A CIÊNCIA NA LITERATURA

segunda-feira | 7 | janeiro | 2013

Escritores antecipam há muito em sua produção revelações científicas

A exemplo do que o poeta e crítico norte-americano Ezra Pound preconizou, que os artistas estão em tal sintonia com a profundidade do mundo que são capazes de “prever o porvir”, o escritor brasileiro Machado de Assis (1839-1908) é uma dessas antenas da raça. Daniel Martins de Barros e Geraldo Busatto Filho publicaram na revista médica British Journal of Psychiatry que o conto machadiano O anjo Rafael antecipou em dezoito anos a descrição de um distúrbio psíquico, a “folie à deux” (loucura a dois). Anunciada pelos psiquiatras franceses Jean Pierre Falret e Ernest-Charles Lasègue em 1887, a psicopatologia leva parentes (ou gente muito próxima) de pessoas com sintomas psicóticos a sofrerem, por convivência, “contágio” do mesmo problema mental. Desiludido e endividado, doutor Antero quer se matar no início de O anjo Rafael, conto publicado originalmente em 1869 no Jornal das famílias. Bilhete de despedida pronto, tem a arma à mão quando batem à porta. O major Tomás lhe mandara um recado. Levado até ele, descobre tratar-se de um amigo de seu falecido pai, a quem prometera dar a Antero a mão de sua rica e reclusa herdeira, Celestina. A proposta o reanima, mas logo o protagonista percebe que seu anfitrião sofre da “monomania celestial” de acreditar ser o anjo Rafael. Para complicar, descobre que a própria Celestina acredita ser filha de anjo. Reviravoltas depois, o casamento se realiza e Celestina se muda de casa. Só depois disso, ela retoma a sanidade. – O sintoma básico é a transmissão de uma crença delirante para uma pessoa saudável (que, por isso, se torna delirante):  isso aparece nos

