A FANTASIA E A FICÇÃO CIENTÍFICA SEM PRECONCEITOS

segunda-feira | 14 | janeiro | 2013
Bandeira LGBT

Ao contrário do que muita gente pensa, a bandeira do movimento LGBT não tem as sete cores do arco-íris

No reino da Fantasia, tudo pode acontecer. O sapo pode virar príncipe e a princesa ser acordada de um longo sono por um simples beijo. O que até pouco tempo não podia era o sapo virar príncipe e arranjar outro príncipe para se casar, ou a princesa ser acordada pelo beijo de outra princesa.

Numa tentativa de transformar esses gestos simples de amor em algo mais comum e corriqueiro, a Tarja Editorial lança, desde o ano passado, uma série de livros abordando a comunidade LGBT (Lésbicas, Gays, Bissexuais e Transexuais) em histórias de fantasia e ficção científica para o público adulto. A coleção A Fantástica Literatura Queer já tem três volumes publicados e, em novembro, lança o seu quarto título.

A palavra “queer”, que, ao pé da letra, quer dizer “esquisito”, em inglês, também é usada pejorativamente, mas tornou-se um termo para designar o ramo de estudos que busca desafiar as categorias de identidade. O novo significado surgiu dos estudos sobre gays e lésbicas nas universidades.

A ideia de escrever sobre fantasia LGBT no Brasil surgiu quando o publicitário e escritor Rober Pinheiro e a escritora e revisora Cristina Lasaitis perceberam que não havia nada do gênero no país e resolveram organizar uma coletânea. Ambos apresentaram a proposta a Gianpaolo Celli e Richard Diegues, editores da Tarja, que se engajaram no projeto e abriram inscrições para receber contos com essa temática.

Foram tantos contos que ficou inviável publicar os selecionados em apenas um volume, e o que era apenas um, virou dois. Os editores abraçaram a ideia, e o projeto se transformou em uma série de seis livros, cada um representando uma das cores do movimento LGBT.

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A série de seis livros já está em seu quarto volume

Gianpaolo conta que um dos fatores que o atraiu no projeto foi tirar a comunidade LGBT da esfera do sexo. “O conceito das histórias é você ter personagens principais homossexuais dentro de uma trama não sexual”, explica.

As diferentes histórias da série envolvem anjos, demônios, fantasmas, alienígenas e várias outras feras e seres sobrenaturais. E nem sempre o protagonista é homossexual, travesti, transexual ou bissexual. A afetividade e a sexualidade não são tratadas como um problema. “É um ponto de vista aberto”, comenta Gianpaolo.

Mas como deixar claro ao leitor a sexualidade de alguém gay ou lésbica? De forma sutil, como explica Rober, ao citar um conto do livro Amarelo em que um comandante de uma espaçonave e seu subordinado enfrentam uma ameaça. “A relação entre os dois vai sendo construída à parte. É mais uma relação de companheirismo, de ajuda, do que propriamente uma relação homoafetiva”, conta.

Em outro caso, o preconceito foi explicitado, em uma história em que um soldado do reino de Aragão (na atual Espanha) é sequestrado por alienígenas. O guerreiro acaba fugindo com outros extraterrestres e um dos E.T.s acaba manifestando interesse pelo soldado aragonês, que não aceita essa atração. O conto está presente no novo livro, o Verde.

A série também quebra um pouco o preconceito de que, sob as palavras “gay”, “homossexual”, “lésbica”, etc., todos os envolvidos são, necessariamente, LGBT. Gianpaolo conta que, na primeira versão da introdução do livro Vermelho, o texto dizia que se tratava de uma obra onde todos os “editores são gays”. Ao ler aquilo, Gianpaolo, que é hétero, surpreendeu-se. “Como assim ‘os editores são gays’? Eu nem sabia que eu era gay!”, brinca. O texto foi alterado antes da publicação.

O livro ‘Vermelho’

O livro ‘Verde’

Um dos exemplos de autores da série que não estão ligados ao movimento é Antônio Luiz M. C. Costa. Escritor heterossexual, ele tem um romance de fantasia e vários contos publicados por diferentes editoras. Com o tema lésbico, escreveu dois textos. Um deles foi aceito para a coletânea Erótica Fantástica, da editora Draco, e o outro entrou para o livro Amarelo, da coletânea da Tarja. Em seu conto, a escritora britânica Emily Brontë vem morar no Rio de Janeiro, onde acaba se apaixonando por uma índia amazona.

