaça dos mutantes, que dominam a superfície, leva os homens e mulheres do futuro a buscarem uma solução radical. Eles estão construindo um foguete fotônico e vão se mudar para um planeta da estrela Alfa Centauri.

Já não se fazem mais filmes assim hoje em dia. E nem é preciso. Eles podem ser vistos de graça, na internet.
>> DIÁRIO DO VALE – por Jorge Luiz Calife

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APOCALIPZE: WEBSÉRIE DE FICÇÃO CIENTÍFICA COMEÇA A SER GRAVADA EM BELO HORIZONTE

quinta-feira | 19 | janeiro | 2012

Depois de se aventurar em histórias sobre a Segunda Guerra Mundial com o filme para a internet Heróis da FEB, o cineasta mineiro Guto Aeraphe aposta agora em uma websérie de ficção científica recheda de efeitos especiais. O seriado, dividido em cinco capítulos de oito minutos, mostra os acontecimentos de um desenvolvido Brasil futurista que foi alvo de um ataque terrorista repentino, deixando poucos sobreviventes e diversas dúvidas.

Na trama, praticamente toda a população foi morta vítima de uma contaminação mortal e alguns dizem que os culpados foram os árabes, enquanto outros dizem que foram os americanos. Ninguém sabe ao certo, mas há rumores que vários agentes paramilitares e grupos do tráfico estão atuando em nome do Clube Bilderberg – uma organização conspiratória formada por representantes dos países desenvolvidos, instituições religiosas e grandes empresas.

Em meio ao caos, um professor de Biomedicina sobrevivente se junta a outros que tentam entender o que de fato aconteceu, enquanto tentam fugir de forças que lutam pelo controle das riquezas naturais nacionais – como as jazidas de petróleo do pré-sal. “A websérie vai mexer com o imaginário do público. Vai convidá-lo para uma história e ele terá que ser conduzido por ela. Se ele seguir esse trato, vai ser surpreendido” conta Aeraphe.

“Estamos vivendo a ‘era das telinhas’. As imagens se movimentam em qualquer lugar. No tempo de espera de um dentista, a pessoa consegue assistir a um capítulo de uma websérie com tranquilidade” completa o cineasta independente que vê na internet como uma nova alternativa para se fazer cinema. Audacioso, o projeto de ApocalipZe conta ainda com um jogo  virtual de tiro para computador e uma história em quadrinhos para download.
>> REVISTA RAGGA – por Guilherme Avila

 Veja as fotos do making of da websérie ApocalipZe

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www.facebook.com/webserieapocalipze


3%: PROGRAMA PILOTO DA SÉRIE DE FICÇÃO CIENTÍFICA BRASILEIRA ESTÁ DISPONÍVEL NO YOUTUBE

segunda-feira | 13 | junho | 2011

Está disponível no YouTube (http://www.youtube.com/serie3porcento), dividido em 3 partes, o programa piloto da série de ficção científica 3%, produção da Maria Bonita Filmes dirigida por Daina Giannecchini, Dani Libardi e Jotagá Crema. Com apoio do programa FICTV/Mais Cultura, do governo federal, a divulgação do piloto visa atrair patrocínio para continuidade da série a ser exibida na TV.

3% foi vencedor da Etapa I do edital de seleção de desenvolvimento e produção de teledramaturgia seriada para TVs Públicas – FicTV / Mais Cultura (MinC), e vencedor da Mostra Competitiva de Pilotos Brasileiros na categoria Séries de Ficção, Festival Internacional de Televisão 2010.

Segundo Jotagá Crema, um dos diretores de 3%, a primeira temporada inteira da série já foi escrita: “estamos espalhando o piloto pela internet na esperança de conseguir um canal de TV interessado em exibir.” Informações detalhadas sobre a série podem ser procuradas no Facebook emhttp://www.facebook.com/3porcento.

