FICÇÃO CIENTÍFICA: O GÊNERO QUE AMEDRONTA ESCRITORES

domingo | 31 | janeiro | 2010

Muitos autores “mainstream” escrevem livros de FC mas não querem ser apelidados como escritores do género: fogem da FC como o Diabo da cruz.

A atribuição do Nobel da Literatura 2007 a Doris Lessing foi considerada uma vitória para a FC. Entre 1979 e 1983, Lessing publicou a série “Canopus em Argos”, constituída por cinco romances de FC (editados entre nós pela Europa-América). Ao contrário de outros autores, nunca teve problemas em admitir que escrevia FC e chegou a considerar os livros da série os mais importantes na sua carreira.

O crítico americano Harold Bloom considerou, na altura, a atribuição do Nobel a Lessing “pura correcção política” da Academia Sueca. “Apesar de Doris Lessing ter demonstrado qualidades literárias admiráveis no início da sua carreira, as obras que escreveu nos últimos 15 anos são livros de FC de quarta categoria”, disse à “Associated Press”.

Lessing é um caso raro de uma escritora conhecida que nunca teve medo de assumir que escrevia e gostava de FC. O mesmo não acontece com Margaret Atwood. A autora de “Órix e Crex -O Último Homem” (ed. Asa) classifi ca os seus livros como “ficção especulativa” ou “romance de aventura”, mas nunca como FC.

“Atwood acha que existe uma certa abjecção a pairar sobre o título de FC. Pode ser considerado uma traição, mas consigo entendê-la perfeitamente”, disse o escritor de FC Brian Aldiss ao “Times Online”.

Em 1975, Kingsley Amis, Arthur C. Clarke e Brian Aldiss preparavamse para atribuir o prémio de melhor romance de FC do ano a Salman Rushdie, pelo seu primeiro livro “Grimus”, quando no último minuto os editores resolveram retirar a obra do concurso. “Se Salman Rushdie tivesse ganho o prémio seria classifi cado como escritor de FC e nunca mais ninguém voltaria a ouvir falar dele”, explicou na altura Brian Aldiss.

Nas livrarias, não se encontra o “1984”, de George Orwell, ou “O Admirável Mundo Novo”, de Aldous Huxley, ao lado de obras de Philip K. Dick ou Arthur C. Clarke, apesar de todos pertencerem ao mesmo género. O livro de Orwell é, na edição da Antígona, caracterizado como “sátira”. “O estigma de apelidar um livro de FC de um autor consagrado é tão grande, que a maior parte dos críticos chega mesmo a utilizar palavras como ‘parábola’ ou ‘fábula'”, escreve Michael Chabon, crítico do “The New York Review of Books”, numa recensão a “A Estrada” de Cormac McCarthy -apontado por alguns críticos como um romance de FC. “Nos últimos anos, muitos escritores ‘mainstream’ têm escrito FC, embora não sejam classifi cados como autores do género”, diz ao Ípsilon Felicity Mellor, professora no Imperial College, em Londres, autora de textos publicados nas revistas “Social Studies of Science” e “Public Understanding of Science.” “Os editores sabem que ao classificarem um livro de FC vão limitar a sua audiência”, acrescenta. Existem cada vez mais livros que misturam FC e outros géneros.

A trilogia “Noughts and Crosses”, de Malorie Blackman, “Crónica do Pássaro de Corda” de Haruki Murakami ou “Nunca Me Deixes” de Kazuo Ishiguro são alguns que têm FC, para além de outros géneros. “Isto não quer dizer que os géneros literários tenham deixado de existir e de ser explorados nas suas especificidades. Eles, inclusive, ainda norteiam toda a lógica taxonómica do mercado editorial, os estudos académicos e as normas dos concursos literários” acrescenta ao Ípsilon a escritora brasileira Maria Esther Maciel, que lecionou a cadeira “Seminários sobre Literatura Brasileira e outras literaturas: escritas híbridas na literatura contemporânea”, em 2006, na Faculdade de Letras da Universidade Federal de Minas Gerais, Brasil
>> ÍPSILON – por Eduarda Sousa

