LITERATURA FANTÁSTICA: A HORA DO ESPANTO

segunda-feira | 23 | maio | 2011

Autores gaúchos tentam, na raça,
popularizar a literatura fantástica no Estado

Eles não têm medo de assombrações. E, se for o caso, não hesitam em escrever sobre elas – ou sobre vampiros, bruxas, ETs e até entidades do folclore campeiro

São os exemplares heroicos mas cada vez mais numerosos de uma geração de escritores que quer quebrar o preconceito contra a literatura de gênero produzida no Estado. Uma turma – porque não são um movimento – interessada não apenas em ser uma “cena”, mas em chegar ao público.

Depois que Harry Potter e a saga Crepúsculo ampliaram ao longo da última década e meia o alcance da literatura fantástica para milhões, esse tipo de narrativa se popularizou também no Brasil – chamando atenção mesmo para autores que já estavam por aí bem antes, como o paulista André Vianco, campeão nacional de vendas com histórias de vampiro anos antes da saga Crepúsculo.

– Para surgirem publicações de fantasia, é preciso uma geração de editores que cresceram lendo fantasia. Cada geração tem potencial para formar a próxima, ainda maior. A fantasia épica chegou mais tarde ao Brasil. Surgiram umas poucas editoras nos anos 80 e 90, que fomentaram as editoras novas que estão agora publicando as suas próprias obras. Imagino que a geração Harry Potter vá aumentar ainda mais este fenômeno – diz Christopher Kastensmidt, americano residente em Porto Alegre e conhecedor de ambos os mercados, o de lá e o daqui.

No Rio Grande do Sul, os últimos anos viram surgir antologias voltadas para a literatura de gênero. A série Ficção de Polpa, da Não Editora, organizada por Samir Machado de Machado e já em seu quarto número, é uma delas. As Sagas, da Editora Argonautas, fundada pelos também escritores Cesar Alcázar e Duda Falcão, estão no segundo volume. Ambas apresentam contos de autores locais e nacionais, oferecendo um panorama abrangente da ficção de gênero no Brasil. São experiências que podem ajudar a quebrar a grande barreira entre os autores e o público – erguida principalmente pelos problemas de distribuição e edição do mercado literário tradicional.

– As novas editoras usam a inteligência para ocupar o vácuo deixado pelas grandes. São espaços que outrora foram ocupados por escritores famosos que vendiam muito literatura fantástica, como Cortázar ou Borges. Na ausência de novos grandes, as editoras acabam se contentando com relançamentos. É aí que entram as pequenas, lançando autores menos conhecidos, com contos inéditos para alimentar os apreciadores de novidades do gênero – diz Cleo de Oliveira, autor de Descontágio (Scortecci Editora) – livro em que alguns contos se valem de recursos do fantástico.

As vertentes da fantasia no Estado vão desde jovens escritores que criam histórias usando os temas recorrentes na atual ficção internacional de gênero, como vampiros, seres imortais ou anjos, a autores que aproveitam a realidade nacional e os temas de seu folclore para criar sua narrativa. Kastensmidt foi recentemente indicado ao Nebula, um dos prêmios internacionais mais importantes dedicados à literatura fantástica, narrando o encontro de um aventureiro holandês com o Saci-Pererê no Brasil do século 17. Outra autora que se utiliza da matriz local para contar suas histórias é Simone Saueressig, nascida em Campo Bom mas residente hoje em Novo Hamburgo. Seu recentemente lançado Aurum Domini: o Ouro nas Missões (Artes & Ofícios), é uma aventura histórica passada no século 19 que explora a lendária fortuna em ouro supostamente guardada pelos jesuítas nas missões.

– Tenho confiança no valor do nosso material próprio, nosso folclore, nossa história. Nossas lendas são um material tão rico quanto qualquer outro para se fazer literatura. Sempre tenho aquela noção de que um livro estrangeiro vem cheio das noções de moral, de honra, de postura política do país ou do segmento em que ele foi escrito. Então creio que nós autores nacionais temos de apresentar nossa visão, também, como espécie de resposta – diz Simone.

Rede macabra
Internet concentra os debates e populariza a literatura fantástica
Dois fenômenos formam o eixo da literatura fantástica produzida no Estado: o uso da internet como ferramenta de divulgação e um bom número de trabalhos produzidos por autores do Interior. Ambos estão relacionados: com a rede, quem produz fora da Capital ganha leitores e se sente encorajada a continuar produzindo.