A fábula de 3% se passa num futuro próximo cinzento, no qual as pessoas vivem divididas entre duas sociedades muito diferentes. Pressupõe-se que uma sociedade (o “Outrol Lado”), a dos “entrevistadores”, seja sensivelmente desenvolvida, enquanto a outra, dos “entrevistados”, seja extremamente atrasada. Impossível não lembrar da fronteira do México com os EUA ou das antigas Alemanhas Oriental e Ocidental. O “Outro Lado” é a “terra dos sonhos” para os jovens que vivem em condições supostamente subumanas, porém apenas3% dos candidatos à imigração conseguem aprovação após uma série de testes rigorosos, ora bizarros ou simplesmente estúpidos. 97% fracassam, o que pode significar a própria morte no percurso de provações.

O piloto avança inicialmente sob o ponto de vista de uma jovem candidata. É dela a voz over que comenta e instrui o espectador acerca das peculiaridades de seu mundo. Ao fim do episódio-piloto, porém, essa “protagonista preliminar” está morta. Sua narrativa vai introduzir o que se supõe que sejam os protagonistas “verdadeiros”, um rapaz que fraudou seus documentos para conseguir ser aceito no processo de seleção, uma moça e um rapaz paraplégico. O futuro desses personagens vai depender do sucesso na captação de recursos para a continuidade da série.

3% é uma distopia futurista com ecos de 1984 (1948), de George Orwell, e Nós(1932), de Evgueny Zamiatin, além de um toque dos puzzle films ou séries de TV norte-americanas como Lost. A pouca originalidade do eixo temático é compensada pela promessa de um tratamento tipicamente brasileiro e contemporâneo. O piloto demonstra também a acuidade com que a série parece pretender não só tratar de uma longa tradição no universo da ficção científica (a do embate entre o indivíduo e sociedades tecnocráticas totalitárias), mas também urdir uma curiosa alegoria sobre o fantasma da burocracia que assola a sociedade brasileira desde o descobrimento.

Os cenários são essencialmente cinzentos, quase “monocromáticos”. Os figurinos dos candidatos a imigração lembram o dos trabalhadores do filme Metropolis(1927), de Fritz Lang, por sua vez inspirados nos coros expressionistas. Indivíduos massificados, mecanizados e sem identidade. “Números” vestidos em uniformes minimalistas padronizados. 3% aposta no minimalismo dos cenários, figurinos e diálogos, na intimidade das cenas, proximidade dos personagens. Minimalista também são os diálogos e o roteiro. O piloto acena com a possibilidade de uma série de ficção científica genuinamente brasileira e viável, livre da necessidade de efeitos especiais sofisticados que caracterizam os blockbustersamericanos. Nesse sentido, 3% parece corroborar a minha tese de que uma “terceira via” da ficção científica brasileira ainda seja possível, uma alternativa à “primeira” (a do cinema de grande orçamento, pleno de recursos tecnológicos) e à “segunda” via (a dos filmes B ou, por extensão, trash movies). Centrado num roteiro de suspense, 3% investe na mise-en-scène mais intimista dos espaços fechados e da ação baseada em diálogos.

Rodado com câmeras Red One com capacidade de resolução de 4K (aproximadamente 8 milhões de pixels), 3% é parcimonioso nos planos gerais com grande profundidade de campo, privilegiando closes ou planos mais próximos. Uma opção plenamente compreensível numa produção de recursos modestos que pretende lidar com temática fantástica.
>> CRONOPIOS – por Alfredo Suppia


MARVEL E DC: QUADRINHOS NO SÉCULO ELETRÔNICO

segunda-feira | 13 | junho | 2011


A encruzilhada digital é implacável. Indústrias estabelecidas no século 20 graças à cultura de massas penam, no novo século, para se adaptar a uma realidade que celebra a cultura do nicho. Mais que isso, numa cultura digital, em que tudo pode ser copiado e reproduzido sem que o autor tenha controle da distribuição, fica cada vez mais complicado gerir um negócio que lide com a produção de conteúdo feita para milhões de pessoas. A indústria do disco sentiu isso na pele ao servir de boi de piranha digital quando assumiu o papel de primeiro antagonista da web e processou quem baixava MP3 sem pagar.