“Eu acho que você pode ler sendo hétero e não ter problema nenhum em se identificar com o personagem. Existem mais aspectos num personagem para você se identificar do que a orientação sexual dele”, comenta Gianpaolo. E finaliza: “Preconceito é preconceito. E todos eles são ruins”.

Além do livro Verde, fecham a coleção o Azul e o Lilás, que têm previsão de lançamento para 2013.

>> SARAIVA – por Marcelo Rafael

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HQ ENFRENTA FANTASMAS DE MÁQUINAS INTELIGENTES

segunda-feira | 7 | janeiro | 2013

Graphic novel ‘V.I.S.H.N.U.’ (Quadrinhos na Cia.)
rediscute terceirização da consciência humana

VISHNU

Ficção científica em quadrinhos brasileira é uma parceria entre Ronaldo Bressane, Eric Acher e Fabio Cobiaco

No futuro, cientistas, guerrilheiros, governantes e religiosos tentam tomar as rédeas de uma misteriosa inteligência artificial em um mundo dominado pela tecnologia, em que até cidadãos comuns podem ter seus robôs pessoais. Até que tudo, de repente, entra em colapso.

Essa distopia pós-moderna desencadeia uma mudança na ordem mundial, mas não sem antes provocar grandes tragédias pelo planeta.

Tempos depois, uma nova consciência eletrônica, denominada V.I.S.H.N.U, surge de forma espontânea.

Primeira experiência de fôlego dos quadrinhos nacionais no campo da ficção científica, “V.I.S.H.N.U.” conta com roteiro do escritor e jornalista Ronaldo Bressane, autor de “Céu de Lúcifer” (Azougue Editorial), e se baseia em um argumento de Eric Acher. A arte é de Fabio Cobiaco.

A aventura tecnológica, primeira de uma trilogia, dialoga com traços do quadrinista francês Jean “Moebius” Giraud (1938-2012) e com os conceitos estéticos do artista plástico suíço H. R. Giger, famoso por compor os monstros e cenários do primeiro filme da saga “Alien” (1979).

“O livro é um resultado das inquietações em relação ao livre-arbítrio do homem e ao que ele quer para o futuro. Toca em temas como a transferência de consciência e a imortalidade”, diz Bressane.

Segundo o escritor, a ideia era discutir os dilemas de ciência e tecnologia por uma perspectiva pop, imaginando da interação sexual entre homem e máquina a uma questão filosófica central: até que ponto um objeto high-tech pode ser dotado de alma?

Vishnu, na mitologia hindu, é o deus responsável pela manutenção do universo. O romance transforma a entidade em um impulso eletrônico messiânico, gerado dentro de um supercomputador, mas a sociedade corre novo risco de se deixar governar.

Ao compor o argumento, em 2007, Eric Acher revisitou a obra do filósofo indiano
Jiddu Krishnamurti (1895-1986) como inspiração para “V.I.S.H.N.U”, questionando o que enxerga como a “terceirização” da inteligência humana para os computadores.

“Hoje usamos dispositivos externos como smartphones para nos conectar. Em alguns anos, poderemos ter computadores com realidade aumentada e, quem sabe, virão os implantes neurais. Difícil prever o que acontecerá em seguida”, reflete Acher.
>> FOLHA DE SÃO PAULO – por Douglas Gravas


A VASTIDÃO A QUE O LEITOR DE BORGES É CONDENADO

sexta-feira | 11 | maio | 2012

Talvez a marca mais grandiosa da literatura de Jorge Luis Borges seja a impureza. A mistura e a contaminação fazem seus contos serem lidos como ensaios e vice-versa, num jogo que só comprova uma questão: quem faz o gênero é o leitor; é ele quem compreende um livro seguindo seus próprios desejos e necessidades, como se guiado por uma bússola particular e intransferível. Como leitor fiel de Borges, por exemplo, acredito que a ficção O Aleph é uma descrição das mais fieis do universo e da sua gênese. É como se estivesse lendo um livro de ciências que me revelasse a simultaneidade com que as coisas convivem e dependem uma das outras. E mais: releio O Aleph acreditando que vou ter alguma revelação ao final da leitura, ainda que a revelação maior seja a minha crença de que algo será revelado, num claro processo de imersão borgeana.

É lendo Borges dessa forma bem particular que recomendo Nove ensaios dantescos & a memória de Shakespeare, que a Companhia das Letras lança agora dentro da sua coleção Biblioteca Borges. A obra se insere de maneira exemplar na perspectiva de impureza e contaminação, a que nos referimos anteriormente. Há contos, ensaios, fragmentos e um prólogo que é tudo isso ao mesmo tempo. Cabe ao leitor escolher a classificação da sua leitura.