Muitas das publicações de e sobre literatura fantástica no Estado estão na internet. Uma das mais conhecidas revistas virtuais sobre o gênero é a Fantástica, editada por um escritor que trabalha em Porto Alegre e mora em Sapucaia: Luiz Ehlers, 30 anos. A Fantástica traz resenhas, ensaios e reportagens com foco na ficção produzida exclusivamente no Brasil, de sucessos como André Vianco, Eduardo Spohr (A Batalha do Apocalipse) e Rafael Caldela (gaúcho autor da série Tormenta, da editora Jambô), até jovens cuja repercussão ainda se dá principalmente no universo online. Conta, também, com articulistas de todo o Brasil.

– Muitos colaboradores ficaram surpresos quando a revista surgiu, acharam estranho que uma iniciativa dessas fosse editada aqui em vez de em São Paulo, por exemplo – diz Ehlers, engenheiro-químico de formação mas escritor fantástico por opção.

A Fantástica é um dos elementos mais visíveis de um fenômeno com a marca da web: a proliferação de fóruns, revistas, portais e blogs que servem como espaço de crítica e reflexão sobre a literatura de gênero à margem da grande imprensa. Feitos na base da paixão comum, muitos desses sites angariam colaboradores de todo Brasil e são mantidos por gente jovem disposta a compartilhar suas leituras. É o caso do Sobre Livros, blog editado desde 2009 por dois jovens da cidade de Encantado: os gêmeos Tiago e Rafael Casanova, 22 anos. O blog tem parcerias com editoras e funciona como um portal do cenário nacional da ficção de fantasia – no espírito “faça você mesmo” que caracteriza a geração das redes sociais:

– Planejávamos criar uma rede social literária e constatamos que não havia muitos sites voltados apenas para literatura de gênero no país. Nenhum dos poucos sites encontrados preenchia os requisitos pensados por nós, decidimos criar o Sobre Livros, para tentar conseguir e propagar essas informações – dizem ambos, em entrevista por e-mail.

A rede também tem servido para publicar – há um bom número de obras publicadas diretamente na internet. Vencedor do Fumproarte para um financiamento do seu primeiro livro, a fantasia infanto-juvenil O Rei e O Camaleão, Christian David, 38 anos, publicou recentemente uma antologia online e gratuita de ficção fantástica local: O Mal Bate à sua Porta.

– O potencial da internet ainda engatinha na literatura. A parceria com os blogs é interessante, porque eles fazem um trabalho de divulgação muito joia que dá visibilidade ao autor. No portal Skoob 50 leitores resenharam meu primeiro livro, espontaneamente – diz David.
>> ZERO HORA – por Carlos André Moreira


“HEGEMONIA”: PROJETO QUE LEVA FICÇÃO CIENTÍFICA PARA SALAS DE AULA GANHA PRÊMIO SOCIOAMBIENTAL

segunda-feira | 23 | maio | 2011

O projeto “Pensando o futuro de Macaé” da Secretaria de Educação ganhou, nesta quinta-feira, 19 de maio, o Prêmio de Responsabilidade Social da Revista Visão. A cerimônia ocorreu às 19h na Cidade Universitária no último dia da IV Feira de Responsabilidade Social Empresarial Bacia de Campos com as presenças de Fernanda Falquer (Onip), Rita Bersot (Acim), Aristóteles Riani (Sebrae-RJ), Gustavo Miguelez (Instituto Crescer), Rita Ippolito (consultora) e dos realizadores do Prêmio, os diretores da Revista Visão Socioambiental Bernadete Vasconcellos e Martinho Santafé, além do secretário de Meio-Ambiente, Maxwell Vaz, que entregou o prêmio, e da vice-prefeita, Marilena Garcia.

O projeto foi criado pelo escritor e jornalista Clinton Davisson em 2009 e visa o incentivo da leitura em salas de aula através da ficção científica e propondo conexões interdisciplinares envolvendo língua portuguesa, literatura, ciências, educação artística, geografia e história.  Tudo isso a partir de seu livro “Hegemonia – O Herdeiro de Basten”, que é considerado um dos mais importantes do gênero escrito no Brasil. “A idéia veio durante um encontro durante um evento  em São Paulo, chamado Fantasticon, onde foi sugerido que o caminho, para os escritores de fantasia e ficção científica no Brasil, estava em buscar uma interação maior com as salas de aula para formar novos leitores. Depois de uma experiência bem sucedida em Rio das Ostras, a idéia cresceu e tomou proporções maiores em Macaé e o livro está em todas as 110 escolas do município. Podemos citar o diretor de cinema, Ed Wood, quando digo que devemos incentivar nossos estudantes a começar desde cedo a pensar no futuro, porque é lá que passarão o resto da vida deles”, conta Clinton que dedicou o prêmio à coordenadora de Leitura da Secretaria de Educação, Maria Georgina de Sousa. “Ela leu o livro e se empolgou muito. Organizou as visitas em sala de aula, falou com professores das bibliotecas escolares e convenceu a todos que era possível. Sem ela, a coisa não decolaria do jeito que decolou”, completa.