diálogos em que Celestina defende a ideia de o pai ser um anjo; o quadro é reversível, o que também Machado antecipou, já que  ela se cura com o afastamento do pai – diz Daniel M. Barros, que atua no Núcleo de Psiquiatria Forense, do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas, da USP. Ficção não científica
O caso de Machado não é isolado. Escritores das mais diferentes estirpes, gêneros e nacionalidades rivalizam com seus colegas de ficção científica e fazem antecipações dignas de Júlio Verne (1828-1905). Não se trata de predições futuristas, como as de Verne, ou a idealização de cenários imaginários, como os de Arthur C. Clarke ou Aldous Huxley. Mas de criações que falam de conflitos concretos de personagens mundanos, imaginados por autores sem intenção deliberada de fazer sci fi.
Relatos realistas, fantasiosos ou alegóricos podem trazer surpresas aos cientistas de hoje. Ou o que dizer da primeira descrição de epilepsia do lobo temporal feita pelo romancista russo Fiódor Dostoiévski (1821-1881). Em O idiota, de 1869, o escritor (ele mesmo vítima da doença) descreve com detalhes o estágio marcado pelo êxtase que antecede a crise epilética. Só em 1898, o inglês Hughlings Jackson associa ataques automáticos e amnésia com distúrbios na região temporal do cérebro huma­no. Atribui-se a uma passagem de As viagens de Gulliver (1726), de Jonathan Swift (1667-1745), a primeira descrição do mal de Alzheimer. Numa das ilhas que o protagonista visita há seres que não morrem. O que inicialmente o viajante toma por bênção revela-se maldição: as pessoas seguem envelhecendo, perdendo funções, reduzindo a vitalidade, sem ter o alívio final da morte. A doença degenerativa seria descrita apenas em 1906, pelo psiquiatra alemão Alois Alzheimer. – A descrição do envelhecimento feita pelo livro é característica de um quadro demencial. A narrativa do início do processo, particularmente no que se refere às capacidades cognitivas, assemelha-se bastante à demência que anos mais tarde vitimaria o próprio Swift – conta Daniel Barros. Luas de Marte
Fruto da imaginação vertiginosa de um autor satírico, As viagens de Gulliver seria ainda responsável por outra previsão, desta vez astronômica: a da existência de duas luas em Marte. Décadas depois, o filósofo francês Voltaire (1694-1778) faria a mesma descrição, em seu Micrômegas (1752). Mas só em agosto de 1877 o astrônomo norte-americano Asaph Hall (1829-1907) revelaria ao mundo a descoberta de Deimos e Fobos, luas marcianas com nomes gregos que significam “terror” e “medo”. Hoje, uma cratera ao sul de Fobos recebeu o nome do astrônomo, enquanto dois platôs de Deimos levaram os nomes dos literatos que primeiro imaginaram as luas. – Os escritores conseguem olhar o mundo e refleti-lo nas suas obras, e muitas vezes nesse processo, sem saber, transcrevem para o livro elementos que os olhos técnicos ainda não haviam captado – avalia Daniel Barros. Síndromes
Charles Dickens (1812-1870) faz um dos personagens de As aventuras do sr. Pickwick ser marcado por sonolência diurna e obesidade. Na história, o comilão Joe Gorducho integra o grupo de quatro rapazes liderados pelo protagonista Samuel Pickwick, que se mete numa aventura por Londres em busca de revelações científicas e humanas. Sua descrição é a definição integral do quadro clínico da apneia noturna (deixar de respirar durante o sono) por obesidade, associada à sonolência diurna, que só no início do século 20 viria a ganhar o nome de “síndrome de obesidade-hipoventilação alveolar”. Para os íntimos, “síndrome de Pickwick”. O paralelo da doença com o romance de Dickens foi feito pela primeira vez por sir William Osler, em The principles and practice of medicine (1905). Mas só em 1956 a equipe de C. S. Burwell cacifou a descrição de Dickens como precisa o suficiente para reunir num só rótulo todos os sintomas da doença: não só os episódios de apneia durante o sono – o rubor facial de Joe Gorducho, por exemplo, “bate” com a politecmia provocada pela diminuição de oxigênio. Burwell foi quem popularizou o termo “pickwickiano” na medicina. O nome mais conhecido de outra doença, também chamada de “síndrome de Todd”, rende tributo a Alice no país das maravilhas. A desordem neurológica afeta a percepção e é caracterizada por despersonalização e alucinações associadas ao estado de enxaqueca, a tumores cerebrais ou uso de alucinógenos. A “síndrome de Alice”, como é nomeada, é uma doença rara que lembra as experiências relatadas por Lewis Carroll (1832-1898). O psiquiatra inglês John Todd, que batizou a síndrome em 1955, defendeu a homenagem ao autor de sua infância usando como evidência passagens dos livros Alice no país das maravilhas (1865) e Alice através dos espelhos (1872). Há quem acredite que Carroll tinha familiaridade com o problema, que, na sua época, ainda não estava descrito pela medicina. Neurociência
Desde que Freud encontrou no Édipo rei, de Sófocles, um dos antecedentes da teoria psicanalítica, os estudiosos das relações entre a mente e o mundo parecem cada vez mais convencidos de que somos feitos de ciência e imaginação literária. Em Proust foi um neurocientista (editora Best Seller, 2010), o norte-americano Jonah Lehrer mostra verdades sobre a mente humana reveladas pelas artes que só agora a ciência está, como ele afirma, (re)descobrindo. Foi assim que Walt Whitman (1819-1892) cravou que o corpo e a alma são inseparáveis – portanto, açoitar o corpo dos escravos negros, por exemplo, era castigar também sua alma, pois não temos um corpo, somos um corpo. O corpo e a alma estão fundidos, são nomes distintos da mesma coisa. Nossos sentimentos são corporais, nossos desejos são sábios, a experiência é confiável – pois o ser é um todo impossível de ser reduzido em duas partes. “Vem, disse minha alma, Tais versos para meu Corpo vamos escrever, (pois somos um só).” Esse é o modo como Whitman é visto por Lehrer, um editor da revista Wired e do blog de neurociência da Scientific American, que já trabalhou em laboratórios de neurocientistas. Seu argumento é que a neurociência moderna só agora aponta a anatomia subjacente a primores literários, como a poesia de Whitman. Mostra que pesquisas como as de António Damásio sustentam a mesmíssima ideia de que nosso cérebro gera nossos sentimentos metafísicos a partir do corpo físico. “A moral dos versos de Whitman era que o corpo não era simplesmente um corpo”, escreve Lehrer. “Quando os materialistas de sua época anunciaram que o corpo nada era além de uma máquina desenvolvida – não havia alma alguma dentro – o poeta reagiu com ceticismo característico.” Jogo da memória
Assim como Whitman antecipou Damásio nas relações entre mente e corpo, Marcel Proust (1871-1922) anteviu questões científicas sobre a memória, defende Lehrer. A memória não é um reservatório, constatou o escritor de Em busca do tempo perdido, obra publicada entre 1913 e 1927, em sete volumes. A mordida num biscoito madeleine e o mero aroma do chá catapulta o autor à infância, mas à infância degustada (afetada) por aquele chá. As lembranças se tornam mais e mais suspeitas à medida que o tempo avança. Assim que terminamos uma ação começamos a distorcer a memória para encaixá-la em nossa narrativa pessoal. Buscar o tempo perdido é impossível, pois não há armazém de recordações intactas. Um conjunto de experiências realizadas com ratos, em 2000, na Universidade de Nova York, por Karim Nades, Glenn Shafe e Joseph LeDoux confirmaram a ideia proustiana de que o ato de lembrar também altera a pessoa. As experiências de laboratório evidenciaram que a memória é um processo contínuo, que nunca para de alterar as recordações, tal qual o protagonista do romance proustiano. Escritores antecipam há muito em sua produção revelações científicas Simbiose
Lehrer mostra que certos autores não admitem como realidade o que a ciência objetiva – e tendem a preencher, por meio da imaginação, as possibilidades não realizadas. Mas é impossível, na mesma medida, compreender a arte deles sem levar em consideração suas relações com a ciência. As pesquisas neurocientíficas da primeira década do século 21 sobre o “eu” e a “consciência” estavam já contidas na obra de Virgínia Wolf (1882-1941) e as conclusões da linguística de Noam Chomsky nos anos 1950 tiveram antecedente literário em Gertrude Stein (1874-1946), na primeira década do século 20. Se Lehrer estiver certo, há uma simbiose entre arte e ciência. A literatura evidencia que a ciência não é a maneira exclusiva de acesso e representação da experiência. A ciência confirma suspeitas e certezas imaginárias. Talvez a atividade humana mais pura tenha sempre algo de outro campo. Ao explorar a própria experiência, diz Lerher, os escritores expressam o que nenhum experimento capta e mantêm em suas linhas as revelações que tendem a guiar os diferentes rumos da ciência. >> REVISTA QUANTA – da Redação
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HQ ENFRENTA FANTASMAS DE MÁQUINAS INTELIGENTES

