FREUD E O ESTRANHO – CONTOS DO INCONSCIENTE

domingo | 5 | fevereiro | 2012

“Freud e o estranho – contos do inconsciente”, organizado por Bráulio Tavares (Casa da Palavra, 350 págs.), mesmo sendo irregular, não deixa de ser interessante. Em primeiro lugar, pela caprichada apresentação do volume, com notas bastante explicativas acompanhando os contos, além de comentários reunidos ao final do volume.

Foi provavelmente a partir do sucesso da antologia organizada por Ítalo Moriconi, Os 100 melhores contos brasileiros do século(Editora Objetiva, 2000) que as antologias de contos viraram moda no mercado editorial brasileiro. Não que haja algo de errado com isso, muito pelo contrário: essas antologias, quando bem organizadas, são meios importantes para a divulgação de literatura de qualidade. E nos últimos anos surgiram boas antologias no Brasil, especialmente no que se refere à literatura fantástica. Os contos de horror do século XIX, escolhidos por Alberto Manguel, e os Contos fantásticos do século XIX, escolhidos por Ítalo Calvino (ambas editadas pela Editora Companhia das Letras), talvez sejam mesmo as mais famosas. Mas houve outras coletâneas altamente recomendáveis, como os Clássicos do sobrenatural (Editora Iluminuras), organizados por Enid Abreu Dobránszky, e Os melhores contos fantásticos (Editora Nova Fronteira), organizados por Flávio Moreira da Costa. Houve ainda antologias sobre loucura, morte, violência, vampiros e lobisomens, apenas para ficarmos nos temas que tangenciam a literatura fantástica.

Neste contexto, Bráulio Tavares tem feito um trabalho bastante interessante com a Editora Casa da Palavra. Sempre com ilustrações de Homero Cavalcanti, Tavares organizou, primeiramente, Páginas de sombra: contos fantásticos brasileiros (2003), cujo maior mérito é recuperar textos quase esquecidos, como “Os olhos que comiam carne”, de Humberto de Campos, e colocá-los ao lado de autores contemporâneos, como Rubens Figueiredo e Heloísa Seixas. O resultado é um panorama que, mesmo sem ser exaustivo, dá uma boa mostra das diferentes vertentes do fantástico nacional.

Depois, veio uma idéia à primeira vista inusitada: recolher, em uma antologia, contos cujos temas se aproximassem do universo literário de Jorge Luís Borges. O livro, Contos fantásticos no labirinto de Borges (2005), é muito bom e, de fato, consegue achar uma linha de contato entre contos de diferentes épocas, que representassem algumas das leituras mais caras a Borges: de Edgar Allan Poe a Franz Kafka, passando por Hawthorne e Chesterton.

Mas o título do último livro organizado por Bráulio Tavares é ainda mais inusitado: Freud e o estranho – contos fantásticos do inconsciente. O tema, agora, é o célebre ensaio “O estranho” (“Das Unheimlich”, 1919), em que Freud analisa o conto de E. T. A. Hoffmann, “O homem de areia”. Tavares reúne, então, histórias anteriores ou contemporâneas de Freud e que desenvolvam temas presentes no referido ensaio. Como sempre, estão reunidos alguns grandes autores, como o próprio Hoffmann, Guy de Maupassant e Arthur Schnitzler, e contistas menos conhecidos, como Charlotte Perkins Gilman e F. Marion Crawford.

Gênero amplo

Em seu prefácio, Bráulio Tavares explica que o termo “inconsciente”, tendo se popularizado imensamente, pode abranger um número muito variado de histórias. Essa amplitude está presente também na própria acepção de “literatura fantástica” utilizada aqui: ao contrário do que pregam alguns teóricos, para os quais o fantástico é um gênero datado e com regras bastante definidas, Tavares toma o gênero em sentido mais amplo, entendendo como fantástica “qualquer modalidade não realista da narrativa”, o que inclui contos de fada, a ficção científica, além dos contos de terror propriamente ditos. Essa amplitude é, na verdade, um índice de liberdade criativa:

Como a linguagem dos sonhos, o Fantástico se permite qualquer tipo de livre associação, deslocação, condensação de imagens ou de cenas, paradoxos do tempo e do espaço, de acordo com a intuição do autor. Permite lidar com criaturas, lugares e circunstâncias inexistentes em nosso mundo cotidiano. Nesse sentido, o Fantástico não é uma fuga ou um recuo diante do Realismo, mas um passo além, contando histórias que o Realismo não pode contar pela sua limitação auto-imposta.

Não à toa, Freud recorre à literatura fantástica para descrever “o estranho”, “aquela categoria de assustador que remete ao que é conhecido, velho, e há muito familiar” [1]. Bráulio Tavares, porém, deixa de lado as análises psicanalíticas e se preocupa em elencar aqueles temas nos quais, segundo Freud, o Estranho pode ocorrer com mais freqüência: o retorno do reprimido, a indefinição entre fantasia e realidade, a loucura, o sonho, membros decepados que tomam vida, o retorno dos mortos, as repetições inexplicáveis, o autômato e sua semelhança com o homem.

Deste vasto repertório, o tema mais comum da coletânea é a animação de objetos supostamente inanimados. O resultado é irregular, e algumas vezes bastante ingênuo, como no caso de “Inexplicável”, de L. G. Moberly: uma mulher conta como ela e o marido são assombrados por uma mesa, entalhada com imagens de crocodilos, e que exala um cheiro forte de pântano. Aparentemente, uma das formas de madeira toma vida. Efeito semelhante é provocado pelo primeiro conto do livro, “O papel de parede amarelo”, de Charlotte Perkins Gilman, que também trata de um casal mudando-se para uma nova casa. Como convém ao gênero fantástico, ele é um médico, cético, que “não tem paciência para crenças, odeia superstições e ridiculariza abertamente qualquer conversa envolvendo coisas que não podem ser vistas e traduzidas em números”, enquanto ela ― que narra a história em um diário ― sofre de alguma perturbação psicológica que o médico define como histeria, e que a torna suscetível ao inexplicável. E, neste caso, o sobrenatural manifesta-se através de um estranho papel de parede, cujos desenhos escondem formas humanas. Mais especificamente, imagens de uma ou de várias mulheres rastejando, forçando sua saída para fora do desenho. A leitura mais evidente para o conto é feminista, com a imagem do papel de parede metaforizando a condição da narradora.

Contos inofensivos

Algumas histórias, como estas, trazem clichês bastante evidentes. No conto “Anima” ― na verdade uma história bastante interessante, apesar de um ou outro lugar comum ― um dos personagens conclui deste modo a reflexão sobre a existência de um “ghoul”, um espírito maligno: “Posso acreditar que não exista nenhum em Rhode Island ― o cônsul disse. ― Estamos na Pérsia, e a Pérsia fica na Ásia”. É bastante comum nos contos fantásticos que os eventos sobrenaturais transcorram em locais distantes do imaginário europeu, o que não é necessariamente ruim, e pode ser literariamente eficiente (é claro que esse artifício respeita uma noção de “exótico” muitas vezes datada e caricata, comum no discurso colonialista). Mas expor didaticamente esse procedimento equivale a transformá-lo naquilo que o próprio organizador, evocando a opinião de Freud, chama de “fórmulas que um leitor experimentado podia perceber num relance”. Quanto mais evidente a fórmula do conto, mais “domesticado” e inofensivo o efeito de estranhamento, menos perturbador o efeito do fantástico. Lembremo-nos que a maioria os contos da antologia é da virada do século 19 para o 20, quando as formas do conto fantástico já estavam cristalizadas há muito no imaginário do leitor. No já citado conto “Inexplicável”, a ingenuidade chega a ponto da personagem narradora se dirigir diretamente ao leitor, supostamente “estimulando-o” com uma interrogação: “Você consegue encontrar alguma explicação?”.

