“COWBOYS & ALIENS”: CONFIRMADA A DATA DE LANÇAMENTO

segunda-feira | 8 | fevereiro | 2010

A Universal Pictures mudou a data de alguns de seus lançamentos e confirmou que Cowboys & Aliens, filme que será dirigido por Jon Favreau, estreará nos Estados Unidos no dia 29 de julho de 2011.

Cowboys & Aliens deriva de uma graphic novel escrita por Fred Van Lente e Andrew Foley, que começa com uma batalha entre os desbravadores do Velho Oeste e os índios Apaches. A batalha é interrompida quando uma nave espacial cai nos campos perto de Silver City, Arizona. No meio da confusão, está Zeke Jackson, atirador do exército da União, papel de Daniel Craig. Olivia Wilde também está no elenco.

A história traça um paralelo entre o imperialismo americano, que busca dominar os índios nativos com sua tecnologia mais avançada e a invasão alienígena, que ameaça todos os terráqueos com sua tecnologia mais avançada ainda. Como resultado, índios e colonos precisam se unir. A luta não é tão desigual, uma vez que eles têm a vantagem de conhecer o terreno.

O projeto vem sendo desenvolvido por vários estúdios ao longo dos 10 últimos anos, e já passou nas mãos de inúmeros roteiristas. Roberto Orci, Alex Kurtzman e Damon Lindelof são os atuais responsáveis.
>> HQ MANIACS – por Leandro Damasceno


“ALICE NO PAÍS DAS MARAVILHAS”: VEJA O COMERCIAL DA TV DO SUPERBOWL

segunda-feira | 8 | fevereiro | 2010

Alice começa o vídeo atrasada para o chá

Alice no País das Maravilhas é mais um dOs filmes que teve um comercial exibido durante o Superbowl de 2010. Veja no vídeo abaixo a protagonista (Mia Wasikowska) levando uma bronca do coelho por estar atrasada para o chá e muitas outras cenas do filme dirigido por Tim Burton (A Fantástica Fábrica de Chocolate, Sweeney Todd):

O filme, com exibição em 3-D, estreia em 5 de março e é um dos destaques do nosso Preview 2010. Johnny Depp, Mia Wasikowska, Anne Hathaway, Alan Rickman, Matt Lucas, Michael Sheen, Helena Bonham Carter, Crispin Glover, Christopher Lee e Eleanor Tomlinson formam o elenco.
>> UARÉVAA – por Jack Starman – 3/04/2008


“ALICE NO PAÍS DAS MARAVILHAS”: TRAILER E PÔSTERS

segunda-feira | 8 | fevereiro | 2010


Foram revelados mais pôsteres e um novo spot de Alice no País das Maravilhas, versão para o cinema dirigida por Tim Burton.

Dessa vez, a atriz australiana Mia Wasikowska vive Alice, Johnny Depp é o Chapeleiro Louco, Matt Lucas interpreta Tweedle-Dee e Tweedle-Dum, Anne Hathaway é a Rainha Branca, Helena Bonham-Carter, a Rainha Vermelha e Crispin Glover o Valete de Copas. O roteiro da produção da Walt Disney Pictures é de Linda Woolverton. A estréia está marcada para 5 de março de 2010 nos EUA e 16 de abril no Brasil.

Alice no País das Maravilhas é o livro mais famoso de Lewis Caroll, considerado um dos clássicos da literatura inglesa. Carregada de nonsense, a história começa quando a menina Alice, perseguindo um coelho branco, cai em um buraco e se descobre em um lugar fantástico, povoado de criaturas peculiares.
>> HQ MANIACS – por Leandro Damasceno

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“OS PASSARINHOS”: COM HUMOR DELICADO, A TIRINHA DE ESTEVÃO RIBEIRO VIRA FEBRE

segunda-feira | 8 | fevereiro | 2010

anuncio_mad

Uma ave que sonha se tornar escritor é uma das novas sensações da internet. Com seus desenhos meigos, as tiras de Os passarinhos, do quadrinista capixaba Estevão Ribeiro, multiplicaram acessos desde seu lançamento, em agosto do ano passado. Em pouco tempo, já virou livro, apareceu na revista Mad e começou a ser agenciada pela Intercontinental Press, que representa no Brasil sucessos mundias da HQ como Garfield, Peanuts, O Homem-Aranha e Dilbert, entre outros. Refletindo sobre o mundo literário e “homenageando” autores, ganhou repercussão entre estrelas, como Paulo Coelho e Neil Gaiman, que, com bom humor, aprovaram a sua paródia nas tiras. Escritor, ilustrador e roteirista, Ribeiro aproveita a onda dos quadrinhos na rede, que já consagraram artistas como André Dahmer e Arnaldo Branco. Mas, ao contrário de Malvados e Mundinho Animal, seus passarinhos fogem da crueza e violência.

– Acho que o sucesso vem muito do fato de ser um humor acessível para todos, o tipo de tirinha que não tem maldade nenhuma, que seu pai não vai chamar de mau gosto – avalia Ribeiro, que integrou a equipe de Artes do Jornal do Brasil e autor do livro de ilustrações Enquanto ele estava morto. – Não sou o tipo de cara que faz piada suja e usa palavrão. Acho maravilhoso o que faz o Dahmer, por exemplo, mas não conseguiria escrever aquelas coisas, ficaria com vergonha. Tanto que muita gente que olha Passarinhos e diz que é “um Malvados bonitinho”.

A ideia dos Passarinhos veio por acaso, em meio a uma reunião. Enquanto se discutia a produção de um roteiro para uma empresa, Ribeiro fez uns esboços no caderno. Acabou surgindo alguns pássaros, desenhados com traços simples, vagamente parecido com o mascote do Twitter.

Piadas autobiográficas
A partir daí, foram surgindo os personagens principais, animais que vivem em um parque: Hector, aspirante a escritor, que deseja ser mais do que um simples pássaro, e Afonso, seu amigo, que serve como uma espécie de contraponto: é um materialista cruel e sarcástico, conformado com sua condição. Hector, com suas desilusões literárias, tem um quê de autobiográfico.

– A maçã nunca cai longe da macieira – compara Ribeiro, que já tem trabalhos como roteirista da Turma da Mônica, de Mauricio de Sousa. – Tem um pouco de mim no personagem e das coisas que vivo no dia a dia. Quando quero uma solução mais cômica, apelo pelo lado “passarinhesco”, quando quero ser mais reflexivo, vou por um lado mais humano. Com o retorno que você tem na internet, percebe que você passa para os leitores coisas pelas quais eles também passam. Quem quer viver de escrever sabe os problemas que isso causa.

O universo literário sempre está rondando as tiras de Ribeiro. Na série, ele criou um versão passarinhesca de Neil Gaiman, cuja fama serve de contraste à obscuridade do aspirante Hector. O personagem, que representaria o inacessível, agradou ao próprio Gaiman. Ao se deparar com a versão em inglês das tirinhas (disponíveis no endereço http://hectorandalfonse.wordpress.com), o autor inglês gostou tanto da brincadeira que a postou em seu site pessoal.

Estveão também inventou um personagem chamado Paulo Coelho – um coelho que é uma alusão óbvia ao escritor brasileiro mais vendido e criticado do planeta. O ódio do passarinho Hector pelo sucesso do romancista rendeu até uma série chamada “Coisas que Hector odeia em Paulo Coelho”.

Sempre imprevisível, o Mago não apenas aprovou a brincadeira como ainda postou um comentário no site dos Passarinhos (“Vamos ver se visitam sua página. Muito boa, por sinal”) e colocou links das tirinhas em seu blog para ilustrar um assunto recorrente: “Por que algumas pessoas odeiam Paulo Coelho?”