segunda-feira | 7 | janeiro | 2013

Graphic novel ‘V.I.S.H.N.U.’ (Quadrinhos na Cia.)
rediscute terceirização da consciência humana

VISHNU

Ficção científica em quadrinhos brasileira é uma parceria entre Ronaldo Bressane, Eric Acher e Fabio Cobiaco

No futuro, cientistas, guerrilheiros, governantes e religiosos tentam tomar as rédeas de uma misteriosa inteligência artificial em um mundo dominado pela tecnologia, em que até cidadãos comuns podem ter seus robôs pessoais. Até que tudo, de repente, entra em colapso.

Essa distopia pós-moderna desencadeia uma mudança na ordem mundial, mas não sem antes provocar grandes tragédias pelo planeta.

Tempos depois, uma nova consciência eletrônica, denominada V.I.S.H.N.U, surge de forma espontânea.

Primeira experiência de fôlego dos quadrinhos nacionais no campo da ficção científica, “V.I.S.H.N.U.” conta com roteiro do escritor e jornalista Ronaldo Bressane, autor de “Céu de Lúcifer” (Azougue Editorial), e se baseia em um argumento de Eric Acher. A arte é de Fabio Cobiaco.

A aventura tecnológica, primeira de uma trilogia, dialoga com traços do quadrinista francês Jean “Moebius” Giraud (1938-2012) e com os conceitos estéticos do artista plástico suíço H. R. Giger, famoso por compor os monstros e cenários do primeiro filme da saga “Alien” (1979).

“O livro é um resultado das inquietações em relação ao livre-arbítrio do homem e ao que ele quer para o futuro. Toca em temas como a transferência de consciência e a imortalidade”, diz Bressane.

Segundo o escritor, a ideia era discutir os dilemas de ciência e tecnologia por uma perspectiva pop, imaginando da interação sexual entre homem e máquina a uma questão filosófica central: até que ponto um objeto high-tech pode ser dotado de alma?

Vishnu, na mitologia hindu, é o deus responsável pela manutenção do universo. O romance transforma a entidade em um impulso eletrônico messiânico, gerado dentro de um supercomputador, mas a sociedade corre novo risco de se deixar governar.

Ao compor o argumento, em 2007, Eric Acher revisitou a obra do filósofo indiano
Jiddu Krishnamurti (1895-1986) como inspiração para “V.I.S.H.N.U”, questionando o que enxerga como a “terceirização” da inteligência humana para os computadores.

“Hoje usamos dispositivos externos como smartphones para nos conectar. Em alguns anos, poderemos ter computadores com realidade aumentada e, quem sabe, virão os implantes neurais. Difícil prever o que acontecerá em seguida”, reflete Acher.
>> FOLHA DE SÃO PAULO – por Douglas Gravas


A VASTIDÃO A QUE O LEITOR DE BORGES É CONDENADO

sexta-feira | 11 | maio | 2012

Talvez a marca mais grandiosa da literatura de Jorge Luis Borges seja a impureza. A mistura e a contaminação fazem seus contos serem lidos como ensaios e vice-versa, num jogo que só comprova uma questão: quem faz o gênero é o leitor; é ele quem compreende um livro seguindo seus próprios desejos e necessidades, como se guiado por uma bússola particular e intransferível. Como leitor fiel de Borges, por exemplo, acredito que a ficção O Aleph é uma descrição das mais fieis do universo e da sua gênese. É como se estivesse lendo um livro de ciências que me revelasse a simultaneidade com que as coisas convivem e dependem uma das outras. E mais: releio O Aleph acreditando que vou ter alguma revelação ao final da leitura, ainda que a revelação maior seja a minha crença de que algo será revelado, num claro processo de imersão borgeana.

É lendo Borges dessa forma bem particular que recomendo Nove ensaios dantescos & a memória de Shakespeare, que a Companhia das Letras lança agora dentro da sua coleção Biblioteca Borges. A obra se insere de maneira exemplar na perspectiva de impureza e contaminação, a que nos referimos anteriormente. Há contos, ensaios, fragmentos e um prólogo que é tudo isso ao mesmo tempo. Cabe ao leitor escolher a classificação da sua leitura.

