POR QUE, AFINAL, A LITERATURA BRASILEIRA NÃO VENDE? E POR QUE VENDERIA?

quarta-feira | 16 | janeiro | 2013

Lit bras

1. Um problema de sintonia

“Eles não chegam lá”: o título da esclarecedora matéria de Marco Rodrigo Almeida na capa da Ilustrada(Folha da S. Paulo03/01/2013) sintetizaum dado revelador do velho problema da produção e do consumo literários brasileiros. Enquanto os livros de não-ficção mais vendidos no país são predominantemente brasileiros, os de ficção são estrangeiros: as ficções nacionais encalham. Por quê?

É relativamente fácil compreender o predomínio de autores nacionais na não-ficção: eles costumam tratar de temas nacionais (embora isto não seja necessário, ou necessariamente positivo, pois no limite denota provincianismo), de imediato interesse local. A biografia de um bilionário nativo desperta mais interesse, por exemplo, do que o debate sobre o controle (ou o descontrole) de armas nos EUA. Além disso, como afirma Pascoal Soto, diretor-geral da Leya,

Na não-ficção encontramos autores dispostos a atender à demanda do grande público. Eles abordam temas interessantes [principalmente no sentido acima comentado] e escrevem de forma acessível. Já os romancistas escrevem para os amigos, para ganhar o Nobel de literatura.

A primeira parte da resposta parece verdadeira, mas a segunda, por força da ironia, acaba por ocultar as coisas. Os romancistas brasileiros escrevem, de fato, “para os amigos”, mas não como motivo primário. Na verdade, eles não escrevem para o público, que desprezam.

Esse desprezo pelo público se manifesta reiteradas vezes na matéria secundária à de capa (“Ficção perdeu os leitores, diz o autor de ‘O Filho Eterno’”, p. 3). O que não se compreende: pois as afirmações dos autores não são exatamente sofisticadas.

“O autor que se guia pelas tendências do mercado deixa de ser um artista para ser um comerciante” (Marçal Aquino)

“O que é bom não vende muito. O pessoal não tem nível intelectual para consumir um livro de maior qualidade” (Sérgio Sant’Anna)

“Há um sério problema de falta de sintonia entre o grande público e os escritores brasileiros” (Nelson de Oliveira)

“Nós perdemos o leitor depois dos anos 1970, quando a universidade passou a dominar a literatura. Houve uma poetização da prosa, a narrativa clássica implodiu. [...] Se vender, ótimo. Mas ficar obcecado com isso pode envenenar o autor” (Cristovão Tezza)

A frase de Marçal Aquino é um velho clichê tardorromântico, que pressupõe a pureza espiritual do artista contra a impureza materialista do vil comerciante e, portanto, esquece, por exemplo, que Michelangelo e Da Vinci trabalhavam sob encomenda. Também esquece a “perda da inocência” ao longo de todo o século XX. A afirmação de Sérgio de Sant´Anna, por outro lado, é mais direta, e também mais desleixada: “O pessoal não tem nível intelectual para consumir um livro de maior qualidade”. O pessoal não tem nível intelectual? E se, para Pound, o artista era a antena da raça, para Nelson Oliveira é uma espécie de rádio, com um “sério problema de falta de sintonia” com o público. Já Cristóvão Tezza, antes de repetir o clichê de Aquino, parece confundir os anos 1970 com os anos 1920: a “poetização da prosa”, assim como a “explosão da narrativa clássica”, aconteceu cinquenta anos antes do que afirma. De qualquer modo, pouco poderia explicar das circunstâncias contemporâneas.

2. Gênio pobre versus vendilhão rico

O problema, em todo caso, estaria na defasagem entre o gosto médio do público por uma literatura igualmente média e a insistência dos ficcionistas brasileiros em criar uma literatura “sofisticada”. Isto geraria uma demanda sempre insatisfeita, de um lado, e uma oferta sempre insatisfatória, de outro. Pois a literatura “sofisticada” satisfaria apenas a demanda pessoal do próprio produtor, ignorando a demanda pública dos consumidores. Se fosse verdade, tratar-se-ia de um clássico problema de oferta. Neste caso, as próprias leis do mercado se encarregariam de solucioná-lo. Pois não é de se crer que o Brasil só produza candidatos a gênio literário, e nunca escritores que desejam simplesmente ficar ricos.

Prova disso é o mais rico escritor brasileiro – apesar de não se tratar, de fato, de um escritor. Refiro-me a Paulo Coelho. Ele não é um escritor porque escrever não é juntar palavras. Ou seja, juntar palavras não é suficiente. Por isso a lista telefônica não é literatura. Nem é literatura o que ele produz, pois literatura é trato com a linguagem verbal, de um lado, e trato da realidade pelo trato da linguagem verbal, de outro, e Coelho não faz uma coisa nem outra (operando por ocultamento do ocultamento, ao usar e abusar de clichês como se fossem obra sua, ou seja, por mera apropriação e reutilização do usado, abusado e gasto). Em todo caso, de seu sucesso comercial se concluiria que o gosto médio do público idem está de fato abaixo da média. Isto deixaria qualquer tentativa verdadeiramente literária de se adequar a esse gosto fadada ao fracasso. Mas também deixaria sem explicação outros fenômenos comerciais: de um lado, livros complexos ou complicados como O nome da rosa, de Umberto Eco; de outro, a verdadeira literatura média, mais do que robusta em lugares como EUA e Europa.

O caso de livros complexos de sucesso comercial é relativamente fácil de entender: trata-se do conhecido fenômeno do “livro de prestígio”, ou seja, que se torna importante ter, mas não necessariamente ler. Livros complexos, como regra, de fato não são fenômenos comerciais. Mas isto ainda não explica tudo. Mesmo porque, autores muito complexos já foram muito populares.

O exemplo máximo é Shakespeare, dramaturgo de maior sucesso popular na Inglaterra elisabetana, que, evidentemente, pensava em seu público ao escrever, ainda que não para simplesmente satisfazer do modo mais fácil o gosto desse público. O problema não está, de fato, em optar entre o baixo gosto médio do público e a alta arte sutil do grande escritor, assim condenado, ou à subliteratura, ou à solidão de estufa das flores raras. O problema está na incapacidade dos escritores de encarar o problema em sua inteireza e na inteireza de sua complexidade.

O verdadeiro dilema aqui é shakespeariano: ter o público em pauta ao escrever, mas não para simplesmente satisfazer de modo fácil o gosto desse público. Como a resposta-padrão dos escritores brasileiros retira o público mágica e convenientemente da equação (afinal, é um público que não serve para sua literatura), essa resposta-padrão nada responde e nada pode responder.

3. Literatura de entretenimento versus entretenimento pela literatura

Pesquisas indicam que o Brasil leitor é dez vezes menor do que o Brasil real, ou seja, um país de 20 milhões de habitantes. Mas um país de 20 milhões de habitantes ainda é meia Argentina, ou meia Espanha. Teríamos então, apesar de tudo, de ter um mercado equivalente à metade do argentino ou do espanhol. Mas estamos a anos-luz disso. A pequenez do público leitor brasileiro é, em todo caso, relativa. E não explica a falta de uma produção literária brasileira que o supra. Mesmo porque, toda a discussão começa pelo fato de esse público leitor se alimentar de livros importados.

Qual a principal característica desses livros? Ao contrário de Paulo Coelho, eles são literatura – mas integrada ao entretenimento, que é entretenimento do público. Portanto, o público faz parte da equação literária. A literatura média é, de fato, literatura de entretenimento.

Shakespeare também era, em sua época, entretenimento. Balzac era igualmente, em seu tempo, entretenimento. O problema é que hoje a literatura que prevê e, portanto, entretém o público seria uma literatura inferior. Ou talvez não. Porque o público atual é maior e mais diversificado: logo, não há apenas uma literatura de entretenimento, aquela reconhecida por este nome.

À exceção do relativamente recente e efêmero fenômeno das “sagas literárias”, que tiveram origem com O senhor dos anéisde Tolkien, a literatura moderna, passada a exceção vanguardista dos modernismos, é dominada, desde meados do século XIX, por duas vertentes centrais, derivadas dos dois principais criadores dessa literatura, Balzac e Poe. Enquanto Balzac consolidou e refinou a prosa de ficção como principal instrumento para retratar a sociedade urbana, burguesa e industrial, capaz de dar conta de seus aspectos materiais, psicológicos e sociais, o equivalente da épica para os povos antigos, Poe criou a literatura policial. Toda ou quase toda a literatura moderna deriva ou de Balzac, ou de Poe, ou de ambos. Jorge Luís Borges, Georges Simenon, Graham Greene, Dashiel Hamett, Patrícia Highsmith e ainda Stephen King e John Grisham são filhos de Poe, enquanto Ernest Hemingway, Saul Bellow, Phillip Roth, Amós Oz, Ohram Pamuk, Salman Rushdie, Ian McEwan e uma vasta lista descendem de Balzac (as vanguardas deixaram poucos descendentes na ficção mainstream, à diferença da poesia e das artes plásticas). E todos eles, a seu modo, são literatura de entretenimento. Porque são entretenimento pela literatura.

4. Entretendo-se com os herdeiros de Balzac e Poe

O inglês Graham Greene é o autor de ao menos uma perfeita obra-prima, o pequeno romance Fim de caso, que retrata em cápsula o momento histórico de Segunda Guerra Mundial e ainda cria uma das mais poderosas histórias de amor da literatura contemporânea, além de discutir a questão da teodiceia (a justiça divina). Há no livro algo de Stendhal, algo de Balzac e algo de Dostoievski. Mas também há muito da moderna literatura, bem, média norte-americana, cujo representante maior é Hemingway, o grande consolidador da escrita direta, seca, “objetiva”. Hemingway, um escritor médio? Sim, ao menos se comparado ao seu contemporâneo Joyce. Ou a Proust. Fundindo tudo isso, o que Greene consegue é um livro que, de fato, entretém, no sentido de que lê-lo não gera as angústias estético-intelectuais de um Joyce, mas sim puro prazer de leitura, sem deixar, no entanto, de ser um denso alimento para a inteligência. Na verdade, por ser, afinal, um denso alimento para a inteligência, sem falar nos sentidos, na imaginação e na empatia com os personagens. Portanto, Greene é de fato literatura de entretenimento – ainda que num sentido muito diferente do mais que banal Harold Robbins. Georges Simenon também, obviamente. Bertrand Russell costumava lê-lo todas as noites, e não por ser soporífero, mas o contrário: por ter grande leveza de fatura sem perder a densidade de estrutura narrativa e psicológica. Além de romances policiais, Simenon foi ainda o autor de uma longa série que chamou de romans durs, ou “romances duros”, que guardam certas semelhanças, mantidas todas as diferenças, com o Fim de caso de Greene. A “dureza” psicológico-realista desses romances curtos, em que o personagem central sempre está em uma situação limite criada ou possibilitada por ele mesmo, e em relação à qual não sabe se quer se salvar ou se perder, não impede, ao contrário, o puro prazer da leitura. Isto também mesmo vale para Phillip Roth, o mais balzaquiano desses três (portanto, o que mais status de alta literatura possui). Portanto, Roth também é, afinal, entretenimento. Literatura de entretenimento não é o mesmo que literatura ruim.

A incapacidade dos escritores brasileiros de criarem livros ao mesmo tempo bons e prazerosos é apenas a incapacidade dos escritores brasileiros de criarem livros ao mesmo tempo prazeroso e bons. Eles são, como regra, chatos, porque, como regra, são pretensiosos. E são pretensiosos por ignorarem o público leitor. Se não o ignorassem, não poderiam ser chatos, sob o risco do fracasso. Cria-se assim uma literatura satisfeita para ninguém, ou quase ninguém. Satisfeita talvez, mas não satisfatória. A menos que se considere a criação literária um hobby, que, de fato, só interessa para quem o pratica. Mas se se pretende algo além de um hobby, a literatura não pode satisfazer somente quem se dedica a ela. O público tem de ser posto na equação. Ou nas equações. Pois há uma simples e uma complexa.

A simples é simplesmente apostar no pior, no mais fácil, no mais paulo-coelho. A complexa é buscar a síntese de Simenon, de Greene, mas também de Roth e McEwan, ou de Shakespeare e Balzac: não trair a inteligência criativa, inclusive ou principalmente ao conquistar, sem traí-la, um grande público. Este é o caminho dos grandes escritores, sejam mediamente grandes ou grandemente geniais.

Somando-se a todos os conhecidos problemas editoriais e educativos, do lado da criação literária, não há no Brasil um grande mercado consumidor de leitores médios porque não há uma grande produção de literatura média. E não há porque os escritores brasileiros confundem literatura média com literatura menor, enquanto buscam certa “alta” literatura que, ao prescindir do público mas não ser nem poder se de vanguarda, é na verdade autista.

