A FICÇÃO CIENTÍFICA BRASILEIRA: O FUTURO DO PRESENTE NO PRETÉRITO

segunda-feira | 13 | junho | 2011

A Presidência da República dos Estados Unidos do Brasil estava confiada a uma mulher. O país estava mais forte, mais belo e rico. Para aqui convergiam povos de todos os recantos da Terra. A Amazônia está urbanizada, o analfabetismo foi abolido e, na roça, os trabalhadores cantam trechos da última ópera a que assistiram ou recitam, de cor, os poemas mais lindos.” Aviso: isso não é um texto institucional desvairado do governo atual. A autora, Adalzira Bittencourt (1904-1976), descreveu essa “previsão” em 1929 em Sua Excia. a presidente da República. Mas esse “paraíso” de ficção científica tem um porém: tudo isso foi conseguido graças à ascensão na política das mulheres, que implementam um rígido programa de eugenia e higiene social. Por uma ironia do destino, a presidente, dra. Mariangela de Albuquerque, apaixona-se pelo pintor Jorge, que só conhece por cartas amorosas. Cansada de esperar o amante, a primeira mandatária ordena que seja trazido, algemado, em sua presença. “Era lindo de rosto, mas tinha não mais do que 90 cm de altura e tinha nas costas uma corcunda enorme.” A presidente eugenista ordena, implacável, a eutanásia profilática no amado. “Era mulher”, encerra-se, em tom vitorioso, a novela.

O tom “ideológico” da novela percorreu, e ainda se mantém, a produção de ficção científica brasileira, infelizmente pouco estudada e vista, em geral, como “produto de segunda ordem” e indigno do cânone literário. “Desde o século XIX o gênero provou ser um veículo ideal para registrar tensões na definição da identidade nacional e do processo de modernização. Essas tensões são exacerbadas na América Latina e, por isso, a produção da ficção em países como Brasil, Argentina e México, grandes representantes desse gênero no continente, é muito mais politizada do que a escrita nos países do Norte. No Brasil, o gênero ajudou a refletir uma agenda política mais concreta e os escritores, ontem e hoje, estão mais intimamente envolvidos com os rumos futuros de seu país e usaram o gênero nascente não apenas para circular suas idéias na arena pública, mas também para mostrar aos seus compatriotas suas opiniões sobre a realidade presente e suas visões sobre um tempo futuro, melhor e mais moderno”, explica a historiadora Rachel Haywood Ferreira, da Universidade  do Estado de Iowa, autora de The emergence of Latin American science fiction, que acaba de ser lançado nos EUA pela Wesleyan University Press. “A ficção científica brasileira permite traçar a crise de identidade que acompanhou a modernização, juntamente com o senso de perda que a persegue, e que é parte da entrada do Brasil na condição pós-moderna. A ficção nacional em parte exemplifica a erosão da narrativa latino-americana de identidade nacional, porque ela se torna cada vez mais influenciada pela troca cultural inerente à globalização iniciada nos anos 1990”, concorda a professora de literatura Mary Ginway, da Universidade da Flórida, autora de Ficção científica brasileira: mitos culturais e nacionalidade no país do futuro (Devir Livraria). Apesar disso, o gênero continua considerado como “menor”. “É uma pena, porque o deslocamento da tradição da ficção para o contexto de um país em desenvolvimento nos permite revelar certas assunções sobre como se dá esse desenvolvimento e determinar a função desse gênero nesse tipo de sociedade. A ficção científica fornece um barômetro para medir atitudes diante da tecnologia, ao mesmo tempo que reflete as implicações sociais da modernização da sociedade brasileira”, avalia Mary. “Há mesmo uma variação gradual de um clima de otimismo para outro, de pessimismo: a ciência parece não mais ser a garantia da verdade, como se pensava, e o impacto da tecnologia pode nem sempre ser positivo, o que dificulta que se alcance o potencial nacional. Tudo isso se pode ver na ficção científica latino-americana: a definição da identidade nacional; as tensões entre ciência e religião e entre campo e cidade; a pseudociência”, nota Rachel.