Em novembro de 2010, o projeto já havia ganhado em São Paulo o prêmio Mary Shelley por incentivo a leitura de ficção científica em salas de aula. A entrega foi realizada durante o maior encontro nacional de aficionados do gênero. Este ano, o projeto entra em nova fase e lançará um concurso de contos entre os alunos com o tema: “Como será Macaé no futuro”.

O livro mistura fantasia e ficção científica ao contar a história de um jovem que estudou em uma civilização avançada durante anos e depois retorna para seu planeta subdesenvolvido e  participa de uma guerra que envolve humanos, sereias, fadas e dragões. O autor afirma ter se baseado na própria vivência em Macaé para criar a obra, que conquistou elogios internacionais e ganhou prêmios em todo o Brasil, incluindo o prêmio Nautilus da revista Scifi-News.

A vice-prefeita, Marilena Garcia, ressaltou a importância de reflexões sobre o futuro do município. “O petróleo é um recurso limitado. Mesmo com as novas descobertas do pré-sal, que propicia uma sobrevida, temos que pensar em alternativas para o futuro de nossa cidade. Isso é obrigação de cada cidadão que vive aqui”, diz.
>> PURPLEALIENS – por Equipe Semed


INDICAÇÕES FANTÁSTICAS: “CYBER BRASILIANA”, DE RICHARD DIEGUES, ESTREIA NOVO PROGRAMA

segunda-feira | 23 | maio | 2011

A escritora Carol Chiovatto colocou no ar na Revista Fantástica sua nova coluna: INDICAÇÕES FANTÁSTICAS.

Trata-se de um projeto que pretende indicar livros em forma de resenha/entrevista em vídeo com os autores dos livros.

Os vídeos terão periodicidade quinzenal, alternando com textos.

Indicações Fantásticas 01


PELO LUXO DE UMA LITERATURA DO TIPO “MENOR”

segunda-feira | 23 | maio | 2011

“Onde está a nossa J.K. Rowling?”, pergunta uma pessoa na plateia. “Onde está o nosso Stephen King? A nossa Stephanie Meyer?”, a pessoa continua. “Por que o Brasil não produz best-sellers de ficção fantástica ou fantasia, que interesse aos jovens?”. Essa saraivada de perguntas pode ser ignorada e descartada como tola por um sujeito posando de erudito, que responderia algo como: “Que bom que não temos essas porcarias! O primeiro mundo que produza esse lixo para exportação”. Tal resposta, uma fuga para dentro da torre tranquila e segura da “alta cultura”, finge que os questionamentos da pessoa na plateia não são perturbadores. Mas eles são, sim, muito desconfortáveis.

A saga Harry Potter e a saga Crepúsculo podem não ter a densidade psicológica de um romance de Flaubert nem a voracidade estilística de um texto de Joyce. E, no entanto, são esses livros que servem de porta de entrada para o novo leitor. Tirando algumas notáveis exceções, a maior parte dos leitores é formada a partir de uma Literatura mais despretensiosa e imaginativa. Parece-me muito mais provável que um adolescente se interesse por livros a partir de um contato com um assustador conto de terror de Lovecraft do que com um chatíssimo romance de José de Alencar que será obrigado a ler no colégio. De modo que, nos dias de hoje, a literatura chamada “menor” (chamada, catalogada e definida por críticos, mas é uma definição que pode e deve ser constantemente questionada) tem uma função social importantíssima. A ela devemos a formação de leitor. E a voz anônima da pessoa na plateia continua ressoando: “Por que não temos uma J.K. Rowling no Brasil?”

A bem da verdade, existe, sim, muita gente tentando escrever esse tipo de ficção. No meu trabalho como editor na independente Não Editora, já recebi pilhas e pilhas de originais que prometiam, na sinopse ou no e-mail de apresentação, ser “o novo Código da Vinci”, “o novo Senhor dos anéis” e outros absurdos. Pelos exemplos que li, nunca nem chegaram perto disso, às vezes impedidos por uma completa falta de noção do autor de estrutura narrativa ou até mesmo do que fazer com a língua portuguesa. Muitos novos escritores esquecem que, para escrever um bom romance, é necessário, antes de mais nada, ser um excelente leitor.