Hollywood sente dolorosamente essa mudança, quando o download de filmes via torrent a obrigou a apostar em superproduções e em novas tecnologias, como as salas Imax e 3D. Emissoras de TV do mundo inteiro veem suas programações escoarem para fora da grade rumo ao YouTube. Música, cinema e TV estão sempre nas notícias quando se fala nesse assunto, mas uma indústria que é a cara do século 20 e está quase sempre à margem dessa discussão vem penando para retomar sua importância na era digital: os quadrinhos.

E quando se fala em indústria dos quadrinhos, dois nomes se destacam: Marvel e DC, editoras que criaram o conceito de super-herói moderno. A primeira tem se mexido drasticamente para continuar relevante nos dias de hoje, principalmente longe das revistas. Seu principal feito foi se transformar em estúdio de cinema para levar seus personagens para um público que não lê páginas em papel. A Marvel também pulou no iPad na primeira hora, criando um dos aplicativos mais festejados logo que o tablet apareceu. Mas a conta ainda não fechou – e a Marvel continua em busca de alternativas para fazer suas histórias em quadrinhos sobreviverem no século 21.

Sua principal rival, a DC, começou a se mexer de verdade na semana passada, quando anunciou que iria zerar sua linha de super-heróis e recomeçar a contagem de suas revistas, todas com um novo número 1. Não é a primeira vez que a editora que inventou o Super-Homem e o Batman tenta isso. Nos anos 80, conseguiu reiniciar seu universo com a saga Crise nas Infinitas Terras, em que permitiu que seus heróis pudessem fazer sentido no fim do século passado. O novo reinício mira no digital.

Além dos novos números 1, a editora deverá publicar, digitalmente, as mesmas histórias exatamente no dia em que elas chegam às bancas. O preço deverá ser mais barato que o das versões impressas, pois a editora quer que seu novo público volte para o papel uma vez que sentir o gosto dos novos títulos online. Mas isso pode dar bem errado, já que, assim, eles podem matar um de seus principais redutos, que são as lojas de quadrinho – como a música online fez com as tradicionais lojas de disco. A estratégia trará novos leitores se der certo. Mas se der errado, pode afugentar até os velhos. Ninguém disse que seria fácil.
>> O ESTADO DE SÃO PAULO – por Alexandre Matias


“NEUROMANCER”: CLÁSSICO DA FICÇÃO CIENTÍFICA QUE INSPIROU “THE MATRIX” FINALMENTE VIRA FILME

sexta-feira | 3 | junho | 2011

“Neuromancer” começa a ser gravado em 2012

‘Neuromancer’, de William Gibson, um dos livros de ficção científica mais famosos dos anos 80, vai finalmente virar filme. As especulações sobre a obra ir parar nas telonas existem desde 2007, mas só agora as produtoras Seven Arts Pictures e GFM Films anunciaram oficialmente que vai rolar.

O projeto foi vendido nos primeiros três dias do festival de Cannes para distribuidoras da Ásia, Polônia e Oriente Médio. Alemanha, Estados Unidos, França e Reino Unido ainda negociam a compra. Mesmo sem ter o orçamento fechado, os trabalhos de efeitos visuais já começaram e a filmagem deve acontecer em Istambul, Tóquio, Londres e Canadá, no início de 2012.

A clássica obra do cyberpunk já levou os três principais prêmios de ficção científica desde sua estreia em 1984 – Nebula, Hugo e Philip K. Dick. No Brasil, o livro só chegou em 1991, contando a história do ex-hacker Case que não podia exercer a profissão por causa de um erro cometido ao tentar roubar os patrões. Impossibilitado de se conectar à Matrix, sem dinheiro, drogado e desempregado, ele conhece Molly, que tenta ajudá-lo.

Inspirada no conceito da obra, a trilogia ‘The Matrix’, protagonizada por Keanu Reeves e Laurence Fishburne, teve lançamento em 1999 e rendeu mais de US$ 450 milhões aos seus produtores, contra apenas US$ 65 milhões gastos. Veja o trailer!
>> MTV-UOL – por Carol Tavares

O longa de ficção científica ‘Johnny Mnemonic’ (1995) foi produzido com base no livro de mesmo nome de William Gibson, publicado em 1981. Apesar de o elenco também trazer Keanu Reeves, o filme não chegou a ser um sucesso, mesmo tendo custado US$ 26 milhões. Confira o trailer.