E o leitor, já acostumado ao universo borgeano, sabe da vastidão do imaginário do escritor argentino em se tratando de Dante. O texto (vamos chamá-lo assim, para não aprisioná-lo na “armadura” de ensaio) O último sorriso de Beatriz dá uma boa ideia de como Borges amplia o mestre italiano: “Tenho a impressão de que Dante edificou o melhor livro produzido pela literatura para intercalar alguns encontros com a irrecuperável Beatriz. Melhor dizendo, os círculos do castigo e o Purgatório austral e os nove círculos concêntricos e Francesca e a sereia e o Grifo e Bertrand de Born são intercalações; um sorriso e uma voz, que ele sabe perdidos, são o que importa”. Sua perspectiva tão aguda da estratégia dantesca de se aproximar da musa Beatriz é compreensível. O Aleph trata de um homem que escolhe ver o universo inteiro apenas para ler as cartas íntimas da amante morta. A visão Total seria apenas o álibi de um voyeur atormentado por detalhes.

Se com esse livro compreendemos melhor Dante, também visualizamos o fascínio de Borges pelo tigre, como símbolo e animal: “Uma famosa página de Blake fez do tigre um fogo que resplandece e um arquétipo eterno do Mal; prefiro a sentença de Chesterton, que o define como um símbolo de terrível elegância. Não há palavras, ademais, que possam cifrar o tigre, essa forma que há séculos habita a imaginação dos homens”. E, como Borges sempre nos alertou, é bom ter cuidado: o tigre está à solta na biblioteca.

>> JORNAL DE PERNAMBUCO – por Schneider Carpeggiani


A MÁQUINA DIFERENCIAL, DE WILLIAM GIBSON E BRUCE STERLING

sexta-feira | 11 | maio | 2012

O termo steampunk em literatura é aplicado para histórias que se passam em uma realidade alternativa na qual o século XIX ainda tem como principal fonte de energia o vapor (daí o termo “steam”), mas encontra-se mais avançada tecnologicamente do que realmente foi em nossa história. Seja a Inglaterra vitoriana, seja o velho oeste norte-americano, a ideia é incluir no cotidiano das personagens elementos que não existiam na época e que hoje em dia nos são comum, tudo isso adequado ao que estava disponível naquele tempo em termos de matéria prima ou mesmo de tecnologia.

Foi em 1990 que dois autores famosos por trilharem o caminho docyberpunk (William Gibson e Bruce Sterling) escreveram a quatro mãos uma história que parte desse princípio, criando o agora clássico da ficção científica A Máquina Diferencial. Vencedor de prêmios, o livro embora não possa exatamente ser chamado como o primeiro steampunk da literatura, ainda assim tem papel fundamental na divulgação desse gênero, sendo que por isso frequentemente aparece como referência ao falar desse tipo de obra.

A Máquina Diferencial tem um enredo muito bem sacado, porque elabora a dita realidade alternativa a partir de fatos e personagens históricos, fazendo literalmente uma ficção especulativa (termo utilizado para falar de ficção científica). A ideia aqui é: e se Charles Babbage tivesse concluído seu modelo chamado Máquina Diferencial? Quais as consequências de termos na Inglaterra vitoriana algo bastante próximo do conceito de computador? De que forma isso mudaria os rumos da história como conhecemos? É a partir disso que Gibson e Sterling partem, criando uma aventura sensacional que lembra muito a ótima HQ de Alan Moore, A Liga Extraordinária.1

Só que ao invés de necessariamente termos figuras da literatura como nos quadrinhos de Moore, em A Máquina Diferencial temos personagens históricas diversas, que aparecem listadas no final do livro em um Guia de Personagens bem bacana que a Editora Aleph elaborou. Na realidade construída por Gibson e Sterling, Babbage vira figura política importante (“Lorde” Babbage), temos Charles Darwin, Sir Richard Francis Burton entre outras figuras conhecidas da história inglesa. E sim, temos escritores também. Lord Byron surge como Primeiro Ministro, e temos até figuras como Keats, Shelley e Disraeli. Mas o ponto forte da narrativa é que ninguém é colocado ali de forma forçada, as personagens parecem reais dentro daquele mundo.