Para além desses casos de “tentativas frustradas”, há exemplos de tentativas muito mais bem sucedidas. O escritor paulista André Vianco, por exemplo, emplacou um belo sucesso com sua saga vampiresca, muito antes da moda dos virginais vampiros de Crepúsculo. Outro caso mais recente é o de Eduardo Spohr, cujo enorme romance A batalha do apocalipse fez um grande barulho ao ser reeditado pela Verus, novo selo da Record, após vender milhares de cópias.

É um fenômeno recente que vem ganhando força. São livros que não encontraram espaço nas discussões da crítica (muito dificilmente veremos um desses livros resenhados no Rascunho, no Sabático ou concorrendo na Copa de Literatura Brasileira), mas que estão cavando, pouco a pouco, seu nicho no mercado. Então, talvez não seja muito arriscado dizer que nossa J.K. Rowling e nosso Stephen King podem estar a caminho.

Uma pergunta precisa ser feita: o que esses novos autores e livros representam? Bem, antes de mais nada, um mercado literário saudável. O grande escritor chileno Roberto Bolaño, falecido em 2003, comentou, em entrevista para Carmen Boullosa,sobre o assunto “escrever ficção de gênero na América Latina”. A resposta dele é surpreendente e interessante, e acho que podemos aprender muito com o que Bolaño (um admirador da prosa fantástica, ainda que ele não fosse um praticante do gênero) tem a dizer sobre o tema:

“Escritores que cultivaram o gênero fantástico, no sentido mais restrito do termo, temos muito pouco, para não dizer nenhum, entre outras coisas porque o subdesenvolvimento não permite a literatura de gênero. O subdesenvolvimento só permite a obra maior. A obra menor é, na paisagem monótona ou apocalíptica, um luxo inalcançável. Claro, isso não significa que nossa literatura esteja repleta de obras maiores, muito pelo contrário, mas sim que o impulso inicial só permite essas expectativas, que logo a mesma realidade que as propiciou se encarrega de frustrar de diferentes modos.”

Trata-se de uma explicação bastante sociológica. Uma certa pobreza no nosso mercado literário levaria todos os nossos escritores a buscarem ser “o novo Guimarães Rosa”, “a nova Clarice Lispector”, mais do que produzir uma ficção fantástica despretensiosa e divertida. Apesar de todos os exemplos que citei acima de como esse cenário tem aos poucos mudado no Brasil, ouso dizer que a turma da “ficção fantástica” ainda está em minoria.

Minoria, sim. Em amplo crescimento. Seria possível, me pergunto, estabelecer uma relação entre um desenvolvimento econômico no Brasil e um desenvolvimento de um mercado literário mais profissional, com espaço para a ficção de gênero de apelo comercial e popular? Afirmar tal coisa, assim, no mais, sem uma vasta pesquisa histórica da formação intelectual e literária do país, é irresponsável, então não farei isso. A hipótese, porém, não deixa de ser interessante. Se nos encontramos em um dia particularmente otimista, podemos até especular que, com a profissionalização do nosso mercado literário, haverá um crescimento do público leitor de ficção nacional, mais aberto, talvez, para as “grandes obras”.

Uma das reclamações mais comuns (a ponto de se tornar irritante) entre os escritores brasileiros é o da falta de público leitor, de como a Literatura se tornou um gueto minúsculo. Estima-se, por exemplo, que não existe mais do que cinco mil pessoas em todo o país interessadas na nova ficção nacional. Por esse motivo que raramente um livro brasileiro lançado por grande editora tem uma tiragem superior a três mil exemplares. Uma primeira tiragem, por sinal, que quase nunca se esgota.

A formação do público leitor, como se já se argumentou acima, geralmente se dá através de livros “menores” (classificação que sempre usarei com aspas irônicas) importados. O que aconteceria se essa nova turma da ficção de gênero nacional se solidificasse por aqui? Se o público leitor futuro se formasse lendo André Vianco e Eduardo Spohr? Seria esse novo público mais aberto à ficção produzida em solo brasileiro? As especulações são muitas, e quanto mais se pensa sobre o assunto, mais os questionamentos se multiplicam.

Há intelectuais que afirmam que é uma estupidez achar que Harry Potter forma futuros leitores. Leitores de Harry Potter serão, no máximo, futuros leitores de Dan Brown, não de “ficção séria”, para eles. O argumento prossegue, afirmando que quem assiste à telenovela não necessariamente assistirá a filmes de Godard e Bergman, no futuro.