“UM NOVO DESPERTAR”: MEL GIBSON SE ENTREGA EM FILME DE JODIE FOSTER

sexta-feira | 3 | junho | 2011

A idéia da marionete que manipula o próprio dono já apareceu em histórias de horror como, por exemplo, em “Magia Negra” (1978), com direção de Richard Attenborough e Anthony Hopkins no papel do boneco. É mais uma edição do tema da criatura que se volta contra o criador, como no clássico gótico “Frankenstein”, ou nas muitas narrativas de ficção científica em que as máquinas se revoltam contra os humanos.

Em variação dessa temática, neste “Um Novo Despertar”, o terceiro filme dirigido por Jodie Foster, o personagem de Mel Gibson sofre uma ruptura psíquica e abre espaço para um alter ego, ou seja, uma extensão de si mesmo que assume o comando da sua existência. Esse “duplo”, que de resto é ele mesmo, toma a forma de um desses bichos de pelúcia que podemos “vestir” como uma luva e, usar os dedos para movimentar a sua boca, enquanto falamos por ele. Um brinquedo que se transformou em personagem de TV em diversas séries infantis, depois de “Vila Sésamo”.

No filme, temos um castor de pelúcia, que Mel Gibson acha numa lata de lixo, momentos antes de tentar o suicídio.

O inusitado é que ele enfia o tal fantoche no braço e não o tira mais de lá, nem para tomar banho ou fazer amor com a esposa, aliás, interpretada com a costumeira competência pela própria Jodie Foster. E passa a se comunicar com as pessoas como se o bicho de pano estivesse falando no lugar dele. Mas claro, todos vêm que é o próprio Mel Gibson que fala, ainda que use uma voz estranha e um forte sotaque britânico para caracterizar o personagem do castor.

Apesar de maluco e bastante tolo, esse procedimento serve a princípio para afastar a depressão e permitir o reatamento da esposa de quem tinha se separado. Só que, ao passar do tempo, ela entra em colisão com essa farsa e tudo se complica.

O filme não segue o percurso costumeiro dos roteiros em que a dramaturgia se mistura com a psicanálise e toma o rumo de uma contundente alegoria da vida em família no mundo ocidental.

Desprovido de todas as bóias salva-vidas que o Actor’s Studio e demais métodos de preparação do ator poderiam oferecer, Mel Gibson se entrega plenamente ao papel, numa atuação em que prova ser um artista de muitos recursos, independente de todas as vacilações em sua carreira.

Não se sabe direito por que motivo o protagonista se acha deprimido, ainda que seja um industrial profissionalmente bem sucedido e bem casado. Mas isso não tem grande importância na trama, fundamentada no desacerto dele com o filho mais velho que o rejeita a ponto de estudar meticulosamente os seus hábitos, só para não repeti-los no cotidiano.

Embora uma melodia chapliniana pontue a trilha sonora, trata-se aqui de um drama sobre o milenar conflito de gerações, em que o filho odeia o pai, que por sua vez odeia o pai e assim por diante. Mas o comando firme e suave de Jodie Foster atenua excessivo peso dessa corrente e mantém o filme em seu prumo, apesar de alguns transbordamentos emocionais.
>> PIPOCA MODERNA – por Luciano Ramos


“NATIMORTO”: ENTRE O ÚTERO E A FORCA

quarta-feira | 1 | junho | 2011

“Quadrinista trabalha demais e não tem retorno nenhum”, afirmou Lourenço Mutarelli ao comentar seu afastamento das HQs. Aqueles que amaldiçoaram o tratamento que o país dispensa aos seus autores, porém, já não têm do que reclamar: a verve maldita de Mutarelli continua gerando iguarias.

 

Respeitadíssimo nounderground pela virulência de suas HQs, o artista se consolidou como romancista e vem progressivamente conquistando espaço no cinema. Primeiro, tivemos as animações deNina (2004) e a adaptação de seu romance O cheiro do ralo (2006). Agora, o circuito comercial recebe Natimorto(2009), filme de estreia do diretor Paulo Machline, que adapta seu romance O natimorto: um musical silencioso.