Há contistas, porém, que conseguem provocar um efeito de terror bastante eficiente a partir de conflitos aparentemente ingênuos. Como no caso do conto de Bram Stocker, “A pele-vermelha”, em que um evento banal ― a morte acidental de um filhote de gato ― provoca desdobramentos e um desfecho impressionante. O mistério do conto está na sugestão de que a gata vingativa esteja tomada pelo espírito de um índio pele-vermelha, capaz da vingança mais cruel. O resultado é sangrento, destoante do tom idílico do começo da história: na gradual transição entre o idílico e o horrível é que se encontra a qualidade do conto.

Em outros casos, a saída é o humor. Este parece ser o caso de “A caveira que gritava”, de F. Marion Crawford (ainda que o humor talvez não seja de todo proposital) e, principalmente, “A besta de cinco dedos”, de William F. Harvey, uma pérola do humor negro. A besta do título é, obviamente, uma mão decepada, a materialização de um tema muito em voga no início do século 20, a escrita automática (proposta pelos surrealistas) e a dissociação mental. O diretor da adaptação cinematográfica chegou a ser acusado de plágio por Luis Buñuel, para quem o tema da mão decepada era bastante caro.

Merecem destaque ainda os contos de Maupassant e Schnitzler, este último conterrâneo de Freud, com quem manteve uma relação de amizade e correspondência. Em uma carta curiosa reproduzida por Tavares, Freud explica a Schnitzler que havia evitado sua companhia por temer encontrar-se com seu duplo. Freud reconhecia nas criações do escritor muito do seu próprio pensamento sobre o inconsciente, as convenções sociais, a relação entre amor e morte. Pode-se dizer que a obra de Schnitzler despertava no pai da psicanálise uma sensação de estranha familiaridade.

Clássicos inesquecíveis

Freud e o estranho – contos do inconsciente, não é, enfim, tão bom quanto seu antecessor, Contos fantásticos no labirinto de Borges. Neste, mesmo nos contos mais fantasiosos, como os de Ray Bradbury e H. G. Wells, havia um efeito de fantástico bastante incomum, que fugia dos clichês do gênero. Mas a presente antologia, mesmo sendo mais irregular, não deixa de ser interessante. Em primeiro lugar, pela caprichada apresentação do volume, com notas bastante explicativas acompanhando os contos, além de comentários reunidos ao final do volume. Neste aspecto, a cultura “fantástica” do organizador se destaca, quando ele traça interessantes relações entre autores distantes, como Julio Cortazar e Hugh Walpole, E. T. A. Hoffmann e Philip K. Dick, Cleveland Moffett e Guimarães Rosa. Além disso, a antologia pode ser muito útil aos leitores de Freud, considerando que reúnem alguns contos citados em “O estranho”, como “A aranha” e “Inexplicável”, história que sequer é nomeada por Freud, mas cujo enredo lhe serve de exemplo.

Mas, acima de tudo, como acontece nos melhores contos fantásticos, há certas imagens que, finda a leitura do volume, deverão acompanhar o leitor: a aparição do conto de Maupassant, “A máscara de prata” velando pelo sono tumultuado de sua proprietária, a misteriosa moça à janela em “A aranha” e, claro, os olhos arrancados do autômato em “O homem de areia”, sem dúvida um clássico absoluto do fantástico, e o melhor texto desta antologia.
>> DIPLÔ Le Monde Diplomatique – por Gregório Dantas


OS BURACOS DA MÁSCARA: SETE NARRATIVAS GÓTICAS

terça-feira | 24 | janeiro | 2012

As histórias de Karen Blixen – em Sete narrativas góticas (Cosac Naify, 480 págs.) – negam as obviedades da tradição que evocam no título. Antes, sugerem novas sombras, disfarces e duplos. A começar por aquele que é o grande tema do livro, a identidade. [1]

A biografia da escritora dinamarquesa Karen Blixen tornou-se tão célebre quanto suas histórias. Casada com o barão sueco Bror von Blixen Finecke, acompanhou o marido para o Quênia, onde viveu entre 1914 e 1931. Além da fazenda de café endividada, que administrou até a bancarrota, Blixen também herdou do marido promíscuo uma doença com a qual conviveria pelo resto da vida, e que por fim a mataria: a sífilis. Após seu divórcio, em 1926, iniciou um caso amoroso com um piloto do exército britânico, Denys Finch Hatton, que morreria em um acidente de avião em 1931. Este relacionamento, como grande parte de sua experiência na África, foi narrado no romance autobiográfico A fazenda africana (Out of Africa, 1936), celebrizado pela adaptação cinematográfica protagonizada por Meryl Streep e Robert Redford. Foi durante a lenta e inevitável decadência de sua fazenda que a escritora escreveu suas Sete narrativas góticas [2] (1934). Escrito em inglês, inicialmente recusado pelas editoras, o livro foi publicado sob o pseudônimo de Isak Dinesen e se tornou um enorme sucesso de público, motivando a autora a se dedicar exclusivamente à carreira literária.

Na época em que as Sete narrativas góticas foram lançadas, houve quem criticasse a autora por causa do tom irreal de suas histórias, e a acusasse de exercer a arte pela arte, sem qualquer implicação social. Trata-se de um preconceito tolo, é verdade. Mas é indicativo do quanto os contos de Karen Blixen parecem deslocados de seu contexto original. Quase anacrônicos, mesmo.

São contos longos, quase novelas, cujos enredos se passam nos séculos 18 e 19, e tratam de certa nobreza que, mesmo decadente, ainda está muito ligada a determinadas tradições ancestrais. O início do conto “O dilúvio em Nordeney”, que abre o volume, é bastante representativo: estamos no início do século 19, em um balneário litorâneo freqüentado por “damas e cavalheiros elegantes”, e o ambiente está tomado por aquele espírito romântico

que se rejubilava diante de ruínas, espectros e lunáticos, e fazia de uma noite tempestuosa na charneca e de um profundo conflito passional regalos mais requintados para o conhecedor do que as amenidades de salão e a harmonia dos sistemas filosóficos […]. A proximidade de algum naufrágio, com os restos da embarcação ainda visíveis na maré baixa, como um escuro esqueleto petrificado e salgado, tornou-se um dos locais prediletos para piqueniques, nos quais artistas armavam seus cavaletes. (p. 9)

São facilmente reconhecíveis nas Sete narrativas góticas muitos dos temas e procedimentos da literatura fantástica, como o já citado gosto pelo passado, a exploração dos sonhos, a metamorfose, as máscaras, o espelho, as referências à bruxaria e às superstições locais. Mas não se trata de contos fantásticos, no sentido mais estrito do termo. Isso porque aquela hesitação entre a explicação racional e a sobrenatural para os eventos descritos, hesitação que é central para o fantástico, não é o mais importante destas Sete narrativas góticas. Em algumas delas, o sobrenatural é apenas insinuado; em outras, possui um importante papel, mas surge com relativa naturalidade.

Como em “A ceia em Elsinore”: por motivos que fogem à compreensão da sociedade da região portuária de Elsinore, as irmãs De Coninck nunca contraíram núpcias. Encantadoras, nunca lhes faltaram pretendentes; mas elas permaneceram fechadas ao assédio, dedicadas à casa da família e à memória do irmão, ex-corsário e desaparecido misteriosamente. Já solteironas, e vivendo sozinhas em Copenhague, as irmãs continuavam sedutoras e entretidas com eventos sociais. Certa noite, enquanto recebiam um grupo de amigos, chega-lhes de visita sua antiga empregada, senhora Baek, agora responsável pela propriedade de Elsinore. O passado, na forma de um fantasma, parece rondar a casa. Não há grandes sustos ou questionamentos sobre a natureza sobrenatural dos eventos narrados, e o conflito principal está na maneira como os personagens envolvidos lidam com seu passado.