Apesar de ser verdade que muitas crianças que se apaixonaram pela saga do bruxinho nunca mais lerão nada na vida, também é certo de que ler não é a tarefa mais fácil do mundo. Em um universo com dezenas de estímulos audiovisuais por todos os lados, retirar-se para um canto para ler será considerado cada vez mais um hábito excêntrico. A leitura, além de não permitir a passividade da televisão, exige o cultivo da solidão e do silêncio. Ler, portanto, não é natural, nem fácil ou passivo. A leitura não pode ser feita com o cérebro desligado, em um jantar com os amigos, e aprender a ler se assemelha a um exercício, que precisa ser repetido até tornar-se um hábito.

Apesar da nova ficção fantástica nacional não me interessar em particular, sinto que ela tem uma função essencial no sistema literário. Se ela formará novos leitores, se formará novos interessados por prosa nacional, isso o tempo dirá. Uma coisa é certa: mal não faz. Talvez tenha chegado a hora de celebrar este momento no qual finalmente o Brasil pode se dar ao luxo de ter uma Literatura… não “menor”, nem “despretensiosa”. Digamos “diferente”. Se damos espaço para o diferente, temos, como consequência, um sistema variado, plural, repleto de nichos. Quer coisa melhor que isso?
>> SUPLEMENTO PERNAMBUCO – por Antônio Xerxenesky


LITERATURA BRASILEIRA E O COMPLEXO DE VIRA-LATA

segunda-feira | 23 | maio | 2011

Num artigo do escritor gaúcho Antonio Xerxenesky, encontro esta citação – que não conhecia – retirada de uma entrevista do chileno Roberto Bolaño, um dos grandes renovadores da prosa de ficção nos últimos vinte anos, morto em 2003. Bolaño esboçou uma instigante tese de fumaças marxistas sobre a quase total ausência de uma ficção de gênero no cenário da literatura latino-americana: o subdesenvolvimento não deixa. O que ele diz sobre o fantástico pode ser transposto sem dificuldade para a ficção científica, o policial, o terror e qualquer dessas províncias onde moram as obras “menores” que, embora passem nos últimos anos por uma efervescência inédita no Brasil, a chamada grande crítica costuma desprezar:

Escritores que cultivaram o gênero fantástico, no sentido mais restrito do termo, temos muito poucos, para não dizer nenhum, entre outras coisas porque o subdesenvolvimento não permite a literatura de gênero. O subdesenvolvimento só permite a obra maior. A obra menor é, na paisagem monótona ou apocalíptica, um luxo inalcançável. Claro, isso não significa que nossa literatura esteja repleta de obras maiores, muito pelo contrário, mas sim que o impulso inicial só permite essas expectativas, que logo a mesma realidade que as propiciou se encarrega de frustrar de diferentes modos.

Parece um paradoxo e talvez seja mesmo, mas, se for, é um paradoxo que nos constitui culturalmente e que pode ser identificado em campos variados. O campo de futebol, por exemplo. O subdesenvolvimento cultural levou a crônica esportiva brasileira a cultivar, entre os anos 40 e o fim dos 50 do século passado, aquilo que Nelson Rodrigues chamou de “complexo de vira-lata”. Cobrava-se da seleção brasileira que fosse simplesmente a melhor do mundo, que humilhasse todas aquelas potências diante das quais nos sentíamos naturalmente humilhados. Como a seleção (até a Copa da Suécia, em 1958) mostrava-se incapaz de fazer isso, tínhamos a cada fracasso uma desilusão devastadora que parecia provar essa dura verdade: pobres, feios, analfabetos, desdentados, com a barriga cheia de vermes, nunca prestaríamos para nada.

Agora peço ao leitor que tenha alguma paciência e, pondo de lado o fato de Lula ter dilapidado a credibilidade das metáforas futebolísticas pelos próximos cinquenta anos, pense no modo como nosso ambiente literário – e não só a crítica acadêmica, embora ela se esmere nesse aspecto – tende a valorizar quase exclusivamente o Grande Livro, isto é, aquele que pode aspirar ao título mundial. E, como não o encontra, decreta à boca pequena ou ao megafone, dependendo do estilo de cada um, que não prestamos mesmo para nada. Isso faz um tremendo sentido bipolar: quem não se garante considera um fracasso vexaminoso tudo o que não seja a redenção incontestável.