O foco da narrativa muda algumas vezes, começando com Sybil Gerard, inspirada em personagem de Disraeli e aqui aparecendo como filha de um líder Ludita. A trama se baseia principalmente sobre certos cartões perfurados, ou mais especificamente a natureza desses. A partir disso se desenvolve em uma narrativa envolvendo conspirações contra o poder, mesclada com fatos históricos que de fato ocorreram (como o Grande Fedor que aconteceu em Londres em 1858). É, talvez por isso mesmo, um prato cheio para qualquer um que tenha um gosto por história do século XIX.

Até por conta dos detalhes da narrativa, de como são colocados os elementos de steampunk no livro. Algumas coisas são tão sutis que em determinado momento você até esquece que é um anacronismo, que aquilo não seria possível naquela época. Os efeitos do funcionamento da Máquina Diferencial são vistos em pequenas coisas, nas mudanças do cotidiano vitoriano tão como o conhecemos. É um trabalho tão bem feito que acredito que chega a valer até uma segunda leitura, para observar o que Gibson e Sterling conseguiram fazer, recriar, imaginar.

É até por esse cuidado, e mais ainda pela diversão certa que traz o livro, que não creio que seja voltado apenas para fãs de steampunk. É, sem sombra de dúvidas, altamente recomendado para quem gosta de uma narrativa de aventura, e arrisco dizer, serve até como porta de entrada para quem não está muito familiarizado com a ficção científica. Somando a isso o tratamento dado ao livro pela Aleph (que além do já mencionado Guia de Personagens, traz também um Glossário e Posfácio escrito pelos autores), faz valer ainda mais a pena conferir.
>> MEIA PALAVRA – por Anica


A ILHA DO DR. MOREAU, DE H. G. WELLS

sexta-feira | 11 | maio | 2012

O que eles narram não é apenas engenhoso; é também simbólico de processos que de algum modo são inerentes a todos os destinos humanos” (Jorge Luis Borges).

Apresentamos nossas escusas a Zafón por adiarmos a coluna dedicada a mais um de seus livros e interpormos esta dedicada ao romance do inglês Herbert George Wells (1866-1946), recentemente reeditado no Brasil. Trata-se de um dos livros mais impressionantes que tivemos o prazer de ler e gostaríamos de aproveitar o calor das primeiras impressões para registrarmos nosso entusiasmo.

A ilha do Dr. Moreau foi escrito em 1896. Da infância trazemos a vaga lembrança de assistir uma adaptação cinematográfica da obra. O prefácio da nova edição revela outra de 1996. O enredo é relativamente conhecido: após o naufrágio do navio que o conduzia, o protagonista Charles Prendick é resgatado e vai parar em remota ilha do Pacífico, onde conhece o Dr. Moreau. Puxando o fio da memória, lembra-se de reportagem que lera em Londres, revelando as atrocidades cometidas por ele, o que levou ao seu autoexílio. Estabeleceu-se na ilha, contudo, não para penitenciar-se, mas para continuar seus experimentos sem interferência. E que experiências seriam estas? A transformação de animais selvagens em homens.

Prendick não desvenda os fatos imediatamente. Na escuna em que foi acolhido, estranha a presença de diversos animais — uma onça, um lhama, cães e coelhos — e a aparência do auxiliar do médico que cuidou de si. Este médico, Montgomery, por sua vez, é assistente de Moreau. No primeiro contato com o empregado de Montgomery, Prendick repara na parte inferior de seu rosto, que “se projetava para a frente, lembrando um focinho, e sua boca entreaberta mostrava dentes brancos que eram os maiores que eu já vi numa boca humana”. Sentindo o esbarrão de Prendick, “virou-se com uma agilidade animal”. Devido à latitude em que se encontrava, o personagem atribuiu a aparência do indivíduo — e dos demais que apareceram — às peculiaridades regionais de algum povo desconhecido dos europeus de então. Ninguém procura no extravagante a primeira resposta. Para sossegar sua estranheza, contentou-se com a solução oferecida pela geografia.

Desembarcando na ilha, não sem dificuldade e deparando-se com a recusa inicial de Moreau em recebê-lo, Prendick vê-se impedido de descansar devido à sucessão de urros que identificou como da onça da escuna. Afasta-se do quarto onde instalado e resolve explorar o local, como alternativa a continuar escutando aqueles uivos nos quais se concentrava “todo o sofrimento do mundo”. Nesta forçada excursão, conhece parte do território. Vê cenas ininteligíveis, que desafiam sua resposta inicial aos tipos físicos encontrados. A outra parte ele conhecerá depois, fugindo de Moreau e Montgomery. Si os indivíduos encontrados não apresentavam características endêmicas, intui-se uma segunda hipótese, igualmente errônea mas alarmante: Moreau transformaria pessoas em animais?