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ARGENTINA FANTÁSTICA: O PERDIDO REINO DE TRAPALANDA

domingo | 31 | janeiro | 2010

A região da Patagônia, no sul da Argentina, foi vista no passado como que acolhendo um lugar maravilhoso: o Reino da Trapalanda. Era uma espécie de El Dorado tão procurado pelos conquistadores espanhóis. Uma terra fantasticamente rica, onde todas as construções das cidades, ruas e casas, eram feitas de ouro maciço e puríssima prata. Segundo Ezequiel Martinez Estrada, um dos maiores ensaístas da língua espanhola, este mito especioso de existir uma pátria cheia de tesouros ocultos, a espera de quem os encontrasse, nunca teria sido esquecido pelos seus conterrâneos argentinos.

“ O ilusório superou o verdadeiro.
A verdade, a terra ilimitada e vazia, a solidão, sobre isso ninguém adverte.”

E.M.Estrada – Radiografia de la Pampa, 1933

As Cidades dos Césares
Conforme o conquistador Garcia Furtado de Mendonça e seus homens alcançavam as regiões mais meridionais do continente sul-americano, cresciam, intensos, os rumores da existência de um grande e riquíssimo império logo mais abaixo. Instalados no Chile, por volta de 1570, os murmúrios entre os espanhóis foram tão mais fortes que o adelantado, o governador, não teve outro remédio senão mandar um dos seus ir investigar aquela boataria. A soldadesca, aquela altura, falava abertamente no misterioso Reino de Trapalanda, lugar fabuloso, mágico, “onde as cidades tinhas as ruas pavimentadas com lingotes de ouro e as portas das casa eram de prata”. Cidades dos Césares encravadas entre os Andes e a planície.

Região de monstros
O relato dessa aventura, escrito pelo capitão Arias Pardo Maldonado, tornou-se , segundo Luis Sepulveda, o primeiro registro da literatura fantástica em língua castelhana que se conhece. Maldonado descreveu os habitantes de Trapalanda como figuras monstruosas, gigantes de pés enormes, que não precisavam de vestimenta nem de cobertores pois envolviam-se em suas próprias orelhas para dormir. Pior ainda era o cheiro que exalavam. Tal a pestilência que nenhum deles se aproximava do outro, formando uma estranha raça que não se acoplava nem tinha descendência. Nunca se soube a razão desse registro maluco deixado pelo capitão Maldonado. Alguns o imaginam com a intenção de espantar daquelas possíveis maravilhas, a cobiça dos bandos de aventureiros e desertores. Não passava de uma contrapropaganda.

Radiografia do pampa
Para Ezequiel Martínez Estrada, o soberbo ensaísta da Radiografia do Pampa( Buenos Aires, 1933), tais relatos tenebrosos, novelas do pútrido, não alteraram em nada as alucinações de opulência e esplendor que sempre excitaram a imaginação dos imigrantes que vieram para o Novo Mundo. Entre eles o fracassado pai de Ezequiel, um homem de Navarra, Espanha, que se desencantou na Argentina. Cada um que embarcava da Ibéria para as terras austrais vinha atrás da quimérica Trapalanda, sempre esperançosos em poder encontrar as barras douradas acumuladas em algum lugar inaudito, que ninguém vira antes , as quais bastaria por na algibeira e galopar de volta a um porto.