Histórias dentro de histórias

Também é recorrente nas histórias fantásticas que os objetos ou seres sobrenaturais sejam oriundos de países distantes. Lembremos da longínqua Transilvânia, terra natal do conde Drácula; da misteriosa Índia dos contos de Rudyard Kipling, a mesma Índia de onde veio “A pata do macaco” do conto de W. W. Jacobs; ou até mesmo daquele país exótico, o Brasil, de onde surgiu a estranha raça de vampiros descritos no clássico de Maupassant, “O Horla”. É claro que, em todos os casos, está em jogo uma noção de exótico e misterioso que tem muito de esquemático, e que varia com o tempo.

Nas Sete narrativas góticas, essa região exótica e fantástica é Zanzibar. De lá vem o macaco que dá título a um dos melhores contos do livro e protagoniza um dos desfechos mais inusitados de que se tem notícia. E é nas proximidades de Zanzibar que se inicia a história de “Os sonhadores”. Aqui, porém, a autora inverte totalmente a lógica tradicional do fantástico. É o explorador inglês que conta uma história aos nativos, história passada na distante, fria e civilizada Europa. Mira Jama, o contador de histórias local, fisicamente mutilado (simbolizando a decadência de seu ofício?), terá ao final a chance de contar uma fábula. Mas que servirá apenas como mais um desdobramento ― ou versão ― da(s) história(s) do inglês.

“Os sonhadores” é um conto exemplar de um dos procedimentos mais importantes para Karen Blixen, as histórias que surgem dentro da história principal. No caso, uma única personagem é descrita por vários homens que a conheceram, de modo que ela só é acessível ao leitor através de diferentes pontos de vista, de homens vitimados pelo delírio amoroso. Desse modo, a percepção das coisas é contaminada por um estado onírico em que prevalece a ambigüidade das formas. É assim também com o jovem apaixonado de “O poeta”, cujos

pensamentos faziam com que as coisas adquirissem proporções descomunais ― como nas montanhas as imensas sombras que os viajantes projetam em meio à neblina e que os enchem de terror ―, gigantescas e de certo modo grotescas, como objetos que se movem um pouco à margem da razão humana. (p. 395)

A articulação entre diferentes histórias é particularmente complexa em “Os caminhos em torno de Pisa”, em que relações entre os personagens são mais sugeridas do que mostradas. Um jovem conde, atormentado por problemas no casamento, conhece uma velha dama cuja carruagem se acidentara. A senhora, debilitada, conta-lhe a história de sua vida, e pede-lhe um importante favor: que o conde procure por sua neta, a fim de se reconciliarem. Durante a viagem, porém, o conde presencia uma estranha discussão em uma estalagem, e é impelido a testemunhar um duelo mortal entre os contestantes. De modo que surgem histórias que se desdobram dentro daquela que julgávamos a história principal.

O verdadeiro sentido do conto (e das histórias que, mesmo sem uma ligação aparente, espelham-se uma às outras) será sugerido por dois elementos aparentemente banais: um pequeno objeto, que revela relações insuspeitas e passadas entre os personagens; e um corriqueiro teatro de marionetes que, visto de passagem pelo conde em sua viagem, parece compor a principal metáfora do conto. O grande trunfo do destino é fazer-nos crer no acaso. Como a ilusão de um teatro de marionetes.

Sem obviedades

Não à toa, outro motivo recorrente nesses contos é o do autômato. De maneira discreta, diversos personagens são comparados a bonecos ou seres inanimados. A metáfora é literariamente eficiente, não apenas porque evoca um motivo caro à literatura fantástica (pensemos no “estranho”, ou Unheimlich, que Freud identificou em “O homem de areia”, de E. T. A. Hoffmann), como reforça a idéia da marionete, do homem como um joguete do Destino. Um Destino que, onipresente, parece manipular, um pouco arbitrariamente, o andamento do enredo e sua verossimilhança.

Como decorrência dessa aparente arbitrariedade, há uma flagrante artificialidade no modo como personagens que julgávamos secundários tomam a palavra e narram suas vidas. Bem como no tom filosófico e nas citações eruditas que facilmente tomam conta de uma conversa entre estranhos. O narrador de “O velho cavalheiro”, por exemplo, tem o capricho de interromper sua narrativa para explicar devidamente a natureza das mulheres de sua época, e descrever o quanto as vestimentas das damas diziam de suas personalidades. Essas pausas são recorrentes: os personagens ― e o narrador através deles ― estão sempre dispostos a discorrer a respeito dos assuntos mais graves e, para tanto, não hesitam em recorrer a citações eruditas ou a versos memoráveis.

Mario Vargas Llosa já havia identificado como algumas das principais qualidades de Blixen certa “elegância ligeiramente passada de moda, sua esquisitice e irreverência, seus jogos e desplantes de erudição, e seu escasso, para não dizer nulo, contato com o inglês vivo e falado da rua” [3]. Neste sentido, o texto de Karen Blixen é indisfarçadamente “literário”. Mas a sofisticação de sua prosa suplanta qualquer “artificialismo”. E suas narrativas negam as obviedades da tradição gótica que evocam no título. Antes, sugerem novas sombras, disfarces e duplos. A começar por aquele que é o grande tema do livro, a identidade. Metamorfoses, disfarces e conflitos de personalidade estão presentes em todas as histórias: jovens moças disfarçadas se passam por homens, uma velha senhora sem peruca adquire as feições de um ancião, uma mulher madura e casta forja para si mesma um passado de devassidão.

Como no caso de “O dilúvio em Nordeney”: quatro pessoas que não se conhecem encontram-se, devido a situações adversas, isoladas em um celeiro cercado pelas águas. Enquanto aguardam a manhã e a subseqüente ajuda, eles contam cada um a sua história. Ninguém é quem parece ser. Caem as máscaras sociais e se revelam os vícios ― o orgulho, principalmente ― que mantêm os disfarces. “Não é pela expressão que se deve conhecer o homem, e sim pela máscara” (p. 87), diz um dos personagens. O final do conto, em aberto, é desconcertante.

Máscaras, bonecos, disfarces: o referido “artificialismo” dos contos de Karen Blixen tem algo de teatral. E o leitor, como o personagem da obra-prima “O macaco”, não deve ser “tão dogmático a ponto de acreditar que é indispensável haver tablado e luzes de ribalta para se estar no teatro” (p. 156). Karen Blixen é uma escritora para aqueles que aceitam as convenções literárias e o quanto há de onírico em todas as histórias. E aceitam a idéia de participar de um baile de máscaras em que nunca se revelarão, senão por sutilizas e discretos buracos na máscara, as identidades de seus convivas.

[1] O título dessa resenha é uma referência ao conto de Jean Lorrain, chamado precisamente de “Os buracos da máscara” e que pode ser lido em Contos fantásticos do século XIX, escolhidos por Ítalo Calvino. São Paulo: Companhia das Letras, 2004.

[2] BLIXEN, Karen. Sete narrativas góticas. Trad. Cláudio Marcondes. São Paulo: Cosac Naify, 2007.

[3] LLOSA, Mário Vargas. “Os contos da baronesa”. In: A verdade das mentiras. Trad. Cordélia Magalhães. São Paulo: Arx, 2004.