5. O cadáver insepulto da literatura policial brasileira

Resta comentar o caso específico da virtual inexistência de uma literatura policial no Brasil. Logo, um dos principais gêneros da ficção moderna, toda a linhagem derivada de Poe, simplesmente inexiste. Rubem Fonseca tentou criar uma literatura parapolicial no país, que abandona qualquer investigação de um crime para se concentrar (literalmente, em contos densos e duros) nos próprios crimes. Funcionou, mas se esgotou no próprio autor, que em seguida tentaria romances de investigação mais convencionais, chegando a tentar firmar seu próprio investigador canônico, o Mandrake. Não funcionou.

Os motivos do fracasso ainda maior de um ficcionismo brasileiro da linhagem de Poe, em relação ao da linhagem de Balzac, não estaria em qualquer descompromisso autista dos autores com o público, mas em circunstâncias objetivas – que nada tem a ver, no entanto, com nossos velhos problemas educativos e editoriais.

Para que haja interesse dramático numa novela policial é necessário que exista, no mínimo, além do imprescindível crime misterioso, uma coleção mais ou menos sortida de suspeitos sem culpa formada, sobre os quais nenhuma acusação se poderia formular. Em consequência, continuam soltos, atrapalhando o mais que podem a ação da polícia. O detetive seguirá pistas falsas, embrulhar-se-á, cairá em armadilhas habilmente urdidas. Até que, ao cabo de duzentas e cinquenta páginas, a ação se esgota, os recursos do criminoso esgotam-se, as faculdades inventivas do autor também se esgotam, a nervosa expectativa do leitor já se acha quase esgotada – e então o mistério é esclarecido e o romance acaba.

Mas no Brasil as coisas não se passariam assim. Se o romancista não quisesse fazer obra inteiramente falsa, sem qualquer possibilidade de convencer o leitor, deveria criar sua hipótese dramática de acordo com o que de fato aconteceria no caso de um crime real: a polícia começaria prendendo todos os suspeitos. Haveria, quando muito, uma trágica descrição de espancamentos, interrogatórios, torturas físicas e notícias berrantes nos jornais.

O que dá vida, interesse dramático e consistência à novela policial é um jogo sutil de raciocínio e brilho mental, a luta surda e ágil travada entre o investigador e o criminoso. Como se fosse uma dança, em que os dois se perseguem, se esquivam, se abraçam e se confundem.
Vê-se, desde logo, em que impossibilidade esbarraria o romance policial no Brasil e em outros países, nos quais os processos criminais não sejam orientados pelo maior liberalismo, nos quais não se admita, no suspeito, um possível inocente, em vez de nele se pressupor – como é de uso entre nós – um criminoso potencial. Não importam os textos dos códigos de direito penal, porque o que interessa não é a aparência formal e teórica das leis, mas, sobretudo, uma questão de aplicação prática das mesmas. [...]
A novela policial só pode se desenvolver em países cujas instituições políticas e jurídicas se baseiam em normas essencialmente democráticas, isto é, em que haja um verdadeiro respeito pela pessoa humana. (Luís Martins, “Prefácio”, in Obras-primas do conto policial, São Paulo, Livraria Martins Editora, 1964, pp. 7-9)

O diagnóstico parece consistente demais para estar errado. Além disso, explica o fenômeno que pretende explicar de modo suficiente. Então talvez estejamos condenados a jamais ter uma literatura policial robusta. Ora, esta é outra explicação para as ficções nacionais não venderem – além de explicar a dificuldade em explicar o problema. Pois ela é normalmente ignorada. Com isso, não se discute o caso específico da linhagem de Poe, virtualmente amputada da produção literária nacional. Acontece que essa linhagem responde por boa parte dos livros mais vendáveis nos mercados centrais.

Recentemente, vários autores policiais suecos conquistaram seu mercado interno para, em seguida, lançaram-se sobre o mercado mundial e, naturalmente, acabaram virando filme. Ou filmes. No caso da trilogia Millenium, de Stieg Larsson, seu primeiro livro teve uma versão cinematográfica sueca e outra inglesa. A inglesa é superior, tratando de modo mais lento e consistente as várias camadas de circunstâncias que constroem a história, acabando por envolver e revolver o negro passado pró-nazista de parte da elite sueca, que se liga diretamente ao sadismo dos crimes contemporâneos de um de seus descendentes. Portanto, o sadismo deixa de ser gratuito (mero chamariz de emoções fáceis do leitor idem), tanto em termos literários quanto sociais (a lição de Balzac): não se trata de um “simples psicopata”, no sentido de que sua psicopatia se autoexplica para ser, então, “retratada” pelo autor em detalhadas cenas de sangue. Pois outra característica importante das ficções de alguma qualidade é que elas, de um modo ou de outro, mantêm a história na mira, não para fazer “romances históricos”, mas romances robustos, inclusive policiais. Algo que os escritores brasileiros têm dificuldade de manipular.

Mas se não tivemos, não temos e provavelmente não teremos uma literatura policial, o peso da responsabilidade sobre os herdeiros tupiniquins de Balzac é ainda maior. Eles podem continuar a ignorar soberbamente o público, e com isso deixar o mercado para seus congêneres estrangeiros, enquanto modorram em seu “olímpico” isolamento satisfeito por prêmios literários locais de prestígio duvidoso, ou tentar o caminho do verdadeiro criador, que é o caminho difícil. E a dificuldade, aqui, não é criar pálidas obras “sofisticadas” de estufa (na verdade, isso não é tão difícil: basta ter muito tempo, muita paciência e algum talento), mas livros que os leitores queiram ler (caso contrário, por que os leriam?).

6. Epílogo

Durante muitos anos, falou-se em certo “padrão Globo de qualidade”. Mas ele nunca existiu. Apenas a ausência das TVs americanas e europeias, enquanto não chegaram aqui as TVs a cabo, permitiu a manutenção desse mito provinciano. A Globo sempre foi o que é, incapaz de ir além de novelas, BBBs, comédias do mais baixo nível e “especiais” especialmente bregas de fim de ano. A TV de qualidade, assim como o cinema de qualidade, tem de ser importada. O mesmo vale, afinal, para a ficção. Os escritores de fato ignoram o público, mas não porque se dedicam a criar uma alta literatura brasileira contemporânea (tão real quanto o “padrão Globo”), e sim porque são incapazes de se profissionalizar, segundo padrões internacionais modernos.

Costuma-se acreditar que existem incontáveis empecilhos objetivos a essa profissionalização (que não dependeria, portanto, da postura dos escritores): das condições do mercado editorial à educação pública, passando pelas instituições políticas, ao menos no caso específico da ficção policial, como descreve convincentemente Luís Martins. Além disso, como referido de início, não fosse assim, a lei da oferta e da procura se encarregaria de gerar escritores eficientes, ou seja, simplesmente profissionais, como o são os ficcionistas estrangeiros. Mas o domínio do mercado interno brasileiro de não-ficção por autores nacionais complica o quadro das explicações conhecidas. Se os autores nacionais de não-ficção vendem relativamente bem, ser um autor brasileiro e vender relativamente bem é objetivamente possível. E se o problema se concentra, assim, na ficção, o problema não está, apesar de tudo, na demanda, no consumo ou em suas condições, mas na oferta: os produtos nacionais oferecidos não agradam o público consumidor, digo, o público leitor. Quem compraria um carro nacional se pudesse comprar um carro importado superior pelo mesmo preço? O que vale para os carros vale para os livros. Mesmo porque, não é apenas o pior da literatura de entretenimento que vende bem no Brasil, como Cinquenta tons de cinza, mas também seu melhor, como Philip Roth. E não temos equivalentes nacionais nem para um para o outro, mas apenas uma ficção tão pretensiosa quanto amadora – ao menos no sentido incontornável de não ser obra de profissionais, que vivem de seu trabalho literário e dependem, portanto, do público. Sendo nossos ficcionistas, afinal, amadores, podem ignorar o público, que, por sua vez, os ignora.
>> SIBILA – por Luis Dolhnikoff



AS COLETÂNEAS MATARAM OS BLOGS DE CONTOS?

segunda-feira | 14 | janeiro | 2013
theodor_roussel_reading_girl_1886

“Reading Girl”, de Theodor Roussel (1886)

Há alguns anos, no maior evento de literatura especulativa do país, o Fantasticon, discutíamos qual seria o verdadeiro valor de uma publicação impressa para o currículo de um autor. Nas entrelinhas, nos perguntávamos se sair em papel era mais importante do que escrever em um blog, por exemplo. Não era uma questão de qualidade, e sim de status, e nós sabíamos disso.

Por ser ignorada pelos grandes grupos editoriais, curiosamente os mesmos grupos que hoje se curvam e pagam milhões em leilões de direitos autorais por títulos de young adult, a literatura especulativa brasileira padecia de uma quase invisibilidade, salvo raros pontos fora da curva. Não foi surpresa então que a internet tenha se mostrado como uma opção viável para escoar a produção dos autores e ajudá-los a chegar a um público que, acredite se quiser, alguns se perguntavam se de fato existia.

Por um momento, parecíamos mesmo convencidos de que não havia nada demais em ter um blog como principal suporte para nossos trabalhos e levantávamos a bandeira com orgulho. Como consequência, proliferaram os blogs literários e os e-zines, muitas vezes feitos por autores para autores, uns resenhando os outros e alguns resenhando a si mesmos.

Cinco anos se passaram e o mundo girou tão rápido que é difícil não perceber as mudanças. Hoje, editoras do mundo inteiro discutem como fazer uma transição suave para a era dos e-books e já há quem debata o que virá após o formato de texto puro utilizado nessa década.

O curioso é que, enquanto o “virtual” evoluía para algo além do blog de contos ou daquele grupo de amigos montando um e-zine, o papel também ganhou espaço e editoras independentes começaram a apostar na literatura de gênero. Em paralelo, se criou uma base de leitores de literatura especulativa, boa parte graças aos sucessos estrangeiros que ajudaram a turbinar essa mudança.

Cada um desses pontos valeria uma discussão mais elaborada e acalorada, mas o nosso foco aqui é o fetiche do papel. No fim das contas, com a possibilidade de publicação em formato impresso (ou no formato virtual com o carimbo das editoras de impresso), os autores de literatura especulativa migraram dos blogs para as coletâneas que, de certa maneira, assumiram o papel de divulgar novos nomes e levar conteúdo de rápido consumo aos leitores.

Pensando nesse boom e no fechamento de muitos blogs, entrei em contato com alguns editores para saber como eles enxergam o papel das coletâneas hoje dentro de suas linhas editoriais e como eles as organizam. Uma informação que vale de registro dessa etapa da evolução do mercado e que pode ajudar a orientar novos autores nos próximos passos.

Gianpaolo Celli, da Editora Tarja, comentou que ao planejar uma coletânea, são os autores da casa os primeiros a receberem o convite: Se eles já publicaram [com a gente], é evidente que possuem a qualidade requerida. Verificamos o gênero que o autor publica e, se achamos que ele se encaixa, enviamos o convite.”

Além de aproveitar os autores já publicados, todos os editores bateram na tecla de que as coletâneas são uma ótima forma de revelar novos nomes, e com o Gian não foi diferente: “Podemos também abrir a coletânea, e com isso aumentar o quadro de talentos da editora. Para a Tarja, a ideia é trabalhar as coletâneas como um investimento na formação, no desenvolvimento, e no nome de autores potenciais.”

Se você chegou agora, vale comentar que a Tarja hoje publica nomes como China Miéville e Jeff Vandermeer, mas se manteve nos primeiros anos apenas com títulos nacionais.

Eu falei também com o Samir Machado, da Não Editora. Recente no mercado quando comparada aos gigantes da literatura, a Não tem como espinha dorsal a literatura mainstream e já esteve entre os finalistas do prêmio Jabuti. Um dos sucessos da editora, entretanto, é a coleção Ficção de Polpa, centrada em literatura de gênero.

Graças ao Samir Machado descobri que a coleção tem tudo a ver com a criação da própria editora: “Temos um carinho especial pela coleção, pois foi através dela que a Não Editora começou. Foi através da seleção dos contos que acabamos nos conhecendo todos – eu, a Luciana Thomé, o Antônio Xerxenesky, o Rodrigo Rosp, o Guilherme Smee e o Gustavo Faraon. Foi o processo de editar e divulgar o livro que percebemos o potencial de criarmos a nossa própria editora.”

Além do carinho pessoal, Samir Machado falou também do lado comercial do projeto: “[A Ficção de Polpa] é um dos nossos projetos de maior visibilidade, mesmo que as vendas não sejam exatamente num nível de best-seller, o primeiro volume já foi reimpresso quatro vezes e sempre recebo feedback de leitores elogiando e pedindo que publiquemos mais volumes.”