TRAPALANDA NÃO EXISTIA

O gaúcho argentino (Carlos Ferreyra)A decepção porém, chegava de chofre. Por vezes, já no desembarque, em Buenos Aires mesmo. Ao entrarem Pampa adentro, piorava. Espaço vazio, sem vivalma, deparavam-se, além da solidão absoluta, com “ um cansaço cósmico que caia dos céus com todo o seu peso”. Não havia nada no horizonte. Nunca se via onde acabava a terra e começava o céu. O pampa era o pampa. Os olhos, esbugalhados perante aquele mundo sem-fim, logo se desiludiam. Os filhos deles herdavam o malogro. Eram donos do nada, pois nunca ninguém encontrara a propalada Trapalanda. Concentraram-se então em Buenos Aires, que assim virou um enorme depósito de fracassos e frustrações dos que vieram antes e também dos recém chegados. Tornou-se, a capital portenha, um “polipero monstruoso”, como Martinez Estrada preferiu dizer.

A solidão e a imitação
A república argentina, para ele, nada mais era do que “ uma grande cidade de 3 milhões de quilômetros quadrados, com alguns terrenos baldios no seu centro e com dez quarteirões cercados por deserto”. Buenos Aires, então – sublimando as desditas e tentando superar a imensa solidão em que seus habitantes se encontram no perdido mundo americano – , imitou Paris, repetindo-lhe o traçado urbano, as avenidas largas, o obelisco, e o gosto pelos cafés. Importou os costumes da Europa: a ópera, a psicanálise, e até o tango, cujos primeiros acordes ouviram-se no bairro dos gringos: la Boca. Até um poeta cego, Jorge Luís Borges, fez-lhes as vezes de um Homero, enquanto Victoria Ocampo com sua Revista Sur apresentava-lhes a intelectualidade européia em primeira mão. Martinez Estrada apelidou-a de “ a cabeça de Golias”.

A civilização, a felicidade, enfim, veio-lhes de fora. Essa estrutura externa, a “ amplitude, as aparências de vida heróica e rápida…de cidade cosmopolita e rica, de grande destino” não lhe extirpou , entretanto, a alma de vilarejo bárbaro, onde a brutalidade da região se acoitara e que, por vezes, irrompia, fazendo os seus moradores regredirem à cenas de espantoso canibalismo político, como tantas vezes se viu: de Juan Domingo Perón a Jorge Rafael Videla.

A fantasia persiste
Não lhes abandonou também, mesmo quatro século depois, a delirante fantasia de estarem bem perto do Reino da Trapalanda, vizinhos da terra do ouro e do mel, escondida em algum lugar da Patagônia, o que levava os argentinos ao comportamento perdulário, a gastar tudo o que tinham e o que não tinham, porque um dia, tinham certeza disso, todos tropeçariam no baú da sorte, e o tampão do almejado tesouro, escancarado, infalivelmente se abriria para todos.

Síntese da radiografia do pampa
Numa entrevista, dada bem antes da sua morte, ocorrida em 1964, Ezequiel Martinez Estrada resolveu ,ele mesmo, fazer uma síntese das reflexões contidas no seu Radiografia de la Pampa. Começou por ressaltar o papel ilusório que o Reino de Trapalanda exerceu na imaginação dos conquistadores – e naqueles que imigraram depois para a Argentina – , denunciando a abismal desilusão que sofreram ao entrarem em contanto com a realidade. Utopia, diga-se, alimentada e difundida por Domingo Sarmiento, o grande intelectual e estadista argentino do século XIX, teimosos engenheiro construtor de pontes sobre a realidade, que insistia em pôr fraque e cartola nos gaúchos.

Ao invés de acharem tesouros ao rés do chão, os recém vindos deram com uma terra agreste, a qual era preciso lavrar e semear, regando-a com suor e sangue. O choque com esta situação inesperada, conduziu-os para poderem superar a frustração a que concebessem uma espécie de pseudotrapanlanda, fazendo com que o argentino cismasse em querer o que não tem, querendo-o como algum dia quisera ter.

