MAZZUCHELLI: ESCOLHA SEU SUCESSO

Aos 27 anos, David Mazzuchelli estava no topo do mundo – do seu mundo, o mundo dos quadrinhos. Era o artista consagrado de um dos mais celebrados gibis até então – e até hoje: Batman Ano Um.

Escrita por Frank Miller, a série introduziu um nível de realismo inédito nos quadrinhos comerciais americanos. O principal personagem da história é Gotham City. Olhe qualquer página: dá para sentir o cheiro da cidade.

Os dois filmes do herói dirigidos por Christopher Nolan, são fortemente influenciados por Batman Ano Um. Foi sua segunda colaboração com Miller. A anterior é igualmente um clássico dos super-heróis: Daredevil: Born Again.

E então Mazzuchelli… sumiu. Desapareceu de circulação. O ano era 1987. De lá para cá ele publicou três gibis autorais (Rubber Blankets, de 1991 a 1993) e uma adaptação do romance de Paul Auster, City of Glass (1994).

Foi dar aula. Fez  umas participações especiais em antologias de vanguarda tipoDrawn & Quarterly Zero Zero, ilustrações para New Yorker e outras revistas sofisticadas, e só.

Nada de entrevistas, nada de aparições em convenções, discrição acima de tudo. Escafedeu-se. E então veio Asterios Polyp.

A graphic novel escrita e desenhada por Mazzuchelli em 2009 é – vamos deixar de rodeios – uma OBRA DE ARTE, com maiúsculas.

Não por acaso, foi o trabalho com maior número de indicações aos prêmios Eisner deste ano, anunciadas esta semana.

Os Eisner Awards são a premiação mais importante dos quadrinhos norte-americanos. Asterios Polyp levou quatro indicações. Por que o silêncio de tantos anos? Muita coisa foi acontecendo. A vida aconteceu.

Num raríssimo encontro com leitores, Mazzuchelli explicou que, depois do grande sucesso de Batman Ano Um, ele decidiu passar um ano pensando no que queria fazer depois.

Quando iniciou Rubber Blankets, percebeu que a cada edição ele queria contar uma história mais longa, que não cabia nas poucas páginas disponíveis. Em vez de fazer o número 4, parou a série – e o número 4 se transformou nas 300 e tantas páginas de Asterios Polyp.

É muito difícil descrever este livro. É uma linda história de amor sobre um horrível caso de arrogância intelectual; é um despretensioso tratado sobre a estética e os estetas; é um passeio pela Odisseia e um show de cenografia.

É a pura energia do cartum, é o rigor arquitetônico, é a fluidez do mangá e também uma homenagem aos clássicos gibis de antigamente – Chester Gould viaScott McCloud. E não, não é cabotino, não é pseudo, não é indie nem para uma seleta casta de iniciados no mundo das artes plásticas. São personagens de carne e osso e, bem, Hana, por quem é muito fácil se apaixonar.

Asterios Polyp é acessível e espantoso. Com 50 anos, finalmente David Mazzuchelli faz sucesso em seu próprio tempo, em seus próprios termos.
>> R7 – por André Forastieri

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