– O Paulo percebeu que era uma brincadeira e levou na esportiva – conta Ribeiro. – A questão toda é que ele faz sucesso e o Hector, que é um desconhecido, odeia isso. O Paulo é um exemplo de autor que deu certo independentemente do que escreve. Não adianta ser bom e não vender nada. Recebi quase 1.500 acessos no mesmo instante em que ele fez menção à tira em seu blog.
>> JORNAL DO BRASIL – por Bolívar Torres

Assista ao book trailer de “Os Passarinhos – Hector & Afonso”, do autor Estevão Ribeiro. Um lançamento da Balão Editorial:


“A SONG OF ICE AND FIRE”, DE GEORGE R.R. MARTIN SERÁ LANÇADO NO BRASIL PELA EDITORA LEYA

sábado | 6 | fevereiro | 2010

Vencedora do Locus Award, e indicada ao Nebula, ao Hugo, ao Ignotus, ao British Fantasy Award e ao World Fantasy Award, reverenciada por nomes como Neil Gaiman e Bernard Cornwell, e transformada em cenário de tabuleiro, card game, RPG de mesa, videogame e série da HBO, A Song of Ice and Fire é uma série devastadora, que mais parece um trem bala japonês sem possibilidade de freio.

George R.R. Martin é um escritor grandioso e um roteirista que trabalhou por mais de dez anos em Hollywood. A Song of Ice and Fire é uma série de fantasia para adultos iniciada em 1991, e cujo primeiro volume acabou por ser publicado apenas em 1996.

É uma série de fantasia tão espetacular e popular na Europa e EUA, que muitos (muitos mesmo) a consideram a melhor série de fantasia de todos os tempos, mais até do que “O Senhor dos Anéis”.

Inspirada na “Guerra das Rosas”, a série conta a história de um continente chamado Westeros, dominado pelos Sete Reinos. O local é uma espécie de mega Inglaterra medieval do tamanho da América do Sul. Esse continente está separado do outro por um mar estreito (que por sinal remete ao Canal Da Mancha) e possui uma barreira (The Wall), que separa o mundo civilizado do mundo selvagem.

O clima é um personagem à parte, o verão e o inverno podem durar anos (até mais de dez anos!), e as pessoas têm de se preparar e adaptar suas vidas a isso.

O cenário não se trata exatamente da “fantasia clássica” com os tradicionais elementos high fantasy. Não existe um escolhido para salvar o mundo; não existem elfos em guerra com anões.

De fato, os livros trabalham mais com intriga política e a magia da série remete à uma magia mais ritualística,  pois em parte está mais ligada à religião em comunhão com a vida na floresta. Em Westeros, o povo antigo, por exemplo, adorava deuses árvores e eram chamadas “Crianças das Floresta”, uma raça que vivia em harmonia com a natureza bem ao estilo celta de ser. Logo, cada castelo tem uma” floresta divina” onde crescem “weirwood”, lindas e bizarras árvores brancas que parecem ter expressões nascidas de protuberâncias e seiva vermelha.

Só que um dia os “Andals” vieram do oeste e trouxeram com ele os Sete, sete deuses que viraram um só para substituir o culto anterior (em referência direta ao deus cristão único que chegara para substituir os deuses celtas).

“A Game of Throne”, o primeiro volume, é sobre a disputa de uma grande nação após a morte do rei Robert, e de toda intriga que envolve uma disputa desse porte, com aliados, inimigos, herdeiros e filhos bastardos.

Se antes havia Sete Reinos, hoje um único governa a todos na Dinastia dos Targaryen e se senta no Trono de Ferro. Essa monarquia foi formada a base de muito sangue e dizimou quase todos os outros reis, dando origem a uma nova monarquia unificada, porém frágil e instável.

E é essa fragilidade que dará origem ao “Jogo de Tronos” do título (se você quiser saber mais detalhes sobre a trama, há um link em português na Wikipédia aqui).

(Sean Bean, o Boromir de SdA, mudou de lado e estrela a adaptação)

O diferencial dessa série está em seus personagens densos e na forma como Martin alterna os pontos de vista. Apenas no primeiro livro, nós acompanhamos oito pontos de vistas diferentes, mais a visão de Will no prólogo. Os personagens acertam e cometem erros de maneira crível, e você tem de aprender a amá-los, odiá-los ou perdoá-los por isso.

Há diversas casas, e cada uma delas tem seu próprio motivo e propósito pela busca do poder, algumas vezes tendo de suportar aliados e inimigo na espera pelos embates.

Os livros são tão épicos nas batalhas em campos de guerra quanto o são em salões de castelos no desenvolvimento de intrigas políticas.

São vários personagens e todos eles têm uma profundidade psicológica bem construída. A trama política envolvendo o Jogo de Trono provavelmente será a mais complexa e bem-arquitetada que você já viu em um livro, e prometo que você terá noites de insônia virando páginas e mais páginas, e de vez em quando se emocionando fundo com determinadas passagens.

E é uma fantasia hardcore! Hardcore mesmo. Quando digo que George Martin é um “Tolkien para adultos”, eu falo sério. O livro tem sangue, sexo e violência desenfreada e faz muitas batalhas do Conan parecerem uma desavença de um churrasco entre amigos.

O artista Mark Evans fez alguns exelentes desenhos em uma galeria sobre a série, com trechos do livro até. Veja aqui.

Aqui abaixo, segue um vídeo gravado por um cinegrafista epilético na ComicCon, onde Martin lê um trecho de “A Dance With Dragons”, o quinto livro da série, prometido para esse ano.

Para a série sair aqui no Brasil foi uma batalha.

Na verdade, eu nunca entendi o que uma editora brasileira estava esperando para trazer essa série ao mercado.

Lembrou-me quando Peter Jackson disse que sempre ficou esperando fazerem um filme sobre “O Senhor dos Anéis”. Como o tempo foi passando e ninguém o fez, deu tempo dele se especializar como cineasta e ele mesmo decidir tocar a coisa.

Com as devidas proporções, eu também fiquei esperando publicarem essa série por aqui há tempos. Aí como o tempo foi passando e ninguém o fez, deu tempo de eu virar romancista por uma holding espanhola, virar peça-chave de uma holding portuguesa e ainda passar um ano e meio batalhando pela série por aqui.

O sucesso externo, os prêmios e a minha empolgação foram importantes, e o fato da HBO começar a produzir a série ajudou ainda mais nos argumentos ( aliás, segue abaixo um vídeo mostrando o elenco escalado).

Passado essa fase, veio uma segunda ainda mais difícil: a negociação. A agente de George Martin não é lá a pessoa mais fácil do mundo de se lidar (no fundo, agentes nunca são), e a Leya, na figura da Mariana Rolier, conduziu de maneira brilhante o processo. Acredite, há de se ter talento para isso também.

O fato é que agora a editora possuí os direitos dos quatro titulos já lançados da série e eu vou acompanhar o processo de preparação, tradução e coisas do tipo. Aí conforme sair capa e coisas do tipo, e for autorizado, eu vou compartilhando.

O livro irá chegar no segundo semestre desse ano. E para coroar de vez, minha vontade seria a de conseguir convencer a trazer o próprio George Martin para uma Bienal ou evento do tipo. Mas aí já começa a depender da aceitação do nosso mercado com a série.