SÓ NUM MUNDO SOLITÁRIO

A solidão do pampa ( tela ‘os peões’ de Carina L. Winschel)O povoador do pampa encontrou-se só num mundo solitário. A mãe dos filhos dele é de outro sangue ( uma índia do pampa). O enorme oceano que o separa da Europa fez com que o continente se assemelhasse a uma ilha, na qual ele se viu desamparado. Porém, ele não se sentia um Robinson, modesto e morigerado, vivendo numa choupana, com um Sexta-feira nativo ao seu lado. Ao contrário, viu-se como um grande senhor em momentânea pobreza. Como Prospero, o personagem de A Tempestade de Shakespeare, passou a supor fazer maravilhas na ilha conquistada. Ao contrário do que os ingleses fizeram na América do Norte, que ergueram uma pátria onde viver e morrer, o recém chegado ao pampa vive chorando a pátria perdida, a Jerusalém da qual ele foi obrigado a desterrar-se. Vive num exílio desconfortável, psicologicamente insatisfeito na terra que lhe deu abrigo.

A erosão do homem e o papel de B.Aires
Neste cenário entram em ação as forças telúricas, as energias primitivas , elementares, que trabalhando com a água, a terra e o vento, dão para destruir suas construções precárias feitas de adobe e couro que eles levantaram como abrigo no meio daquele nada. A terra corrige os erros dos homens, erodindo tudo aquilo que constróem. É então que surge Buenos Aires como a chave do entendimento da obra. A grande cidade, que Lugones disse ser banhada por um rio cor de leão, nada mais é do que a Espanha , “ nossa inimiga em casa” , disse dela Martinez Estrada. Ela absorve, devora, dilapida e corrompe. É um foco de infeção. Ela explora o interior, a nação , o povo, a quem esfola sem piedade. O resto do país é a sua colônia que ela mantém submetida e embrutecida para evitar que, como no passado, indomáveis caudilhos como Facundo Quiroga ou Chacho Peñalosa , a ameaçassem com suas cavalgadas de guerra e seus rastros de desordem.

O natural e o artificial
Há, portanto, na formação argentina, uma duplicidade insuperável entre a capital ( sede das instituições e costumes artificiais importados da Europa, cidade cosmopolita permanente representante de interesses coloniais, requentados e reatualizados, desde a independência, pela plutocracia portenha) , e o interior (nativista e autentico, sempre exposto às extorsões de Buenos Aires).

O resultado disso, desta latente tensão entre o falso e o natural, entre a grande metrópole e os territórios vizinhos (a quem ela vê como a morada dos brutos, dos selvagens a serem amansados), é o medo: o trauma inibitório da vida nacional. Portanto, a vida política esta impregnada por esse temor crônico que tudo invade e que se manifesta em reações irracionais. O que os argentinos entendem como sendo suas estruturas, não passam de edifícios sem pilotis, prédios flutuando sobre uma superfície de ilusões. Um labirinto de enganos, obrigando a todos, angustiados, a tentarem buscar estacas firmes que os mantenham presos ao continente para sempre.

O CONVÍVIO DOS EXTREMO

A tese dele, retrabalhando a dualidade “Civilização ou Barbárie”, exposta por Sarmiento no seu clássico ensaio Facundo (1845), é de que a civilização , no Prata, apesar de todo adamascado de Buenos Aires, com seus ares de grande urbe européia, não superara ou eliminara a barbárie. Convivia com ela, pois, as imperecíveis forças telúricas, selváticas, carnívoras, que muitos imaginavam esquecidas, retornavam a todo o momento como espectros, reaparecendo como a realidade profunda do país. Assim, a Argentina vive num cabo-de-guerra, onde está muito longe de decidir-se para que lado da ponta da corda ela irá pender definitivamente: se para o lado da civilização ou da temível barbárie.