E o leitor, já acostumado ao universo borgeano, sabe da vastidão do imaginário do escritor argentino em se tratando de Dante. O texto (vamos chamá-lo assim, para não aprisioná-lo na “armadura” de ensaio) O último sorriso de Beatriz dá uma boa ideia de como Borges amplia o mestre italiano: “Tenho a impressão de que Dante edificou o melhor livro produzido pela literatura para intercalar alguns encontros com a irrecuperável Beatriz. Melhor dizendo, os círculos do castigo e o Purgatório austral e os nove círculos concêntricos e Francesca e a sereia e o Grifo e Bertrand de Born são intercalações; um sorriso e uma voz, que ele sabe perdidos, são o que importa”. Sua perspectiva tão aguda da estratégia dantesca de se aproximar da musa Beatriz é compreensível. O Aleph trata de um homem que escolhe ver o universo inteiro apenas para ler as cartas íntimas da amante morta. A visão Total seria apenas o álibi de um voyeur atormentado por detalhes.

Se com esse livro compreendemos melhor Dante, também visualizamos o fascínio de Borges pelo tigre, como símbolo e animal: “Uma famosa página de Blake fez do tigre um fogo que resplandece e um arquétipo eterno do Mal; prefiro a sentença de Chesterton, que o define como um símbolo de terrível elegância. Não há palavras, ademais, que possam cifrar o tigre, essa forma que há séculos habita a imaginação dos homens”. E, como Borges sempre nos alertou, é bom ter cuidado: o tigre está à solta na biblioteca.

>> JORNAL DE PERNAMBUCO – por Schneider Carpeggiani


“CONTOS GAUCHESCOS”: O CENTENÁRIO DO LIVRO DE SIMÕES LOPES NETO

sexta-feira | 11 | maio | 2012

Alguns livros marcam uma geração, outros uma nação. Os Lusíadas se confundem com a formação da nação lusa, A Divina Comédia forjou o idioma italiano, assim como as obras de Walter Scott e Shakespeare foram fundamentais para os ingleses. No Brasil, temos os romances de Alencar, que esforçou-se por representar a nação brasileira como um todo. Há outros livros, porém, que forjam não nações, mas culturas, em especial culturas regionais que não chegam a se configurar como nacionais. E este é o caso, decididamente, da cultura sul-rio-grandense.

No Rio Grande do Sul, lembramos de nossos heróis, fazemos feriado e comemorações no nosso dia, o 20 de setembro, e cantamos com entusiasmo o Hino Rio-Grandense. Mas esse gaúcho, hoje representado no Laçador, cantado em nossos CTGs e revivido no acampamento farroupilha, é acima de tudo uma figura criada pelos escritores, e poucos foram tão importantes como Simões Lopes Neto. Em Contos Gauchescos (1912) e Lendas do Sul (1913), esse pelotense forjou muito da personalidade mítica do gaúcho, sua valentia, sua honra, o amor pela terra e pelo cavalo.

Neste ano, comemora-se exatamente cem anos do lançamento deContos Gauchescos, obra obrigatória nos bancos escolares e acadêmicos gaúchos, mas que poderia estar no cânone de qualquer seleção de literatura brasileira. A obra traz, além da apresentação em que Blau Nunes surge como narrador, 19 contos: “Trezentas onças”, “Negro Bonifácio”, “No manatial”, “O mate do João Cardoso”, “Deve um queijo!”, “O boi velho”, “Correr eguada”, “Chasque do imperador”, “Os cabelos da china”, “Melancia — Coco verde”, “O anjo da vitória”, “Contrabandista”, “Jogo do osso”, “Duelo de Farrapos”, “Penar de velhos”, “Juca guerra”, “Artigos de fé do gaúcho”, “Batendo orelha” e “O ‘menininho’ do presépio”.

Todos os contos são narrados por Blau Nunes, que em algumas histórias é protagonista, mas em tantas outros assiste como espectador interessado e atento. Outro aspecto fundamental do livro é a linguagem utilizada, que é representação da linguagem popular falada do gaúcho, mas retrabalhada de forma erudita a ponto de criar uma terceira linguagem rica e particular. O grande Guimarães Rosa, anos mais tarde, e confesadamente inspirado em Simões, utilizaria essa técnica emGrande Sertão: Veredas.

Trezentas Onças, o primeiro conto do livro, é um verdadeiro cartão de visitas da prosa e da linguagem de Simões, com seus gauchismos (“guaiaca, cusco”), espanholismos (“mui, cousa”) e ditos populares (“brabo como uma manga de pedras”). A temática também começa a moldar os valores do gaúcho, estando a honra acima de tudo, mesmo quando grande quantia de dinheiro está em jogo.