Para a pesquisadora, a literatura especulativa é importante em paí-ses como o Brasil, onde “ciência e tecnologia têm um papel-chave na vida intelectual, já que a tecnologia é vista como a solução possível para que o país possa superar o atraso histórico do desenvolvimento econômico com a esperança de se criar uma sociedade melhor e mais utópica”. Infelizmente, foi justamente essa ligação com o nacional que representou a glória e o desprezo da ficção científica no Brasil, apesar de termos acompanhado com certa rapidez a expansão do gênero na Europa. A primeira ficção científica nacional data de 1868 (foi publicada no jornal O Jequitinhonha até 1872), Páginas da história do Brasil, escrita no ano 2000, de Joaquim Felício dos Santos, uma obra satírica sobre a monarquia que leva dom Pedro II numa viagem pelo tempo até o futuro, onde descobre como seu regime de governo era pernicioso ao país. “Obras como essas que adentram o século XX, até os anos 1920, mostram que havia interesse dos brasileiros em desenvolver narrativas utópicas, fantasias moralizadoras e até o romance científico, um corpo de ficção especulativa que poderia ter sustentado uma produção maior nas décadas seguintes. Infelizmente, como viria a acontecer nos anos 1970, os exercícios nacionais não resistiram à pressão estrangeira, à pressão da crítica, que não criou um nicho para o gênero no Brasil, e ao relativo desinteresse do público leitor”, analisa Roberto de Sousa Causo, autor de Ficção científica, fantasia e horror no Brasil: 1875-1950 (Editora da UFMG). “A separação rígida entre a literatura sancionada e a não sancionada redundou na quase total ausência de umapulp era no contexto brasileiro. A ficção especulativa perdeu esse espaço de inventividade desregrada, de abertura de novas possibilidades, de constituição de uma tradição mais empreendedora”, avalia.

Como observa Antonio Candido, em sua Formação da literatura brasileira, há uma posição fechada no país de considerar a literatura como prática constitutiva de nacionalidade, um pragmatismo que implica até hoje a diminuição da imaginação, pelo interesse de se usar politicamente as letras como forma de representar a experiência social e humana. Nesse movimento, avalia Causo, os usos da literatura como instrumento de formação da nacionalidade teriam preferido a documentação realista e naturalista orientada pelo progresso e pelo determinismo. “A versão brasileira sofre duplamente por causa de suas associações com ‘arte baixa’, fruto de uma tradição autoritária nacional que abomina a cultura de massas e a arte popular, e por ser um gênero imaginativo num país que dá alto valor ao realismo literário”, concorda a brasilianista Mary Gingway. Num conto de Jorge Calife, um dos mais conhecidos autores contemporâneos de ficção científica, Brasil, país do futuro, um jovem, em 1969, durante a ditadura, tem como dever de casa escrever um ensaio sobre o Brasil do ano 2000. Ele, de fato, consegue viajar no tempo e ver o Rio do futuro, uma dolorosa decepção ao descobrir que nada mudara e a vida dos brasileiros continuava miserável. De volta ao quarto, escreve o texto descrevendo uma cidade imaginária sob um domo, com medo de ser reprovado pelo professor se falasse a verdade. “Essa história é um lembrete de que, a despeito da modernização global, o Brasil pode enfrentar uma longa espera antes de receber os benefícios da tecnologia”, afirma a pesquisadora americana.

Os inícios da ficção científica foi o chamado romance científico, desenvolvido entre 1875 e 1939, que tomava como modelos europeus os livros de Jules Verne e Wells. “Embora as contribuições científicas latino-americanas desse período fossem pequenas em comparação com o resto do mundo, os cientistas desses países estavam em sintonia com o que fazia na Europa e a adoção da eugenia é um sinal da aprovação generalizada da ciência como prova de modernidade cultural. Os textos criados nesse espírito não se revelam como imitações de modelos literários imperialistas que mostravam sociedades imaginárias baseadas em tecnologias inviáveis, mas em obras que descreviam o presente com a autoridade do discurso científico e almejavam o futuro brilhante que viria com certeza. São textos utópicos que acontecem em lugares remotos ou tempos distantes, descrevendo sociedades inexistentes em detalhes”, analisa Rachel. A eugenia dessas obras, porém, vem embalada numa versão mais soft, um ramo alternativo das noções hereditárias de Lamarck, em que havia espaço para a reforma das deformações humanas, algo que entusiasmava os brasileiros, já que ofereciam soluções científicas viáveis para os “problemas” nacionais. “Era um neolamarckismo tingido com cores otimistas em que reformas do meio social poderiam resultar em melhoras permanentes e que o progresso, mesmo nos trópicos, era possível. Mais tarde, o darwinismo social se juntaria ao caldo que produziria a ficção”, conta a pesquisadora. Um bom exemplo é o romance pioneiro no gênero, Dr. Benignus (1875), de Augusto Zaluar, uma expedição científica ao interior do Brasil, com direito a seres vindos do Sol, muita conversa e pouca aventura. Para Benignus, a ciência serviria para dar valor ao cidadão importante ou resgataria a nação “bárbara” e abandonada.