Temendo ser o próximo, Prendick foge e alcança a outra parte da ínsula.Encontra uma aldeia que reúne os mais diversos e estapafúrdios tipos. Acomoda-se numa cabana onde a figura de aspecto idoso incita os demais a repetir “A Lei” durante insólita e hipnótica ladainha:

“Não andar de quatro pés, essa é a Lei. Então não somos homens?
“Não beber com a língua, essa é a Lei. Então não somos homens? (…)

E assim por diante. O toque de mestre de Wells aparece neste capítulo na constatação: “Não havia sinal de fogo”. Já presenciamos pessoas vivendo nas ruas, lado a lado com cães. Sabemos de outras que vivem entocadas em casas abarrotadas e imundas, como nem os roedores admitem, pois mudam-se quando a permanência é insustentável. Já passamos na calçada por indivíduos cujo odor anunciou a exclusão do banho de entre seus hábitos. Conhecemos outro que se alimenta exclusivamente do encontrado nas caçambas de lixo. Apesar do esforço, não conseguimos lembrar-nos de uma só espécie animal que faça uso do fogo. Vemos homens que vivam como animais, mas animais que vivam como homens é de tal forma inusitado que Prendick deparou-se com o indício mas não conseguiu assimilá-lo.

Fato e que, após algum transtorno, Moreau decide esclarecer seu hóspede. O “cientista” é descrito como corpulento, de barbas e cabelos brancos e rosto quadrado. Wells, antes de firmar-se como jornalista e escritor, foi aluno e professor-assistente na Midhurst Grammar School, estudando em seguida com Thomas Huxley (), o conhecido “buldogue de Darwin”. Não conhecemos a relação de mestre e discípulo e podemos enganar-nos, mas a descrição de Moreau remeteu-nos ao retrato daquele. Seus motivos são expostos no capítulo XIV. Variam entre o positivismo científico do século XIX e o messianismo, agregando sofismas e argumentos de autoridade. Ao contrário de Huxley, Moreau não era nem cientista, nem humanista. Em nossa concepção, estes termos são sinônimos necessários. Temos na conta desta categoria de pessoas aqueles indivíduos que se dedicaram a ampliar os campos do conhecimento humano, ou mantê-los ampliados, ou ainda, levaram este conhecimento para aplicá-lo pelo mundo. São os Sabin, Curie, Edson e Franklin que ilustram nossa História. Moreau é o antípoda de Albert Schweitzer, por exemplo, prêmio Nobel da Paz de 1952. Schweitzer foi exímio organista, que se formou em Medicina com o específico intuito de levar alívio à África, onde aos rigores da natureza adicionou-se a inclemência dos que se apresentaram como colonizadores. Construiu e equipou ao menos um hospital com fundos levantados em concertos nos quais se apresentava.

Moreau soluciona em definitivo a dúvida de Prendick. O que ele via não eram homens e mulheres transformados em animais, mas o contrário. “São animais recortados e esculpidos até adquirirem novas formas”. A crueldade seria idêntica, em nossa opinião. Percebe-se sua preocupação em comprovar suas ideias e sua indiferença à dor decorrente. Adquiriu a insensibilidade de Mengele ou daquele que manipula químicos visando produzir um abortivo eficiente. Seu intento declarado é único: “encontrar o limite extremo da plasticidade de uma forma viva”. E só, sem aplicação prática em benefício de alguém, como questionou Prendick em outra passagem. Por maior sofrimento que causasse, reconhecia a vanidade de seus esforços e logo perdia o interesse pelos espécimes alterados.Rapidamente voltavam a ser o que eram antes, mesmo deformados. Eles regrediam.

Um dos mais cativantes representantes do povo animal — assim são referidos no livro — é o derivado de um cachorro São Bernardo. Ligou-se ao personagem quando ele ficou sozinho na ilha, montava guarda, protegia seu sono. Lembramos de Roger Grenier, no muitas vezes relidoDa dificuldade de ser cão, citando o poeta Rilke: “Sua semelhança confidencial e admirativa é tal que alguns dentre eles parecem ter renunciado a seus hábitos mais antigos, adotando até nossos erros. É exatamente isso que os torna trágicos e sublimes”. Outra figura é o homem-macaco, que despreza as palavras comuns e prefere repetir as que não entende, alegando desenvolver um grande pensamento. Após a leitura, desconfiamos que o sujeitinho escapou da ilha e veio ter ao Brasil, onde proliferou e seus descendentes hoje ocupam os mais diversos cargos.