Por saber que muitos novos autores leem o site, um dos pontos que levantei no e-mail com todos os editores foi o método de seleção. Segundo o Samir:“Sempre busquei selecionar tendo como critério a qualidade do texto, independente dos autores serem ou não conhecidos do público, ou serem ou não meus conhecidos, e sempre que possível equilibrar entre autores estreantes e outros que já tinham obras publicadas.”

Alguns dos autores, comenta ele, depois publicaram livros solo com a editora. “O Rafael Jacobsen [publicou] o seu Uma Leve Simetria, e o Antônio Xerxenesky o Areia nos Dentes, por exemplo.”

Se a Tarja e a Não Editora ressaltam a importância das coletâneas para a descoberta de novos nomes, a Editora Terracota tem atuado em outro nível na formação dos autores, ao unir oficinas literárias com a posterior publicação de seus alunos.

Cláudio Brites, editor, foi direto ao ponto:“Vejo a coletânea como uma ação de guerrilha. Um livro de autor solo é uma pistola, que abate um leitor por vez. A coletânea, uma minigun cuspindo seus projéteis para todos os lados. Em uma ação conjunta, os autores somam forças para divulgar seu trabalho e, claro, o da editora.”

Sem esconder o jogo, ele falou que nem tudo são flores, e que se a chance de sucesso é grande, também existe o outro lado: “Uma coletânea mal pensada, carente de equilíbrio na qualidade de seleção dos textos, pode acertar um civil desavisado, e logo a editora se queima, o leitor se emputece e os autores são colocados em uma vala comum.”

Quem acha que o Cláudio Brites está atirando aleatoriamente se engana. Ele fala com conhecimento de causa: “Eu já organizei coletâneas superpopulosas em um passado negro e por experiências posso dizer que são um tipo de insanidade injustificável, desperdício de energia e diluição de bons trabalhos.”

Passado o desabafo, pedi que ele comentasse como é essa coisa de juntar as oficinas com o preparo de coletâneas. Logo de cara, ele falou da mistura de autores novos e já estabelecidos também comentada pelo editor da Não Editora.

“Os pilares da editora Terracota foram erguidos nas costas das coletâneas. Começamos com trabalhos que misturavam autores experientes com outros que ainda buscavam um espaço no palanque. Um tipo de apadrinhamento, talvez. Deu certo, alguns dos autores se beneficiaram da qualidade dos trabalhos e estão por aí hoje, em cena. Hoje, mudamos o perfil, e as coletâneas são resultado das oficinas ministradas na Terracota. Textos que são acompanhados pelo grupo, que são aprimorados até o máximo de cada um dos participantes.
[Depois disso,] professores e alunos se misturam em pólen 90 gramas. Se é um caminho melhor ou pior, só os leitores podem dizer. E os críticos, bem, eles ainda existem?”

Com uma editora que nasceu de um blog literário (que ainda existe), M.D. Amado também participou da nossa conversa. O site Estronho e Esquésito, que originou a editora Estronho, está no ar há mais de dez anos e serviu de espaço de divulgação para um número incontável de autores. Ele falou rapidinho sobre a proposta da editora:

“A Editora Estronho surgiu com o principal objetivo de revelar (ou dar mais oportunidades) a novos autores, e, para nós, as coletâneas são fundamentais. Foi através delas que descobrimos autores excelentes que publicaram livros solo conosco ou que já tiveram seus livros anunciados para breve.”

Assim como o Samir Machado, o M.D. Amado deu alguns exemplos de autores que migraram das coletâneas para os livros solo.

“Posso citar a Valentina Silva Ferreira (Distúrbio), Natália Couto Azevedo (Reino dos Sonhos), Nikelen Witter (Territórios Invisíveis), Lemos Milani (A Ascensão da Casa dos Mortos) e Ghad Arddhu (Gehenah) entre outros que ainda estamos negociando. Todos eles chamaram a nossa atenção nas diversas antologias que lançamos em pouco mais de um ano de editora.”

E parece que esse celeiro de autores chamou a atenção de outras editoras também, que acabaram fechando contrato com os novos nomes publicados nas coletâneas da Estronho. Mais um sinal de que o mercado anda aquecido pelo menos na etapa de publicação e formação de catálogo. Três deles, por coincidência, você conhece aqui no artigo Novos autores para se ficar de olho em 2012.

Marcelo Amado termina dizendo que embora pense em aumentar o número de romances e publicar livros de não-ficção, as coletâneas temáticas sempre farão parte do catálogo.

Para encerrar, conversei também com o Erick Santos, editor da Draco, que tem adotado a estratégia de lançar contos diretamente no formato digital, além das publicações em papel. A editora publica principalmente livros de ficção especulativa, mas também abriu as portas para a literatura mainstream. Sobre a questão das coletâneas, ele falou o seguinte:

“As coletâneas são o principal método para encontrarmos novos autores. É difícil fazer a triagem de tantos manuscritos de romances. Perfis e estilos ficam muito mais evidentes em uma leitura de conto. Autores como Cirilo S. Lemos e Douglas MCT apareceram para a Draco primeiro nos seus contos, e a Ana Cristina Rodrigues, uma das autoras que mais publica em diversas casas, continua sua atuação basicamente só como contista.”

Sabe aquela história de que quem nasce para contista pode não ser um bom romancista? Na literatura especulativa isso parece não acontecer, embora tenhamos muito mais contos do que romances publicados, talvez ainda como reflexo da afobação de chegar ao papel de uma vez.

Veja o que o Erick Santos pensa sobre o assunto: “Um bom contista normalmente tem o essencial para a habilidade de contar histórias, o poder da síntese e a mistura dosada de ação narrativa, ambientação e desenvolvimento de personagens, mesmo com foco e clímax que tendem a ser únicos, ao contrário da fácil dispersão que ocorre com romancistas iniciantes.”

É claro que esses casos de sucesso estão atrelados à qualidade dos textos. Na pressa de publicar, em vez de dar um passo adiante, o autor pode acabar queimando o próprio filme e ter uma bela dor de cabeça com as pedradas.

“Marcar presença em diversas antologias é ainda o melhor caminho para chamar atenção. Com críticas positivas, virão mais convites para antologias e publicação de romances. No caso de avaliações negativas, o autor terá mais informações para entender o que tem feito de errado para se desenvolver como contador de histórias,” concluiu.

Parece piada, mas quando esse novo momento de produção se iniciou, tinha gente dizendo que não haveria leitores para todo mundo. Se na época o pensamento já parecia engraçado, hoje soa completamente deslocado da realidade.

Como fica evidente, o mercado evoluiu bastante, o espaço aumentou e as coletâneas se transformaram em uma importante via de acesso não só aos editores, mas também a autores e ao valioso público leitor que, digam o que for, está aí cada vez mais forte e atento.
>> PÁGINAS NOTURNAS – por Eric Novello


A FANTASIA E A FICÇÃO CIENTÍFICA SEM PRECONCEITOS

segunda-feira | 14 | janeiro | 2013
Bandeira LGBT

Ao contrário do que muita gente pensa, a bandeira do movimento LGBT não tem as sete cores do arco-íris

No reino da Fantasia, tudo pode acontecer. O sapo pode virar príncipe e a princesa ser acordada de um longo sono por um simples beijo. O que até pouco tempo não podia era o sapo virar príncipe e arranjar outro príncipe para se casar, ou a princesa ser acordada pelo beijo de outra princesa.

Numa tentativa de transformar esses gestos simples de amor em algo mais comum e corriqueiro, a Tarja Editorial lança, desde o ano passado, uma série de livros abordando a comunidade LGBT (Lésbicas, Gays, Bissexuais e Transexuais) em histórias de fantasia e ficção científica para o público adulto. A coleção A Fantástica Literatura Queer já tem três volumes publicados e, em novembro, lança o seu quarto título.

A palavra “queer”, que, ao pé da letra, quer dizer “esquisito”, em inglês, também é usada pejorativamente, mas tornou-se um termo para designar o ramo de estudos que busca desafiar as categorias de identidade. O novo significado surgiu dos estudos sobre gays e lésbicas nas universidades.

A ideia de escrever sobre fantasia LGBT no Brasil surgiu quando o publicitário e escritor Rober Pinheiro e a escritora e revisora Cristina Lasaitis perceberam que não havia nada do gênero no país e resolveram organizar uma coletânea. Ambos apresentaram a proposta a Gianpaolo Celli e Richard Diegues, editores da Tarja, que se engajaram no projeto e abriram inscrições para receber contos com essa temática.

Foram tantos contos que ficou inviável publicar os selecionados em apenas um volume, e o que era apenas um, virou dois. Os editores abraçaram a ideia, e o projeto se transformou em uma série de seis livros, cada um representando uma das cores do movimento LGBT.

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A série de seis livros já está em seu quarto volume

Gianpaolo conta que um dos fatores que o atraiu no projeto foi tirar a comunidade LGBT da esfera do sexo. “O conceito das histórias é você ter personagens principais homossexuais dentro de uma trama não sexual”, explica.

As diferentes histórias da série envolvem anjos, demônios, fantasmas, alienígenas e várias outras feras e seres sobrenaturais. E nem sempre o protagonista é homossexual, travesti, transexual ou bissexual. A afetividade e a sexualidade não são tratadas como um problema. “É um ponto de vista aberto”, comenta Gianpaolo.

Mas como deixar claro ao leitor a sexualidade de alguém gay ou lésbica? De forma sutil, como explica Rober, ao citar um conto do livro Amarelo em que um comandante de uma espaçonave e seu subordinado enfrentam uma ameaça. “A relação entre os dois vai sendo construída à parte. É mais uma relação de companheirismo, de ajuda, do que propriamente uma relação homoafetiva”, conta.

Em outro caso, o preconceito foi explicitado, em uma história em que um soldado do reino de Aragão (na atual Espanha) é sequestrado por alienígenas. O guerreiro acaba fugindo com outros extraterrestres e um dos E.T.s acaba manifestando interesse pelo soldado aragonês, que não aceita essa atração. O conto está presente no novo livro, o Verde.

A série também quebra um pouco o preconceito de que, sob as palavras “gay”, “homossexual”, “lésbica”, etc., todos os envolvidos são, necessariamente, LGBT. Gianpaolo conta que, na primeira versão da introdução do livro Vermelho, o texto dizia que se tratava de uma obra onde todos os “editores são gays”. Ao ler aquilo, Gianpaolo, que é hétero, surpreendeu-se. “Como assim ‘os editores são gays’? Eu nem sabia que eu era gay!”, brinca. O texto foi alterado antes da publicação.

O livro ‘Vermelho’

O livro ‘Verde’

Um dos exemplos de autores da série que não estão ligados ao movimento é Antônio Luiz M. C. Costa. Escritor heterossexual, ele tem um romance de fantasia e vários contos publicados por diferentes editoras. Com o tema lésbico, escreveu dois textos. Um deles foi aceito para a coletânea Erótica Fantástica, da editora Draco, e o outro entrou para o livro Amarelo, da coletânea da Tarja. Em seu conto, a escritora britânica Emily Brontë vem morar no Rio de Janeiro, onde acaba se apaixonando por uma índia amazona.

“Eu acho que você pode ler sendo hétero e não ter problema nenhum em se identificar com o personagem. Existem mais aspectos num personagem para você se identificar do que a orientação sexual dele”, comenta Gianpaolo. E finaliza: “Preconceito é preconceito. E todos eles são ruins”.

Além do livro Verde, fecham a coleção o Azul e o Lilás, que têm previsão de lançamento para 2013.