Bibliografia
ESTRADA, Ezequiel Martínez – Radiografia de la pampa ( Colección Archivos-Unesco, B.Aires, 1991)
SARMIENTO, Domingo F. – Facundo: civilização e barbárie no pampa argentino ( Editora da Universidade RS-Edipucrs, P.Alegre, 1996)

>> TERRA – por Voltaire Schilling


O NOSFERATU DE HERZOG

sexta-feira | 29 | janeiro | 2010

Werner Herzog é o melhor diretor alemão da sua geração, que inclui Fassbinder, Wim Wenders e outros pesos-pesados.  Acho Herzog o mais interessante, pela variedade e pelo inesperado dos seus temas, pelo tom alucinatório de muitas das suas narrativas, pelo seu flerte permanente com o fantástico, pelas experiências radicais em que mergulha a si mesmo e sua equipe para realizar um filme.  Pode ser que tudo isso não sejam virtudes propriamente cinematográficas, mas Herzog é um diretor capaz de fazer milagres com uma câmara, meia dúzia de atores e uma trilha sonora.  A prova disso é este filme, um dos melhores filmes de terror de todos os tempos. 

Nos comentários à versão em DVD, Herzog afirma que todo mundo precisa de uma tradição, de uma ligação com o cinema do passado, e que a época hitlerista deixou muito pouco cinema para a geração que se seguiu.  Tiveram que remontar ao tempo do Expressionismo (décadas de 20-30), e, para ele, o melhor filme daquele tempo foi o “Nosferatu” de F. W. Murnau (1922), inspirado no romance “Drácula”, de Bram Stoker.  Daí a idéia de fazer uma nova versão em 1979, versão que ele afirma não se tratar de uma refilmagem.  De fato, trata-se do reaproveitamento de parte do mesmo material (o tema, o enredo básico, alguns personagens) para dar uma interpretação totalmente diversa.

Murnau foi um dos reis do claro-escuro na época do cinema em preto-e-branco; Herzog responde a suas imagens magníficas com um filme a cores em que as luzes e sombras são trabalhadas junto com contrastes de cores, numa fotografia memorável.  A trilha sonora, feita por Popol Vuh, é impressionante (e o áudio é um dos principais elementos narrativos do filme). 

Herzog rejeita as versões de Stoker e de Murnau.  Em Stoker, há a vitória final da ciência, do cavalheirismo masculino, dos valores vitorianos.  Em Murnau, a vitória do altruísmo feminino, do amor que leva ao auto-sacrifício, mas com final feliz (Drácula morre, Harker e a esposa acabam juntos).  Herzog descreve um mundo onde o Mal prevalece porque já está no interior das pessoas.  É Harker quem traz Drácula para destruir sua cidade.  Todo seu trajeto para a Transilvânia é um trajeto para o interior de si mesmo, para atender ao chamado do Drácula que quer emergir.  Drácula é seu retrato de Dorian Gray.

Como num conto de A. E. Van Vogt, em que a mente de um astronauta em hibernação permanece acordada durante séculos, Drácula é alguma coisa que está acordada e imóvel há séculos, ou milênios, na mente de Harker, pedindo para despertar.  É um conjunto de desejos insatisfeitos que giram perpetuamente num círculo vicioso, porque no momento em que encontram satisfação querem repeti-la, sem se darem nunca por saciados.  São como o cavalo do Barão de Munchausen, que bebia água sem parar porque fôra cortado ao meio e o estômago estava aberto.  Drácula é um sorvedouro de energia, vital mas destrutiva, que Harker reprimiu a vida toda e libertou toda de uma vez.
>> MUNDO FANTASMO – por Braulio Tavares

Assita à abertura do filme de Herzog


“RETORNO AO BIG-BANG MICROCÓSMICO”: FAGULHA CÓSMICA

sexta-feira | 29 | janeiro | 2010

O escritor paulistano Denis Moura de Lima lança seu romance de estreia, a ficção científica “Retorno ao Big-Bang Microcósmico”

Só a duras penas, a ficção científica conseguiu se estabelecer como gênero literário respeitável, como objeto de estudos literários que não depreciarão o estudioso. Claro que a mudança não se deu tal o milagre que verteu água e vinho. Ainda resiste muito preconceito (no caso da literatura, o paradoxo da não-leitura). O Brasil, onde ainda persiste vícios de um beletrismo francês, decadente, do século XX, a situação é ainda pior.