Outro tema característico aparece em O presidente negro ou O choque das raças (1926), de Monteiro Lobato, que mostra como a divisão do eleitorado branco em 2228 permite a eleição nos EUA de um presidente negro, o que faz os brancos se unirem novamente para colocar os negros “sob controle”. Para o escritor, a mestiçagem era justamente o fator responsável pelo atraso econômico e cultural. A solução era seduzir os negros com um alisador de cabelos, os “raios Ômega”, que provocavam a esterilização do usuário. De forma menos agressiva, o tom eugenista transparece nas obras do jornalista Berilo Neves, autor da coletânea A costela de Adão (1930) e O século XXI (1934), histórias satíricas passadas no futuro cujo alvo preferencial eram o feminismo e as frivolidades femininas. Em geral suas narrativas misóginas envolvem a criação de máquinas de reprodução humana que fazem as mulheres obsoletas ou um mundo futuro em que os gêneros aparecem trocados. Em A liga dos planetas (1923), de Albino José Coutinho, o primeiro romance nacional a mostrar uma viagem espacial, o narrador constrói seu “aeroplano” e finca a bandeira brasileira na Lua. Mas não foge do pensamento corrente: a missão espacial tinha como justificativa um pedido presidencial para que o herói encontrasse, em outros mundos, gente de qualidade, porque aqui isso não acontecia.

Mas houve exceções honrosas ao darwinismo social, como A Amazônia misteriosa (1925), de Gustavo Cruls, inspirado em A ilha do Dr. Moureau, de Wells, com uma solução nacional: o protagonista perdido pela Amazônia se encontra com um cientista alemão, o professor Hartmann, que faz experiências em crianças do sexo masculino desprezadas pelas amazonas. Como se isso não bastasse, o médico, após tomar uma droga alucinógena, topa com Atahualpa, que descreve a ele os abusos feitos pelos europeus. O protagonista vê que esses foram mantidos pelo cientista tedesco e rejeita as explorações colonialistas e o abuso da ciência. Em A república 3.000 ou A filha do inca (1930), o modernista Menotti Del Picchia descreve uma expedição que se depara com uma civilização de grande tecnologia em pleno Brasil Central, isolada sob uma cúpula invisível. Os protagonistas rejeitam os postulados positivistas, fogem com a princesa inca e tudo se encerra com uma elegia à vida simples. Jerônymo Monteiro, o futuro autor do personagem Dick Peter, usa seu romanceTrês meses no século 81 (1947) para mostrar o seu protagonista Campos confrontando o próprio Wells sobre a viagem do tempo, usando o recurso da “transmigração da alma”, provocada por médiuns. “O herói de Monteiro não apenas viaja no tempo, mas lidera uma rebelião de humanistas contra a elite massificadora da Terra futura, aliando-se aos marcianos com quem o nosso planeta está em guerra”, diz Causo. “Por um lado, a nossa ficção científica vai se imbuindo da realidade trágica do subdesenvolvimento e ilumina a compreensão do leitor sobre a conjuntura particular em que vive, o que nos diferenciava da ficção científica do Primeiro Mundo. Ao mesmo tempo, reconhecer isso nos fez rejeitar conceitos importados, como o darwinismo social. Não havia mais razão na convivência entre esse discurso e uma conjuntura de neocolonialismo, como se vê na ficção científica brasileira do final do século XIX e início do XX, salvo dentro de uma postura elitista interna ao país”, analisa o pesquisador.

Enquanto isso, florescia nos EUA, em revistas populares, as pulp magazines, uma ficção científica tecnófila, pouco preocupada com o estilo ou com a caracterização de personagens, mais interessada no engajamento do leitor na ação, na aventura e na extravagância das ideias, as pulp fictions. Apesar dos esforços pulps de Berilo Neves e em particular de Jerônymo Monteiro (considerado o “pai da ficção científica brasileira”), essa forma popular não vingou no país. “O Brasil perdeu ao não ter acesso a esse material ou por não ter criado a sua versão de uma era de revistas populares, em que a inventividade estava presente e o público reagia, criando um forte vínculo entre produtores e consumidores de ficção científica”, lembra Causo. Ao lado dessa golden age anglo–americana, a ficção nacional, também em função dos efeitos do pós-guerra, passa a apresentar uma desconfiança básica da ciência e da tecnologia nas mãos dos humanos por conta do poder da razão em face dos excessos da emoção. “Em razão da aguda divisão de classes da sociedade brasileira, com forte concentração de renda nas mãos da elite, a tecnologia é vista como um elemento divisor, e não unificador. Para os brasileiros, a tecnologia é mais um problema político e econômico, e não uma forma de resolvê-lo”, analisa Mary Ginway. Apesar disso, os anos 1960 presenciam uma explosão do gênero graças aos esforços do editor baiano Gumercindo Rocha Dorea, criador das Edições GRD, que passam a batizar e abrigar uma nova geração de escritores, incluindo-se criadores do mainstream convidados a criar ficção como Dinah Silveira de Queiroz, Rachel de Queiroz, Fausto Cunha, entre outros.