>> SARAIVA – por Marcelo Rafael


A MELHOR FICÇÃO CIENTÍFICA E FANTASIA DOS SÉCULOS XX E XXI

quinta-feira | 10 | janeiro | 2013
A revista Locus realizou em Novembro de 2012, através do seu website, uma série de votações de modo a apurar as melhores obras de ficção científica e de fantasia escritas nos séculos XX e XXI. Os resultados, divididos por categorias, podem ser visualizados abaixo:

Short Fiction Categories
20th Century Novella:
Rank
Author : Title (Year)
1
Chiang, Ted : Story of Your Life (1998)
2
Le Guin, Ursula K. : The Word for World Is Forest (1972)
3
Tiptree, James, Jr. : Houston, Houston, Do You Read? (1976)
4
Campbell, John W. : Who Goes There? (1938)
5
Varley, John : The Persistence of Vision (1978)
6
Wolfe, Gene : The Fifth Head of Cerberus (1972)
7
Leiber, Fritz : Ill Met in Lankhmar (1970)
8
Heinlein, Robert A. : The Man Who Sold the Moon (1950)
9
Kress, Nancy : Beggars in Spain (1991)
10
Moore, C. L. (& Henry Kuttner) : Vintage Season (1946)
11
Bujold, Lois McMaster : The Mountains of Mourning (1989)
12
Martin, George R. R. : A Song for Lya (1974)
13
Lovecraft, H. P. : The Shadow Over Innsmouth (1942)
14
Heinlein, Robert A. : By His Bootstraps
15
Simak, Clifford D. : The Big Front Yard (1958)
16
Sturgeon, Theodore : Baby Is Three (1952)
17*
Moorcock, Michael : Behold the Man (1966)
17*
Varley, John : PRESS ENTER[] (1984)
19
Willis, Connie : The Last of the Winnebagos (1988)
20
Vinge, Vernor : True Names (1981)
21
Vance, Jack : The Last Castle (1966)
22*
Crowley, John : Great Work of Time (1989)
22*
Zelazny, Roger : 24 Views of Mt. Fuji, by Hokusai (1985)
24*
Vance, Jack : The Dragon Masters (1962)
24*
Vance, Jack : The Moon Moth (1961)
26
Heinlein, Robert A. : The Unpleasant Profession of Jonathan Hoag (1942)
27
Longyear, Barry B. : Enemy Mine (1979)
28
Asimov, Isaac : The Martian Way (1952)
29
Farmer, Philip Jose : Riders of the Purple Wage (1967)
30
Zelazny, Roger : He Who Shapes (1965)
31
Chiang, Ted : Seventy-two Letters (2000)
32
Shepard, Lucius : R&R (1986)
33
Wolfe, Gene : The Death of Doctor Island (1973)
34
Delany, Samuel R. : The Star Pit (1967)
35
McCaffrey, Anne : Dragonrider (1967)
36
Resnick, Mike : Seven Views of Olduvai Gorge (1994)
37
Heinlein, Robert A. : Universe (1941)
38
McCaffrey, Anne : Weyr Search (1967)
39
Silverberg, Robert : Nightwings (1968)
40
Anderson, Poul : The Queen of Air and Darkness (1971)
41
Lovecraft, H. P. : The Case Of Charles Dexter Ward
42*
Howard, Robert E. : Red Nails (1936)
42*
Silverberg, Robert : Sailing to Byzantium (1985)
44
Brin, David : The Postman (1982)
45
Bear, Greg : Hardfought (1983)
46
Russell, Eric Frank : …And Then There Were None
47
Zelazny, Roger : Home Is the Hangman (1975)
48*
Haldeman, Joe : The Hemingway Hoax (1990)
48*
Wolfe, Gene : Seven American Nights (1978)
50
Lovecraft, H. P. : The Dream Quest of Unknown Kadath (1943)
20th Century Novelette:
Rank
Author : Title (Year)
1
Keyes, Daniel : Flowers for Algernon (1959)
2
Asimov, Isaac : Nightfall (1941)
3
Zelazny, Roger : A Rose for Ecclesiastes (1963)
4
Asimov, Isaac : The Bicentennial Man (1976)
5
Martin, George R. R. : Sandkings (1979)
6
Bester, Alfred : Fondly Fahrenheit (1954)
7
Ellison, Harlan : A Boy and His Dog (1969)
8
Bear, Greg : Blood Music (1983)
9
Butler, Octavia E. : Bloodchild (1984)
10
Godwin, Tom : The Cold Equations (1954)
11
Tiptree, James, Jr. : The Women Men Don’t See (1973)
12
Tiptree, James, Jr. : The Girl Who Was Plugged In
13
Card, Orson Scott : Ender’s Game (1977)
14
Chiang, Ted : Tower of Babylon (1990)
15
Weinbaum, Stanley G. : A Martian Odyssey (1934)
16
Delany, Samuel R. : Time Considered as a Helix of Semi-Precious Stones (1968)
17
Dick, Philip K. : We Can Remember It for You Wholesale (1966)
18
Gibson, William : Burning Chrome (1982)
19
Lovecraft, H. P. : The Call of Cthulhu (1928)
20
Brown, Fredric : Arena (1944)
21
Blish, James : Surface Tension (1952)
22
Willis, Connie : Fire Watch (1982)
23
Ellison, Harlan : The Deathbird
24
Miller, Walter M., Jr. : A Canticle for Leibowitz (1955)
25
Zelazny, Roger : The Doors of His Face, the Lamps of His Mouth (1965)
26*
Smith, Cordwainer : The Ballad of Lost C’Mell (1962)
26*
Niven, Larry : Inconstant Moon (1971)
28
Kuttner, Henry [Lewis Padgett] : Mimsy Were the Borogoves (1943)
29
Niven, Larry : Neutron Star (1966)
30
Kelly, James Patrick : Think Like a Dinosaur (1995)
31
Zelazny, Roger : For a Breath I Tarry (1966)
32
Sturgeon, Theodore : Microcosmic God
33
McCaffrey, Anne : The Ship Who Sang (1961)
34
Asimov, Isaac : Foundation (1942)
35*
Dick, Philip K. : Second Variety (1953)
35*
Smith, Cordwainer : Scanners Live in Vain (1950)
37
Shepard, Lucius : The Man Who Painted the Dragon Griaule (1984)
38
Heinlein, Robert A. : –And He Built a Crooked House (1941)
39
Leinster, Murray : First Contact (1945)
40
Kornbluth, C. M. : The Little Black Bag
41*
Aldiss, Brian W. : Hothouse (1961)
41*
Heinlein, Robert A. : The Roads Must Roll (1940)
43
Kornbluth, C. M. : The Marching Morons
44
Sterling, Bruce : Swarm (1982)
45
Lovecraft, H. P. : The Dunwich Horror (1929)
46
Asimov, Isaac : The Ugly Little Boy (1958)
47
Zelazny, Roger : The Keys to December (1966)
48
Leiber, Fritz : Gonna Roll the Bones (1967)
49
Chiang, Ted : Understand (1991)
50*
Waldrop, Howard : The Ugly Chickens
50*
Le Guin, Ursula K. : Buffalo Gals, Won’t You Come out Tonight
20th Century Short Story:
Rank
Author : Title (Year)
1
Clarke, Arthur C. : The Nine Billion Names of God (1953)
2
Le Guin, Ursula K. : The Ones Who Walk Away from Omelas (1973)
3
Ellison, Harlan : ‘Repent, Harlequin!’ said the Ticktockman (1965)
4
Ellison, Harlan : I Have No Mouth, and I Must Scream (1967)
5
Clarke, Arthur C. : The Star (1955)
6
Bradbury, Ray : A Sound of Thunder (1952)
7
Heinlein, Robert A. : All You Zombies– (1959)
8
Gibson, William : Johnny Mnemonic (1981)
9
Tiptree, James, Jr. : The Screwfly Solution (1977)
10
Jackson, Shirley : The Lottery (1948)
11
Bradbury, Ray : There Will Come Soft Rains (1950)
12
Asimov, Isaac : The Last Question (1956)
13
Shaw, Bob : Light of Other Days (1966)
14
Vonnegut, Kurt : Harrison Bergeron (1961)
15
Heinlein, Robert A. : The Green Hills of Earth (1947)
16
Smith, Cordwainer : The Game of Rat and Dragon (1955)
17
Pohl, Frederik : Day Million (1966)
18
Ellison, Harlan : Jeffty Is Five (1977)
19
Clarke, Arthur C. : The Sentinel (1951)
20
Russ, Joanna : When It Changed
21
Tiptree, James, Jr. : Love Is the Plan the Plan Is Death (1973)
22
Delany, Samuel R. : Aye, and Gomorrah
23
Bixby, Jerome : It’s a Good Life (1953)
24
Bradbury, Ray : The Veldt (1950)
25
Varley, John : Air Raid (1977)
26
Le Guin, Ursula K. : The Day Before the Revolution (1974)
27
Bisson, Terry : Bears Discover Fire (1990)
28
Butler, Octavia E. : Speech Sounds
29
Asimov, Isaac : Robbie (1940)
30*
Bradbury, Ray : The Million Year Picnic (1946)
30*
Willis, Connie : Even the Queen (1992)
30*
Sturgeon, Theodore : The Man Who Lost the Sea (1959)
33
Leiber, Fritz : A Pail of Air (1951)
34
Sturgeon, Theodore : Saucer of Loneliness (1953)
35*
Davidson, Avram : Or All the Seas with Oysters (1958)
35*
Russell, Eric Frank : Allamagoosa (1955)
37
Card, Orson Scott : Unaccompanied Sonata (1979)
38
Martin, George R. R. : With Morning Comes Mistfall (1973)
39
Gaiman, Neil : A Midsummer Night’s Dream (1990)
40
Bester, Alfred : The Men Who Murdered Mohammed (1958)
41
Asimov, Isaac : Liar! (1941)
42
Egan, Greg : Learning to Be Me (1990)
43
Gaiman, Neil : Troll Bridge (1993)
44
Wolfe, Gene : The Island of Doctor Death and Other Stories
45*
Leiber, Fritz : Coming Attraction
45*
Silverberg, Robert : Passengers
47
Ballard, J. G. : The Terminal Beach
48
Bradbury, Ray : All Summer in a Day (1954)
49
Knight, Damon : The Country of the Kind (1956)
50
Sturgeon, Theodore : Thunder and Roses (1947)
21st Century Novella:
Rank
Author : Title (Year)
1
Link, Kelly : Magic for Beginners (2005)
2
Stross, Charles : Palimpsest (2009)
3
MacLeod, Ian R. : New Light on the Drake Equation (2001)
4
Chiang, Ted : Liking What You See: A Documentary (2002)
5
Vinge, Vernor : Fast Times at Fairmont High
6
Reynolds, Alastair : Diamond Dogs (2001)
7
Willis, Connie : Inside Job
8
Stross, Charles : The Concrete Jungle (2004)
9
Baker, Kage : The Empress of Mars (2003)
10
Scalzi, John : The God Engines (2009)
11*
Gaiman, Neil : Coraline
11*
Vinge, Vernor : The Cookie Monster (2003)
13
Swirsky, Rachel : The Lady Who Plucked Red Flowers beneath the Queen’s Window
14
Le Guin, Ursula K. : The Finder (2001)
15
McDonald, Ian : The Little Goddess (2005)
16
Stross, Charles : Missile Gap (2006)
17
Chiang, Ted : The Lifecycle of Software Objects
18
Kelly, James Patrick : Burn (2005)
19*
Kress, Nancy : The Erdmann Nexus (2008)
19*
Chwedyk, Richard : Bronte’s Egg (2002)
21st Century Novelette:
Rank
Author : Title (Year)
1
Chiang, Ted : Hell Is the Absence of God (2001)
2
Chiang, Ted : The Merchant and the Alchemist’s Gate (2007)
3
Gaiman, Neil : A Study in Emerald (2003)
4
Bacigalupi, Paolo : The Calorie Man (2005)
5*
Link, Kelly : The Faery Handbag (2004)
5*
Bacigalupi, Paolo : The People of Sand and Slag (2004)
7
Ford, Jeffrey : The Empire of Ice Cream (2003)
8
Stross, Charles : Lobsters (2001)
9*
Mieville, China : Reports of Certain Events in London (2004)
9*
Watts, Peter : The Island
11
Reynolds, Alastair : Beyond the Aquila Rift (2005)
12
Doctorow, Cory : When Sysadmins Ruled the Earth (2006)
13*
Bacigalupi, Paolo : Yellow Card Man (2006)
13*
Bacigalupi, Paolo : The Fluted Girl (2003)
15
Gregory, Daryl : Second Person, Present Tense (2005)
16*
Bacigalupi, Paolo : Pump Six (2008)
16*
Egan, Greg : Dark Integers
18
Beagle, Peter S. : Two Hearts (2005)
19
Gardner, James Alan : The Ray-Gun: A Love Story
20
Swirsky, Rachel : Eros, Philia, Agape
21st Century Short Story:
Rank
Author : Title (Year)
1
Chiang, Ted : Exhalation (2008)
2
Lanagan, Margo : Singing My Sister Down (2004)
3
Gaiman, Neil : How to Talk to Girls at Parties (2006)
4
Watts, Peter : The Things (2010)
5*
Swanwick, Michael : The Dog Said Bow-Wow (2001)
5*
Le Guin, Ursula K. : The Bones of the Earth (2001)
7
Johnson, Kij : 26 Monkeys, Also the Abyss
8