Da minha parte, só vai me restar torcer para todo o esforço ter valido à pena, que vocês amem a história e a série possa continuar a ser publicada.
>> SEDENTARIO – por Raphael Draccon


UM ÉPICO FEITO DE GELO E FOGO: “A SONG OF ICE AND FIRE”, DE GEORGE R. R. MARTIN

sábado | 6 | fevereiro | 2010

Quando, em 1455, Ricardo de York liderou três mil homens na direção de Londres e derrotou Henrique VI, rei da Inglaterra, naquela que ficou conhecida com a Batalha de Saint Albins, a primeira de uma guerra que colocaria em lados opostos as poderosas casas de York e Lancaster, ele jamais poderia imaginar que, quase seis séculos depois, seus feitos serviriam de inspiração para uma das maiores e mais bem sucedidas obras de fantasia épica escritas desde que um hobbit encontrou um anel perdido numa caverna.

GRR Martin

Falo, claro está, da série “Uma Canção de Gelo e Fogo” (. Composta por sete livros, dos quais quatro já foram publicados, ASoIaF tornou-se um êxito de crítica e venda, ocupando o topo da lista dos respeitáveis The New York Times e The Wall Street Journal com a expressiva quantia de 2,6 milhões de exemplares vendidos somente nos EUA, além de angariar importantes indicações e prêmios, como o Locus Award, o Nebula e o Hugo Award.

O Autor:
George Raymond Richard Martin nasceu em Bayonne, New Jersey, em 20 de Setembro de 1948. Apaixonado por livros, HQ’s e fanzines, desde cedo demonstrou grande interesse em se tornar escritor. No início da década de 70, começou a escrever pequenas histórias de ficção e fantasia, entre as quais se destacam The Thousand Worlds, uma space opera com temática histórica e Night of the Vampyres, uma ficção político-militar lançada na antologia The Best Military Science Fiction of the 20th Century, de Harry Turtledove. O sucesso, porém, tardou a vir. De fato, uma de suas primeiras histórias foi rejeitada 22 vezes por diferentes revistas, um duro começo. Em 73, With Morning Comes Mistfall, história publicada pela Analog Magazine foi indicada para os prêmios Hugo e Nebula.

No início da década seguinte, Martin ingressou na televisão, onde trabalhou como escritor e produtor para as séries Twilight Zone e A Bela e a Fera. Durante esta temporada em Hollywood, muitos projetos voltados para a área de ficção e fantasia foram desenvolvidos por ele, porém todos sem sucesso. Um dos mais proeminentes foi Doorways, uma ambiciosa série de ficção científica que contava a história de uma fugitiva de um universo paralelo que escapava para nosso mundo através de um portal dimensional, abortada após o episódio-piloto. Outros projetos também foram postos em prática, como as adaptações de Wild Cards, um suplemento de jogos com temática que misturava ficção científica e super-heróis, conhecido no Brasil como Cartas Selvagens, Princess of Mars, a famosa série de ficção de Edgar Rice Burroughs e Fevre Dream, um livro de sua própria autoria, mas Doorways foi o que mais próximo chegou de tornar-se real.

Com efeito, foi no final daquela que Martin considerou como “a década de Hollywood” (1985-1995) que ele, cansado do glamour e das oportunidades perdidas na terra das estrelas, resolveu abandonar a carreira na televisão e se dedicar novamente à arte da escrita. Em 1991, começava a ganhar forma à idéia que originaria o livro A Game of Thrones (Um Jogo de Tronos, em tradução livre), o primeiro da série que o tornaria mundialmente conhecido.

Ironicamente, o que poucos dos aficionados por Martin parecem saber é que ele já conta com mais de 30 anos de carreira, seja na literatura, na televisão ou cinema, atravessando sem a menor dificuldade os gêneros do fantástico, do terror e da ficção científica. E, de fato, seu leque de atuação é bem amplo, indo desde a ficção científica de Tuf Voyaging até os vampiros de Fevre Dream, que cruzaram o Mississipi num barco a vapor em pleno século XIX, passando pelo horror contemporâneo de teor histórico-político de Armagggeddon Rag ou a mistura de space opera e fantasia da coleção de pequenas histórias Windhaven. Também se pode citar uma de suas primeiras incursões pela fantasia, The Ice Dragon, um livro infanto-juvenil onde a presença da magia — em sua acepção mais plena — é bastante acentuada.

Bran Stark

Com ASoIaF, no entanto, Martin foi considerado um entusiasta do novo, o escritor que revolucionou a temática épica e trouxe um novo enfoque para a literatura chamada fantástica. Não obstante, nem por isso ele deixou de buscar inspiração e referência para suas obras em outros autores. Fritz Leiber foi, juntamente com Robert E. Howard, criador de Conan, o Bárbaro e as HQ’s (histórias em quadrinhos) de Stan Lee e Steve Ditko, uma de suas influências assumidas. E, se de fato há um autor a que Martin mais se assemelha, este é Leiber, tal a variedade de temas e gêneros que ambos abordaram ao longo da carreira.

Outros grandes escritores também entraram para este rol de referências. No entanto, embora seja possível reconhecer certo débito para com obras como O Senhor dos Anéis, de Tolkien, The Dragon Masters, de Jack Vance e Tailchaser’s Song, The Memory, Sorrow and Thorn Series e The War of the Flowers, de Tad Williams, a série ASoIaF difere destas outras pelo uso diferenciado da linguagem ficcional e pela abordagem mais incisiva de elementos reais em detrimento da fantasia.

Enquanto Tolkien e Williams buscaram uma acentuada inspiração na mitologia, Martin teve sua influência calcada na história medieval européia, mais notadamente na Guerra das Duas Rosas, no clássico Ivanhoé e nas Cruzadas Albingueses. Não raro, ele costumava citar em suas entrevistas que foi ao ler The Memory, Sorrow and Thorn Series que se convenceu de que poderia escrever uma história mais adulta e madura. Isso acabou criando um novo filão de literatura de fantasia, cujo tratamento do real é muito mais acentuado em relação à fantasia. Filão que já angariou seguidores como Scott Lynch, Joe Abercrombie, Steven Erikson e Scott Bakker. Contudo, mesmo sendo visível esta preocupação com o real, Martin está a milhas de quilômetros do pioneirismo da chamada ficção histórica e, neste campo da fantasia pé no chão, também sofreu influências e, como tal, agradece abertamente a autores como Bernard Cornwell, George MacDonald Fraser e Robert Jordan, cuja capa para seu primeiro livro foi, ironicamente, a responsável por garantir seu sucesso junto aos leitores de fantasia.

O Mundo:
As histórias de ASoIaF se passam, principalmente, no grande continente de Ponente (Westeros, no original), uma vasta extensão de terras similares as ilhas britânicas, porém com aproximadamente o tamanho da América do Sul, tendo ao norte uma imensa área não mensurada, cuja ciência não é possível dadas as suas baixas temperaturas e a pouca cordialidade de seus habitantes, chamados simplesmente de selvagens ou de Povos Livres. Das terras conhecidas, a porção norte têm praticamente o mesmo tamanho da parte sul, porém sua população é infinitamente menor, dado o rigor climático da região. Entre as principais cidades de Ponente destacam-se, por ordem de tamanho, Porto Real, Antigua, Lannisport, Porto Gaivota e Porto Branco.