Todos eles, contudo, regrediram. Parece-nos uma impropriedade vocabular falar em “regressão”. Os “pacientes” de Moreau sequer deixaram de ser o que eram. Após o experimento, perderam a forma original, foram hipnotizados e condicionados. Em relação a estes seres, Moreau cometeu o mesmo erro dos ascetas: não se aperfeiçoa o espírito mutilando o corpo. Portanto, não haveria como voltar de um ponto que não foi atingido. Afastada a interferência humana, retomaram seus hábitos, fosse qual fosse o tempo transcorrido. Retomadadefinitiva, pois as parciais davam-se diariamente, à noite. Estamos convictos de que ao homem é impossível regredir — aqui, sim, no sentido próprio — a estágios animalescos e de dócil submissão a comandos acompanhados de reforços ou punições. Felizmente, todos os anos temos o Big Brother Brasil para sedimentar-nos a convicção. “Então não somos homens?”.
>> DIGESTIVO CULTURAL – por Ricardo de Mattos


BORGES: UMA VIDA, POR EDWIN WILLIAMSON

terça-feira | 21 | fevereiro | 2012

No embalo do relançamento das obras completas de Jorge Luis Borges, a Companhia das Letras traduziu Borges: a life(2004), de Edwin Williamson, professor de literatura espanhola em Oxford. Aparentemente, a vida de Borges, que se dedicou à literatura, não soa tão interessante.

Mas um elogio de Harold Bloom, o maior crítico literário vivo, a essa obra sobre a vida do “mestre argentino”, talvez nos faça mudar de opinião. Embora tenha reconhecido a genialidade deMachado de Assis, Bloom recusou-se a ler Guimarães Rosa, pois disse que “não tinha mais tempo”. O “mestre argentino” ganhou, com Machado, um dos capítulos de Gênio (2003). E é impossível não aproximar o maior crítico contemporâneo do, possivelmente, maior leitordo século XX. E se Bloom “perdeu tempo” com a biografia de Borges, mantendo Guimarães Rosa na espera, é que ela merece ser lida.

De fato, se a vida de Borges foi dedicada à literatura, o que lemos, no livro de Williamson, não é uma biografia tradicional, afinal ele busca “correspondências entre o texto literário e o contexto pessoal”. Borges: uma vida surpreende, em primeiro lugar, pelas mulheres que habitaram a vida, ou o pensamento, de Borges. Para surpresa geral, declara o próprio: “Como passei a vida pensando em mulheres, ao escrever tratei de pensar em outra coisa”. A uma mulher, por exemplo, ele dedicou “O Aleph” (1949). Em “A morte a bússola”, um conto de Ficções (1944), Borges conclui que “o intelecto sozinho leva à morte”, enquanto “o amor se constitui na bússola que nos levará à salvação”. Passou quase a vida inteira lamentando “ter repetidamente sacrificado sua chance de felicidade com uma mulher”.

E, quando morreu sua mãe, escreveu, num poema: “Eu cometi o pior dos pecados possíveis a um homem. Não ter sido feliz”. Leonor Acevedo, aliás, quase centenária, seria outro dos centros de gravidade na vida de Borges. Declararia ela a Bioy Casares(historicamente, o maior amigo de Jorge Luis): “Passei a vida entre dois loucos e às vezes me pergunto se esses dois loucos não tiveram razão”. O “segundo louco” era o Doutor Borges, pai de Jorge Luis (na intimidade,Georgie). Tendo fracassado na literatura, e tendo sido acometido pela cegueira mais cedo que o filho, Doutor Borges transmitiu a Jorge Luis a missão de ser realizar como escritor. E “Georgie”, além da salvação pelo amor, acreditava, obviamente, na salvação pela literatura. Acreditava, como diz Williamson, que “uma obra-prima autêntica seria suficiente para justificar a vida de um escritor”.

Nesse sentido, a Divina Comédiaforneceu a chave que faltava para conferir sentido à existência de Jorge Luis: se encontrasse sua Beatriz, como Dante encontrou, Borges poderia ser feliz, e realizar-se como homem, e como escritor. Ainda que boa parte do mundo não concordasse, acreditou ter encontrado sua “Beatriz” no fim da vida: era María Kodama, que faria Luisa Valenzuela, uma romancista argentina, definir assim o casal: “O venerável velho e a mulher que tirou o venerável velho de seu encapsulamento e o pôs em contato com a vida”. Casaram-se praticamente no leito de morte de Borges. Se o amor quase não chegou a tempo, a consagração também atrasou.