Entre EUA e Brasil passam a acontecer descompassos ficcionais. “Se a ficção científica americana abraça a tecnologia e a mudança, mas teme rebeliões ou invasões por robôs e alienígenas, a ficção brasileira tende a rejeitar a tecnologia, mas abraça os robôs e acha os alienígenas como sendo indiferentes ou exóticos, mas pouco ameaçadores, quando não portadores de uma mensagem de paz ao mundo”, afirma Mary. Tampouco as visões americanas de megalópoles plenas de mecanismos futuristas agradavam aos brasileiros. “A sociedade brasileira, por seu passado rural e patriarcal, valoriza o personalismo nas relações, colocando valo no contato humano. Assim, essa rejeição pode ser lida como a negação de uma nova ordem baseada na uniformização e na obediência cega a uma cultura organizacional”, continua a pesquisadora. A ficção científica nacional começa a colocar o seu sabor sobre os arroubos do futuro. “A tecnologia só pode ser solução, nessas obras, quando é reduzida e humanizada. Os alienígenas, comparados aos estrangeiros, são descritos como indiferentes aos humanos e seus destinos, tomando recursos e abandonando os humanos à sua sorte. A Amazônia, por exemplo, passa a ser alvo desses invasores, que pousam ali. Já os robôs são vistos com grande simpatia, talvez em função do passado escravista em que havia uma promiscuidade entre servos e senhores. Assim, os ícones da ficção são transformados pelas relações sociais brasileiras tradicionais e suas possibilidades como agentes de mudança social, enquanto possibilidades utópicas são geralmente negadas.” Os autores nacionais se apropriam de um gênero do Primeiro Mundo que lida com ciência e tecnologia e, ao transformarem seus paradigmas, tornam-no antitecnológico e nacional, segundo a pesquisadora, um gesto compreensível de resistência ante o temor da modernização que ameaçava destruir a cultura e as tradições humanistas do Brasil, como se verá com o golpe de 1964.

Esse período da ditadura marca o início da ficção científica distópica, ou seja, usar elementos familiares e fazê-los estranhos para discutir ideias e fazer denúncias. “Ao usar um mundo futurista imaginário, as distopias se concentram em temas políticos e satirizam tendências presentes na sociedade. Daí as distopias nacionais serem todas representações alegóricas de um Brasil sob regime militar, com alusões à censura, tortura, controle etc. Os enredos são sempre sobre rebeliões contra uma tecnocracia perversa e arbitrária”, nota Mary. É um abrasileiramento da tendência da new age da ficção científica internacional, sob os auspícios de Ray Bradbury, em que a tecnologia aparece como vilã ao roubar dos brasileiros a sua identidade (uma questão recorrente desde o século XIX), em especial quando em mãos de um governo autoritário. “No lado oposto está o mito da identidade, visto como natural e imutável, assumindo a forma da natureza, da mulher, da sexualidade, da terra”, nota Causo.  Com o fim da ditadura, a ficção científica volta ao seu padrão em formas mais sofisticadas como o cyberpunk, a ficção hard e as histórias alternativas, muitas escritas por mulheres.

Em 1988, Ivan Carlos Regina lança o manifesto antropofágico da ficção científica brasileira, que como o manifesto de Oswald de Andrade, propõe uma “canabalização” do gênero pelos escritores brasileiros. “Precisamos deglutir, após o bispo Sardinha, a pistola de raios laser, o cientista maluco, o alienígena bonzinho, o herói invencível, a dobra espacial, a mocinha com pernas perfeitas e cérebro de noz e o disco voador, que estão tão distantes da realidade brasileira quanto a mais longínqua das estrelas.” “Ao combinar formas altas e baixas de literatura, ao unir mito, mídia, tecnologia moderna e ao abordar questões como raça e gênero sexual, a ficção nacional da pós-ditadura desconstrói a noção de Brasil como uma nação tropical exótica, cheia de gente feliz, oferecendo um mosaico pós-moderno dos conflitos brasileiros para lutar com a sua própria história e com a crescente globalização”, nota Mary. Nesse momento há mesmo quem advogue o gênero como terreno fértil para os escritores do mainstream. “Os heróis da prosa de ficção brasileira estão cansados. Faz pelo menos 20 anos que a sua rotina não muda”, avisa o escritor Nelson de Oliveira, autor deOs transgressores, em seu “Convite ao mainstream”. “Nossa sorte é que na literatura brasileira existem outras correntes além da principal. A mais vigorosa, brutal e vulgar é a ficção científica. Ela é como os bárbaros que puseram abaixo Roma. Os bárbaros são a solução para uma civilização  decadente. Os temas da ficção científica são a semente desses guerreiros que, ao fecundarem a prosa cansada e decadente do mainstream, ajudarão a gerar contos e romances mais consistentes e menos artificiais.”
>> REVISTA FAPESP – por Carlos Haag

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3%: PROGRAMA PILOTO DA SÉRIE DE FICÇÃO CIENTÍFICA BRASILEIRA ESTÁ DISPONÍVEL NO YOUTUBE

segunda-feira | 13 | junho | 2011

Está disponível no YouTube (http://www.youtube.com/serie3porcento), dividido em 3 partes, o programa piloto da série de ficção científica 3%, produção da Maria Bonita Filmes dirigida por Daina Giannecchini, Dani Libardi e Jotagá Crema. Com apoio do programa FICTV/Mais Cultura, do governo federal, a divulgação do piloto visa atrair patrocínio para continuidade da série a ser exibida na TV.