Ampliando um pouco a tese de Bolaño – que é também a de Xerxenesky, autor de um livro pop, “Areia nos dentes”, que ousa enfiar zumbis num projeto literário mais ambicioso – eu arrisco dizer que essa mentalidade de vira-lata, ou de adolescente inseguro, não cria um ambiente hostil apenas para a literatura de gênero. A maior parte do campo da dita literatura séria também sofre, pois dominar a velha arte narrativa, ainda que com sofisticação, ainda que propondo novidades sutis de tema ou arquitetura, nunca bastará. Quem precisa de bons artesãos, de bons jogadores? Só o gênio interessa. Daí a presença ridiculamente inflada de ideias como ruptura e revolução na conversa literária. É preciso romper com tudo, isto é, reinventar o jogo, humilhar os adversários. É preciso que um neguinho de 17 anos faça gol dando lençol dentro da área na final.

Claro que, na vida real, quanto mais desprezamos as divisões de base, os torneios de várzea, os clássicos regionais, mais difícil se torna o surgimento de um Pelé. Como diz Bolaño, a mesma realidade que inspira a expectativa elevadíssima se encarrega de frustrá-la. Não admira que os leitores andem escassos nas arquibancadas.
>> VEJA – por Sérgio Rodrigues


O QUE É MAINSTREAM?

domingo | 22 | maio | 2011

O conceito de “mainstream” literário é tipicamente um conceito da mentalidade norte-americana. O primeiro indício disto é que até hoje não temos um termo brasileiro que o exprima. Há quem use “corrente principal” (que parece jargão de engenharia elétrica), “tronco literário” (idem da engenharia florestal). Eu uso geralmente um circunlóquio como “a literatura propriamente dita”, que me parece horrivelmente vago. “Mainstream” é usado em inglês para exprimir um modo como os norte-americanos visualizam a literatura: um enorme rio que tem uma correnteza principal, como o Nilo, e que como o Nilo se subdivide eventualmente num delta de correntezas menores, que seriam os gêneros (policial, terror, amor, faroeste, etc.), as quais, contudo só existem porque são um mero desvio de uma parte das águas dessa correnteza maior, que é o rio propriamente dito.

Quando os norte-americanos falam “mainstream” eles estão querendo dizer algo como: “o moderno romance realista urbano, que descreve a vida de tipos humanos reconhecíveis em ambientes humanos reconhecíveis, e que nos faz revelações sobre a estrutura sócio-histórica-econômica do ambiente, e sobre o perfil psicológico dos personagens”. Este é o modelo literário dominante no mundo ocidental, desde a crítica literária da imprensa e dos jornais aos estudos universitários. O fato de corresponder a uma fatia muito estreita da produção literária não tem importância. A “corrente principal” não é principal por causa da quantidade, mas por causa do seu mero poder de se impor como modelo. Esse tipo de livro tem credibilidade e poder político, um poder meramente espiritual, mas nem por isto menos poderoso. Tem a maioria dos críticos, dos professores e dos acadêmicos ao seu lado. E é um modelo que vem sendo aperfeiçoado há pelo menos duzentos anos.

No Brasil, esse mainstream se divide no realismo social-histórico e no realismo psicológico. Quando um autor pertencente a uma destas tendências começa a exagerar certos traços, começa a se desprender do mainstream. Rubem Fonseca, por exemplo, volta e meia parece estar sendo empurrado para o gueto da literatura policial, mas sempre retorna à corrente principal. (Entre outras coisas, porque a crítica não quer abrir mão dele.) Como o brasileiro culto tem obsessão por História, o romance histórico é entre nós parte do mainstream, e não da literatura de gênero.

Quando é que um conjunto de textos sai do mainstream e constitui um gênero? Eu diria que é quando ele cria um público próprio, um mercado próprio, um sistema de feedback (críticas, resenhas, publicações) próprio e passa a não precisar do sistema do mainstream. Ocorreu isso com a ficção científica dos EUA, e é irônico que ela, depois de se tornar independente do sistema maior, sofra hoje a nostalgia de não ser aceita por ele. Isso se dá provavelmente porque o mercado (apesar de imenso, comparado ao brasileiro) é pequeno, comparado ao mercado mainstream norte-americano.
>> MUNDO FANTASMO – por Bráulio Tavares


ASSEMBLEIA ESTELAR”, MARCELLO SIMÃO BRANCO

segunda-feira | 16 | maio | 2011

Pode ser que eu esteja enganado, mas tenho a impressão de que já houve época em que os contos de ficção científica eram mais presentes no Brasil. Claro, já tivemos algumas revistas dedicadas ao gênero, o que facilitava as coisas, mas os livros com contos também eram mais numerosos.

E é bom que se diga que alguns dos melhores momentos da ficção científica estão nos contos, sem desmerecer os imensos volumes que vêm sendo produzidos ultimamente, às vezes em trilogias, quadrilogias e outras “gias” – alguns com histórias realmente espetaculares.
Hoje, uma das editoras que tem se dedicado à publicação dos contos do gênero é a Devir, que apresenta agora esteAssembleia Estelar, que comprova que tamanho não é documento, fazendo uma coletânea excelente do que foi chamado pelo editor de “histórias de ficção científica política”, com autores brasileiros e estrangeiros.