No então não faltam resistentes. E recentemente, numa daquelas circunstâncias difíceis de explicar, foi deflagrado um boom de títulos de ficção científica, com repercussões em diversos Estados. O Ceará contribui agora como “Retorno ao Big-Bang Microcósmico” (BNB, 196 páginas
2010
, do paulistano radicado no Estado Denis Moura de Lima.

Com trânsito entre os escritores locais – mais notadamente nas férteis cenas da poesia e do conto -, Denis Moura não se intimidou diante da forma longa e complexa do romance. Formado em Telemática, ele prefere se concentrar no ofício de escritor do que no de cientista (afinal, quem precisa do verossímil em FC?).

Ilustrações de Pedro Uchoa para o livro “Retorno ao Big-Bang Microcósmico”, de Denis Moura de Lima

O clássico e o presente
A leitura do livro mostra que ele não poderia ter seguido outro caminho. Aqui não se trata de uma história estendida, mas de uma narrativa que necessita das bases que o gênero romanesco dá: a possibilidade de se aprofundar na psicologia dos personagens; de trabalhar como tempo em camadas, com presente, passado e futuro; e permitem que o estilo dê reviravoltas, conforme a história avança.

A obra de Denis Moura de Lima é daquelas que se encaixam na concepção de Ursula K. Le Guin da ficção científica. A escritora, autora de clássicos do gênero como “A mão esquerda da escuridão”, diz que a “ficção científica não prevê: descreve”. Em “Retorno ao Big-Bang Microcósmico”, a descrição fica por conta de uma concepção de democracia digital, que rege o mundo em que transitam seus personagens. Não é o caso de dizer onde chegaremos na vida “conectada”, mas de fazer uma caricatura do ponto em que nos encontramos.

Além do suposto exercício de futurologia, que muitos tomam como essencial da FC, há no livro de Denis Moura aquele tipo de especulação existencial que, de fato, é uma das marcas das melhores obras do gênero. Especulação que se dá na revisão de um dos temas clássicos da ficção científica: a viagem no tempo. A diferença é que o escritor deixa que esta viagem sempre traumática modele o texto. O Big-Bang do título pode ser lido como uma pista a respeito da forma escolhida para narrar a história. Diversos fragmentos, difícieis de ordenar ou hierarquizar, mas cuja leitura conferem uma ideia de todo, de jogo, como num quebra-cabeças.
>> CADERNO 3 – por Dellano Rios

Para ver os primeiros capítulos, acessem:
http://bigbangmicrocosmico.blogspot.com/

Assista ao booktrailer do livro:


“GHOSTFACERS”: VEJA A SÉRIE DERIVADA DE “SUPERNATURAL”

sexta-feira | 29 | janeiro | 2010

Ontem o jornal Variety divulgou a notícia de que a série “Supernatural” terá uma spinoff a ser produzida pela Warner e a Wonderland direto para a Internet no formato websérie. Sem ter ainda a confirmação de que “Supernatural” terá ou não uma 6ª temporada, o canal CW já prepara o terreno para uma possível substituição para quando a série tiver que sair do ar. Se a spinoff conquistar uma boa receptividade via Internet, é bem possível que consiga fazer a transição para a televisão.

A spinoff (série derivada de outra) será estrelada e escrita por A.J. Buckley e Travis Wester, os Ghostfacers que já apareceram em pelo menos 3 episódios de “Supernatural”. Os dois são autoproclamados investigadores profissionais das manifestações paranormais e apresentam seu próprio reality show, o “Ghost Ghostfacers”.

Na história da websérie, os dois investigarão ocorrências de paranormalidade, explorando a narrativa documental. Também no elenco estão Brittany Ishibashi, de “E-Ring”, e  Austin Basis, de “Life Unexpected”; sendo que no primeiro websódio a atriz convidada é Kelly Carlson, de “Nip/Tuck”. Serão produzidos 10 websódios de 3 minutos de duração os quais serão exibidos no site do CW e da WB, ainda sem data de estréia definida. Além da websérie, também serão disponibilizados na página oficial, imagens de bastidores, galeria de fotos e mais informações sobre a mitologia da série.