3% foi vencedor da Etapa I do edital de seleção de desenvolvimento e produção de teledramaturgia seriada para TVs Públicas – FicTV / Mais Cultura (MinC), e vencedor da Mostra Competitiva de Pilotos Brasileiros na categoria Séries de Ficção, Festival Internacional de Televisão 2010.

Segundo Jotagá Crema, um dos diretores de 3%, a primeira temporada inteira da série já foi escrita: “estamos espalhando o piloto pela internet na esperança de conseguir um canal de TV interessado em exibir.” Informações detalhadas sobre a série podem ser procuradas no Facebook emhttp://www.facebook.com/3porcento.

A fábula de 3% se passa num futuro próximo cinzento, no qual as pessoas vivem divididas entre duas sociedades muito diferentes. Pressupõe-se que uma sociedade (o “Outrol Lado”), a dos “entrevistadores”, seja sensivelmente desenvolvida, enquanto a outra, dos “entrevistados”, seja extremamente atrasada. Impossível não lembrar da fronteira do México com os EUA ou das antigas Alemanhas Oriental e Ocidental. O “Outro Lado” é a “terra dos sonhos” para os jovens que vivem em condições supostamente subumanas, porém apenas3% dos candidatos à imigração conseguem aprovação após uma série de testes rigorosos, ora bizarros ou simplesmente estúpidos. 97% fracassam, o que pode significar a própria morte no percurso de provações.

O piloto avança inicialmente sob o ponto de vista de uma jovem candidata. É dela a voz over que comenta e instrui o espectador acerca das peculiaridades de seu mundo. Ao fim do episódio-piloto, porém, essa “protagonista preliminar” está morta. Sua narrativa vai introduzir o que se supõe que sejam os protagonistas “verdadeiros”, um rapaz que fraudou seus documentos para conseguir ser aceito no processo de seleção, uma moça e um rapaz paraplégico. O futuro desses personagens vai depender do sucesso na captação de recursos para a continuidade da série.

3% é uma distopia futurista com ecos de 1984 (1948), de George Orwell, e Nós(1932), de Evgueny Zamiatin, além de um toque dos puzzle films ou séries de TV norte-americanas como Lost. A pouca originalidade do eixo temático é compensada pela promessa de um tratamento tipicamente brasileiro e contemporâneo. O piloto demonstra também a acuidade com que a série parece pretender não só tratar de uma longa tradição no universo da ficção científica (a do embate entre o indivíduo e sociedades tecnocráticas totalitárias), mas também urdir uma curiosa alegoria sobre o fantasma da burocracia que assola a sociedade brasileira desde o descobrimento.

Os cenários são essencialmente cinzentos, quase “monocromáticos”. Os figurinos dos candidatos a imigração lembram o dos trabalhadores do filme Metropolis(1927), de Fritz Lang, por sua vez inspirados nos coros expressionistas. Indivíduos massificados, mecanizados e sem identidade. “Números” vestidos em uniformes minimalistas padronizados. 3% aposta no minimalismo dos cenários, figurinos e diálogos, na intimidade das cenas, proximidade dos personagens. Minimalista também são os diálogos e o roteiro. O piloto acena com a possibilidade de uma série de ficção científica genuinamente brasileira e viável, livre da necessidade de efeitos especiais sofisticados que caracterizam os blockbustersamericanos. Nesse sentido, 3% parece corroborar a minha tese de que uma “terceira via” da ficção científica brasileira ainda seja possível, uma alternativa à “primeira” (a do cinema de grande orçamento, pleno de recursos tecnológicos) e à “segunda” via (a dos filmes B ou, por extensão, trash movies). Centrado num roteiro de suspense, 3% investe na mise-en-scène mais intimista dos espaços fechados e da ação baseada em diálogos.