E uma das fases mais célebres de Borges, como “mestre oral”, teve início quando ele se aproximava do seu cinquentenário: “Assim, aos 47 anos, descobri que se abria diante de mim uma vida nova e emocionante”. Conquistou o mundo, nas palavras do escritor norte-americano Richard Burgin: “Quando deu sua última palestra em Harvard, Borges já era o herói literário de Cambridge”. Em 1983, recebeu a Legião de Honra do presidente François Mitterand. E só não ganhou o Nobel, pois defendeu as ditaduras, na América Latina, contra populistas como Perón. Williamson conta que, na Itália, Borges passou a definir o que era “o gosto literário” e, mesmo, “a própria ideia de literatura”.

A verdade é que continua definindo, e não so dentro da Itália, mas fora dela também. Modesto, Borges concluiria, numa entrevista, não ter sido “um pensador”: “nunca havia chegado a nada”; era, no máximo, “um homem de letras”… “um tecelão de sonhos”. E ainda que se considerasse, como poeta, um “grandiloquente de terceira categoria”, criaria, na definição de Bioy Casares, “um novo gênero literário”, “entre o ensaio e a ficção”, inaugurando “as possibilidades literárias da metafísica”. Se a “vida” desse homem não pode ser emocionante, o que pode ser, então? Borges, de Williamson, não só traz de volta a noção perdida de literatura, mas também a noção perdida de uma vida dedicada à literatura.
>> DIGESTIVO CULTURAL – por Julio Daio Borges


A HISTÓRIA DE ALICE NO PAÍS DAS MARAVILHAS

domingo | 5 | fevereiro | 2012


Esses dias estava perambulando pela Livraria Saraiva, aqui em Porto Alegre, quando encontrei o belo livro Contos que a Vovó Lê Pra Mim, da Disney. O livro, de 2009, tem 320 páginas e custa R$ 59,00. A edição tem as bordas douradas e traz na capa inconfundíveis personagens ilustrados no traço da Disney, como Dumbo, Pequena Sereia, Nemo e Bambi. Abri o exemplar e, primeiro, me surpreendi com a mistura de histórias, pois temos desde clássicos como Branca de Neve até histórias contemporâneas como Rei Leão e Toy Story. Até aí, tudo bem, sinal dos tempos. O que me surpreendeu e provocou esta resenha foi chegar na página de Alice no País das Maravilhas e perceber que não havia nenhuma referência ao nome de Carroll, o autor do livro! Procurei nas páginas iniciais, nas finais, no rodapé, mas nada, Alice no País das Maravilhas estava ali incorporado como um conto clássico, sem autoria, apenas a menção do nome de quem o adaptou.

Curioso, fui até a seção de livros infantis e reparei que há outros casos em que o livro Alice no País das Maravilhas não traz referência ao autor, como na Coleção “Livros Sonoros de Contos Clássicos”, da Editora Ciranda Cultural. Aqui a história de Carroll é reduzida a seis páginas, com ilustrações de tela inteira e o texto, em caixa alta, resumido em um parágrafo. O grande diferencial é que o

“leitor”, clicando em botões na lateral do livro, poderá ouvir a narração da história.

Sei que Barthes já escreveu sobre a morte do autor em meados do século passado, que muito se tem discutido sobre Creative Commons nessa era digital, mas a mim pareceu que omitir a autoria de um romance como Alice é criminoso, algo como adaptar Hamlet sem citar Shakespeare (ainda que haja dúvidas sobre a existência real de Shakespeare) ou adaptar Dom Quixote sem mencionar Cervantes. Não são edições amadoras, são edições de grandes grupos editoriais vendidas em uma mega-livraria com ação em Bolsa de Valores, e ainda que a omissão da autoria original esteja protegida pela lei, já que o texto caiu em domínio público, atribuo esse descaso ao fato de tratar-se de literatura infanto-juvenil, pois desafio alguém a encontrar edição deHamlet sem menção a Shakespeare e de Quixote sem o nome de Cervantes.

Alice no País das Maravilhas (em inglês, Alice’s Adventures in Wonderland, frequentemente abreviado para Alice in Wonderland) foi publicado em 4 de julho de 1865 por Lewis Carroll, pseudônimo de Charles Lutwidge Dodgson, com ilustrações de John Tenniel. Carroll, segundo o polêmico e exigente crítico norte-americano Harold Bloom, foi o grande mestre da literatura fantástica (ou de fantasia).