>> DIPLÔ – por Gregório Dantas


JULES VERNE: 20 MIL LÉGUAS DE AVENTURA

segunda-feira | 23 | janeiro | 2012

A edição “definitiva” do livro de Verne
não é para jovens,
mas para velhos amantes da literatura

"20 mil léguas submarinas" (comentada e ilustrada), de Jules Verne

Antes de a ciência médica aparecer com os exames de DNA e os procedimentos de barriga de aluguel, alguns piadistas misóginos costumavam dizer que a identidade da mãe é sempre uma certeza; já a do pai jamais passa de mera conjectura. A ficção científica, como forma literária, se encaixa bem nesse antigo aforismo da cafajestagem: a mãe é obviamente Mary Shelley, autora do assombroso Frankenstein, mas e o pai? Seria o francês Jules Verne ou o britânico H.G. Wells?

Verne certamente começou antes, tendo publicado em 1863 o romance Cinco Semanas em Balão, narrativa em que um grupo de exploradores sobrevoa a África num balão que, para os padrões da época, era quase uma nave espacial. Esse livro veio a público três anos antes de Wellsnascer. Os defensores da primazia do britânico (culpado, meritíssimo) geralmente argumentam com base numa certa concepção de ficção científica: enquanto, em Wells, a ciência é um meio para entender e modificar o mundo, em Verne ela é apenas o pretexto da aventura.

Em Guerra dos Mundos ou na Máquina do Tempo, por exemplo, vemos a civilização ocidental soçobrar sob um ataque alienígena, num caso, ou debaixo de pressões econômicas, sociais e biológicas, no outro. Em Viagem ao Centro da Terra ou 20 Mil Léguas Submarinas, em comparação, o que temos é a aventura científica servindo como uma espécie de parêntese em meio ao fluxo do status quo, que prossegue inabalado. Nesse aspecto, os livros de Verne lembram muito as histórias de super-heróis dos anos 50 e 60, nas quais nenhuma revelação, fosse a da existência de vida extraterrestre ou do ressurgimento da Atlântida, era capaz de abalar a rotina das donas-de-casa de vestido rodado e de seus maridos de terno marrom, chapéu e gomalina.

Se o título de Verne a pai da ficção científica é contestado, é difícil, no entanto, negar a ele a paternidade de outro gênero popular, o technothriller, onde tramas rocambolescas são desencadeadas por, e giram em torno de, avanços tecnológicos únicos, muitas vezes descritos com um nível obsessivo de detalhe. É difícil imaginar Tom Clancy ou mesmo Michael Crichton sem Verne. E Caçada ao Outubro Vermelho, o livro mais famoso de Clancy, provavelmente não existiria sem o antecedente de 20 Mil Léguas Submarinas.

É deste romance, talvez o mais famoso de Verne, que chega uma “edição definitiva” publicada pela Zahar. Suponho que a maioria dos leitores desta resenha já esteja familiarizada com o enredo geral da obra, mas aqui vai um breve resumo: nos anos finais da década de 1860, o biólogo francês Pierre Aronnax, acompanhado por seu fiel valete Conselho e por Ned Land, um intrépido arpoador de baleias canadense, se vê aprisionado a bordo de um magnífico submarino, o Náutilus, e à mercê de seu comandante, o anti-heroi quase-byroniano Capitão Nemo. Na condição de hóspedes involuntários de Nemo, os três percorrem 20.000 léguas sob as águas do mar, visitando as ruínas da Atlântida, os campos de cultivo de pérolas do Pacífico e a Antártida.

Quem conhece outras “edições definitivas” lançadas pela mesma casa editorial, como as de Sherlock Holmes, anotadas pelo estudioso Leslie S. Klinger, ou a Alice de Lewis Carroll, anotada por Martin Gardner, corre o risco de se desapontar: as notas do tradutor André Telles são úteis, interessantes e corretas, mas estão longe de oferecer a exuberância de estilo e erudição desses outros títulos, onde muitas das anotações se desdobram em verdadeiros ensaios históricos e literários.

O papel ensaístico fica por conta da mais que interessante introdução de Rodrigo Lacerda, que contextualiza, para o leitor desavisado, a gênese das Viagens Extraordinárias – série que inclui, além das 20 Mil Léguas, outros títulos famosos, como Viagem ao Centro da Terra, por exemplo. Lacerda lembra que as Viagens foram concebidas como folhetins paradidáticos, publicados como uma espécie de suplemento literário de um periódico infanto-juvenil chamado Revista de Educação e Recreação.

Essa concepção, da obra ficcional como uma espécie de “colherada de açúcar” que ajuda o xarope amargo da ciência a descer pela goela dos jovens, é uma que ainda persegue a ficção científica em várias partes do mundo, e segue tendo muita força na mentalidade editorial brasileira. Ela ajuda, também, a entender as principais limitações dos livros de Verne, a saber: o caráter episódico da ação; a natureza caricatural de boa parte dos personagens; e os fantásticosinfodumps.

Parte do jargão dos escritores de ficção científica, “infodump” – literalmente, “despejo de informação “ – é o momento em que a ação da narrativa para, a fim de que algum tipo de informação seja transmitida ao leitor. Histórias passadas no futuro têm infodumps sobre os costumes, a moral e a sociedade em que a trama se passa; histórias sobre armas nucleares têminfodumps sobre física atômica; e assim por diante.

Momentos de infodump tendem a ser especialmente desajeitados, e iseri-los no fluxo narrativo sem perder o leitor é um dos grandes desafios técnicos da escrita de ficção científica. No caso dasViagens Extraordinárias de Verne, no entanto, o infodump é a razão de ser do livro: na lógica daRevista de Educação e Recreação, as aventuras do Professor Aronnax e do Capitão Nemo são apenas um pretexto para que os petizes franceses de 1870 aprendam que os peixes podem ser cartilaginosos ou ósseos, que polvos, lulas e calamares são cefalópodes, quais são as principais variedades de vida comestível dos mares do mundo e como preparar uma refeição decente à base de fruta-pão.Entre outras coisas.

Em sua introdução, Lacerda diz que é virtualmente impossível encontrar uma edição brasileira de 20 Mil Léguas, anterior à “defintiva” da Zahar, da qual os infodumps, principalmente os extensos parágrafos de descrição taxonômica da vida marinha, não tenham sido extirpados. Ele elogia a arte de Verne na construção dessas passagens (como: “no ramo dos zoófitos e na classe dos alcionários, observa-se a ordem das gorgonáceas…”), notando que o autor consegue encadear as descrições forma quase poética, e muitas vezes obter belos efeitos literários (“focas de barriga branca e pelagem preta, conhecidas como “monges”, por terem efetivamente o aspecto de dominicanos com três metros de comprimento”.)

Mesmo reconhecendo a importância de uma edição integral do romance em português, no entanto, vejo-me forçado a confessar que os trechos mais explicitamente didáticos quase me fizeram desanimar da leitura.

O verdadeiro gênio de Verne, a meu ver, está na capacidade de criar imagens de pura imaginação, como quando o Náutilus é avistado, pela primeira vez, por Aronnax, que se espanta com a forma como o submarino ilumina a água do mar:

O halo de luz descrevia sob o mar um arco amplo e retesado, do qual o centro condensava-se num foco ardente, cujo insustentável brilho apagava-se por gradações sucessivas.

Quantas vezes essa mesma cena já não foi vista, em filmes e episódios de TV que tratam misteriosos objetos submarinos? E, no entanto, muito provavelmente surgiu, inédita, da pena do escritor francês. Essa é a verdadeira capacidade de antecipação de Jules Verne. Não “prever” o submarino, mas prever, literariamente, qual o efeito poético que a aparição súbita de um submarino teria sobre o espírito humano.