A série “Supernatural” já promoveu a publicação de 18 histórias em quadrinhos, com mais 6 à caminho, além de livros, revistas especializadas e convenções.
>> TV SÉRIES – por Fernada Furquim


FILME B JAPONÊS TEM HOMEM VESTIDO DE MULHER QUE BRIGA COM ESTUDANTES DA LIGA DAS TOTALMENTE NUAS

sexta-feira | 29 | janeiro | 2010

O que é o que é? É filme B protagonizado por um travesti, mas não é “Glen ou Glenda”, clássico trash do “pior cineasta do mundo” Ed Wood. Tem ficção científica, mas não é Jaspion ou Godzilla. Mistura humor com erotismo, mas não é pornochanchada. É filme japonês sobre gangues, mas não foi dirigido por Takeshi Kitano. A resposta é “Sukeban Boy”, filme B japonês inspirado em mangá com humor, erotismo e ficção científica.

O filme japonês de 2006 é daqueles trabalhos que fazem os neurônios do espectador passarem por verdadeiro exercício de contorcionismo. Não que ele tenha uma trama rocambolesca ou seja de difícil compreensão. Longe disso. Mas sua história é uma gigantesca mistura de gêneros que mereceria uma prateleira à parte na locadora.

A história, baseada em um mangá japonês criado por Go Nagai em 1974, é uma comédia com toques eróticos sobre um estudante, o Sukeban do título, que tem que se vestir de garota para poder estudar em um colégio só para meninas.

Na escola, ela – ops, quis dizer ele – convive com colegas pouco amistosas. O caro internauta já deve ter ouvido falar de gangues escolares ou de panelinhas, certo? Pois o protagonista também vai ter que lidar com uma turminha da pesada. O colégio conta com várias gangues como a Liga da Meia-Calça, a Liga das Sem-Sutiãs e a Liga das Totalmente Nuas

Os nomes são bem sugestivos e atiçam a imaginação de qualquer homem. O problema, no entanto, é que o protagonista não vai ter tempo de colocar a sua testosterona em ação. As gangues são barra pesada e estão prontas para uma boa pancadaria. Mas não se trata de socos e pontapés. As garotas das gangues têm algumas armas secretas bem esquisitas. Só para dar o gostinho do arsenal bizarro vale citar uma garota que tem seios de onde florescem botões de rosas (!) que disparam balas como se fossem pistolas (!!).

O cineasta Noboru Iguchi abusou da imaginação e criou brigas que misturam um tanto de gore (prepare-se para ver uma boa dose de sangue jorrando na tela) com leve toque de sadismo.

O trabalho de pouco mais de uma hora de duração sintetiza um certo tipo de ficção nonsense produzido no Japão. É o mesmo gênero que serviu de fonte de inspiração para Quentin Tarantino criar seus trabalhos, em especial, os dois “Kill Bill”. Dá até para traçar um paralelo entre a gangue de Lucy Liu com as estudantes de “Sukeban Boy”. Perdoem o trocadilho, mas, no quesito pancadaria, as duas gangues ficam pau a pau.
>> UOL Tabloide em São Paulo


É UM PÁSSARO? UM AVIÃO? NÃO, É O PRESIDENTE!

sexta-feira | 29 | janeiro | 2010
A política sempre foi uma grande inspiração para os humoristas. No caso dos chargistas, todos os Presidentes da República foram “vítimas” de lápis afiados em livros e jornais, sem desrespeito ou partidarismo. Mas e quando o principal dirigente do país acaba nas páginas dos quadrinhos? Essa situação está se tornando cada vez mais comum.