Abraham, Daniel : The Cambist and Lord Iron (2007)
9*
Johnson, Kij : Spar (2009)
9*
Reynolds, Alastair : Zima Blue (2005)
11
Liu, Ken : The Paper Menagerie (2011)
12
Gaiman, Neil : October in the Chair (2002)
13
Resnick, Mike : Travels with My Cats (2004)
14
Ford, Jeffrey : Creation (2002)
15
Bear, Elizabeth : Tideline (2007)
16
Stross, Charles : Rogue Farm (2003)
17
McIntosh, Will : Bridesicle
18
Ellison, Harlan : How Interesting: A Tiny Man (2010)
19
Johnson, Kij : Ponies (2010)
20*
Fowler, Karen Joy : The Pelican Bar
20*
Fowler, Karen Joy : What I Didn’t See (2002)
Novel Categories
20th Century SF Novel:
Rank
Author : Title (Year)
1
Herbert, Frank : Dune (1965)
2
Card, Orson Scott : Ender’s Game (1985)
3
Asimov, Isaac : The Foundation Trilogy (1953)
4
Simmons, Dan : Hyperion (1989)
5
Le Guin, Ursula K. : The Left Hand of Darkness (1969)
6
Adams, Douglas : The Hitchhiker’s Guide to the Galaxy (1979)
7
Orwell, George : Nineteen Eighty-Four (1949)
8
Gibson, William : Neuromancer (1984)
9
Bester, Alfred : The Stars My Destination (1957)
10
Bradbury, Ray : Fahrenheit 451 (1953)
11
Heinlein, Robert A. : Stranger in a Strange Land (1961)
12
Heinlein, Robert A. : The Moon Is a Harsh Mistress (1966)
13
Haldeman, Joe : The Forever War (1974)
14
Clarke, Arthur C. : Childhood’s End (1953)
15
Niven, Larry : Ringworld (1970)
16
Le Guin, Ursula K. : The Dispossessed (1974)
17
Bradbury, Ray : The Martian Chronicles (1950)
18
Stephenson, Neal : Snow Crash (1992)
19
Miller, Walter M. , Jr. : A Canticle for Leibowitz (1959)
20
Pohl, Frederik : Gateway (1977)
21
Heinlein, Robert A. : Starship Troopers (1959)
22
Dick, Philip K. : The Man in the High Castle (1962)
23
Zelazny, Roger : Lord of Light (1967)
24
Wolfe, Gene : The Book of the New Sun (1983)
25
Lem, Stanislaw : Solaris (1970)
26
Dick, Philip K. : Do Androids Dream of Electric Sheep? (1968)
27
Vinge, Vernor : A Fire Upon The Deep (1992)
28
Clarke, Arthur C. : Rendezvous with Rama (1973)
29
Huxley, Aldous : Brave New World (1932)
30
Clarke, Arthur C. : 2001: A Space Odyssey (1968)
31
Vonnegut, Kurt : Slaughterhouse-Five (1969)
32
Strugatsky, Arkady & Boris : Roadside Picnic (1972)
33
Card, Orson Scott : Speaker for the Dead (1986)
34
Brunner, John : Stand on Zanzibar (1968)
35
Robinson, Kim Stanley : Red Mars (1992)
36
Niven, Larry (& Pournelle, Jerry) : The Mote in God’s Eye (1974)
37
Willis, Connie : Doomsday Book (1992)
38
Atwood, Margaret : The Handmaid’s Tale (1985)
39
Sturgeon, Theodore : More Than Human (1953)
40
Simak, Clifford D. : City (1952)
41
Brin, David : Startide Rising (1983)
42
Asimov, Isaac : Foundation (1950)
43
Farmer, Philip Jose : To Your Scattered Bodies Go (1971)
44
Dick, Philip K. : Ubik (1969)
45
Vonnegut, Kurt : Cat’s Cradle (1963)
46
Vinge, Vernor : A Deepness in the Sky (1999)
47
Simak, Clifford D. : Way Station (1963)
48
Wyndham, John : The Day of the Triffids (1951)
49
Stephenson, Neal : Cryptonomicon (1999)
50*
Delany, Samuel R. : Dhalgren (1975)
50*
Keyes, Daniel : Flowers for Algernon (1966)
52
Bester, Alfred : The Demolished Man (1953)
53
Stephenson, Neal : The Diamond Age (1995)
54
Russell, Mary Doria : The Sparrow (1996)
55
Dick, Philip K. : A Scanner Darkly (1977)
56*
Asimov, Isaac : The Caves of Steel (1954)
56*
Banks, Iain M. : Use of Weapons (1990)
58
Strugatsky, Arkady & Boris : Hard to Be a God (1964)
59
Delany, Samuel R. : Nova (1968)
60
Crichton, Michael : Jurassic Park (1990)
61
Heinlein, Robert A. : The Door Into Summer (1957)
62
L’Engle, Madeleine : A Wrinkle in Time (1962)
63*
Clarke, Arthur C. : The City and the Stars (1956)
63*
Banks, Iain M. : The Player of Games (1988)
65
Bujold, Lois McMaster : Memory (1996)
66
Asimov, Isaac : The End of Eternity (1955)
67
Stewart, George R. : Earth Abides (1949)
68*
Heinlein, Robert A. : Double Star (1956)
68*
Burgess, Anthony : A Clockwork Orange (1962)
70
Bujold, Lois McMaster : Barrayar (1991)
71*
Stapledon, Olaf : Last and First Men (1930)
71*
McHugh, Maureen F. : China Mountain Zhang (1992)
73
Cherryh, C. J. : Cyteen (1988)
74
McCaffrey, Anne : Dragonflight (1968)
75
Heinlein, Robert A. : Citizen of the Galaxy (1957)
20th Century Fantasy Novel:
Rank
Author : Title (Year)
1
Tolkien, J. R. R. : The Lord of the Rings (1955)
2
Martin, George R. R. : A Game of Thrones (1996)
3
Tolkien, J. R. R. : The Hobbit (1937)
4
Le Guin, Ursula K. : A Wizard of Earthsea (1968)
5
Zelazny, Roger : Nine Princes in Amber (1970)
6
Mieville, China : Perdido Street Station (2000)
7
Lewis, C. S. : The Lion, the Witch and the Wardrobe (1950)
8
Gaiman/Pratchett : Good Omens (1990)
9
Rowling, J. K. : Harry Potter and the Philosopher’s Stone (1997)
10
Crowley, John : Little, Big (1981)
11
Adams, Richard : Watership Down (1972)
12
Martin, George R. R. : A Storm of Swords (2000)
13
Goldman, William : The Princess Bride (1973)
14
Beagle, Peter S. : The Last Unicorn (1968)
15
White, T. H. : The Once and Future King (1958)
16
Kay, Guy Gavriel : Tigana (1990)
17
Gaiman, Neil : Neverwhere (1996)
18
Wolfe, Gene : The Book of the New Sun (1983)
19
Vance, Jack : The Dying Earth (1950)
20
Bulgakov, Mikhail : The Master and Margarita (1967)
21
Rowling, J. K. : Harry Potter and the Goblet of Fire (2000)
22
Tolkien, J. R. R. : The Silmarillion (1977)
23
Leiber, Fritz : The Swords of Lankhmar (1968)
24
Jordan, Robert : The Eye of the World (1990)
25
Rowling, J. K. : Harry Potter and the Prisoner of Azkaban (1999)
26
Donaldson, Stephen R. : Lord Foul’s Bane (1977)
27
Bradbury, Ray : Something Wicked This Way Comes (1962)
28
Peake, Mervyn : Gormenghast (1950)
29
Powers, Tim : The Anubis Gates (1983)
30
Martin, George R. R. : A Clash of Kings (1998)
31
Bradley, Marion Zimmer : The Mists of Avalon (1983)
32
Hobb, Robin : Assassin’s Apprentice (1995)
33
Pratchett, Terry : The Colour of Magic (1983)
34
Holdstock, Robert : Mythago Wood (1984)
35
King, Stephen : The Stand (1978)
36*
L’Engle, Madeleine : A Wrinkle in Time (1962)
36*
Pratchett, Terry : Small Gods (1992)
38
Howard, Robert E. : Conan the Barbarian (1950)
39
Ende, Michael : The Neverending Story (1983)
40
Peake, Mervyn : Titus Groan (1946)
41
McCaffrey, Anne : Dragonflight (1968)
42
Feist, Raymond E. : Magician (1982)
43
Orwell : George : Animal Farm (1945)
44
Silverberg, Robert : Lord Valentine’s Castle (1980)
45
Lovecraft, H. P. : At the Mountains of Madness (1936)
46
Swanwick, Michael : The Iron Dragon’s Daughter (1993)
47
King, Stephen : The Shining (1977)
48
Garcia Marquez, Gabriel : One Hundred Years of Solitude (1970)
49
Saint-Exupery, Antoine de : The Little Prince (1943)
50
Hughart, Barry : Bridge of Birds (1984)
51*
Rice, Anne : Interview with the Vampire (1976)
51*
King, Stephen : It (1986)
53
Stewart, Mary : The Crystal Cave (1970)
54
Mirrlees, Hope : Lud-In-The-Mist (1926)
55
Anthony, Piers : A Spell for Chameleon (1977)
56
Pullman, Philip : The Amber Spyglass (2000)
57
McKillip, Patricia A. : The Riddle-Master of Hed (1976)
58
Jackson, Shirley : The Haunting of Hill House (1959)
59
Brooks, Terry : The Sword of Shannara (1977)
60
Heinlein, Robert A. : Glory Road (1963)
61
Eddison, E. R. : The Worm Ouroboros (1922)
62
Le Guin, Ursula K. : Tehanu (1990)
63
Eddings, David : Pawn of Prophecy (1982)
64
Grimwood, Ken : Replay (1987)
65
Zelazny, Roger : Lord of Light (1967)
66
Grahame, Kenneth : The Wind in the Willows (1908)
67
Anderson, Poul : The Broken Sword (1954)
68
Kay, Guy Gavriel : The Lions of Al-Rassan (1995)
69
Barker, Clive : Imagica (1991)
70
Jones, Dianna Wynne : Howl’s Moving Castle (1986)
71*
Donaldson, Stephen R. : The Chronicles of Thomas Covenant
71*
Burroughs, Edgar Rice : A Princess of Mars (1917)
73*
Leiber, Fritz : Our Lady of Darkness (1977)
73*
Le Guin, Ursula K. : The Earthsea Trilogy
75
Priest, Christopher : The Prestige (1995)
21st Century SF Novel:
Rank
Author : Title (Year)
1
Scalzi, John : Old Man’s War (2005)
2
Stephenson, Neal : Anathem (2008)
3
Bacigalupi, Paolo : The Windup Girl (2009)
4
Wilson, Robert Charles : Spin (2005)
5
Morgan, Richard : Altered Carbon (2002)
6
Watts, Peter : Blindsight (2006)
7
Collins, Suzanne : The Hunger Games (2008)
8
Gibson, William : Pattern Recognition (2003)
9
Mieville, China : The City & the City (2009)
10
Stross, Charles : Accelerando (2005)
11
Mitchell, David : Cloud Atlas (2004)
12
McDonald, Ian : River of Gods (2004)
13
Simmons, Dan : Ilium (2003)
14
McCarthy, Cormac The Road (2006)
15
Harrison, M. John : Light (2002)
16*
Willis, Connie : Black Out/All Clear (2010)
16*
Chabon, Michael : The Yiddish Policemen’s Union (2007)
18
Niffenegger, Audrey : The Time Traveler’s Wife (2003)
19*
Ishiguro, Kazuo : Never Let Me Go (2005)
19*
Doctorow, Cory : Little Brother (2008
21
McDonald, Ian : The Dervish House (2010)
22
Vinge, Vernor : Rainbows End (2006)
23
Stephenson, Neal : The Baroque Cycle: The Confusion; The System of the World (2004)
24
Robinson, Kim Stanley : The Years of Rice and Salt (2002)
25
Mieville, China : Embassytown (2011)
21st Century Fantasy Novel:
Rank
Author : Title (Year)
1
Gaiman, Neil : American Gods (2001)
2
Clarke, Susanna : Jonathan Strange & Mr Norrell (2004)
3
Rothfuss, Patrick : The Name of the Wind (2007)
4
Mieville, China : The Scar (2002)
5
Rowling, J. K. : Harry Potter and the Deathly Hallows (2007)
6
Martin, George R. R. : A Feast for Crows (2005)
7
Bujold, Lois McMaster : The Curse of Chalion (2001)
8
Mieville, China : The City & the City (2009)
9
Fforde, Jasper : The Eyre Affair (2001)
10
Gaiman, Neil : Coraline (2002)
11
Wolfe, Gene : The Wizard Knight (2004)
12*
Bujold, Lois McMaster : Paladin of Souls (2003)
12*
Pratchett, Terry : Going Postal (2004)
12*
Pratchett, Terry : Night Watch (2002)
15
Lynch, Scott : The Lies of Locke Lamora (2006)
16
Abercrombie, Joe : The Blade Itself (2006)
17
Gaiman, Neil : The Graveyard Book (2008)
18
Jemisin, N. K. : The Hundred Thousand Kingdoms (2010)
19
Le Guin, Ursula K. : Lavinia (2008)
20
Sanderson, Brandon : Mistborn (2006)
21
Rowling, J. K. : Harry Potter and the Half-Blood Prince (2005)
22
Le Guin, Ursula K. : The Other Wind (2001)
23
Gaiman, Neil : Anansi Boys (2005)
24*
Novik, Naomi : His Majesty’s Dragon (2006)
24*
Kay, Guy Gavriel : Under Heaven (2010)