Jaime Lannister

O mundo imaginado por Martin, contudo, vai muito além de apenas uma terra e uma gente. Outros dois continentes também aparecem no correr da série, numa alusão bem significativa à história do nosso próprio mundo medieval; a leste, depois do Grande Mar está localizado Essos. Em sua porção ocidental encontram-se as nações estrangeiras mais próximas a Ponente, um conjunto de cidades-estados chamadas de Cidades Livres, entre as quais estão Pentos, Braavos e Lys. Nesta porção do mundo encontra-se também a terra dos Dothraki, os Senhores dos Cavalos. Na verdade, terra, aqui, definiria toda a larga extensão das inóspitas plagas centrais do continente oriental, chamadas de Mar Dothraki, onde vivem centenas de grandes caravanas, os khalazares, cujos membros levam uma vida muito similar a dos antigos mongóis, turcos e hunos de nosso próprio mundo. Nas terras ao largo da costa sul deste continente, chamadas de forma genérica de Terras do Mar do Verão, estão localizadas as ruínas da cidade de Ghis e do Feudo Franco de Valyria, onde surgiu a dinastia Targaryen, a mais poderosa casa a governar os Sete Reinos. As terras ao sul de Ponente, chamadas Sothoryos, são praticamente desconhecidas. Delas, sabe-se apenas que são totalmente selvagens, infestadas de pragas e habitada por homens de pele escura, algo claramente próximo a um certo continente negro pouco conhecido durante a idade média.

Não obstante, mesmo sendo o mundo de ASoIaF vasto e bem definido, seu elemento mais característico é o Muro, ou Muralha de Gelo, uma gigantesca construção de mais de 200 metros de altura e 500 quilômetros de largura. Construído a quase 8.000 mil anos por Brandon Stark, o primeiro Rei no Norte, tinha por finalidade proteger as terras dos Sete Reinos da ameaça d’Os Outros, uma raça de seres malignos que viviam para além das terras conhecidas. Sua defesa foi posta a cargo da Guarda da Noite (Nigth’s Watch, no original), um grupo de irmãos juramentados que dedicaram a vida a lutar contra a ameaça vinda das regiões geladas do norte, das terras “para além do muro”. Aqui, a analogia com a realidade histórico-medieval européia é, também, bastante acentuada. Refiro-me à Muralha de Adriano, uma grande construção erguida próximo à fronteira da Escócia que tinha por finalidade defender a zona britânica do Império Romano das incursões dos pictos e escotos, habitantes do norte da ilha.

Entretanto, apesar do realismo que busca imprimir a seu mundo, Martin é um experto em criar situações mirabolantes que fazem sua história ser única entre tantas outras. Dos muitos fatores que tornam ASoIaF tão interessante, um dos mais peculiares diz respeito à inconstância do clima. Ao contrário de outros mundos conhecidos, Ponente está à mercê de estações erráticas que podem durar anos a fio, mas de forma imprevisível. No início da saga, o continente está no final de um verão que dura já uma década. Um largo verão ao que, segundo as crenças tradicionais, se seguirá um inverno tão longo e duro quanto. Contudo, Martin não deixa claro se esta regra é planetária ou se vale apenas para as regiões de Ponente e seus arredores. Segundo ele, a explicação para este estranho comportamento temporal virá ao final da série e será de natureza mágica, sem elemento de ficção científica.

Outro ponto de destaque da serie é a concepção das raças. Em Ponente, praticamente não há raças mágicas e, à época do início da saga, as que existiram são meramente mencionadas. À exceção dos poucas vezes citados Filhos dos Bosques, d’Os Outros e de uma esquecida raça de Gigantes habitantes do norte, todos as demais criaturas são assumidamente humanas, com todas as cores, estirpes, defeitos e qualidades inerentes à espécie. Porém, que fique claro, estes não são simples humanos e, sim, os melhores representantes da raça, homens fortes, altos e não corrompidos (fisicamente falando), como numa espécie de releitura genérica e bastante crível do Übermensch Nietzschiano.

E, em se falando de raças, há aquelas próprias da engenhosa mãe-natureza, criaturas ferozes que habitam as matas e montanhas do mundo. Lobos huargos, mamutes, uros e gatos das sombras, além dos irascíveis dragões. Sim, em ASoIaF há dragões. Ou havia, já que os três últimos morreram junto com seus senhores Targaryen. Ou, ao menos, é nisso que todos acreditam. E, em torno dessa raça é que gira o grande mistério de Ponente

Cersei Lannister

A História:
Em meados dos anos 90, quando a série A Bela e a Fera chegou ao fim e o desencanto para com os ares de Hollywood se tornou evidente, Martin voltou a escrever prosas longas e um de seus primeiros trabalhos foi um romance de ficção científica chamado Avalon. Em 91, enquanto tentava definir rumos para a história, a idéia de uma cena onde alguns jovens encontravam uma loba, cuja garganta havia sido cortada, lhe veio à mente. A loba, antes de morrer, havia dado a luz a alguns filhotes, que seriam adotados pelos jovens que os encontraram e cresceriam junto com eles. A partir deste ponto, Martin começou a tecer idéias e a desenvolvê-las, até criar um épico fantástico que dividiu em uma trilogia (sim, as muy famigeradas trilogias), cuja composição seriam os livros A Game of Thrones, A Dance with Dragons e The Winds of Winter.

Porém, ao terminar o primeiro livro, após um hiato de quase dois anos, Martin chegou à fatídica conclusão de que sua saga não caberia em apenas três volumes e, a partir daí, anunciou um quarto livro e, mais tarde um quinto, um sexto e um sétimo. As muitas crônicas de Ponente começavam a ganhar formas e os enormes calhamaços que saíam de seu computador pareciam não ser suficiente para contê-las todas.

É fato que muitas histórias permeiam as entrelinhas de ASoIaF, desde a guerra entre os Filhos dos Bosques e os Primeiros Homens, no início do mundo, até a trégua estabelecida entre eles e sua posterior luta contra os demônios chamados de Os Outros. Mas, para não fugirmos demais ao ponto central, fiquemos apenas com aquela que narra a ascensão, o declínio e as conseqüências da chegada dos reis Targaryen a Ponente.

Após cinco séculos de expansão, os poderosos senhores do Feudo Franco de Valyria, no leste, atravessaram o Grande Mar e alcançaram a longa costa de Ponente, utilizando a ilha da Rocha do Dragão como porto de comércio. Contudo, pouco mais de um século depois, Valyria foi destruída por um desastre conhecido como “O Destino”. Por esta época, a família que controlava a Rocha do Dragão, os Targaryen, começaram a preparar uma larga invasão e, sob as ordens de Aegon, o Conquistador, se lançaram contra Ponente. Embora suas forças fossem pequenas, eles tinham entre seus exércitos os três últimos dragões conhecidos, cuja força era mais que suficiente para subjugar todo o continente. Seis dos Sete Reinos foram rapidamente conquistados, mas Dorne, no sul, resistiu batalha após batalha, até que Aegon concordou em deixá-lo independente. Até então, o continente estava dividido em vários reinos independentes. Porém, depois d’A Conquista, as diferentes regiões, unidas sob o estandarte da Casa Targaryen, formaram os chamados Sete Reinos de Ponente.

Uma vez estabelecido seu poder, os reis Targaryen adotaram a crença na Fé dos Sete (religião que reverenciava as sete faces de Deus) para conquistar o coração do povo, embora ainda mantivesse certos costumes de sua antiga nação, como o casamento entre irmãos. Com isso, em pouco tempo os conquistadores quebraram todas as resistências à sua conquista e impuseram, sem a menor oposição, as suas leis. Os três últimos dragões morreram cerca de um século e meio após A Conquista, mas neste ínterim, as leis e o poder da Casa Targaryen já estavam bastantes arraigadas e não haviam sido contestadas até então.

Quinze anos antes do início de A Game of Thrones, uma guerra civil, chamada de A Rebelião de Robert, destronou Aerys II, o Rei Louco, pondo fim à longa dinastia da Casa Targaryen. Uma aliança formada pelas maiores Casas de Ponente e lideradas por Lord Robert Baratheon, Lord Eddard Stark e Lord Jon Arryn pôs fim aos exércitos e ao regime insano de Aerys e assassinou quase todos os membros de sua família, à exceção de sua esposa grávida — que posteriormente daria a luz a Daenerys Targaryen, a última descendente desta linhagem — e de seu filho Viserys, que fugiram de volta a Rocha do Dragão, ajudados por aqueles que ainda lhes eram fiéis.