E o livro já inicia muito bem, com uma introdução de 26 páginas, “Afinidades Eletivas Entre Ficção Científica e Política”, escrita pelo editor Marcello Simão Branco, que por si só já valeria o livro. Ele não só apresenta algumas definições e características da política, como estabelece a relação entre ela e a literatura de ficção científica. Além disso, elabora um painel histórico das obras que circulam direta ou indiretamente pelo subgênero “fc + política”, o que mostra, entre outras coisas, a abrangência do gênero e a facilidade com que transita pelos mais variados temas.

E variadas também são as abordagens fornecidas nos contos do livro, o primeiro deles, “A Queda de Roma, Antes da Telenovela”, escrito pelo português Luís Filipe Silva, já conhecido dos fãs de fc no Brasil, em particular pelos excelentes Galxmente e Terrarium (escrito com João Manuel Barreiros). Aqui, ele imaginou um futuro com um sistema de votação que se aproximasse da perfeição, exatamente por dispensar tanto os políticos quanto seus discursos vazios, centrando-se em resoluções baseadas na lógica e na real necessidade da nação e seus habitantes.

O segundo conto é “Anauê”, do brasileiro Roberval Barcellos. Para quem ainda não sabe, “anauê” era a antiga saudação dos integralistas brasileiros. Barcellos segue um tipo de história do gênero que se tornou bastante comum entre os escritores nacionais. Imagina que, em determinado momento da história, certos acontecimentos levaram-nos em outra direção. No caso, os integralistas de Plínio Salgado derrubaram o governo de Getúlio Vargas, estabelecendo uma aliança com os nazistas, que venceram a Segunda Guerra Mundial. A partir daí, o autor desenvolve o que teria sido a sociedade brasileira do futuro nos anos 1980.

Também está presente na coletânea André Carneiro, um dos mais importantes escritores do gênero no Brasil, com o conto “Gabinete Blindado”, que remete aos anos da ditadura militar no País, contado por uma personagem em forma de memórias resgatadas, entremeadas a dúvidas e lembranças emotivas.

Roberto de Sousa Causo apresenta o conto “Triunfo de Campanha”. Causo é um dos nomes mais importantes do cenário da fc nacional, e costuma utilizar muito bem o ambiente militar para compor suas histórias, e aqui não é diferente. O conto faz parte de uma série de aventuras com o personagem Jonas Peregrino, numa galáxia cada vez mais povoada e colonizada por humanos. A história não traz qualquer ação militar propriamente dita, mas o envolvimento de militares nas tentativas de políticos em dominarem o ambiente, após o aparente e inexplicável término de uma guerra contra uma raça alienígena. A história trabalha muito bem com a forma pela qual os políticos utilizam figuras públicas, famosas, para atingir seus objetivos.

“Diário do Cerco de Nova York” foi escrito por outro dos excelentes escritores brasileiros do gênero, Daniel Fresnot, autor do sensacional livro A Terceira Expedição (1987). Cenário e narrativas excelentes que, apesar de se situar em Nova York, poderia perfeitamente ser aplicado para qualquer grande cidade do Brasil, nas quais alguns dos mesmos problemas se verificam. O centro do conto é, na verdade, a estupides humana e a facilidade com que políticos tomam decisões que afetam profundamente a vida de milhões de pessoas, sem sequer pestanejar. No caso, um prefeito de Nova York, insatisfeito com os pesados impostos que a cidade tem de pagar ao governo federal – tal como ocorre no Brasil – decide revoltar-se. Com o apoio da população, a revolta resulta num confronto armado com tropas federais.

“Saara Gardens”, de Ataíde Tartari, apresenta um mundo globalizado no qual os interesses econômicos das grandes corporações continuam tendo mais importância, utilizando-se dos políticos como ferramentas para obter o que desejam. No caso, é a transformação do deserto do Saara num verdadeiro jardim, abrindo caminho para uma especulação imobiliária como jamais se viu. Existem referências bem claras ao nosso famoso “jeitinho” de se fazer as coisas, com favorecimentos e negociatas envolvendo empreiteiras.

O conto de Miguel Carqueija – outro dos grandes nomes da fc nacional, surgido na chamada “segunda onda” do gênero no Brasil – apareceu originalmente no famoso fanzine Somnium, no final do anos 1980, compondo um cenário possível para o País no início do século 21, com, bastante ironia. Nesse futuro imaginado, tornou-se comum o assassinato de figuras políticas, com a população cansada de esperar que os políticos resolvessem os problemas da nação como deveriam, sem se envolver em escândalos atrás de escândalos.