>> FALLING INTO INFINITY – por Ricardo Lourenço


SACI PERERÊ: UM MITO RACISTA?

quarta-feira | 9 | janeiro | 2013

saci não existeHá tempos li um artigo que condenava o mito do Saci “lobatiano” por ser esse fruto do racismo. Não entendi. Afinal, até que se prove o contrário, Monteiro Lobato não criou o mito do Saci (aliás, se ele o tivesse criado, este não seria, a rigor, um mito) e nem lhe deu uma forma específica. Talvez com a Cuca, a qual ele deu feições de réptil. Mas o Saci como moleque negro, de uma perna só e barrete vermelho na cabeça, já fazia parte do imaginário popular no ano de 1917, quando Monteiro Lobato resolve abrir um “inquérito” sobre essa figura mitológica.

Existem sim algumas variantes apresentadas no próprio livro. Há quem o tenha visto com um pé de cabra. Outro que lhe tenha metido um par de chifres na testa (como se a carapuça não fosse o suficiente para enfeitar-lhe a cabeça); outro que o colocou com duas pernas, sendo manco de uma delas. Isso tudo, no entanto, só demonstra uma verdade: o Saci é um mito em eterna construção. Já é quase consenso que surgiu como um mito indígena. O escritor Olívio Jekupé defende incessantemente essa tese, mostrando que o mito era um índio protetor da floresta e dos animais, chamado Kamba’i ou Jaxi Jatere. Tal fato já era aceito – ou ao menos suspeitado – já no século XIX. O pesquisador Adelino Brandão cita o testemunho de Couto de Magalhães, o qual registrou que o saci era “um pequeno tapuio, manco de um pé, com um barrete vermelho e uma ferida em cada joelho”.[1] No próprio “Inquérito” aberto por Lobato, aparece como origem do mito que este “vem do autochtone que lhe deu o nome actual, corruptela de ‘çaa cy perereg’”.[2] Adelino Brandão acrescenta ainda que “o saci nativo [dos índios] era uma ave, companheira do Caipora, tinha o corpo de pássaro e uma perna só”.[3] Do tapuia de duas pernas ao caboclinho e deste para o negro unípede, o processo de transformação visual foi resultante da reelaboração e recriação do mito, aliás, uma dinâmica constante e esperada em toda criação mitológica.

Desse modo, dentro de um processo natural, o mito sofre influências das outras culturas com as quais vai tendo contato. Outra vez recorrendo ao Inquérito do Monteiro Lobato, este diz que, com certa ironia, que o Saci “acabará ainda soffrendo a influencia do italiano”.[4] E o pesquisador José Carlos Rossato ensina que “é muito maior do que se pensa a influência lusitana do nosso Saci”,[5] recorrendo às histórias portuguesas do “Fradinho da Mão Furada” para relacioná-lo à construção imagética do Saci brasileiro. Aliás, brasileiro mesmo, pois o próprio Rossato explica que “Ele [o Saci] não é privilégio brasileiro. Outros países também conhecem o Saci”.[6] E acrescente-se ainda o que diz Brandão a esse respeito: “Não é mito exclusivamente brasileiro. Também faz parte das tradições argentinas, do Uruguai, do Paraguai e, praticamente, de todos os folclores sul-americanos”.[7]

Certo é que Monteiro Lobato ajudou a difundir a imagem do Saci dentro das características gerais que já compunham o mito nos idos de 1917, data do seu “Inquérito”. A variação de aspectos secundários é comum em todos os outros mitos. Não há sequer uma história de assombração ou de seres fantásticos que não sofra variações. No entanto, parece que é exatamente nesses aspectos secundários que se escoram aqueles que defendem ser o Saci um mito racista. O Saci aparece com chifres na cabeça e um porrete na mão, na ilustração da capa do livro “Sacy-Perêrê – Resultado de um Inquérito”. Pois então alguém já supôs que isso fosse a demonização do mito e, pior, que o intuito do Lobato era exatamente promover a desqualificação do negro associando-o a um “demônio”. A imagem da capa é resultante de um dos depoimentos dados no “Inquérito”, o qual apresentou o Saci com chifres. Associação com o demônio cristão? Pode ser. Mas não foi o Saci de chifres que Monteiro Lobato difundiu e usou em suas obras, especialmente as infantis. O Saci do Sítio do Picapau Amarelo não possuía chifres. Mas está na capa do livro… Sim, está. E os chifres estão, ainda, na cabeça de imagens de Exu. Seria este um orixá racista por portar chifres?

Aliás, há muito mais relações entre a imagem atual do Saci com a mitologia africana. Um exemplo disso é o auxiliar do orixá Ossain ou Ossaim, chamado Aroni. Este, para quem ainda não conhece, é “um misterioso anãozinho perneta que fuma cachimbo (figura bastante próxima ao Saci-Pererê), possui um olho pequeno e o outro grande (vê com o menor) e tem uma orelha pequena e a outra grande (ouve com a menor). Muitas vezes Aroni é confundido com o próprio Ossaim, que, segundo dizem, também possui uma única perna”.[8] O pesquisador Ademir Barros dos Santos já havia alertado para tal semelhança.

E como fica agora? Aroni, por ser responsável “por causar o terror em pessoas que entram na floresta sem a devida permissão”[9], anão perneta, com olhos e orelhas irregulares (uma maior do que a outra), também é um ser que possa ser associado ao demônio e, por isso, e pelo fato de ser negro africano, é um mito racista? Se não, por que o Saci o é? Simplesmente porque Monteiro Lobato ajudou a divulgar o mito? É somente por isso, ou seja, pela origem? Se vem de Lobato, só pode ser racista? É fato que Monteiro Lobato defendia a eugenia. E, caso não saibam, a ciência da época dele também. Ele estava em sintonia com o que havia de mais avançado no pensamento da época. Anacronismo sem sentido julgar um pensamento do passado com parâmetros do presente.

É possível que alguns ficassem espantados em saber que Monteiro Lobato, em relação ao Saci, disse, pela boca do Tio Barnabé, que “O Saci não faz maldade grande, mas não há maldade pequenina que não faça”.[10]Maldade pequena, ou seja, traquinagem. E traquinagens é com ele mesmo. O folclorista e escritor Waldemar Iglésias Fernandes recolheu uma história em Sorocaba na qual “o Saci apareceu numa casa e ‘garrou a fazer estrepolias, correndo dentro da casa e dando aqueles assobios de deixar todo mundo louco!”.[11] Para o renomado folclorista Alceu Maynard Araújo, o Saci “não é maldoso, porém brincalhão como toda criança é”.[12] Para muitos, o Saci é uma espécie de “Gnomo” – esse, europeu – que é “bastante brincalhão e adora pregar peças nos homens”.[13]

Em outras versões, o Saci ganhou a sua carapuça de Deus para que pudesse “tornar-se invisível aos olhos do Diabo”.[14] Portanto, a associação do Saci com o demônio não é unânime e é tão sem sentido quanto associar o orixá Exu ou mesmo o ajudante de Ossaim, Aroni, com o diabo cristão. Dessa forma, se há quem associe o Saci ao diabo, também há quem o faça com os orixás (se não com todos, com alguns pelo menos). Isso não torna os orixás uma crença ou mito racista. Também não deve, por analogia, transformar o Saci numa representação similar.

É possível mesmo que os negros tenham dado a forma final no aspecto visual do Saci como hoje o conhecemos. Essa é a opinião de muitos pesquisadores. Adelino Brandão, por exemplo, salienta que “é a figura domoleque sob a qual aparece o Saci atual. A influência africana aí nos parece fora de discussão”.[15] Monteiro Lobato também é da opinião de que o mito “soffreu o influxo africano, passando de caboclinho a molecote”.[16] E Pierre de Oliveira concebe que “o saci por exemplo é um Gnomo que veio junto com os negros da África”.[17]

Coincidentemente – ou nem tanto – o mito como o conhecemos hoje tem sua gênese exatamente no auge da escravidão no Brasil, do século XVIII ao XIX.[18] O jornalista Mouzar Benedito vê nessa caracterização do Saci uma estratégia de sobrevivência dentro das relações escravocratas. Assim, tudo o que ocorria fora da conformidade do senhor, era atribuído ao Saci e, dessa forma, segundo o jornalista, os negros escravizados escapavam muitas vezes dos castigos. Nas próprias palavras de Mouzar Benedito, “Era algo muito esperto da parte delas porque, por exemplo, elas sabiam que se errassem a mão em uma comida, seriam castigadas porque o senhor de escravos não tinha nenhum pouco de bondade. Então quando erravam no sal diziam ‘Ah, passou o Saci aqui e jogou sal na comida’. Em uma revolta na senzala, o líder que a comandasse, quando era novamente dominado respondia ao senhor que perguntava quem havia iniciado (caso se apresentasse, o líder seria no mínimo, marcado a ferro) e ele dizia que foi o negrinho de uma perna só que havia passado por lá”.[19]

Assim, o Saci foi aliado dos negros durante a escravidão. Ouso dizer que mais do que aliado. Foi a cristalização dos anseios dos escravizados em construir um mito heroico que burlasse o sistema escravista sem que o senhor branco pudesse fazer nada em relação a isso.

O Saci é todo símbolo da liberdade. Cavalga os redemoinhos de vento – símbolo maior da liberdade – controlando-os e indo de um lado para o outro sem que ninguém consiga impedi-lo. O vento é incontrolável. Jesus disse: “O vento assopra onde quer” (Jo 3.8). O Saci tem a liberdade da locomoção, mesmo sendo perneta. Aliás, há quem diga que corre tão rápido que aparenta ser perneta, ainda que não seja.[20] “Corre como um raio, aparece e desaparece, cresce e diminui”.[21] Carrega na cabeça uma carapuça ou barrete que também é símbolo da liberdade. Adelino Brandão, já citado largamente aqui, diz que “o barrete frígio, símbolo da liberdade e dos ideais republicanos, costuma ser vermelho [como o do Saci] também”.[22] E continua, nos ensinando que “O barrete do Saci, por seu turno, ainda se presta a outras considerações, além das vistas. Muitos séculos antes de Cristo, nas saturnais romanas, encontramos o “pileus” – carapuça de cor vermelha que simbolizava a liberdade. O pileus era também o emblema do escravo fôrro segundo os costumes da antiguidade latina”.[23]

Não é à toa que todas as histórias sobre Saci dizem que quem obtiver a carapuça dele será seu senhor. Monteiro Lobato dizia, pela boca de Tio Barnabé, que “a força dele [Saci] está na carapuça, como a força de Sansão estava nos cabelos. Quem consegue tomar e esconder a carapuça de um saci, fica por toda a vida senhor de um pequeno escravo”.[24] Pudera, pois a carapuça é o que simboliza a sua liberdade! Por isso, “embora negro, o Saci, pelo barrete vermelho que ostenta, é livre. Por isso se vinga igualmente dos brancos, enfernizando-lhes a vida”.[25]

E é, certamente, o único negro que durante a escravidão podia azucrinar – ou infernizar, como disse o Adelino Brandão – a vida do branco sem que houvesse consequências disso para ele. Ninguém podia açoitar o Saci ou amarrá-lo a um tronco. O máximo que poderia ser feito contra ele era capturá-lo num redemoinho de vento e engarrafa-lo. Mesmo assim, deveria tirar-lhe a carapuça. Caso contrário… “perturba a vida doméstica, apagando o fogo e queimando os alimentos. Espanta também os animais. Assusta os viajantes, pedindo fumo”[26]; e não contente, sai “assaltando o viandante retardatário, nas noites aziagas das sextas-feiras”.[27] Por fim, salta “na garupa dos cavalos dos viajantes”.[28]

Para completar o quadro, o Saci usa dos furos das suas mãos para fraudar a crueldade do sistema escravista. É comum os relatos de fazendeiros que obrigavam a seus escravos carregarem brasas nas palmas das mãos com a finalidade de acender charutos ou cigarros. Nerize Quevedo Portela descreve uma cena como essa: “E o Coronel fumava seu charuto e a toda hora ele chamava uma escrava e dizia: ‒ Ô coisa preta – era como ele chamava seus escravos. ‒ Traz brasa para acender meu charuto, anda rápido! Então o coitado do escravo ou da escrava já tremia, porque sabia que tinha que trazer na palma da mão. Ele só aceitava se fosse na palma da mão. Os coitados sofriam demais”.[29] Para quem acredita que se trata apenas de uma obra de ficção, o relato Maria Arlete Ferreira da Silva, inserido no RELATÓRIO DO GRUPO DE TRABALHO CLÓVIS MOURA (2005-2010), não deixa dúvida na existência dessa prática durante a escravidão: “a tia Salomé, foi escravizada e tinha as marcas no corpo, a orelha rasgada, a mão queimada, pois era obrigada a levar a brasa na mão para o seu senhor acender o cigarro de palha e muitas vezes ficava segurando a brasa até que ele fizesse o cigarro para depois acendê-lo”.[30]

O Saci tinha seus furos nas mãos e com eles satirizava a tentativa dos senhores brancos de impor a ele o mesmo castigo que impunham aos seus escravos. “Se encontra ainda alguma brasa, malabarisa com ella e ri-se perdidamente quando acontece cahir a brasa pelo furo das mãos”, informa Monteiro Lobato.[31] O mesmo Lobato acrescenta: “Tem as mãos furadinhas bem no centro da palma; quando carrega brasa, vem brincando com ela, fazendo ela passar de uma para a outra mão pelo furo”.[32] E Adelino Brandão finaliza: “Graças a esta particularidade anatômica, diverte-se assustando as pessoas que pernoitam no campo, à roda das fogueiras, retirando as brasas que joga para cima fazendo-as passar pelo buraco da mão”.[33]

O Saci zombava da tentativa de impor a crueldade do sistema escravista a um “moleque” brejeiro e matreiro. Matreiro que, como ensina o lexicógrafo Cândido de Oliveira, significa astuto, manhoso, sagaz, pessoa esperta.