Este trabalho peculiar com a linguagem exige um pouco do leitor contemporâneo, que talvez tropece em alguns trechos, especialmente nos mais descritivos, como este de “No Manatial”: “Vancê acredita?… Nesta manhã, desde cedo, os pica-paus choraram muito nas tronqueiras do curral e nos palanques… e até furando no oitão da casa;… mais de um cachorro cavoucou o chão, embaixo das carretas;. e a Maria Altina achou no quarto, entre a parede e a cabeceira da cama, uma borboleta preta, das grandes, que ninguém tinha visto entrar…”

“No Manatial”, aliás, é o mais belo — e talvez mais triste — conto do livro, revelando um pouquinho de como nascem as lendas e as assombrações. O que impressiona em Simões é que apesar do linguajar próprio, a narrativa flui com facilidade, tal qual um causo contado de mate na mão:

“E os dois, ¾ a que te pego! a que te largo! ¾ se despencaram por aquele lançante, em direitura ao manantial! E, ou por querer atalhar, ou porque perdesse a cabeça ou nem se lembrasse do perigo, a Maria Altina encostou o rebenque no matungo, que, do lance que trazia costa abaixo, se foi, feito, ao tremendal, onde se afundou até as orelhas e começou a patalear, num desespero!. A campeirinha varejada no arranco, sumiu-se logo na fervura preta do lodaçal remexido a patadas!… E como rastro, ficou em cima, boiando, a rosa do penteado.”

O livro também pode ser muito interessante como um documento histórico, revelando um pouco do pensamento e da cultura gaúcha (e brasileira) de um século atrás. Em “O Negro Bonifácio”, por exemplo, a representação feita da mulher e do negro causa estranheza e até revolta no leitor moderno, mas retrata os valores da época de publicação do texto:

“Os dentes [da Tudinha eram] brancos e lustrosos como dente de cachorro novo; e os lábios da morocha deviam ser macios como treval, doces como mirim, frescos como polpa de guabiju…  (.) No barulho das saúdes e das caçoadas, quando todos se divertiam, foi que apareceu aquele negro excomungado, para aguar o pagode.”

Este famoso conto, a propósito, retrata a disputa de quatro gaúchos pela Tudinha, “a chinoca mais candongueira que havia naqueles pagos”. A disputa evolui para um duelo sangrento, do qual emerge ao final a revelação de uma história de amor secreta, ardente e improvável da bela morena com o Negro Bonifácio.

Talvez o sucesso dos contos seja que sua essência não está nas palavras, nas frases, na linguagem popular retrabalhada, e sim no subtexto, no não-dito, naquilo que só o leitor acostumado com os meandros do gênero conto poderá perceber, como a relação de Tudinha com o Negro.

Hoje, passados cem anos, pode-se dizer que Contos Gauchescos é um clássico em todas as acepções de clássico para Calvino, “um livro que nunca terminou de dizer aquilo que tinha para dizer”, “uma obra que provoca incessantemente uma nuvem de discursos críticos sobre si, mas continuamente as repele para longe”, “livros que, quando mais pensamos conhecer por ouvir dizer, quando são lidos de fato mais se revelam novos, inesperados, inéditos”. É, enfim, um livro além de seu tempo e de seu espaço, pois embora o espaço seja bem definido, o sul do sul, o pampa gaúcho, o pampa gaúcho de um tempo de guerras, facões, cavalos e heróis, as temáticas são universais: traição, ciúme, honra, mesquinhez, saudades.
>> DIGESTIVO CULTURAL – por Marcelo Spalding


A MÁQUINA DIFERENCIAL, DE WILLIAM GIBSON E BRUCE STERLING

sexta-feira | 11 | maio | 2012

O termo steampunk em literatura é aplicado para histórias que se passam em uma realidade alternativa na qual o século XIX ainda tem como principal fonte de energia o vapor (daí o termo “steam”), mas encontra-se mais avançada tecnologicamente do que realmente foi em nossa história. Seja a Inglaterra vitoriana, seja o velho oeste norte-americano, a ideia é incluir no cotidiano das personagens elementos que não existiam na época e que hoje em dia nos são comum, tudo isso adequado ao que estava disponível naquele tempo em termos de matéria prima ou mesmo de tecnologia.

Foi em 1990 que dois autores famosos por trilharem o caminho docyberpunk (William Gibson e Bruce Sterling) escreveram a quatro mãos uma história que parte desse princípio, criando o agora clássico da ficção científica A Máquina Diferencial. Vencedor de prêmios, o livro embora não possa exatamente ser chamado como o primeiro steampunk da literatura, ainda assim tem papel fundamental na divulgação desse gênero, sendo que por isso frequentemente aparece como referência ao falar desse tipo de obra.

A Máquina Diferencial tem um enredo muito bem sacado, porque elabora a dita realidade alternativa a partir de fatos e personagens históricos, fazendo literalmente uma ficção especulativa (termo utilizado para falar de ficção científica). A ideia aqui é: e se Charles Babbage tivesse concluído seu modelo chamado Máquina Diferencial? Quais as consequências de termos na Inglaterra vitoriana algo bastante próximo do conceito de computador? De que forma isso mudaria os rumos da história como conhecemos? É a partir disso que Gibson e Sterling partem, criando uma aventura sensacional que lembra muito a ótima HQ de Alan Moore, A Liga Extraordinária.1

Só que ao invés de necessariamente termos figuras da literatura como nos quadrinhos de Moore, em A Máquina Diferencial temos personagens históricas diversas, que aparecem listadas no final do livro em um Guia de Personagens bem bacana que a Editora Aleph elaborou. Na realidade construída por Gibson e Sterling, Babbage vira figura política importante (“Lorde” Babbage), temos Charles Darwin, Sir Richard Francis Burton entre outras figuras conhecidas da história inglesa. E sim, temos escritores também. Lord Byron surge como Primeiro Ministro, e temos até figuras como Keats, Shelley e Disraeli. Mas o ponto forte da narrativa é que ninguém é colocado ali de forma forçada, as personagens parecem reais dentro daquele mundo.