Tyrion Lannister

Após derrotar o príncipe Rhaegar na Batalha do Tridente, Robert Baratheon assumiu a coroa e o Trono de Ferro, casou-se com Cersei, da poderosa Casa Lannister e tornou-se o primeiro rei de sua linhagem.
O que é interessante observar nesta sucessão de guerras pelo poder é que a conquista não se deu apenas pela espada. Intrigas e traições, jogos de poder e alianças são uma constante na escrita de Martin. Na verdade, se conhece muito mais da história pela força da palavra que pelo fio da espada. Outro ponto importante que Martin ressalta é a questão da fé. Para se dominar um povo, não é suficiente apenas subjugá-los, mas conquistá-los através de seu mais profundo sentimento, de seu mais arraigado desejo. Ponente é, assim, um mosaico de crenças e expressões religiosas. Como fizeram os reis Targaryen ao abraçar a fé no deus de sete rostos, outros, a seu modo e a seu tempo, também jogaram com a crença nos deuses, seja para forjar alianças ou para destruir aquelas que os ameaçavam.

Os Livros:
Canção de Gelo e Fogo é, sem dúvida, uma das obras de maior êxito dentro do gênero fantástico, seja pelo grande número e complexidade das personagens que permeiam suas páginas, pela súbita e violeta mudança das linhas narrativas ou pelo intrincado jogo de tramas políticas que formam a espinha dorsal de sua linha de argumentação.

Game of Thrones

Também cabe ressaltar que em sua concepção há muito pouco da literatura dita juvenil que se multiplica às pencas por aí. A história em si é mais complexa, adulta, com um limite bem demarcado entre o real e o fantástico — a magia, quando aparece, é tratada com sutileza e geralmente de forma ambígua, muitas vezes, negativa —, além de não fugir de temas cujo conteúdo poderia gerar olhares de reveses dos mais puritanos, como a violência, o sexo ou até mesmo temas tabus, como o incesto. Martin, aliás, tornou-se famoso por quebrar paradigmas, como a já conhecida falta de apego às suas criações. As personagens de sua saga estão tão fadadas à morte quanto quaisquer outras criaturas. Tudo, claro, virá da necessidade da trama e dos caminhos que a história deve seguir.

Aparte de todos estes atributos, um dos aspectos mais inovadores de ASoIaF é a forma como a história vai sendo construída. Cada capítulo é visto sob o ponto de vista de uma personagem distinta que narra/vê os acontecimentos a sua volta segundo uma ótica bem particular. Isto cria um viés deveras interessante, pois para um mesmo episódio tem-se narrados os fatores a partir de olhares diferentes. Além do que, devido à forma realista com que Martin constrói suas personagens, fica extremamente difícil classificá-los como bons ou maus. Em última instância, eles nada mais são que humanos, tristes e miseráveis humanos e a visão que compartilham com o leitor está, justamente, impregnada destas vivências e emoções.

Um problema que particularmente vejo nesta forma de narrativa é o espaço vago que há entre uma e outra aparição das personagens. Como são muitos os pontos de vistas presentes no decorrer da história — apenas nos quarto primeiros livros cerca de 25 diferentes narradores já deram às caras — às vezes é necessário esperar dezenas de páginas para ver uma personagem reaparecer, muitas vezes completamente fora da situação em que se encontrava anteriormente. Isso gera uma confusão de sentidos e, até certo ponto, de entendimento. Porém, nada que prejudique a leitura como um todo.

Outro aspecto interessante é que os livros não giram em torno do eterno maniqueísmo da luta bem versus mal ou na busca pelo escolhido que livrará o mundo da destruição. Sua linha narrativa está centrada principalmente nas lutas políticas e nas guerras civis que assolam aquela pequena grande parte do mundo. De fato, entre todos os arcos narrativos, há apenas um ou dois que sugerem a possibilidade de uma ameaça externa.

Daenerys Targaryen

Uma curiosidade: o título da série é mencionado apenas duas vezes ao longo de toda a historia narrada até aqui. A primeira delas aparece durante uma visão que Daenerys tem no segundo livro da série, A Clash of Kings (Choque de Reis, em tradução livre): “Ele é o príncipe prometido e sua é a canção de gelo e fogo”. Estas palavras são proferidas por um rei Targaryen, embora não fique claro qual rei seja nem a quem as palavras são dirigidas, se a própria Daenerys ou a seu filho natimorto. A segunda vez em que é mencionada é durante a renovação dos juramentos de lealdade dos irmãos Reed a Brandon Stark, cena também presente no livro A Clash of Kings.

Aparte dos sete tomos principais, outros três livros curtos podem ser incorporados à série como uma espécie de prólogo, já que se passam no mesmo mundo, porém aproximadamente 90 anos antes dos eventos narrados em ASoIaF. Dos três, The Hedge Knight (O Cavaleiro Errante, em tradução livre) e The Sworn Sword (A Espada Leal), já foram publicados e The Mystery Knight (O Cavaleiro Misterioso) tem sua data de lançamento prevista para 2009. As histórias, conhecidas como Os Contos de Dunk e Egg, também foram adaptados para as HQ’s por Ben Avery e Mike S. Miller e lançados em 2007 pela Marvel Comics, alcançando um relativo sucesso.

Vários capítulos dos livros já lançados foram compilados em coleções seguindo o destino de algumas personagens ou os lugares onde se ambientavam partes das histórias. O mais famoso deles é Sangue de Dragão (Blood of the Dragon, no original), baseado nos capítulos sobre Daenerys Targaryen constantes no livro A Game of Thrones. Este excerto ganhou o premio Hugo de melhor livro em 1997.

Embora possuam personagens / narradores que contam a história através de seus pontos de vistas, de suas vivências e anseios pessoais, os livros seguem, regra geral, por três grandes arcos argumentativos principais que se passam em Ponente e em parte do continente oriental de Essos, mais precisamente nas cidades livres e nas terras dos Dothraki.

The wall

O primeiro deles transcorre em Ponente e narra a luta entre casas rivais pela posse do Trono de Ferro após a morte do rei Robert Baratheon. O primeiro a reclamar o trono é seu filho mais velho, Joffrey, cujo apoio para tal empreitada vem da poderosa família de sua mãe: a Casa Lannister. Ao mesmo tempo, Stannis Baratheon, irmão mais velho do rei, reclama o trono para si por acreditar que os filhos de Robert são, na realidade, o produto da relação incestuosa entre a rainha Cersei e seu irmão, Jaime Lannister, chamado de Matador de Reis. Ao mesmo tempo, o irmão mais novo da Casa Baratheon, Renly, também reclama o trono para si, apoiado pela poderosa família de sua esposa Margaery, a Casa Tyrell. Com o reino se esfacelando, as casas do Norte proclamam Robb Stark, herdeiro de Eddard Stark, a antiga Mão do Rei, como Rei no Norte, buscado tornarem-se novamente independentes do poder do Trono de Ferro. De forma parecida, Balon Greyjoy, senhor das Ilhas de Ferro reclama para si o trono e a independência desta região.