O poder evocativo do autor ressurge, bem adiante, na descrição de um naufrágio visitado pelo Náutilus, onde Aronnax vê, iluminado pela luz fria do submarino, o cadáver de uma mulher ainda preso ao caso submerso, que “erguera o filho acima da cabeça, pobre criaturinha, cujos braços abraçavam o pescoço da mãe”.

Quanto a personagens, de fato 20 Mil Léguas Submarinas só tem dois dignos do nome: o próprio submarino Náutilus e seu capitão, o enigmático Nemo.

Ficamos sabendo, na introdução de Lacerda, que Nemo deveria ser um revolucionário polonês, que perdera a família numa repressão provocada pelo governo russo. Induzido pelo editor a abandonar essa biografia de seu personagem – por questões comerciais e políticas – Verne simplesmente desiste de dar uma vida pregressa a seu enigmático capitão (uma biografia diversa da do rebelde polonês aparece em uma obra posterior, A Ilha Misteriosa).

Mesmo sem uma vida pregressa ou uma motivação clara, no entanto, Nemo – feroz, inteligente, irônico, assombrado, melancólico – é o ser humano mais bem acabado do livro e sua obra, o submarino Náutilus, é uma extensão de sua personalidade.

Dos demais, Aronnax é às vezes um professor arquetípico de Ciências, o mesmo tipo de que Monteiro Lobato viria a troçar, ainda que com afeto e simpatia, na figura do Visconde de Sabugosa; seu criado, Conselho, faz as vezes de aluno, a quem Aronnax faz perguntas cuja resposta já conhece, para edificação do leitor; e o arpoador Ned Land está ali apenas para dar a Conselho um parceiro para cenas cômicas.

Mencionei, também, o caráter episódico da obra. Se alguns desses episódios têm um vibrante poder literário – como o funeral submarino ou a visita à Atlântida – ou são aventuras que nada ficam a dever aos melhores textos do gênero – o combate com a lula gigante logo vem à mente – o fato é que a falta de um desenvolvimento mais notável dos personagens, ou do propósito da viagem do Náutilus, somada às aulas de taxonomia marinha, tornam a leitura, por vezes, penosa.

A edição definitiva de 20 Mil Léguas Submarinas não é, hoje, um livro para jovens (a menos que se trate de um jovem candidato a oceanógrafo); também é um livro que poderá desapontar os que têm, das antigas versões condensadas, uma forte memória afetiva vinda da infância. Como peça histórica, o livro chama atenção para os alertas que Verne põe na boca de Nemo e de Aronnax quanto ao risco de extinção de baleias e morsas por meio da caça predatória: isso na década de 60 do século retrasado, o que mostra que o problema mão é novo.

Mais do que uma peça de nostalgia ou curiosidade histórica, no entanto, trata-se de um livro para os amantes de literatura: o desafio de exploração da linguagem de Verne, a tentativa de extrair poesia do jargão da ciência, merece ser enfrentado. Nem que seja para que o leitor chegue, ofegante e sedento como os tripulantes do Náutilus, à fantástica luta com a lula gigante dos capítulos finais.
>> AMALGAMA – por Calos Orsi


PÁGINAS DO FUTURO: FICÇÃO CIENTÍFICA À BRASILEIRA

segunda-feira | 9 | janeiro | 2012

Uma coletânea de contos de ficção científica, mas sem Isaac Asimov, H.G. Wells ou Ray Bradbury. Nela, em vez desses nomes óbvios do gênero, você vai encontrar autores brasileiros, alguns bem conhecidos, outros nem tanto. É assim o livro Páginas do Futuro, organizado pelo escritor Bráulio Tavares, que reúne nomes como Ademir Assunção, Jerônymo Monteiro e Fábio Fernandes e outros que dificilmente se poderia imaginar como cultores do gênero sci-fi entre nós: Raquel de Queiroz, Joaquim Manuel de Macedo e Rubem Fonseca.

De fato, como imaginar que a autora de um clássico do romance regionalista como O Quinze poderia escrever um conto de ficção científica como Ma-Hôre, tão intenso e enxuto que bem poderia ser filmado por um grande estúdio norte-americano? “É a única incursão conhecida dela no gênero”, diz Bráulio, ele próprio um cultor da ficção científica (é autor de Mundo Fantasmo, entre vários outros livros). Quem diria que Joaquim Manuel de Macedo, autor de um daqueles romances mais lidos de forma compulsória pelos estudantes brasileiros, A Moreninha, investiria imaginação numa descrição apocalíptica como em O Fim do Mundo? Ou que um príncipe da narrativa policial como Rubem Fonseca fizesse também sua única incursão no gênero sci-fi com um thriller futurista sobre um Rio de Janeiro, que se parece à Los Angeles de Blade Runner, de tão distópico, violento e caótico?

O fato é que, surpresas à parte, com Ma-Hôre, Raquel de Queiroz assina um dos melhores contos do volume. O título seria o nome de um homúnculo de aparência benigna, embarcado involuntariamente em uma nave pilotada por humanos e que o leva à Terra, para longe do seu planeta natal. Raquel trabalha com habilidade o tema do “estranho entre nós” e prepara um desfecho surpreendente para o leitor. Ao ler esse conto, impossível não pensar que a autora deveria ter se dedicado um pouco mais ao gênero.

O Fim do Mundo, originalmente publicado no Jornal do Commercio do Rio de Janeiro, em 1857, é o mais antigo texto da antologia. Aparece mais como uma curiosidade, glosa reiterada sobre os supostos efeitos libertários de um eventual cataclisma planetário. O tema, de tão presente no inconsciente coletivo, reaparece até mesmo na música popular, no conhecidíssimo “Anunciaram que o mundo ia se acabar”, de Assis Valente, celebrizado na voz de Carmem Miranda .

Já O Quarto Selo, texto originalmente publicado em Lucia McCartney, em 1967, mostra a narrativa típica de Fonseca, com seu estilo e personagens implacáveis, apenas deslocados para um futuro um tanto indefinido. Como escreve Braulio Tavares, Rubem Fonseca, embora admirador confesso da ficção científica, pouco se aproximou do gênero, sendo este conto uma notável exceção em sua obra.

É, no entanto, com os autores menos conhecidos que o livro reserva as melhores e maiores surpresas, em especial para o leitor pouco familiarizado com o que se faz na FC brasileira. Por exemplo, Exercícios de Silêncio, de Finisia Fideli. O organizador nos informa que Finisia é médica homeopata e faz parte do grupo de autores cujo surgimento é ligado ao Clube de Leitores de Ficção Científica. A abordagem do conto é muito original e lembra, em seu clima, algumas passagens de uma obra famosa nos anos 1960, O Despertar dos Mágicos, de Louis Powells e Jacques Bergier. No relato, o protagonista Theo (a escolha do nome não se dá por acaso) tem a nave avariada e desce num planeta onde vive uma população que se desenvolveu de maneira diferente da humana. É uma civilização low-tech, na qual a apropriação tecnológica da natureza é substituída pela consciência de si e da sua posição no cosmos. Ao invés de método científico, meditação transcendental. Por paradoxo, é através da meditação e do silêncio interior que Theo poderá resolver o grave problema técnico que o impede de voltar à Terra.

Inútil dizer que essas histórias – a de Finisia e outras – contêm um comentário crítico da relação do homem com a técnica, quando esta parece dominá-lo e não o contrário. É um traço interessante e ambivalente o da sci-fi, ao apoiar-se num virtual avanço tecnológico para, não raro, denunciar-lhe as implicações e os perigos para a vida humana. Caso, por exemplo, de Eu, Robô, de Isaac Asimov, um clássico sobre a revolta das máquinas.