O foco da narrativa muda algumas vezes, começando com Sybil Gerard, inspirada em personagem de Disraeli e aqui aparecendo como filha de um líder Ludita. A trama se baseia principalmente sobre certos cartões perfurados, ou mais especificamente a natureza desses. A partir disso se desenvolve em uma narrativa envolvendo conspirações contra o poder, mesclada com fatos históricos que de fato ocorreram (como o Grande Fedor que aconteceu em Londres em 1858). É, talvez por isso mesmo, um prato cheio para qualquer um que tenha um gosto por história do século XIX.

Até por conta dos detalhes da narrativa, de como são colocados os elementos de steampunk no livro. Algumas coisas são tão sutis que em determinado momento você até esquece que é um anacronismo, que aquilo não seria possível naquela época. Os efeitos do funcionamento da Máquina Diferencial são vistos em pequenas coisas, nas mudanças do cotidiano vitoriano tão como o conhecemos. É um trabalho tão bem feito que acredito que chega a valer até uma segunda leitura, para observar o que Gibson e Sterling conseguiram fazer, recriar, imaginar.

É até por esse cuidado, e mais ainda pela diversão certa que traz o livro, que não creio que seja voltado apenas para fãs de steampunk. É, sem sombra de dúvidas, altamente recomendado para quem gosta de uma narrativa de aventura, e arrisco dizer, serve até como porta de entrada para quem não está muito familiarizado com a ficção científica. Somando a isso o tratamento dado ao livro pela Aleph (que além do já mencionado Guia de Personagens, traz também um Glossário e Posfácio escrito pelos autores), faz valer ainda mais a pena conferir.
>> MEIA PALAVRA – por Anica


A ILHA DO DR. MOREAU, DE H. G. WELLS

sexta-feira | 11 | maio | 2012

O que eles narram não é apenas engenhoso; é também simbólico de processos que de algum modo são inerentes a todos os destinos humanos” (Jorge Luis Borges).

Apresentamos nossas escusas a Zafón por adiarmos a coluna dedicada a mais um de seus livros e interpormos esta dedicada ao romance do inglês Herbert George Wells (1866-1946), recentemente reeditado no Brasil. Trata-se de um dos livros mais impressionantes que tivemos o prazer de ler e gostaríamos de aproveitar o calor das primeiras impressões para registrarmos nosso entusiasmo.

A ilha do Dr. Moreau foi escrito em 1896. Da infância trazemos a vaga lembrança de assistir uma adaptação cinematográfica da obra. O prefácio da nova edição revela outra de 1996. O enredo é relativamente conhecido: após o naufrágio do navio que o conduzia, o protagonista Charles Prendick é resgatado e vai parar em remota ilha do Pacífico, onde conhece o Dr. Moreau. Puxando o fio da memória, lembra-se de reportagem que lera em Londres, revelando as atrocidades cometidas por ele, o que levou ao seu autoexílio. Estabeleceu-se na ilha, contudo, não para penitenciar-se, mas para continuar seus experimentos sem interferência. E que experiências seriam estas? A transformação de animais selvagens em homens.

Prendick não desvenda os fatos imediatamente. Na escuna em que foi acolhido, estranha a presença de diversos animais — uma onça, um lhama, cães e coelhos — e a aparência do auxiliar do médico que cuidou de si. Este médico, Montgomery, por sua vez, é assistente de Moreau. No primeiro contato com o empregado de Montgomery, Prendick repara na parte inferior de seu rosto, que “se projetava para a frente, lembrando um focinho, e sua boca entreaberta mostrava dentes brancos que eram os maiores que eu já vi numa boca humana”. Sentindo o esbarrão de Prendick, “virou-se com uma agilidade animal”. Devido à latitude em que se encontrava, o personagem atribuiu a aparência do indivíduo — e dos demais que apareceram — às peculiaridades regionais de algum povo desconhecido dos europeus de então. Ninguém procura no extravagante a primeira resposta. Para sossegar sua estranheza, contentou-se com a solução oferecida pela geografia.

Desembarcando na ilha, não sem dificuldade e deparando-se com a recusa inicial de Moreau em recebê-lo, Prendick vê-se impedido de descansar devido à sucessão de urros que identificou como da onça da escuna. Afasta-se do quarto onde instalado e resolve explorar o local, como alternativa a continuar escutando aqueles uivos nos quais se concentrava “todo o sofrimento do mundo”. Nesta forçada excursão, conhece parte do território. Vê cenas ininteligíveis, que desafiam sua resposta inicial aos tipos físicos encontrados. A outra parte ele conhecerá depois, fugindo de Moreau e Montgomery. Si os indivíduos encontrados não apresentavam características endêmicas, intui-se uma segunda hipótese, igualmente errônea mas alarmante: Moreau transformaria pessoas em animais?