O segundo arco de histórias se passa no norte de Ponente, na região gelada onde foi construída a grande Muralha de Gelo. Este arco segue principalmente as aventuras de Jon Neve, filho bastando de Lorde Eddard Stark e sua ascensão na hierarquia da Guarda da Noite que, por esta época, encontra-se bastante defasada de homens e de status. Ao mesmo tempo em que tenta manter longe a ameaça dos povos selvagens, liderados pelo Último Rei Além do Muro, Jon vai descobrindo a verdadeira natureza da ameaça que vem das desconhecidas terras do norte.
O terceiro arco se passa no continente oriental de Essos e segue os passos de Daenerys Targaryen, chamada de Filha da Tormenta, a última descendente da Casa Targaryen que também reclama para si o Trono de Ferro, como última herdeira dos antigos reis dragões. Ao longo desta parte da historia, descobrimos como Daenerys se transforma, de fugitiva, em uma rainha astuta e poderosa, senhora de muitos segredos e mãe dos últimos dragões vivos.

Durante o primeiro livro, os três arcos argumentativos se mantêm coesos, aparecendo de forma homogênea. Entre o segundo e o terceiro, chamado de A Storm of Swords (Tormenta de Espada, em tradução livre), o foco é mais voltado para as intrigas internas e as consequências da Guerra dos Cinco Reis pelo trono de Ponente. No quarto livro, A Feast for Crows (Festim de Corvos), no entanto, a coisa já muda um pouco de figura. Martin é um escritor ávido por detalhes, e o resultado disto é a inacreditável quantidade de informações presentes em sua obra. Com o desenrolar da história, os livros tornaram-se cada vez mais volumosos para conseguir conter todas as personagens e seus enredos. O terceiro livro, por exemplo, saiu com a exorbitante quantia de 1022 páginas (tão absurda que em muitos países onde foi traduzido, como Espanha, Portugal e França, ele foi dividido em duas edições distintas).

Tentando por um pouco de ordem nesse exagero, Martin decidiu dividi-la em partes, obedecendo aos seguintes critérios; um livro contaria as aventuras das personagens cujas histórias se passariam no continente, enquanto o seguinte traria as escaramuças das personagens do norte e das terras além de Ponente. Assim, enquanto A Feast for Crows traria as histórias da corte e demais localidades dos Sete Reinos, A Dance with Dragons (Dança com Dragões, em tradução livre), o quinto livro da série, daria enfoque às personagens que estão no norte (Jon Neve e Samwell Tarly, principalmente) e de além mar (Gata dos Canais e Daenerys Targaryen, entre outros). Espera-se que o mesmo procedimento seja adotado também para os livros restantes, The Winds of Winter e A Dream of Spring.

Ned Stark

Porém, independente do caminho escolhido por Martin para apresentar o desfecho de suas personagens, o fato é que esta série já é um sucesso comprovado, seja em livros, jogos, suvenires ou HQ’s. Tanto que os direitos autorais foram recentemente adquiridos pela rede de TV norte-americana HBO, que pretende transformá-la em uma série nos mesmos moldes do que foi feito com Roma e The Tudors. Os produtores David Benioff e D.B. Weiss, que estão a cargo da adaptação são, inclusive, os responsáveis por estes dois sucessos.

Agora, a dúvida: diante de tão boa publicidade, resta saber o que mais falta para que alguma editora brasileira perceba o potencial desta série e resolva trazê-la, com todos os tils e ãos necessários ao entendimento de nossa língua mater, para o Brasil.

Jon Snow

O Inverno está chegando”.
Ao se ler ASoIaF, tem-se a estranha sensação de que, dentre todos os lemas das muitas Casas Nobres que desfilam diante de nossos olhos ao longo de toda a série, é a divisa da Casa Stark aquela que parece ser a apropriada às personagens como um todo. Há uma certa fatalidade na maneira de escrever de Martin, como se todos os caminhos levassem ao norte, ao desespero final, como se a vida fosse feita de momentos efêmeros e de esquecimentos e que apenas o final, inevitável, fosse eterno.

Mas, mesmo diante da fatalidade da vida, ainda há a esperança dos dias vindouros. E, talvez, ela venha ligeira nas asas de algum dragão, ou desponte junto ao primeiro raio de sol do verão longínquo. Mas, enquanto isso, é bom que nos preparemos para o longo inverno que se aproxima.

Links de interesse:

>> FANTASTIK – por Rober Pinheiro


BILL WATTERSON: O RECLUSO AUTOR DE “CALVIN & HAROLDO” ENFIM CONCEDE UMA ENTREVISTA

sexta-feira | 5 | fevereiro | 2010

Bill Watterson

Após 21 anos de reclusão, mas Bill Watterson, criador da tira Calvin & Haroldo, concedeu uma entrevista por e-mail ao jornal The Plain Dealer, de Cleveland, cidade natal do autor.

Publicada no dia 1º de fevereiro, a entrevista feita pelo jornalista John Campanelli, que focou em como o autor vê o legado da sua criação. “Os leitores sempre vão decidir se o trabalho é significativo e relevante. Eu posso viver com qualquer conclusão a que eles chegarem. Mais uma vez, a minha parte em tudo isso terminou quando a tinta secou”, disse Watterson.

Calvin e seu tigre de pelúcia Haroldo (Hobbes, no original) ganharam os corações dos fãs dos mais de 33 países onde foram publicadas. Watterson explicou que apenas tentou escrever histórias engraçadas e honestas, que levariam as pessoas a lê-las. “Uma vez que a tira é publicada, os leitores trazem suas próprias experiências para ela e o trabalho assume uma vida própria. Cada um responde de maneira diferente a diferentes partes”, explicou.

Bill Watterson

O autor não se mostrou arrependido de ter terminado a série – publicada originalmente entre 1985 e 1995, ela continua atraindo novos fãs até hoje. Para ele, o fim ainda no auge foi determinante para a tira ser tão popular até hoje. “Se eu tivesse continuado e me repetisse por mais cinco, dez ou vinte anos, as pessoas que agora estão de ‘luto’ por Calvin & Haroldo estariam desejando a minha morte e amaldiçoando os jornais por publicarem tiras tediosas e antigas, em vez de investir em um talento mais promissor. E eu concordaria com eles”, afirmou.

Quando o jornalista perguntou como Watterson acha que as pessoas deveriam chamar as histórias de um menino de 6 anos e seu tigre de pelúcia, ele respondeu: “Calvin & Haroldo, a oitava maravilha do mundo.”

Para ler a entrevista na íntegra, em inglês, clique aqui.
>> UNIVERSO HQ – por Vitor Mazon


“O SÍMBOLO PERDIDO”: ADAPTAÇÃO AO CINEMA DO LIVRO DE DAN BROWN CONTRATA ROTEIRISTA

sexta-feira | 5 | fevereiro | 2010

Steven Knight escreverá a nova aventura de Robert Langdon

A Columbia Pictures começa a se mexer para adaptar ao cinema o novo livro de Dan Brown, O Símbolo Perdido. O roteirista Steven Knight (Coisas Belas e Sujas, Senhores do Crime) foi contratado para escrever o roteiro. 

A história segue Robert Langdon, o protagonista de O Código Da Vinci e Anjos e Demônios, agora em meio aos monumentos de Washington. Tudo começa com uma conferência que Langdon aceita fazer para ajudar um amigo maçom. Mas, quando chega à capital, ele descobre que o amigo foi sequestrado e o envolveu em enigmas ocultos em obras e construções. 

Espera-se que Tom Hanks assine contrato em breve para reprisar o papel de Langdon. Leia aqui a crítica do Omelete do livro.

>> OMELETE – por Marcelo Hessel


“JOHN CARTER DE MARTE”: SINOPSE DO FILME É REVELADA

sexta-feira | 5 | fevereiro | 2010

A Walt Disney Pictures revelou a sinopse de John Carter de Marte, primeiro longa-metragem com atores reais dirigido por Andrew Staton, diretor consagrado de animações como Procurando Nemo e Wall-E.