No longa, um caça-talentos (o próprio Mutarelli) recebe uma cantora (Simone Spoladore) em São Paulo, com a promessa de apresentá-la a um maestro. A chegada dela, porém, põe seu casamento em cheque, e o agente propõe à cantora algo inusitado: embora mal se conhecessem, eles dividiriam um quarto de hotel do qual ele decide não sair mais, deixando para trás uma profissão, uma esposa (Betty Gofman) e todo o asco que o mundo lhe inspirava.

Surpreendida, a cantora busca um “meio termo”: ela poderia deixar o quarto quando bem entendesse e não teria nenhuma obrigação conjugal com o agente que se considera assexuado. Dessa forma, no quarto esfumaçado pelos cigarros acesos quase ininterruptamente, firma-se o pacto que fundamenta um dos filmes nacionais mais instigantes já produzidos.

“Eu vou cantar para você dormir”

Natimorto é praticamente um filme “em primeira pessoa”, ancorado no ponto de vista do agente. Permanecemos com ele quando a cantora sai, visualizamos apenas as lembraças dele e ­– consequentemente – compartilhamos com ele o peso cada vez mais maior do seu retiro. Da cantora, por sua vez, temos apenas o que é expressamente manifesto: suas palavras, seus gestos e sua presença. Tanto sua ausência quanto sua intimidade são preservadas (nada sabemos do que ela cala).

Nada mais acertado, portanto, que o recurso utilizado para apresentar sua “voz da pureza” (para usar palavras do agente): se temos contato com a arte dela por meio do filtro impressionista do protagonista, que pureza seria mais convicente que o próprio silêncio? Cada vez que ela canta, o que fica evidente não é o canto em si, mas a calmaria que ele lhe proporciona.

Calmaria, aliás, é algo raro no longa. A tensão reina do início ao fim e amadurece conforme o arranjo das personagens é posto à prova pelos altos e baixos de sua rotina. Garantir que esse amadurecimento transpareça nas atuações é, a propósito, um dos grandes desafios do filme.

Como sua personagem exige, Mutarelli começa desajeitado e artificial, como alguém que “fala como se escrevesse”, mascarando um temperamento rancoroso que só se despe do autopoliciamento nas agressões contra ela. Por sua vez, Spoladore administra uma doçura que desaparece conforme o mundo externo lhe apresenta possibilidades mais promissoras que o “regime semiaberto” ao qual se submeteu. Quanto menos ela “depende” do agente, mais ela faz valer sua privacidade no trato com ele.

“Eu só me vejo invertido”

Não há nada, porém, que chacoalhe mais a rotina de ambos do que aquilo que podemos considerar a coluna dorsal do filme: a crença do agente, logo compartilhada pela cantora, de que as fotos de advertência dos maços de cigarro de alguma forma se relacionam com as cartas do tarô. Como cada um fuma exatamente um maço por dia, as tentativas de ler a sorte nas mensagens de advertência norteiam-nos dia após dia, fornecendo as precauções e os temores que impedem que sua convivência reclusa se limite ao tédio e ao ócio.

Advém daí, também, a principal motivação e o principal temor do protagonista. Seu grande anseio é livrar-se da decadência mundana, tendo como ideal a pureza dos natimortos. Para isso, providencia um útero (um quarto de hotel, depois uma banheira) e uma mãe (a cantora com quem o sexo se configura um tabu). Seu medo é personificar o enforcado. A cama vazia assume o papel da forca e, conforme a ausência da cantora se torna mais frequente, cada despertar traz um novo calafrio na contemplação dos maços.

Há quem possa afirmar que essa premissa da convivência de um casal entre quatro paredes tem fortes paralelos com longas do Arnaldo Jabor. Cuidado: Natimorto está paraEu sei que vou te amar como um delírio de Antonin Artaud está para uma vinheta de Hans Donner. A visceralidade que Mutarelli cultivava no underground continua plenamente reconhecível. Nessa travessia, sem fazer concessões, sua autenticidade resiste incólume. Permanece pura, como os natimortos.
>> CONTRAFORMA – por Cid Vale Ferreira