Temendo ser o próximo, Prendick foge e alcança a outra parte da ínsula.Encontra uma aldeia que reúne os mais diversos e estapafúrdios tipos. Acomoda-se numa cabana onde a figura de aspecto idoso incita os demais a repetir “A Lei” durante insólita e hipnótica ladainha:

“Não andar de quatro pés, essa é a Lei. Então não somos homens?
“Não beber com a língua, essa é a Lei. Então não somos homens? (…)

E assim por diante. O toque de mestre de Wells aparece neste capítulo na constatação: “Não havia sinal de fogo”. Já presenciamos pessoas vivendo nas ruas, lado a lado com cães. Sabemos de outras que vivem entocadas em casas abarrotadas e imundas, como nem os roedores admitem, pois mudam-se quando a permanência é insustentável. Já passamos na calçada por indivíduos cujo odor anunciou a exclusão do banho de entre seus hábitos. Conhecemos outro que se alimenta exclusivamente do encontrado nas caçambas de lixo. Apesar do esforço, não conseguimos lembrar-nos de uma só espécie animal que faça uso do fogo. Vemos homens que vivam como animais, mas animais que vivam como homens é de tal forma inusitado que Prendick deparou-se com o indício mas não conseguiu assimilá-lo.

Fato e que, após algum transtorno, Moreau decide esclarecer seu hóspede. O “cientista” é descrito como corpulento, de barbas e cabelos brancos e rosto quadrado. Wells, antes de firmar-se como jornalista e escritor, foi aluno e professor-assistente na Midhurst Grammar School, estudando em seguida com Thomas Huxley (), o conhecido “buldogue de Darwin”. Não conhecemos a relação de mestre e discípulo e podemos enganar-nos, mas a descrição de Moreau remeteu-nos ao retrato daquele. Seus motivos são expostos no capítulo XIV. Variam entre o positivismo científico do século XIX e o messianismo, agregando sofismas e argumentos de autoridade. Ao contrário de Huxley, Moreau não era nem cientista, nem humanista. Em nossa concepção, estes termos são sinônimos necessários. Temos na conta desta categoria de pessoas aqueles indivíduos que se dedicaram a ampliar os campos do conhecimento humano, ou mantê-los ampliados, ou ainda, levaram este conhecimento para aplicá-lo pelo mundo. São os Sabin, Curie, Edson e Franklin que ilustram nossa História. Moreau é o antípoda de Albert Schweitzer, por exemplo, prêmio Nobel da Paz de 1952. Schweitzer foi exímio organista, que se formou em Medicina com o específico intuito de levar alívio à África, onde aos rigores da natureza adicionou-se a inclemência dos que se apresentaram como colonizadores. Construiu e equipou ao menos um hospital com fundos levantados em concertos nos quais se apresentava.

Moreau soluciona em definitivo a dúvida de Prendick. O que ele via não eram homens e mulheres transformados em animais, mas o contrário. “São animais recortados e esculpidos até adquirirem novas formas”. A crueldade seria idêntica, em nossa opinião. Percebe-se sua preocupação em comprovar suas ideias e sua indiferença à dor decorrente. Adquiriu a insensibilidade de Mengele ou daquele que manipula químicos visando produzir um abortivo eficiente. Seu intento declarado é único: “encontrar o limite extremo da plasticidade de uma forma viva”. E só, sem aplicação prática em benefício de alguém, como questionou Prendick em outra passagem. Por maior sofrimento que causasse, reconhecia a vanidade de seus esforços e logo perdia o interesse pelos espécimes alterados.Rapidamente voltavam a ser o que eram antes, mesmo deformados. Eles regrediam.

Um dos mais cativantes representantes do povo animal — assim são referidos no livro — é o derivado de um cachorro São Bernardo. Ligou-se ao personagem quando ele ficou sozinho na ilha, montava guarda, protegia seu sono. Lembramos de Roger Grenier, no muitas vezes relidoDa dificuldade de ser cão, citando o poeta Rilke: “Sua semelhança confidencial e admirativa é tal que alguns dentre eles parecem ter renunciado a seus hábitos mais antigos, adotando até nossos erros. É exatamente isso que os torna trágicos e sublimes”. Outra figura é o homem-macaco, que despreza as palavras comuns e prefere repetir as que não entende, alegando desenvolver um grande pensamento. Após a leitura, desconfiamos que o sujeitinho escapou da ilha e veio ter ao Brasil, onde proliferou e seus descendentes hoje ocupam os mais diversos cargos.