Fernando Bonassi talvez seja mais conhecido como o autor dos roteiros dos filmes Lula, o Filho do Brasil e Carandiru, entre outros, mas também tem participação ativa no gênero. Aqui ele apresenta “A Evolução dos Homens Sem Pernas”, publicado originalmente numa antologia francesa, em 2009. Trabalha, com muita ironia e sarcasmo, com a possibilidade de mutações ocorrerem nos humanos a partir da evolução de algumas tecnologias, utilizadas sem qualquer controle. Interessante, também, que o conto é narrado no passado, dando um certo tom de conto de fadas.

Em “A Pedra que Canta”, vemos novamente Henrique Flory, que surgiu na fc nacional nos final dos anos 1980, com obras sensacionais que chamaram a atenção da crítica, antes de interromper sua produção do gênero e se dedicar a outras atividades profissionais. O conto foi publicado originalmente numa coletânea com o mesmo titulo, em 1991, e aqui ele traz uma nova versão da história de um conflito que se intensifica entre Brasil e Argentina, no ano de 2018. É uma boa oportunidade para quem ainda não conhece a obra do autor.

A excepcional escritora Ursula K. Le Guin tem publicado seu conto “O Dia Antes da Revolução”, escrito com sua capacidade habitual, mas que deverá ser melhor entendido por aqueles que conhecem seu livro Os Despossuídos (1974), uma vez que traz personagens e eventos que antecederam a história narrada na obra, que apresenta uma sociedade anarquista “quase” perfeita. O conto segue as lembranças íntimas de Laia Odo, a principal líder da revolução anarquista que mobiliza o planeta Urrás, momentos antes da rebelião se alastrar.

“O Grande Rio”, de Flávio Medeiros Jr., é uma excelente história de viagens no tempo, com ação iniciando-se num momento futuro de uma Terra alternativa, na qual o presidente John F. Kennedy não foi assassinado. Isso provocou uma alteração significativa no planeta, e para pior, de modo que um viajante tenta reverter a situação viajando no passado, mas encontrando inúmeras dificuldades.

Já bem conhecido do público de fc no Brasil, Orson Scott Card tem o conto “O Originista”, que tem como atração principal o fato de se situar no universo da série Fundação, de Isaac Asimov. Originalmente, foi publicado na antologia Foundation’s Friends (1989), no qual vários escritores elaboraram histórias baseadas no universo criado por Asimov. Até mesmo Hari Seldon está presente no conto, que centra-se no cientista Leyel Forska e sua esposa Deet, também cientista, e o envolvimento de ambos na construção da Segunda Fundação, detalhando as intrigas políticas existentes no gigantesco planeta Trantor, o centro do Império. É o conto mais longo do livro, e uma delícia; dá vontade de ler Fundação novamente.

“Questão de Sobrevivência” é de um dos autores mais atuantes e respeitados da fc nacional, Carlos Orsi. O conto foi publicado originalmente na revista Sci Fi News Contos, em 2001. Imagina a cidade de São Paulo no ano 2030, com uma crise social sem precedentes, que levou o centro da cidade a se transformar num acampamento de desfavorecidos, sofrendo com as consequências de um ataque anterior. Uma doença impede o aleitamento materno e crianças nascem com deformidades, mas uma empresa desenvolveu uma forma de “limpar” o leite, que revende a preços exorbitantes, mas apenas para os “favorecidos”. É um cenário terrível e desenvolvido com imensa competência.

Fechando o livro, o conto “Vemos as Coisas de Modo Diferente”, de Bruce Sterling, uma das figurinhas carimbadas da fc a partir dos anos 1980, sempre associado ao desenvolvimento do subgênero cyberpunk, ao lado de William Gibson. Aqui, ele compôs um cenário futuro em que o mundo islâmico se expandiu, e os EUA se tornaram um país com imensos problemas econômicos. E o contraste entre as sociedades é apresentado na narrativa de uma visita de um jornalista árabe aos EUA, onde pretende entrevistar um famoso cantor de rock, que também é um político em ascensão.

Trata-se de uma obra interessante, sempre instigante, e uma boa oportunidade; para aqueles que ainda não têm muita afinidade com a produção nacional de ficção científica, de conhecer alguns dos principais autores; para os que já conhecem, confirmar a altíssima qualidade da produção literária brasileira de ficção científica.
>> VIMANA – por Gilberto Schoereder