Rodado com câmeras Red One com capacidade de resolução de 4K (aproximadamente 8 milhões de pixels), 3% é parcimonioso nos planos gerais com grande profundidade de campo, privilegiando closes ou planos mais próximos. Uma opção plenamente compreensível numa produção de recursos modestos que pretende lidar com temática fantástica.
>> CRONOPIOS – por Alfredo Suppia


FANTASIA BRASILEIRA GANHA PRÊMIO “REALMS OF FANTASY READERS’ CHOICE AWARD”

segunda-feira | 13 | junho | 2011

“The Fortuitous Meeting of Gerard van Oost e Oludara”, noveleta de fantasia baseada no Brasil colonial, recebeu mais uma honra este ano quando foi escolhida como melhor ficção publicada na revista Realms of Fantasy durante o ano de 2010.  A seleção foi feito pelos leitores, e a noveleta empatou a votação com outra noveleta, “Queen of the Kanguellas”, escrita por Scott Dalrymple.

A noveleta é a primeira em uma série intitulada A Bandeira do Elefante e da Arara, ou The Elephant and Macaw Banner, sobre dois aventureiros no Brasil do século XVI.  Esta primeira história está disponível no Brasil sob o título de “O encontro fortuito de Gerard van Oost e Oludara” no livroDuplo Fantasia Heróica (Devir Livraria), junto com a noveleta “A Travessia” por Roberto de Sousa Causo.

A segunda noveleta da série tem lançamento marcado para agosto, também pela editora Devir Livraria. Mais informação sobre a série pode ser encontrada no site: www.eamb.org/brasil.

Christopher Kastensmidt batendo um papo
com escritor premiado Paolo Bacigalupi
e artista premiado Barry Deutsch


UNIVERSIDADE ESCOCESA INAUGURA MESTRADO SOBRE QUADRINHOS

segunda-feira | 13 | junho | 2011

“É, melhor começar a me preparar para as provas…”

Em setembro deste ano, a Universidade Dundee (sim, existe uma faculdade com esse nome), na Escócia, vai começar um curso de pós-graduação, digamos, único – um mestrado sobre quadrinhos. Entre os temas abordados na grade, haverá aulas sobre história das HQs, quadrinhos internacionais, prática criativa (em que o estudante cria sua própria história) e uma dissertação sobre o tema. De acordo com o site da BBC News, o programa de pesquisa da universidade foi criado por Chris Murray, uma das maiores autoridades britânicas sobre HQs.

Interessou? Então clique aqui para se inscrever e saber mais sobre a pós. O curso pode ser feito em um ou dois anos, dependendo da carga horária – o aluno tem a opção de estudar em meio período ou integral – e exige um certificado de proeficiência em inglês. Para estudantes internacionais, o custo total fica 9.500 libras (cerca de R$24.600, de acordo com o câmbio atual), sem hospedagem inclusa. É, meio caro. Você faria um curso como esse?
>> SUPER – por Cláudia Fusco


MARVEL E DC: QUADRINHOS NO SÉCULO ELETRÔNICO

segunda-feira | 13 | junho | 2011


A encruzilhada digital é implacável. Indústrias estabelecidas no século 20 graças à cultura de massas penam, no novo século, para se adaptar a uma realidade que celebra a cultura do nicho. Mais que isso, numa cultura digital, em que tudo pode ser copiado e reproduzido sem que o autor tenha controle da distribuição, fica cada vez mais complicado gerir um negócio que lide com a produção de conteúdo feita para milhões de pessoas. A indústria do disco sentiu isso na pele ao servir de boi de piranha digital quando assumiu o papel de primeiro antagonista da web e processou quem baixava MP3 sem pagar.

Hollywood sente dolorosamente essa mudança, quando o download de filmes via torrent a obrigou a apostar em superproduções e em novas tecnologias, como as salas Imax e 3D. Emissoras de TV do mundo inteiro veem suas programações escoarem para fora da grade rumo ao YouTube. Música, cinema e TV estão sempre nas notícias quando se fala nesse assunto, mas uma indústria que é a cara do século 20 e está quase sempre à margem dessa discussão vem penando para retomar sua importância na era digital: os quadrinhos.

E quando se fala em indústria dos quadrinhos, dois nomes se destacam: Marvel e DC, editoras que criaram o conceito de super-herói moderno. A primeira tem se mexido drasticamente para continuar relevante nos dias de hoje, principalmente longe das revistas. Seu principal feito foi se transformar em estúdio de cinema para levar seus personagens para um público que não lê páginas em papel. A Marvel também pulou no iPad na primeira hora, criando um dos aplicativos mais festejados logo que o tablet apareceu. Mas a conta ainda não fechou – e a Marvel continua em busca de alternativas para fazer suas histórias em quadrinhos sobreviverem no século 21.

Sua principal rival, a DC, começou a se mexer de verdade na semana passada, quando anunciou que iria zerar sua linha de super-heróis e recomeçar a contagem de suas revistas, todas com um novo número 1. Não é a primeira vez que a editora que inventou o Super-Homem e o Batman tenta isso. Nos anos 80, conseguiu reiniciar seu universo com a saga Crise nas Infinitas Terras, em que permitiu que seus heróis pudessem fazer sentido no fim do século passado. O novo reinício mira no digital.