Segundo o resumo oficial, “John Carter de Marte será uma cativante aventura épica ambientada no falho planeta Marte, um lugar habitado por tribos guerreiras e exóticos seres do deserto. O filme narra a jornada do veterano da Guerra Civil John Carter (Taylor Kitsch), que se encontra lutando em meio a um grupo de habitantes marcianos estranhos. Entre esses estão Tars Tarkas (Willem Dafoe) e Dejah Thoris (Lynn Collins)“.

Além de Kitsch, Collins e Dafoe, estão também no elenco Samantha Morton como Sola, a filha de Tarkas; Dominic West como Sab Than, príncipe dos Zodangans que acredita que deve reinar Marte; e Polly Walker, entre outros. Andrew Stanton também assina o roteiro, em parceria com Mark Andrews (Ratatouille). A estreia será em algum ponto de 2012.

A história começa durante a Guerra Civil americana, quando o soldado John Carter se esconde em uma caverna para evitar ser capturado por índios. No entanto, ele acaba sendo transportado por um portal para o planeta Barsoom (Marte), onde é feito prisioneiro por homens verdes gigantes. Carter fez sua primeira aparição no romance A Princess of Mars, de Edgar Rice Burroughs, sendo o primeiro de uma série de 11 livros.
>> HQ MANIACS – por Leandro Damasceno


NICHOLAS LEA NO REMAKE DE “V”

sexta-feira | 5 | fevereiro | 2010

Os novos episódios da primeira temporada do remake de “V” estão previstos para estrearem nos EUA a partir do dia 30 de março. Depois de uma parada na produção para “reajustar os roteiros”, a série retorna com a participação especial de três atores conhecidos das séries de ficção científica.

Lembram do Nicholas Lea em “Arquivo X”? Recentemente visto em “Kyle XY”, o ator canadense fará participações em pelo menos dois episódios de “V” interpretando o ex-marido de Erica (Elizabeth Mitchell). Outra que marca presença em “V” é Lexa Doig, de séries como “Andromeda”, “The 4400″ e “Stargate SG-1″. Ela interpretará a Dra. Leah Pearlman, médica de Valerie (Lourdes Benedicto), que descobriu estar grávida.

Promo australiano

Quem também aparece na série é Charles Mesure, o Arcanjo Michael de “Xena, a Princesa Guerreira” (ok, não era ficção, era série de fantasia). Ele interpretará Kyle Hobbes, um mercenário que se alia à resistência. Charles também é conhecido pelas séries “Crossing Jordan” e “Street Legal”.  

E lembrando que os rumores de que Jane Badler (a Diana da série original) fará uma participação especial no remake, são cada vez mais constantes. A atriz reuniu-se com os produtores da série para “conversarem a respeito”.

No Brasil, a série deverá estrear em abril pelo canal da Warner. Abaixo a chamada para os novos episódios, não tem cenas novas, é só para lembrar o público que os alienígenas estão voltando!
>> TV SÉRIES – por Fernanda Furquim


ROBERT PATTINSON GANHA BIOGRAFIA EM QUADRINHOS

terça-feira | 2 | fevereiro | 2010

Robert Pattinson

A Bluewater Productions vai lançar a biografia de Robert Pattinson, o vampiro Edward Cullen, de Crepúsculo, pelo selo Fame, em maio. A editora já havia publicado uma biografia de Lady GaGa pelo mesmo selo.

Serão 32 páginas analisando a carreira do ator inglês de 23 anos, com texto escrito por Kim Sherman e arte de Nathaniel Ooten.

A escritora Stephenie Meyer, autora de Crepúsculo, também já teve sua biografia lançada pela Bluewater Productions, no selo Female Force (no qual também foram publicadas as HQs de Michelle Obama e Hillary Clinton).

Segundo a Bluewater, outras celebridades que terão suas vidas adaptadas para os quadrinhos no selo Fame incluem 50 Cent, Tiger Woods e David Beckham.

A trilogia Crepúsculo também foi adaptada para o formato mangá.
>> UNIVERSO HQ – por Sérgio Codespoti


ZEC EFROM EM ADAPTAÇÃO DE QUADRINHOS

terça-feira | 2 | fevereiro | 2010

O ator Zec Efron, mais conhecido por suas participações na série cinematográfica High School Musical, assinou contrato para estrelar Fire, adaptação para o cinema da graphic novel de Brian Michael Bendis.

Segundo a notícia, Efron fará o papel de um estudante universitário que é recrutado pela CIA, mas que descobre que foi treinado para fazer parte de um programa que cria agentes descartáveis.

Brian Michael Bendis é um roteirista norte-americano de quadrinhos. Seus trabalhos mais conhecidos para a Marvel Comics incluem Demolidor e Alias, pelo selo Marvel Max, de temática mais adulta. Sua série autoral, Powers, foi publicada originalmente pela Image, antes de se transformar no primeiro título da linha Icon, da Marvel. Atualmente, Bendis roteiriza, além de Powers, as revistas Novos Vingadores, Dark Avengers, Secret Warriors, Mulher-Aranha e Homem-Aranha Ultimate.

Para quem só conhece Brian Bendis como roteirista, vale esclarecer que ele começou sua carreria escrevendo e desenhando suas próprias revistas. Algumas publicadas de forma independente e outras lançadas por pequenas editoras. Fire, por exemplo, surgiu como uma minissérie em duas edições, publicadas pela Caliber Comics. Mais tarde, a Image Comics relançou o título de forma encadernada.

Bendis ainda lançaria, como escritor e desenhista, AKA Goldfish, Jinx, Torso, Fortune and Glory, Parts of a Whole, entre outros.
>> HQ MANIACS – por Leandro Damasceno


ZACHARY QUINTO: ATOR DE STAR TREK VAI PROTAGONIZAR NOVO FILME DE STEVEN SPIELGERG

terça-feira | 2 | fevereiro | 2010

Zachary Quinto interpreta George Gershwin na cinebiografia do pianista

A DreamWorks Pictures está desenvolvendo uma cinebiografia do pianista e compositor George Gershwin. Zachary Quinto (Heroes, Star Trek) viverá o músico nas telas.

Este é um dos três filmes que Steven Spielberg, fundador do estúdio, está escolhendo para ser seu próximo. De acordo com o Deadline Hollywood, Quinto está recebendo aulas de sotaque e as filmagens podem começar já em abril.

O filme contará a história de Gershwin, compositor de música erudita e popular, incluindo músicas para diversos espetáculos da Broadway, escritas em parceria com seu irmão mais velho, Ira Gershwin.

Suas composições também foram usadas como trilha sonora em filmes e programas de TV, outras viraram standards de jazz. Gershwin morreu em 1937, aos 38 anos, vitimado por um tumor cerebral.

O roteiro foi escrito por Doug Wright. Marc Platt será o produtor, ao lado do cantor e pianista Michael Feinstein.

A DreamWorks Pictures está desenvolvendo uma cinebiografia do pianista e compositor George Gershwin. Zachary Quinto (Heroes, Star Trek) viverá o músico nas telas.

Este é um dos três filmes que Steven Spielberg, fundador do estúdio, está escolhendo para ser seu próximo. De acordo com o Deadline Hollywood, Quinto está recebendo aulas de sotaque e as filmagens podem começar já em abril.

O filme contará a história de Gershwin, compositor de música erudita e popular, incluindo músicas para diversos espetáculos da Broadway, escritas em parceria com seu irmão mais velho, Ira Gershwin.

Suas composições também foram usadas como trilha sonora em filmes e programas de TV, outras viraram standards de jazz. Gershwin morreu em 1937, aos 38 anos, vitimado por um tumor cerebral.