Acresce-se ainda que a intenção explícita de Monteiro Lobato quando criou o Inquérito do Saci foi o de valorizar a cultura brasileira que estava perdendo espaço para a invasão cultural – na época – francesa. Todo o livro vai para esse rumo. É sintomático que logo na abertura ele descreva o caso de uma pessoa que estava indignada com os anões de jardins – gnomos europeus – e propunha que se trocasse por sacis. Afirmou mesmo que sendo “filho da imaginação collectiva o Sacy é uma resultante psychica do nosso povo” e que “é estudando taes manifestações [da psíquica coletiva] que poderemos conhecer o povo; que o conhecimento traz a comprehensão, e a comprehensão traz o amor”.[34]

O Inquérito sobre o Saci é, portanto, um libelo pela cultura nacional, de construção coletiva. Não é uma obra de difusão do racismo ou coisa que o valha. Assim como, em princípio, o mito do Saci também não é.

[1] BRANDÃO, Adelino. Euclides e o Folclore. Jundiaí (SP): Literarte, 1985, p. 44.
[2] LOBATO, Monteiro. Sacy-Perêrê – Resultado de um Inquérito [edição fac-similar]. Rio de Janeiro: Gráfica JB S. A., 1998, p. 20.
[3] BRANDÃO, Op. Cit, 1985, p. 44.
[4] LOBATO, Op. Cit, 1998, p. 20.
[5] ROSSATO, José Carlos. Saci. São José dos Campos (SP): Fundação Cultural Cassiano Ricardo, s/d, p. 18.
[6] ROSSATO, Op. Cit, s/d, p. 15.
[7] BRANDÃO, Op. Cit, 1985, p. 43.
[8] Candomblé – O mundo dos orixás. Disponível em: http://ocandomble.wordpress.com/os-orixas/ossaim/ Acesso em 04 jan 2013.
[9] Idem acima.
[10] LOBATO, Monteiro. O Saci. São Paulo: Brasiliense, 1952, p. 185.
[11] FERNANDES, Waldemar Iglésias. 52 estórias populares (Sul de São Paulo e Sul de Minas). Piracicaba (SP): Editora Franciscana, 1978, p. 93.
[12] ARAÚJO, Alceu Maynard. Brasil – Histórias, Costumes e Lendas. São Paulo: Editora Três, 2000.
[13] OLIVEIRA, Pierre de. O Livro dos Gnomos. São Paulo: PEN, 1992, pp. 15 – 16.
[14] ROSSATO, Op. Cit, s/d, p. 25.
[15] BRANDÃO, Adelino. Presença do Saci. In Revista do Arquivo Municipal. São Paulo: Prefeitura Municipal de São Paulo, 1971, p. 30.
[16] LOBATO, Op. Cit, 1998, p. 20.
[17] OLIVEIRA, Op. Cit, 1992, p. 15.
[18] ROSSATO, Op. Cit, s/d.
[20] SASS, Roselis Von. Revelações inéditas da História do Brasil. São Paulo: Ordem do Graal na Terra, 1983, p. 65.
[21] SANTOS, Theobaldo Miranda. Lendas e Mitos do Brasil. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1987, p. 119.
[22] BRANDÃO, Op. Cit, 1971, p. 23.
[23] Idem, p. 31.
[24] LOBATO, Op. Cit, 1952, p. 185.
[25] BRANDÃO, Op. Cit, 1971, p. 31.
[26] ARAÚJO, Op. Cit, 2000.
[27] CUNHA, Euclides da. Os Sertões. São Paulo: Nova Cultural, 2002, p. 90.
[28] LOPES NETO, João Simões. Lendas do Sul. Porto Alegre: Editora Globo, 1983, p. 110.
[29] PORTELA, Nerize Quevedo. A velha da Gruta e outras histórias. São Paulo: Biblioteca24 horas, 2011, p. 176.
[31] LOBATO, Op. Cit, 1998, p. 73.
[32] LOBATO, Op. Cit, 1952, p. 188.
[33] BRANDÃO, Op. Cit, 1971, p. 20.
[34] LOBATO, Op. Cit, 1998, pp. 20 – 21.

>> SPARTACUS EM PROL DA LIBERDADE – por Carlos Carvalho Cavalheiro


UMA INTRODUÇÃO À LITERATURA FANTÁSTICA

terça-feira | 8 | janeiro | 2013

Hand_with_Reflecting_Sphere

Não há povo e não há homem que possa viver sem ela [a literatura], isto é, sem a possibilidade de entrar em contato com alguma espécie de fabulação. Assim como todos sonham todas as noites, ninguém é capaz de passar as vinte e quatro horas do dia sem alguns momentos de entrega ao universo fabulado [...] a literatura é o sonho acordado das civilizações. – Antonio Cândido. O direito à literatura. In: Vários escritos. São Paulo: Duas Cidades, 1995.

A Literatura é um fenômeno social/cultural nascido de gêneros milenares, que permanecem vivos apesar da passagem dos séculos. Em geral cada civilização gerou os mitos ligados às crenças de cada povo e às suas maneiras de ver o mundo. Entrelaçados com o desenvolvimento da linguagem e da filosofia, as narrativas mitológicas constituem-se em relatos sobre deuses, heróis e antepassados, estruturados em torno de arquétipos – modelos ideais que permanecem até hoje no inconsciente humano, segundo Carl Gustav Jung. Com o passar do tempo, as narrativas religiosas que constituíam os mitos perderam seu valor sagrado para nós, mas permaneceram nas narrativas profanas que continuaram na boca do povo, mudando de forma, emigrando para novas terras, revestindo-se de novas roupagens e adereços.

Assim nasceram os relatos que hoje chamamos contos de fadas, contos maravilhosos ou contos folclóricos; mora neles o que restou dos elementos dos mitos, depois que eles foram dessacralizados. E não existe obra literária antiga ou moderna, que não tenha raízes nessas narrativas ancestrais.

Ora, mitos e contos folclóricos são a matéria-prima do subgênero, pertencente aos gêneros romance e novela, que chamamos de Literatura Fantástica. Contudo, por um motivo ou outro, acabaram incluídas nesse amplo “rótulo” tendências tão distintas quanto o que chamamos de Literatura Gótica, de Horror, de Ficção Científica, de Fantasia. Esses subgêneros propiciaram ainda o surgimento de um outro sub-subgênero: o dos livros ligados aos RPGs (Role-Playing Games, jogos de interpretação em que o jogador representa um personagem, em ambientações características dos universos de fantasia), e que podem pertencer a três tipos: os livros-jogos (também chamados aventuras-solo), os complexos livros de regras para jogar, e as novelas elaboradas em torno de elementos de determinados sistemas de jogo.

Vamos encontrar ainda o fantástico na Literatura Clássica, com elementos de mitologia presentes nas manifestações literárias Líricas e Épicas. E na Era Medieval na Europa testemunhamos o choque entre o pensamento Cristão e o Pagão, evidente nas canções, poemas trovadorescos e lais. Além disso, na Idade Média temos o nascimento dos romances viejos, que dariam origem ao romance cortês e às novelas de cavalaria. Nessas obras, embora arcaicas e hoje de difícil leitura, existe grande misticismo e certos elementos que reconhecemos com facilidade: heróis, feiticeiros, espectros, animais míticos, objetos mágicos, seres elementais (são estes os seres ligados aos quatro elementos, ar, água, terra, fogo – as ninfas, silfos, elfos, goblins…).

Com o Renascimento, a partir do século XV, vemos na literatura a tentativa de se equilibrar o pensamento Cristão com a filosofia greco-romana; busca-se um humanismo que se sobreponha ao misticismo medieval. Apesar disso, aqueles mesmos elementos fantásticos permaneceram nesse período que gerou a Literatura chamada Clássica. Em Cervantes, Shakespeare, Camões, até Dante, ainda trombamos com seres mágicos, míticos, sobrenaturais. Seguindo para o período Pré-Romântico (entre 1700 e 1800) veremos a consagração da forma literária do romance, marcado ainda por novelas de cavalaria e romances picarescos medievais, repletos de aventuras heróicas.

Diz Ítalo Calvino no livro Contos Fantásticos do Século XIX que o conto fantástico propriamente dito nasce da especulação filosófica entre os séculos XVIII e XIX.

“Seu tema é a relação entre a realidade do mundo que habitamos e conhecemos por meio da percepção, e a realidade do mundo do pensamento que mora em nós e nos comanda. O problema da realidade daquilo que se vê – coisas extraordinárias que talvez sejam alucinações projetadas por nossa mente; coisas habituais que talvez ocultem, sob a aparência mais banal uma segunda natureza inquietante, misteriosa, aterradora – é a essência da literatura fantástica, cujos melhores efeitos se encontram na oscilação de níveis de realidade inconciliáveis”.

Ainda segundo Calvino, a literatura fantástica nasceu com o Romantismo alemão – é fácil fazer a ligação do povo alemão, também chamado Godo, ou Gótico, com o que hoje chamamos de novela gótica. O autor mais importante nessa vertente seria Hoffmann. Os autores ingleses também foram fundamentais no estabelecimento de uma literatura que privilegia a narrativa fantasiosa: Poe é considerado o mais influente de todos, embora alguns autores acreditem que a primeira novela de terror propriamente dita seja o Castelo de Otranto, de Horace Walpole. Já na França teremos até autores como Balzac também se dedicando à narrativa fantástica. Foi ainda o francês Galland quem traduziu As 1001 Noites, trazendo à Europa o sabor das narrativas árabes, repletas de djins e magos.

Na imensa lista de nomes ligados ao Romantismo, é difícil na verdade encontrar quem não tenha escrito ao menos alguns contos em que imperam o maravilhoso, o extraordinário, o fantasmagórico. Em alguns textos nos defrontamos tanto com seres míticos e fantasmas, quanto com cientistas insanos e detetives inusitados. Nessa época, aliás, é que irão nascer esses vários “compartimentos” que até então estavam misturados, porém separar-se-iam no futuro, embora acabassem incluídos na mesma “prateleira”, por assim dizer.

-  O romance de aventuras marítimas da época daria origem à ficção científica; de Daniel Defoe a Jules Verne, passando por H.G.Wells, eles abririam o caminho para Ray Bradbury, Arthur C. Clarke, Isaac Asimov…

-  O romance gótico em si – aventuras fantasmagóricas, urbanas e sinistras, que gerariam as novelas vampíricas, o gênero específico de Terror e até o universo Cyberpunk; aqui os ingleses foram mestres, com Mary Shelley, Robert Louis Stevenson e Bram Stoker, prenunciando autores como H. P. Lovecraft, Anne Rice, Stephen King…

-  O romance de mistério, que começa com Wilkie Collins e Edgard Alan Poe, avô do atual gênero policial.