Além dos novos números 1, a editora deverá publicar, digitalmente, as mesmas histórias exatamente no dia em que elas chegam às bancas. O preço deverá ser mais barato que o das versões impressas, pois a editora quer que seu novo público volte para o papel uma vez que sentir o gosto dos novos títulos online. Mas isso pode dar bem errado, já que, assim, eles podem matar um de seus principais redutos, que são as lojas de quadrinho – como a música online fez com as tradicionais lojas de disco. A estratégia trará novos leitores se der certo. Mas se der errado, pode afugentar até os velhos. Ninguém disse que seria fácil.
>> O ESTADO DE SÃO PAULO – por Alexandre Matias


REBOOT NO UNIVERSO DC – UMA TRAIÇÃO PARA OS VELHOS LEITORES

segunda-feira | 13 | junho | 2011

A DC Comics decidiu reiniciar toda a sua
linha de quadrinhos, começando em agosto.
Quais as razões para isso e qual a perspectiva
para os velhos DCnautas?

Não é raro que me perguntem por onde começar a ler HQs e a resposta sempre se torna complicada justamente por conta de questões envolvendo continuidade e cronologia, que são os maiores diferenciais dos quadrinhos das grandes editoras americanas. As histórias, via de regra, tem efeito permanente na vida daqueles personagens e devem ser levadas em conta pelos roteiristas que vierem a trabalhar com esse ou aquele título.

Isso acaba por funcionar como uma faca de dois gumes. Por um lado, temos um universo gigantesco de histórias, onde o leitor mais antigo se vê recompensado ao acompanhar por tanto tempo a vida desse ou daquele herói, sentindo que realmente faz parte do cotidiano dele. Por outro, acaba por engessar um pouco os criadores e dificulta a entrada de novos leitores para determinados títulos. 

Ou seja, não foi a troco de nada que a DC anunciou nesta semana que irá realizar em setembro um relançamento em seu universo de heróis, reiniciando todos os títulos publicados desde o número um, aproveitando o gancho da saga “Flashpoint”, publicada atualmente nos EUA. Há alguns anos, a Marvel Comics criou uma linha separada para versões atualizadas de seu panteão, mas manteve também a continuidade clássica. Ou seja, trata-se de a DC adotou um procedimento bem mais radical.

Personagens clássicos serão modificados e atualizados, tanto em seus uniformes quanto em suas histórias. 52 edições serão lançadas ao longo daquele mês, reapresentando os heróis ao público, com um universo redesenhado por novas equipes criativas, chefiadas por Geoff Johns (“Lanterna Verde”) e Jim Lee (“Batman – Silêncio”).

Não é a primeira vez que a editora faz isso. Em 1986, no auge de uma verdadeira balbúrdia que era o Universo (aliás, Multiverso) DC, foi lançada a maxissérie “Crise nas Infinitas Terras”, que enxugou os excessos de versões múltiplas de personagens e deu novas origens a alguns heróis e vilões. O resultado foi que a última história do Superman, “O Que Aconteceu ao Homem de Aço?”, escrita por Alan Moore foi seguida pela minissérie “Superman – O Homem de Aço”, versão de John Byrne para o nascimento do último kryptoniano e que foi a linha-base para os escritores até recentemente. Por sua vez, o Batman teve seu “Ano Um” narrado magistralmente por Frank Miller e David Mazzucchelli.

A questão aqui é que não foram as dobras cronológicas que levaram a DC a realizar esta manobra tão arriscada novamente, mas sim uma necessidade mercadológica. O público que vai sair dos cinemas após uma sessão de “Lanterna Verde” e for atrás de histórias do personagem, provavelmente se assustaria ao ver que teria de ir atrás de mais de 60 edições, mais infindáveis especiais e tie-ins para se inteirar das tramas. O gamer que acabou de zerar “Batman – Arkham Asylum” e que está na pilha para descobrir mais sobre o homem-morcego vai querer abrir uma HQ na qual Bruce Wayne é o Batman.

Interessante notar que a própria DC começou a lançar, em 2010, uma nova  linha de graphic novels chamada “Earth One”, cujo objetivo era justamente lançar versões contemporâneas dos seus principais heróis. Com o reboot na principal, o destino dessa alternativa editorial é incerto, mesmo com o roteirista J. Michael Straczynski (que escreveu o script do filme “A Troca“) tendo afirmado recentemente no Twitter que já estava terminando o roteiro do segundo livro da série “Superman – Earth One“.