De qualquer forma, nota-se na seleção proposta a preocupação com uma FC que seja, não digo “autenticamente” brasileira (já que esse estado de pureza não existe), mas que se expresse em sotaque nacional, respire nossos temas, e corte, de certa forma, o cordão umbilical com o o qual se liga ao mainstream do gênero, a matriz anglo-saxônica.

No estudo introdutório que escreve para Páginas do Futuro, Braulio remonta a três tradições presentes na formação da FC contemporânea: a dos antigos, com seus relatos fantásticos, tais como a Odisseia de Homero e as Metamorfoses de Ovídio. O Scientific Roman europeu, cunhado no seio da Revolução Industrial, e que tem Jules Verne e H. G. Wells entre seus nomes mais representativos. Por fim, os pulp magazines norte-americanos que, nos anos 1920 e 1930, estabelecem as bases da FC moderna. É com essas tradições que os autores brasileiros têm de dialogar. Porém, sem se submeter a elas. Como escreve Braulio, “A FC brasileira não pode abrir mão de um conhecimento da FC internacional sob o risco de deixar de ser FC, e não pode abrir mão de um conhecimento equivalente da literatura do nosso país, sob o risco de deixar de ser brasileira”.

A diversidade apresentada no volume e sua antiguidade nas letras brasileiras, ainda que de forma episódica, deixam antever boas páginas no futuro da FC à brasileira. Desde que a deglutição das tradições estabelecidas se dê de maneira criativa e original. Não por acaso, um autor como Ivan Carlos Regina publicou, em 1988, seu Manifesto Antropofágico da Ficção Científica Brasileira. Inspirado nos nos modernistas de 1922, Ivan entende ser necessária a deglutição radical dos nutrientes estrangeiros para a produção da proteína nacional. Num trecho do manifesto, escreve: “Precisamos deglutir urgentemente, após o Bispo Sardinha, a pistola de raios laser, o cientista maluco, o alienígena bonzinho, o herói invencível, a dobra espacial, o alienígena mauzinho, a mocinha com pernas perfeitas e cérebro de noz, o disco voador, que estão tão distantes da realidade brasileira quanto a mais longínqua das estrelas.”

Páginas do Futuro dá uma amostra bem variada de como esse processo de deglutição e digestão tem se dado entre nós.

Sobre o coordenador do livro
Braulio Tavares (1950) nasceu em Campina Grande, na Paraíba, e mora no Rio de Janeiro. É escritor, poeta, compositor (tem cerca de 20 músicas em parceria com Lenine, por exemplo), cronista e organizador de antologias. Entre elas, Páginas de Sombra (Contos Fantásticos Brasileiros), Contos Fantásticos no Labirinto de Borges, Freud e O Estranho (Contos Fantásticos do Inconsciente) e Contos Obscuros de Edgard Allan Poe. É autor dos livros A Espinha Dorsal da Memória (1989), A Máquina Voadora (1994), Mundo Fantasmo (1996) e ABC de Ariano Suassuna (2007), entre outros. Escreve crônicas diárias para o Jornal da Paraíba, transcritas em seu blog Mundo Fantasmo  mundofantasmo.blogspot.com). Como concilia tantas atividades? “No fundo sou apenas um escritor”, disse, em conversa com o Estado. “É o exercício da palavra escrita que dá o fio condutor em tudo o que faço”.
>> O ESTADO DE SÃO PAULO – por Luiz Zanin

TRECHOS

“A sorte, pensavam os astronautas, é que o seu pequeno cativo tinha o coração ligeiro ou filosófico. Porque depressa aceitou o irreparável e tratou de adaptar-se. Auxiliado pelos desenhos, com rapidez adquiriu um bom vocabulário na língua dos humanos. Tinha a inteligência ávida de um adolescente bem dotado…Também contava coisas da sua gente que, na água, elemento dominante em nove décimos do pequeno planeta, passavam grande parte da sua vida”
(Ma-Hôre, Raquel de Queiroz)

“Passaram toda a noite imersos no mundo luminoso do copo de cristal, ela vendo massas humanas a caminhar por um terreno sem fim, entremeadas de pesados carros de guerra. Via o brilho de armas, das pontas das lanças; o reflexo da luz nas lâminas de espadas desembainhadas. Via rolos de pó erguerem-se por cima dos soldados.”
(O Copo de Cristal, Jerônymo Monteiro)

Serviço:
“Páginas do Futuro – Contos Brasileiros de Ficção Científica”
(seleção e apresentação de Braulio Tavares. Ilustrações de Romero Cavalcanti).Editora Casa da Palavra, 160 páginas.


“A ILHA”, DE FLÁVIO CARNEIRO

segunda-feira | 9 | janeiro | 2012

Com A Ilha (Rocco, 208 págs.), o escritor goiano Flávio Carneiro fecha a sua Trilogia do Rio de Janeiro, iniciada com A Confissão (que resenhamos aqui em 15 de dezembro de 2007), tendo como segundo volume O Campeonato, de 2002.

Um dos mais interessantes projetos da literatura brasileira da atualidade, a trilogia trabalha obras fronteiriças entre o mainstream literário nacional e a ficção popular de gênero: o primeiro livro se aproxima do horror sobrenatural, com uma história de um vampiro emocional carioca; o segundo dialoga com a ficção de crime; e, finalmente, A Ilha é uma ficção científica que evoca a nobre tradição da utopia.

No Brasil, a utopia e sua gêmea do mal, a distopia, têm uma longa história. Na década de 1920 tivemos um Ciclo de Panfletos Utópicos que defendia a eugenia e a higienização como soluções para o subdesenvolvimento tupiniquim. Cinquenta anos depois, o mainstream recrutou as duas irmãs para, veladamente, satirizar a ditadura militar e a tecnocracia que o acompanhava. Na primeira fase, nomes como Monteiro Lobato e Rodolpho Teóphilo; e na segunda, Ruth Bueno, Chico Buarque, André Carneiro e Ignácio de Loyola Brandão.

Flávio Carneiro escapa das armadilhas desses dois momentos anteriores, já que evita ser prescritivo ou abertamente crítico, num romance que dialoga com nada menos que A Utopia (1516), de Thomas More (1478-1535), também ambientado em uma ilha. Mas se trata de um diálogo discreto, conduzido de modo apenas alusivo. Também de maneira muito condizente com o projeto geral da antologia, o livro convoca outros diálogos intertextuais: um trecho das praias do Rio de Janeiro, centrado em torno do Leme até o Morro de Santa Teresa e a Lagoa Rodrigo de Freitas, separa-se do continente e passa a vagar pelo Atlântico – como acontece com Portugal, em A Jangada de Pedra (1986), do nobelista José Saramago (1922-2010).

Garrafas começam a chegar à praia, contendo em seu interior mapas artesanais. Por meio desses, alguns dos moradores vão se dando conta de que a sua ilha pode estar se dirigindo de volta ao continente. Esses personagens – Bernardo e Clara, Pepe e Catarina, Andador e seu cachorro – se sentem intrigados pela possibilidade, e começam a se perguntar como isso seria possível. A primeira hipótese levantada seria a da deriva tectônica, fenômeno natural que, cientificamente, nunca poderia explicar o deslocamento. Mais tarde, uma complexa teoria high-tech passa a tomar forma, envolvendo clonagem e uma tecnologia revolucionária que permitiria a recriação da matéria complexa. Ao mesmo tempo em que os dois casais (em especial) realizam a sua investigação – a partir da sua sociedade low tech -, pessoas e depois construções inteiras começam a desaparecer da ilha.