Todos eles, contudo, regrediram. Parece-nos uma impropriedade vocabular falar em “regressão”. Os “pacientes” de Moreau sequer deixaram de ser o que eram. Após o experimento, perderam a forma original, foram hipnotizados e condicionados. Em relação a estes seres, Moreau cometeu o mesmo erro dos ascetas: não se aperfeiçoa o espírito mutilando o corpo. Portanto, não haveria como voltar de um ponto que não foi atingido. Afastada a interferência humana, retomaram seus hábitos, fosse qual fosse o tempo transcorrido. Retomadadefinitiva, pois as parciais davam-se diariamente, à noite. Estamos convictos de que ao homem é impossível regredir — aqui, sim, no sentido próprio — a estágios animalescos e de dócil submissão a comandos acompanhados de reforços ou punições. Felizmente, todos os anos temos o Big Brother Brasil para sedimentar-nos a convicção. “Então não somos homens?”.
>> DIGESTIVO CULTURAL – por Ricardo de Mattos


A FICÇÃO CIENTÍFICA DOS ANOS 60 NO YOUTUBE

sexta-feira | 11 | maio | 2012

A década de 1960 foi uma era de ouro para a ficção científica cinematográfica. A corrida espacial e a Guerra Fria ocupavam as manchetes dos jornais e os cineastas soltavam a imaginação. Agora, alguns dos melhores filmes dessa época podem ser vistos de graça na internet, no site Youtube. São produções que caíram no domínio público e, portanto, podem ser disponibilizadas para download sem qualquer culpa ou acusação de pirataria. São filmes que dão um banho de criatividade em muitas produções de hoje em dia.

Semana passada eu voltei à infância assistindo a dois desses filmes, o italiano “O planeta dos homens mortos” e o americano “Passagem para o futuro”. Quando eu tinha dez anos de idade esses filmes passavam na matinê do cinema Trindade, lá no bairro da Abolição, no Rio de Janeiro. Jamais imaginei que no futuro, em 2012, eu poderia rever esses mesmos filmes na telinha do meu computador. Afinal, em 1960, computador também era coisa de ficção científica.

“O planeta dos homens mortos” está disponível no Youtube na versão em inglês, intitulada “Batlle of the worlds”. O diretor é o italiano Antonio Margueriti, que assinava seus filmes com o pseudônimo Antony Dawson. Quando esteve em Hollywood, Margueriti descobriu que seu sobrenome, em inglês, significava margarida. Cismou que iam pensar que Antonio Margarida era um cineasta gay e mudou de nome. Numa carreira que só terminou com sua morte, em 2002, este italiano dirigiu dezenas de filmes, incluindo faroestes e fitas de terror. Acabou homenageado por Quentin Tarantino que deu seu nome a um personagem do filme “Bastardos inglórios”.

Mas o nome Antonio Margueriti hoje é lembrado pela tetralogia Gamma One, quatro filmes de ficção científica que ele rodou entre 1960 e 1965, usando os mesmos cenários e as mesmas maquetes.

O “Planeta dos homens mortos” é o segundo da tetralogia. Claude Rains (“Casablanca”) é o professor Benson, um cientista excêntrico que vive isolado em uma ilha do mar Mediterrâneo no ano de 2022. Os líderes mundiais buscam sua ajuda quando um estranho planetoide se aproxima da Terra. A humanidade entra em pânico achando que é o fim do mundo, mas Benson suspeita que se trata de uma invasão extraterrestre. Quando naves espaciais são enviadas para pousar no mundo errante são interceptadas por discos voadores e começa uma guerra espacial.

As cenas do combate entre os foguetes da Terra e os discos voadores são mais realistas do que as batalhas de Guerra nas Estrelas. Os foguetes do cineasta italiano obedecem às leis da física e só disparam seus motores na hora de acelerar ou mudar de órbita. No final, os heróis conseguem penetrar no planeta e descobrem que era o lar de uma raça extinta que deixou um super computador controlando tudo. Nada mal para um filme de matinê.

Futuro
“Passagem para o Futuro” (The time travelers” no original) é mais pessimista e reflete os medos da Guerra Fria. Começa com um grupo de cientistas da Universidade da Califórnia testando uma máquina do tempo. A engenhoca parece uma enorme televisão de tela plana mas, em teoria, será capaz de mostrar cenas do passado e do futuro. Na verdade, a coisa acaba abrindo um portal, uma fenda no tempo entre o ano de 1964 e o ano de 2071. E neste mundo, 107 anos no futuro, a terra é um deserto calcinado, povoado por mutantes, resultado de uma guerra nuclear entre os Estados Unidos e a União Soviética.

Os cientistas atravessam o portal e encontram uma comunidade de humanos vivendo num paraíso tecnológico subterrâneo. As mulheres tomam banho de sol nuas em câmaras ultravioleta, os vegetais crescem instantaneamente em estufas e o teletransporte é uma realidade. Mas a ameaça dos mutantes, que dominam a superfície, leva os homens e mulheres do futuro a buscarem uma solução radical. Eles estão construindo um foguete fotônico e vão se mudar para um planeta da estrela Alfa Centauri.

Já não se fazem mais filmes assim hoje em dia. E nem é preciso. Eles podem ser vistos de graça, na internet.
>> DIÁRIO DO VALE – por Jorge Luiz Calife