Lembremos ainda que a DC agora é “DC Entertainment”, não estando focada apenas nos quadrinhos, mas em um mercado bem mais abrangente. Não é por acaso que, a partir desta mudança, as HQs da editora sairão simultaneamente em papel e em formato digital, oferecendo ao público, além das HQs de modo tradicional, a opção de compra das edições em combos digital + física, ou mesmo apenas as edições virtuais. Essa será uma mudança significativa para o modo de vendagem dos gibis, principalmente em tempos de iPhones e iPads.

Além disso, há outro fator a ser considerado: o processo movido pelos herdeiros de Jerry Siegel e Joe Shuster, os criadores do Superman, com esse litígio ameaçando quebrar o personagem em dois, tendo em vista que a DC se torna dona de tudo o que veio APÓS a publicação da primeira “Action Comics”, mas os conceitos que tinham naquela publicação, como a capacidade de saltar grandes distâncias e a famigerada “cueca por cima das calças” ainda estão sob disputa. O celebrado autor Grant Morrison, responsável pela fantástica minissérie “Grandes Astros – Superman”será o responsável por revitalizar Kal-El.

No entanto, os fãs do casal Lois e Clark estão em pânico com uma provável dissolução de um dos casamentos mais duradouros dos quadrinhos e com uma possível aproximação entre o Homem de Aço e a Mulher-Maravilha (o primeiro a fazer piada sobre aquela música ridícula ganha uma viagem só de ida para a Zona Fantasma). Para quem já viu o Superman agüentando séculos “na seca” junto à bela Diana por pura devoção à sua amada esposa, será um golpe duríssimo (sem trocadilhos). Bom, pelo menos o Azulão não vendeu o casamento dele para o capeta, como um certo herói aracnídeo da Marvel…

Falando na Princesa Amazona, que teve seu uniforme redesenhado há alguns meses, as mudanças de figurino devem atingir as demais heroínas na DC. A ordem é que maiôs e meias-arrastão fiquem de fora dos guarda-roupas das vigilantes a partir de agora. Chora o nosso conterrâneo, o ótimo desenhista cearense Ed Benes, famoso por mostrar bem certos “detalhes anatômicos” das belas guerreiras em seus trabalhos para a editora.

Os leitores mais velhos – eu incluso – com certeza se sentirão traídos pelo investimento emocional jogado quase que no lixo, após de continuidade desconsiderados com este novo recomeço no Universo DC, sem contar a perda histórica para a já citada clássica Action Comics, que recentemente atingiu sua edição de número 900 e deverá voltar ao um.

Como vimos, há mais em jogo nessa decisão do que o coração de nós, fãs devotados. O que está na balança o próprio futuro financeiro e a rentabilidade dos heróis DC. O que resta para os fãs é rezar que as novas equipes criativas tragam boas histórias com nossos amados personagens, agora repaginados para um novo público.
>> CINEMA COM RAPADURA – por Thiago Siqueira


“NEUROMANCER”: CLÁSSICO DA FICÇÃO CIENTÍFICA QUE INSPIROU “THE MATRIX” FINALMENTE VIRA FILME

sexta-feira | 3 | junho | 2011

“Neuromancer” começa a ser gravado em 2012

‘Neuromancer’, de William Gibson, um dos livros de ficção científica mais famosos dos anos 80, vai finalmente virar filme. As especulações sobre a obra ir parar nas telonas existem desde 2007, mas só agora as produtoras Seven Arts Pictures e GFM Films anunciaram oficialmente que vai rolar.

O projeto foi vendido nos primeiros três dias do festival de Cannes para distribuidoras da Ásia, Polônia e Oriente Médio. Alemanha, Estados Unidos, França e Reino Unido ainda negociam a compra. Mesmo sem ter o orçamento fechado, os trabalhos de efeitos visuais já começaram e a filmagem deve acontecer em Istambul, Tóquio, Londres e Canadá, no início de 2012.

A clássica obra do cyberpunk já levou os três principais prêmios de ficção científica desde sua estreia em 1984 – Nebula, Hugo e Philip K. Dick. No Brasil, o livro só chegou em 1991, contando a história do ex-hacker Case que não podia exercer a profissão por causa de um erro cometido ao tentar roubar os patrões. Impossibilitado de se conectar à Matrix, sem dinheiro, drogado e desempregado, ele conhece Molly, que tenta ajudá-lo.

Inspirada no conceito da obra, a trilogia ‘The Matrix’, protagonizada por Keanu Reeves e Laurence Fishburne, teve lançamento em 1999 e rendeu mais de US$ 450 milhões aos seus produtores, contra apenas US$ 65 milhões gastos. Veja o trailer!
>> MTV-UOL – por Carol Tavares

O longa de ficção científica ‘Johnny Mnemonic’ (1995) foi produzido com base no livro de mesmo nome de William Gibson, publicado em 1981. Apesar de o elenco também trazer Keanu Reeves, o filme não chegou a ser um sucesso, mesmo tendo custado US$ 26 milhões. Confira o trailer.