A fonte dessa teoria sobre a qual eles especulam é um romance de ficção científica chamado O Projeto Genesis, escrito por um certo P. D. Deckard – nome que traz o renomado autor norte-americano Philip K. Dick (1928-1982) para o jogo intertextual de Carneiro. A exegese dessa obra de “Deckard” (homônimo do herói de O Caçador de Andróides, livro inspirador do filme Blade Runner) é que fornece as pistas que os casais de protagonistas investigam. O romance de Carneiro, porém, não tem nada do clima de paranoia habitual em Dick, e a investigação do que se passa na ilha não leva os protagonistas a situações de perigo nem a descobertas que ameacem as suas identidades. Ao contrário, mesmo com os desaparecimentos, a vida na ilha segue mansa, e os protagonistas parecem tão interessados um no outro quanto na resolução do mistério.

O autor não caracteriza a vida utópica na ilha, seja em termos políticos ou sociais. É essa vida mansa praiana – amparada por uma prosa agradável, impregnada de doçura e calor humano – uma das poucas pistas que o leitor tem para compreender como funciona a alegoria no romance. A alegoria de A Jangada de Pedra remete a um sentimento de inadequação de Portugal, em relação ao restante da Europa. Em A Ilha, parece sugerir que um certo espírito carioca, romântico, descomplicado e singelo, só poderia sobreviver com a sua separação física do resto do Brasil. Por isso, minha tendência é associar o teor do livro à minha ideia de um “sonho brasileiro” de vida mansa próxima à natureza, que estaria presente na ficção científica brasileira desde, por exemplo, a novela utópica “Zanzalá” (1936) de Afonso Schmidt (1890-1964). E nesse mesmo sentido, é interessante contrapor A Ilha ao romance tupinipunk de Fausto Fawcett, Santa Clara Poltergeist (1991), com seu relato distópico e desumanizado de Copacabana.

Mas A Ilha não se resume à evocação de um sonho brasileiro que parece ameaçado – literalmente em desintegração – pelo retorno a (ou advento de) uma realidade nacional que não lhe dá amparo, mas traz nova instância do tipo de dramatização da relação autor/leitor que Flávio Carneiro já havia favorecido em A Confissão. Desta vez, o narrador partilha do espaço em que vivem os personagens, e aponta situações e cenas a um “leitor” que às vezes parece estar ao seu lado, olhando de longe ou de perto por uma janela metafórica que representa o foco narrativo. Ele pode estar organicamente ligado às situações do romance como um supervisor ou observador daquele grande experimento aludido nas teorias de Bernardo e Clara, Pepe e Catarina. Nos livros da Trilogia do Rio de Janeiro, Carneiro parece estar criando a sua própria prática metaficcional.

Livre de peripécias e sem um enredo estrito, a narrativa de A Ilha caminha num espaço de indeterminação entre afirmação e dúvida. Um projeto engenhoso e intrigante, um bom momento daquela tendência dominante da ficção científica feita no Brasil, que emprega as imagens do gênero com objetivos programáticos e estéticos próprios do mainstream literário.
>> TERRA MAGAZINE – por Roberto de Sousa Causo

Num futuro indeterminado, os habitantes de uma ilha perdida num oceano qualquer acreditam que são os únicos sobreviventes de uma grande catástrofe, que teria varrido o resto do planeta para debaixo das águas. Até o dia em que aparecem na praia misteriosas garrafas, com mapas sugerindo a existência de um continente, não muito distante dali. A partir de então estranhos acontecimentos vão mudar, de forma radical, a rotina da ilha.

O narrador dessa aventura é um velho bibliotecário franciscano, enclausurado na torre de um convento. Cercado de livros, é ele quem conduz o leitor por um estreito caminho entre a realidade e a fantasia, num relato em que conceitos como vida artificial, campo magnético e experiências genéticas convivem com cenários paradisíacos, lembrando um passado remoto.

Em meio às cenas insólitas que vão compondo a trama, o leitor vai conhecendo personagens que encarnam a cada página a loucura, o sonho, a dúvida, vivendo sempre a um passo da próxima surpresa.

Se você é alguém de carne e osso, está em suas mãos um romance que fala sobre a dificuldade de estabelecer o que é real e o que é imaginário, o que é sonho e o que de fato aconteceu. Como diz a certa altura o narrador, confiar em romances é como confiar nas ondas do mar. Por isso, na busca dos personagens pela verdade, cabe ao leitor a última palavra sobre os mistérios que envolvem A ilha.
Texto publicado na orelha do livro)


BANG BANG! – “SAGAS 2, ESTRANHO OESTE”

segunda-feira | 9 | janeiro | 2012

Antes de começar a falar sobre esse livro de contos sobre o Estranho Oeste (Argonautas, 144 págs.), devo esclarecer uma pergunta que muitos de vocês devem estar fazendo neste momento,“O que diabos é Estranho Oeste?!”

Estranho Oeste ou Weird West, para as pessoas nem um pouco familiarizadas com o termo, é um gênero mistura o Faroeste americano com outros estilos, normalmente, o horror, o oculto ou a fantasia. Acredito que o exemplo mais recente seria Cowboys & Aliens (leia a resenha da Cherry_B aqui), mas há outros exemplos igualmente famosos como Jonah Hex, a sagada Torre Negra do Stephen King, os quadrinhos Weird Western Tales da DC Comics e até mesmo o animê Trigun.

Agora que estamos todos na mesma página (vocês estão, NÉ??!!), vamos ao livro!Sagas 2 – Estranho Oeste é o segundo volume da coleção de contos da série Sagas da Argonautas Editora (confira a resenha de Sagas 1). O livro é bem curtinho e é composto por cinco contos, na seguinte ordem:

– Bisão do Sol Poente por Duda Falcão
– Aproveite o Dia por Christian David
–  por Alícia Azevedo
– Justiça… Vivo ou Morto por M.D. Amado
– The Gun, the Evil and the Death por Wilson Vieira

O primeiro conto é sobre um caçador de recompensas, Kane Blackmoon, que está à procura de Herdandés Calderón, um ladrão de bancos altamente procurado e com uma cabeça extremamente valiosa. No meio de sua perseguição, Kane encontra muitos mutilados, uma cidade fantasma, um índio sioux e uma lenda sobre demônios envolvendo sua linhagem indígena. Por algum motivo que ainda não soube identificar, não gostei muito desse conto do Duda, sei lá, simplesmente não consegui me empolgar muito com ele e os personagens não me cativaram. O Bisão do Sol Poente foi um dos contos mais fracos do livro, não que seja ruim, mas…

Em seguida, somos apresentados ao conto de Christian David, que é sobre o pistoleiro Jeremiah ou O Profeta, como é conhecido pelas bandas do Oeste por seus pressentimentos, que, curiosamente, ele simplesmente tenta ignorar ao máximo. Ignorar o próprio instinto é o que o leva a entrar e permanecer no Belle’s Saloon, que desde o início já estava ativando aquele botãozinho atrás da cabeça que diz , “PELO AMOR DE DEUS, ARREDA O PÉ DAQUI, PESSOA!”. Jeremiah é avisado pela gaçornete a sair de lá e comer em outro lugar, mas o estômago foi mais forte e obrigou o pobre homem a comer aquela comida de aparência horrível. Logo depois de comer, Jeremiah descobre que realmente deveria ter dado atenção ao seu mau pressentimento e a garçonete desde o início… Verdade seja dita, esse foi o melhor conto do livro inteiro! A narrativa do Chris (sim, já somos íntimos apesar de não nos conhecermos! :3) te prende desde o início e não tem cômo não gostar do Jeremiah e rir horrores com seu pânico e sua constante batalha interna sobre seus dons paranormais.  E o final do conto é ótimo! Aliás, tudo no conto é muito bom! O meu favorito, com certeza.