A estória (como diria Guimarães Rosa) surgiu em 1862, num passeio de barco pelo rio Tâmisa, quando Charles Dodgson a conta de improviso para entreter as irmãs Lorina, Edith e Alice Liddell. Dois anos mais tarde, Dodgson presenteia Alice com o manuscrito Alice Debaixo da Terra (em inglês, Alice Adventures Under Ground), manuscrito que continha 37 ilustrações feitas pelo próprio autor.

Anos mais tarde, em 1886, este manuscrito seria publicado e hoje está disponível na internet em http://www.gutenberg.org/files/19002/19002-h/19002-h.htm. A edição é primorosa, pois revela todo o trabalho manual de redação e ilustração das páginas. Ao final, há uma fotografia da menina Alice Liddell e um posfacio de

Charles Dodgson em que diz jamais ter pensado na publicação do livro quando o escreveu, mas que o incentivo dos amigos para publicá-lo foi de grande valia, em especial pela alegria que o livro leva às crianças, mesmo que doentes. Ele reproduz, inclusive, uma carta que inicia assim: “Gostaria que você enviasse uma felicitação de Páscoa para uma criança muito querida que está morrendo em nossa casa. Ela está enfraquecendo, e Alice iluminou algumas das desgastantes horas de sua doença. Sei que sua carta seria um deleite para ela, especialmente se você escrever ‘Minnie’ no cabeçalho”.

Para a publicação do livro, em 1865, Dodgson ampliou a história de seu manuscrito, mudou o título para o que hoje conhecemos e trocou seus desenhos pelas 42 ilustrações enviadas por John Tenniel. O trabalho completo pode ser acessado emhttp://ebooks.adelaide.edu.au/c/carroll/lewis/alice/ num e-bookproduzido pela Universidade de Adelaide. Anos mais tarde, em 1871, Dodgson publica, novamente sob o pseudônimo de Carroll, Alice Através do Espelho e o que encontrou por lá (em inglês, Through the Looking-Glass and What Alice Found There).

Consta que Alice no País das Maravilhas tornou-se mais popular apenas depois do lançamento de sua continuação, que teria vendido mais que o primeiro, mas chama atenção a rapidez com que o livro foi traduzido pela Europa: em 1869 foram lançadas traduções em alemão e francês; em 1870, em sueco; em 1872, em italiano. No Brasil, a primeira tradução é de Monteiro Lobato, publicada em 1938. O prefácio de Lobato para a edição, aliás, é muito curioso: “(.) Ficou famoso o livro entre os povos de língua inglesa. Foi traduzido por toda a parte. Seu autor imortalizou-se. Hoje aparecem em português. Traduzir é sempre difícil. Traduzir uma obra como a de Lewis Carrol, mais que difícil, é dificílimo. Trata-se do sonho duma menina travessa – sonho em inglês, de coisas inglesas, com palavras, referências, citações, alusões, versos, humorismo, trocadilhos, tudo inglês, – isto é, especial, feito exclusivamente para a mentalidade dos inglesinhos”.

Dodgson ainda publicaria, em 1890, The Nursery “Alice”, uma adaptação feita por ele próprio com vinte das ilustrações originais de Tenniel, coloridas e ampliadas, e uma nova capa ilustrada por E. Gertrude Thomson. No prefácio dirigido a “qualquer mãe”, Dodgson afirma ter razões para acreditar que “Alice no País das Maravilhas tem sido lido por centenas de crianças inglesas, entre cinco e quinze, também por crianças entre quinze e vinte e cinco, e ainda por crianças entre vinte e cinco e trinta e cinto (.) Minha ambição agora é ser lido por crianças de zero a cinco”. A edição está disponível na web emhttp://www.aliang.net/literature/the_nursery_alice/.

Em 1898, aos 65 anos, Charles Lutwidge Dodgson, ou simplesmente Lewis Carroll, morre na casa de sua irmã, em Londres. Provavelmente sem imaginar que cinco anos depois seria produzido o primeiro filme baseado em Alice, que cinquenta anos depois seria lançada a primeira animação de Alice, que dois anos depois uma empresa que sequer existia quando do seu falecimento, a Disney, levaria a história para todos os lares, que mais de cem anos após sua morte um grande diretor de Hollywood faria uma versão em 3D de sua história e que centenas de adaptações e versões seriam escritas e publicadas, algumas sequer mencionando seu nome.
>> DIGESTIVO CULTURAL – por Marcelo Spalding