Nos EUA, a lista de presidentes coadjuvantes em HQs é imensa: Franklin Roosevelt, Ronald Reagan, Jimmy Carter, Bill Clinton e George Bush são alguns deles. Em 1964, John Kennedy aparece num gibi pedindo ajuda ao Superman para divulgar um programa nacional de prática de atividades físicas. Por sua vez, Richard Nixon é provavelmente o recordista de aparições, inclusive na minissérie Watchmen, como o presidente vitalício dos EUA.

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Bush em Ultimates 3

Obama e Sarkozy Na última eleição americana, um gibi com as
biografias de Barack Obama e John McCain foram vendidas aos borbotões. Havia uma versão simplificada de cada candidato e uma no formato “dois em um”. Em janeiro de 2009 a revista Amazing Spider-Man mostrou Obama cumprimentando o Homem-Aranha.“Foi algo natural depois que o novo presidente se declarou fã do personagem”, declarou Joe Quesada, editor-chefe da Marvel.LEIA A MATÉRIA COMPLETA

Obama na capa HQ homem aranha 2009

Na França, é normal as editoras lançarem álbuns durante as campanhas presidenciais, alegando que as vendas até o dia da eleição compensam o investimento. Um bom exemplo é La face karchée de Sarkozy (co-editado pela Fayard e a Vents d´Ouest). Resultado de uma detalhada reportagem do jornalista Philippe Cohen, com roteiro do advogado e cenarista de Richard Malka e desenhos de Riss, o livro biográfico de Nicolas Sarkozy vendeu mais de 200 mil exemplares. O sucesso foi tanto que inspirou o lançamento de outros dois álbuns de autores diferentes: Tout sur Sarko (Tudo Sobre Sarko) e Tout sur Ségo (Tudo Sobre Ségolene Royal, sua adversária política).

LULA EM QUADRINHOS

capa gibi Lula 2002 by Bira Dantas

Se hoje o presidente Lula é tema de filme, a tentativa de transpor sua vida para os quadrinhos aconteceu durante a corrida presidencial de 2002. Um movimento independente lançou o gibi Lula – A história de um vencedor com tiragem total de 580 mil exemplares. A revista contava a trajetória do “mocinho” Luiz Inácio Lula da Silva e apresentando seus então adversários José Serra e Ciro Gomes. Além do idealizador, o desenhista Bira Dantas, participaram do projeto o pesquisador Bargas, o arte-finalista Ricardo Cruzeiro e o cartunista Paulo Caruso, que escreveu a apresentação.

O financiamento para a tiragem inicial de 60 mil cópias veio de um fazendeiro de Ponta Grossa (PR). O lançamento aconteceu num jantar em Curitiba, com a presença do próprio Lula, que não esperava a surpresa.

– Ele não sabia de nada, só a Marisa, que acompanhou tudo, dando palpites nas caricaturas do marido – lembra Dantas.
– Quando o Lula viu a revista em cima do prato e começou a folhear, seus olhos encheram de lágrimas. Para a segunda edição ele só pediu uma mudança: que na cena dele no velório da primeira mulher, houvesse menos flores e que ele não aparecesse abraçando o caixão, que não aconteceu. Claro que atendi ao pedido pré-presidencial.

Membro do PT desde 1980, Dantas lembra que a revista fez sucesso entre os leitores, petistas ou não. Mas teve que passar por mudanças no segundo turno, quando Ciro passou a apoiar Lula.

– Sobre as mudanças, eu sempre fui muito categórico em aceitá-las. Mas quando fizemos a edição na Bahia eu disse: “Bargas, se você pedir para eu tirar o ACM ou Sarney, eu não tiro. Aí é questão de honra!” .

Para a eleição deste ano, Bira diz que aceitaria fazer um gibi com a biografia de Dilma Roussef. Mas e se algum quadrinista fizesse uma revista atacando o seu candidato? O artista acha saudável, desde que a discussão se dê no campo das idéias e propostas.
>> JORNAL DO BRASIL – por Pedro de Luna

Kennedy e Superman em 1964