No terceiro conto conhecemos a história da freira Beatrix, que tem todas suas crenças mudadas completamente após um ataque ao convento onde ela vivia no qual ela foi a única a sair com vida, ao ser salva por um misterioso homem com um manto negro que cobra de Beatrix como pagamento por salvá-la apenas fé incondicional. Graças a esse homem, Beatrix, agora uma pistoleira, é capaz de se vingar dos assassinos que atacaram seu convento.  é recheado de diálogos e questionamentos interessantes e o tempo todo você quer saber quem é o cara com o manto negro (o que infelizmente não é revelado =X). Esse conto só não é tão bom porque não é um livro completo (sim, ele daria um livro muito bom).

O quarto conto é a história de um pistoleiro, Cole Monco, que fica curioso ao ver um garoto atirando em várias latinhas e vai até ele para perguntar por que ele está fazendo isso. Cole descobre que o nome do menino é Josh e que ele está treinando para matar os executores de sua família. O pistoleiro não é de ajudar muito as pessoas, mas se identifica com o menino e sua história e decide por ajudá-lo. Cole, então, vai atrás do delegado Pat Stevenson para axiliá-lo, mas quando eles voltam ao Saloon onde Cole encontrara o menino, o dono do salão diz que não existe nenhum garoto e que Cole conversava sozinho o tempo todo… Justiça…Vivo ou Morto é um ótimo conto e bem narrado, em muitos momentos fiquei questionando assim como o próprio Cole se ele estava ficando louco e se Josh realmente existia. E o final? Eu não esperava um desfecho daqueles e eu gosto muito ser surpreendida com um bom final. Gostei muito deste conto!

O quinto conto é a narrativa de um assassino que mata por prazer, Tom William Ketchun, que ao chegar em uma cidade praticamente deserta num dia bem chuvoso, entra em um local chamado Las Cruces. Logo Tom é avisado de que o lugar estava fechado, porque logo haveria um julgamento. O que Tom não esperava é o julgamento fosse o dele! Me sinto até mal e culpada por falar isso, mas eu DETESTEI o conto do Wilson, que tem uma ótima premissa, no entanto desandou completamente. Não me dei com narrativa lenta e previsível do autor e a história depois de algumas páginas ficou sem pé nem cabeça e terminou de uma forma mais maluca ainda. Em comparação aos outros quatro contos, este é bem fraquinho. Contudo, a prática, a tentativa e o erro são ótimos amigos e professores, sendo assim, acredito que Wilson Vieira melhorará com o tempo e o treino.

No geral, Sagas 2 – Estranho Oeste é um livro bem divertido e assim como o primeiro coleção, o prefácio (dessa vez escrito por Thomaz Albornoz) está maravilhoso (sério, descubro horrores de coisas interessantes nesses prefácios) e a edição está ótima, apesar de uns errinhos aqui ou acolá, mas acontece.
>> NEM UM POUCO ÉPICO – por Val


“AMOR OCULTO”, DE LAURA ELIAS

segunda-feira | 9 | janeiro | 2012

Contar uma boa história em volta da fogueira é uma imagem idílica, até certo ponto mitológica, que não me abandona. Quem consegue, através de sua narrativa, fazer com que suas palavras permaneçam impressas atrás de minhas retinas desta maneira merece todo o meu respeito.

Ao ler Amor oculto (Mythos, 2011 – 126 páginas)esta é a impressão que tenho. Laura Elias domina as palavras, é uma contadora de histórias experiente, sabe jogar com o leitor, foi forjada na arte de escrever e se formou pela receptividade dos leitores. Deveria ser uma fórmula de sucesso. Mas o reconhecimento por aqui é difícil, a internet quebra barreiras, mas não diminui o abismo com o que vem de fora. O descaso com que nossos autores são tratados muitas vezes me deixa enojado.

Já escreveu mais de 30 livros, quase todos publicados, muitos deles de banca, sob pseudônimos Loreley McKenzie, Laura Brightfield, Suzy Stone, Elizabeth Carrol, Sophie H. Jones. Experiência não lhe falta. Depois de saber desta história através de uma comunidade, quis conhecer mais sobre a autora e trocamos algumas palavras e alguns emails, que me fizeram fã, por sua postura e ainda mais por sua imensa simpatia.

Partamos para o que realmente interessa – a narrativa desta escritora genial. Como todos podem observar gosto de ligar narrativas a imagens de outros livros ou de filmes para que possamos fazer inferências, para que tudo se torne um pouco mais claro a quem ainda não tem contato com alguns autores.

No caso de Laura Elias, não consegui fazê-lo. Seria isso então originalidade? Não diria isso, mas é difícil classificá-la.  Ela tem sua fórmula: mistério + paixão. Tem um público alvo, mas ainda assim consegue despertar em qualquer público o prazer da leitura. Muitos são os diálogos, que tornam o livro saboroso, pois eles são a alma de uma boa narrativa.

Antes do prólogo, uma espécie de prenúncio já dá o teor do que virá pelo livro:

A barreira da ética profissional dissolvia-se diante do que lhe era oferecido, diante do que ele tanto queria, diante da tentação que via em seus olhos, não mais serenos, mas ardentes como as fogueiras pagãs.

Pronto, já estamos fisgados, e o que vem depois é “hot” muito “hot”. O livro conta a história de Bervely Manson, escritora, que após matar sua personagem principal acaba matando sua inspiração. Resolve então acompanhar uma amiga a um antiquário e encontra lá um caderno cheio de histórias inacabadas. Ela decide terminar as histórias, sua inspiração renasce. Porém, há uma advertência feita pela antiga dona dos cadernos. Ela não dá nenhuma importância a ela. Daí coisas estranhas começam a acontecer, tudo o que escreve passa a acontecer. Seria uma maldição? Aha… não irei contar mais nada. O inexplicável geralmente nos perturba e o livro está repleto de coisas que irão se encaixar apenas no final.

“… como fugir da realidade quando ela se torna ainda mais bizarra que o sonho? Como fugir se nem mesmo dormindo havia paz? Se os fantasmas e demônios alheios passaram a habitar sua vida?

E não poderia deixar de colocar aqui alguns trechos para deixar a todos um pouco mais alvoroçados:

O desejo:

“… olhou para ela, ainda segurando-a pelos ombros. Sentia vontade de tocá-la, passar os dedos por aqueles mamilos que a blusa insinuava, beijar-lhe a delicada linha do queixo, os lábios sedentos, os olhos serenos… explorar aquela mulher com força, com carinho, com sofreguidão.

A sedução:

“… balançou lentamente a cabeça de um lado para o outro, a malícia dançando em seus olhos. Com um gesto rápido, ergueu-se e arrancou o vestido, expondo-se, despudorada, em sua calcinha negra, rendada, por onde os pelos loiros apareciam, qual tesouro guardado apenas para ele.”

O embate:

“Apalpou-lhe as formas e depois se deixou pesar em seu corpo, apenas para ouvi-la gemer. Sua voz penetrava-lhe os ouvidos e o deixava cada vez mais excitado.”

É claro que cortei os diálogos e as partes mais quentes. Portanto, podem correr! Leiam e me contem depois se Laura é ou não dona de uma imaginação fértil e diabólica. Estamos totalmente desarmados quando ela começa a contar suas histórias. E citando um trecho de seu próprio livro: Que segurança as armas poderiam oferecer contra a imaginação?
>> LITERATURA DE CABEÇA – por Rodolfo Euflazino