-  O romance de imaginação – segundo a Profª Nelly Novaes Coelho, temos aqui obras em que a fantasia transfigura a realidade cotidiana; nesta vertente incluiríamos não apenas obras com estrutura de contos de fada, e os “mundos inventados” tão comuns hoje em dia, mas também o Realismo Mágico latino-americano. Neste caminho teremos autores tão diversos quanto Kafka, Jorge Luís Borges e Gabriel Garcia Márquez; e os ingleses e americanos que deixaram sua marca ao criar não apenas alguns contos e seus personagens, porém universos inteiros: J.R.R. Tolkien, C.S.Lewis, Ursula Le Guin, Marion Zimmer Bradley, Diana Wynne Jones, Frank Herbert (que, apesar de ser rotulado como autor de ficção científica, também transita por aqui).

Acrescentaríamos ainda uma categoria satírica, reunindo os autores que satirizam esses universos e tecem novos clássicos, assim como Cervantes gerou o que talvez seja o maior de todos os clássicos ao satirizar o Romance de Cavalaria… Temos então obras como O Guia do Mochileiro das Galáxias de Douglas Adams ouA Cor da Magia e suas seqüências, por Terry Pratchett.

Mais uma vez recorrendo a Calvino, encontramos uma análise de Tzvetan Todorov, afirmando que na verdade o que distingue o “fantástico” narrativo é uma perplexidade diante de um fato inacreditável, a hesitação entre uma explicação racional e realista e o acatamento do sobrenatural.

Tolkien solucionou esse dualismo entre realidade e não-realidade criando os conceitos de Mundo Primário e Mundo Secundário; ou seja, o mundo em que vivemos é o Primário, mas o autor cria um universo Secundário derivado dele, em que o leitor penetra ao fruir da Literatura; e é nesse que tudo é possível, desde que respeitadas as leis particulares daquele universo. Ao ler fantasia, concordamos, então, em abdicar de nossos conceitos e preconceitos civilizados e embarcamos na leitura, conscientes de que na Terra-média, poderemos virar a estrada e ser atacados por um bando de orcs; que numa Londres Gótica ou na Transilvânia pode haver sombras ameaçadores em cada esquina; que em Nárnia é preciso conformar-se à ética de um Leão; e que em muitos mundos não se deve zombar de velhos estranhos que levam cajados cheios de inscrições rúnicas, ou levar para casa pedras estranhas que podem ser ovos de dragões…

O mais fantástico da Literatura Fantástica, porém, é que ela se mantém mais forte que nunca com o passar dos anos, dando origem a inúmeros filmes, peças de teatro e seriados, apesar de ser considerada pela crítica especializada um gênero menor… Quanto a nós, leitores, continuamos abdicando de nossos Mundos Primários e mergulhando com o maior prazer possível nesses Mundos Secundários em que, talvez, encontremos não apenas a fantasia, mas a nós mesmos.

Leituras sugeridas:
Calvino, Ítalo (org.). Contos fantásticos do século XIX. São Paulo: Companhia das Letras, 2004.

Coelho, Nelly Novaes. Conto de fadas, O. São Paulo: Ática, 1987 / Literatura e Linguagem. São Paulo: Vozes, 1994.

Lopes, Reinaldo José. A Árvore das Estórias: Uma proposta de tradução para Tree and Leaf, de J.R.R. Tolkien. Dissertação de mestrado da FFLCH – USP, 2006.

>> VALINOR – por Rosana Rios


ANTROPOFAGIA NA FICÇÃO CIENTÍFICA

segunda-feira | 7 | janeiro | 2013

Brasil tem tudo para avançar no gênero ficção científica
e reprocessar as convenções literárias que assimilou

Obras estrangeiras, como o filme 2012, exploram o potencial do gênero ficção científica que Brasil hesita em assimilar

Em 1988, o escritor Ivan Carlos Regina publicou no fanzine paulistano Somnium o Manifesto Antropofágico da Ficção Científica Brasileira, cujo texto pode ser lido aqui: <http://bit.ly/eStPSp&gt;. Não era a primeira nem a última vez que alguém cobrava dos escritores brasileiros de ficção científica (FC) uma literatura, que, mesmo usando temas e imagens de literaturas estrangeiras (o que é natural, e talvez inevitável), refletisse sobre o Brasil, ao menos tanto quanto o faz a nossa literatura mainstream, a literatura mimética, realista, de enfoque social ou psicológico.

Se há cobrança para que a FC discuta conteúdos brasileiros é porque ela não é mero gênero literário. Faz parte de um movimento cultural mais amplo. Em países como os EUA e a Inglaterra (que são seu eixo, sua matriz histórica), o gênero é um discurso literário que se interliga com a discussão científica, a ambiental, os movimentos políticos que questionam os usos de novas tecnologias. A ficção científica tem, nesses países, interfaces com os movimentos sociais alternativos, por um lado, e com as elites militares e aeroespaciais, por outro. Serve como caixa de ressonância e balão de ensaio para ideias, teorias e especulações de todo um espectro de grupos que vai da direita à esquerda, dos altos escalões do poder científico às subculturas e contraculturas marginais, com ramificações no rock, no cinema experimental, nos quadrinhos. Isto faz da ficção científica umambiente cultural, algo mais heterogêneo, amplo e contraditório do que um gênero literário; e exige dela uma série de compromissos e de respostas que ninguém exigiria da literatura mainstream em geral.

FC nacional
O crítico Peter Nicholls, criador e editor da Encyclopedia of Science Fiction, afirma: “A FC muitas vezes oscila entre o sublime e o ridículo, mas no cômputo geral ela encara de frente verdades que são incômodas, e também algumas que são agradáveis, com uma honestidade muito mais devastadora do que a ficção mimética seria capaz.”

A FC, segundo Isaac Asimov, tem como tema as mudanças produzidas por descobertas científicas ou pela criação de novas tecnologias. Uma das suas alegorias visuais famosas é o osso que se transforma em espaçonave em 2001, uma Odisseia no espaço (1968), de Stanley Kubrick. O primeiro instrumento, improvisado ao acaso por um humanoide, gerou toda uma babilônia de tecnologia e poder. Note-se que, na mesma sequência do filme, a caneta do cientista escapa de seu bolso e baila no ar, ao som de Danúbio azul. A caneta (a linguagem, a escrita, a ciência teórica, a literatura) faz parte dessa linha evolutiva de instrumentos.

Síntese
Não se pode determinar por decreto que um escritor, de ficção científica ou não, tem de escrever sobre seu país. Quando a crítica manifesta esperança de que a FC brasileira (ou a poesia ou o cinema brasileiros, etc.) diga algo sobre o Brasil, a expectativa se dirige a um conjunto de obras amplo e poderoso o bastante para influir no modo como o país pensa a seu próprio respeito. Temos essa expectativa, não por patriotismo ou xenofobia, mas porque a literatura brasileira (qualquer uma) é redigida, publicada e lida por brasileiros. O Brasil cedo ou tarde emerge nessa ficção, com a força sísmica de todo “retorno do reprimido”.

Qualquer escritor quer fazer suas próprias escolhas de ambientação e temática. Não quer ser aconselhado a ambientar suas histórias em outros países “porque é moderno”, ou em seu próprio país “porque é patriótico”. Uma obra literária é uma síntese problemática entre as convenções literárias a que se filia (sempre existem), o ambiente cultural e extraliterário de onde surge, e as idiossincrasias do autor. Quando um autor brasileiro de FC parece refletir o Brasil de forma insuficiente em seus livros, talvez seja porque seu ambiente e suas idiossincrasias o inclinam a reproduzir, sem reprocessar, as convenções literárias que assimilou.

Em Ficção científica brasileira: mitos culturais e nacionalidade no país do futuro (Devir, São Paulo, 2005), M. Elizabeth Ginway observa que há um sentimento, entre os autores brasileiros, de que a modernização, especialmente sob a forma de importação de tecnologia, é uma repetição da experiência colonial. Essa atitude cautelosa em relação a uma modernidade vinda de fora nos parece natural, mesmo que a desconfiança inicial possa ser logo substituída por um frenesi importador. Esse tipo de reação se reproduz em nossa atitude diante da própria FC, que é um instrumento narrativo fascinante, mas às vezes parece ter sido criado e formatado para contar histórias diferentes das nossas.

Talvez, contudo, a FC seja como o rádio portátil que o caipira ganhou de presente na Itália e não quis trazer para o Brasil porque o rádio só falava italiano. Trazido para cá, o rádio da FC começa a captar transmissões que estavam sendo feitas há séculos, mas de cuja existência ninguém suspeitava, por não haver instrumento que as captasse.

A FC brasileira tem mostrado que pode “antropofagizar” os temas e as estruturas narrativas da FC estrangeira. Kim Stanley Robinson afirmou que talvez a ciência mais importante dentro da ficção científica não fosse a Física nem a Astronomia, mas a História. Se a FC é de fato um exame literário, imaginativo, das consequências possíveis das mudanças científicas, todo o seu corpus literário é um conjunto de Histórias possíveis da raça humana.

A obra de FC do carioca Gerson Lodi-Ribeiro, por exemplo, tem sido uma reflexão constante sobre as virtualidades da História, explorando o subgênero clássico da História Alternativa. O que teria acontecido se o Brasil tivesse perdido a Guerra do Paraguai? E se o Quilombo dos Palmares tivesse se transformado num reino negro independente? E se os holandeses nunca tivessem sido expulsos do Brasil? As ramificações sociais dessas reviravoltas na política são o pano de fundo para histórias fantásticas em Brasis que somos forçados a comparar com o nosso. O escritor e designer Octávio Aragão, por sua vez, criou o ciclo de histórias da Intempol, universo compartilhado por vários escritores, que conta as aventuras da Polícia do Tempo, cujos agentes (seguindo o modelo da Time Patrol de Jack Williamson e outras FCs internacionais) viajam para o passado e o futuro para prevenir crimes e transgressões.

As histórias de FC de Roberto de Sousa Causo, abordando aventuras militares na Amazônia, têm similares estrangeiros, mas a inserção no ambiente físico e social brasileiro as projeta num outro nível de significação e extrai delas outros critérios de plausibilidade. Até a FC hard de Jorge Luiz Calife, ambientadas num futuro remoto e nos confins da Galáxia, mantêm o vínculo com o Brasil e suas contradições; funcionam como um gigantesco espelho distorcido em que podemos reencontrar, com outros traços, muito do nosso presente.

Correntes
Um erro de quem tem pouca familiaridade com a FC é imaginá-la como um conjunto articulado de escritores com opiniões parecidas, como tantas vezes ocorre nas escolas literárias. A FC é um rótulo que abriga autores de todo tipo: de direita e esquerda, vanguardistas e tradicionalistas, conservadores e anárquicos, pacifistas e militaristas, apocalípticos e integrados.

Muitas (nem todas) dessas correntes têm similares na FC brasileira. O movimento cyberpunk, por exemplo, criado nos anos 1980 nos EUA, produziu no Brasil ecos distantes mas notáveis, num conjunto de autores que Roberto de Sousa Causo chamou de “tupinipunks”, e que inclui desde os delírios de Fausto Fawcett sobre uma Copacabana noir e tecnológica até as “piritas siderais” de Guilherme Kujawski, micronarrativas com experimentalismo de linguagem.

Discurso contemporâneo
A narrativa urbana tem ampliado seu espaço nas últimas décadas, mas um dos subgêneros mais sólidos da FC brasileira são as histórias sobre o que podemos chamar de Espaço Selvagem, que supõem a existência, em algum ponto do Brasil, de uma região habitada por um povo com conhecimentos (científicos, esotéricos, etc.) que em algum aspecto são superiores aos nossos. Essas histórias envolvem com frequência descendentes dos incas ou dos atlantes. Entre dezenas de títulos há A Amazônia misteriosa (1925) de Gastão Cruls, A Filha do Inca (1930) eKalum (1936) de Menotti Del Picchia, A cidade perdida (1948) e A serpente de bronze (1949) de Jeronymo Monteiro, vindo até títulos mais recentes como Os deuses subterrâneos (1994) de Cristovam Buarque.

Um clichê a respeito da FC diz ser ela “a literatura que conta histórias do futuro”, mas isto diz pouco. A FC fala de todos os tempos possíveis, por mais improváveis. Seu assunto é a mudança, seu formato é a História: histórias futuras, secretas, alternativas, paralelas, paradoxos históricos e temporais. Uma importante coleção francesa de FC se intitula Présence du futur, e a FC é de certa forma a presença constante e irrecusável de incontáveis futuros.

Outro clichê é o que se refere ao Brasil como “o país do futuro”, o que tanto pode ser interpretado como “o país com mais possibilidades” quanto “o que vive adiando suas realizações”. Talvez não seja excesso de otimismo imaginar um futuro em que o Brasil e a FC se iluminem mutuamente.
>> REVISTA METAFORA – por Braulio Tavares


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