O roteiro foi escrito por Doug Wright. Marc Platt será o produtor, ao lado do cantor e pianista Michael Feinstein.
>> OMELETE – por Carina Toledo


“PARADOX”: MAIS UMA SÉRIE BRINCA COM O FUTURO

terça-feira | 2 | fevereiro | 2010

A ideia de imagens do futuro ajudando a resolver crimes no presente não é inédita. Já vimos isso no filme ‘Minority report’. E também na (chata) séreie ‘Flashforward’. Se a premissa da série inglesa ‘Paradox’ não é original, os roteiros compensam isso, nos envolvendo em uma trama recheada de pistas e mistérios.

A série é centrada no Dr. Christian King (Emun Elliott), um estranho astrofísico, e no grupo de policiais formado pela Detective Inspector (DI) Rebecca Flint (Tamzin Outhwaite), pelo Detective Sergeant (DS) Ben Holt (Mark Bonnar) e pelo Detective Constable (DC) Callum Gada (Chiké Okonkwo). Abre parênteses: acho muito engraçado essas denominações da polícia inglesa: DI, DS, DC. Fecha parênteses.

O Dr. King misteriosamente começa a receber imagens aleatórias transmitidas do espaço. Só que as fotos na verdade não são aleatórias, pelo contrária, estão interligadas. E mais do que isso. Retratam um evento que ainda está para acontecer a 18 horas depois da transmissão das imagens. Este é o tempo que os detetives têm para juntar as peças do quebra-cabeça e evitar uma tragédia, que eles nem fazem ideia de qual seja. As imagens podem apontar para um acidente de trânsito ou um assassinato.

E a questão que se coloca é: ao investigar as fotos estariam os policiais criando os fatores que vão levar ao incidente? E se não fizessem nada, os fatos mostrados nas fotos se concretizariam do mesmo jeito? E a questão fica mais complicada quando as investigações passam a envolver pessoas próximas aos policiais, ou quando eles mesmos que estão nas imagens. A primeira temporada tem apenas cinco episódios e deixam um gosto de quero mais.
>> O GLOBO – por Sérgio Maggi


ALFA CENTAURI NA CULTURA POPULAR

segunda-feira | 1 | fevereiro | 2010

A Via Láctea contém pelo menos 200 bilhões de estrelas além do nosso Sol. O conjunto estelar Rigil Kentaurus (vinda de uma frase em árabe que significa: pé do centauro), comumente chamado de Alfa Centauri (Alpha Centauri) é uma estrela a oeste do conhecido Cruzeiro do Sul. Além de ter um tamanho similar ao nosso Sol, seu sistema é composto por três estrelas e está apenas a 4.33 anos-luz de distância da Terra ou, para exemplificar melhor, +/- 280 mil vezes a distância entre a Terra e o Sol, sendo o sistema estelar mais próximo da Terra.

A equivalência com o tamanho de nosso Sol e a proximidade com nosso planeta levou muitos pesquisadores e escritores de ficção científica a cogitarem a existência de vida nos planetas desse sistema de estrelas. Isso inspirou diversas obras no cinema, TV e também livros sobre o tema, afinal, quando a viagem espacial em velocidades próximas a da luz fosse alcançada, este seria o lugar mais provável para explorações.

Aqui vão as citações deste sistema estelar na nossa cultura:

Alfa Centauri em Filmes e na TV

  • A família dos Robinsons, na série “Perdidos no Espaço” (1965–1968) estava em uma missão a Alfa Centauri quando sua nave foi sabotada.
  • “Jornada nas Estrelas” (1966 em diante), de vez em quando, mencionava Alfa Centauri, mais notavelmente como o sistema que o inventor da velocidade de dobra, Zefram Cochrane escolheu para se aposentar.
  • Na série de TV “Doctor Who”, um personagem de Alfa Centauri, homônimo, fez algumas aparições, começando com o episódio “The Curse of Peladon” (1972; Terceiro Doctor).
  • Alfa Centauri é mencionada na série de TV “Mork & Mindy” (1978–1982). Mork encontra um homem na loja de música que diz que ele é um “alien” (em inglês, palavra também usada pra se referir a um estrangeiro). Entendendo errado o significado da palavra, Mork pergunta se o lar do homem fica perto de Alfa Centauri.
  • Em “The Last Starfighter” (1984), Centauri é o personagem que vem para buscar Alex Rogan da Terra depois que ele consegue vencer no jogo Centauri, inventado para recrutar novos “starfighters”.
  • No filme de Werner Herzog, “The Wild Blue Wonder” (2005), o personagem principal é um alienígena que explica a nós que até mesmo nossa vizinha mais próxima, Alfa Centauri, levaria séculos para chegar a nossas atuais tecnologias de propulsão.
  • No filme de James Cameron, “Avatar” (2009), ambientado durante o século XXII, uma grande lua chamada de Pandora orbita um gigante de gás no sistema estelar de Alfa Centauri A. Pandora é similar à Terra e é habitada por uma miríade de formas de vida, incluindo os seres de pele azul, com dez pés de altura, seres de uma raça humanóide chamada de Na’vi.
  • No episódio “The Pirate Solution”, de “The Big Bang Theory”, quando Raj está tentando conseguir outro emprego na Universidade, Proxima Centauri é mencionada em uma piada sobre o horário do pôr do sol para começar a beber.

Alfa Centauri em HQs e Animação

  • No universo da DC Comics, o planeta Rann teve origem no sistema de Alfa Centauri. Rannianos são tão próximos ao normal de humanos com base na Terra que Adam Strange foi trazido ao planeta para agir como uma espécie de “garanhão reprodutivo”. Isso foi antes de Rann ser teleportado para fora do sistema de Alfa Centauri, em um mundo compacto paralelo e, depois disso, para o sistema de Polaris.
  • No titulo da Marvel Comics, “Guardiães da Galáxia”, humanos estabeleceram uma colônia no planeta do século XXXI, Centauri IV, co-existindo com os habitantes nativos (inclusive Yondu Udonta e Photon).
  • Nas histórias de Dan Dare, “The Man from Nowhere” e sua sequência, “Rogue Planet”, o sistema estelar que Dan Dare visita fica a menos de 5 anos-luz da Terra e tem três sóis, um dos quais é uma Anã Vermelha; então, pode-se presumir que fique no sistema de Alfa Centauri (é chamada de Próxima Centauri).
  • Na história original da Marvel para os Transformers, o planeta Cybertron ficava, originalmente, na órbita de Alfa Centauri. Devido às Grandes Guerras, o planeta foi tirado de órbita e deixado à deriva, o que vale a pena apenas para o Universo Marvel, contudo, visto que outras partes da franquia ou têm Cybertron em órbita de uma estrela não nomeada, uma estrela totalmente diferente, ou à deriva no espaço.

>> iCULT – por Ana Death Duarte – Introdução: Alonso Lizzard – Imagens: Deviantart – Desenho da Constelação e Localização do sistema: Wikipedia Commons. Foto: Alpha Centauri (esquerda) e Beta Centauri (direita) por Marco Lorenzi – KenCroswell.com


FICÇÃO CIENTÍFICA: O GÊNERO QUE AMEDRONTA ESCRITORES

domingo | 31 | janeiro | 2010

Muitos autores “mainstream” escrevem livros de FC mas não querem ser apelidados como escritores do género: fogem da FC como o Diabo da cruz.

A atribuição do Nobel da Literatura 2007 a Doris Lessing foi considerada uma vitória para a FC. Entre 1979 e 1983, Lessing publicou a série “Canopus em Argos”, constituída por cinco romances de FC (editados entre nós pela Europa-América). Ao contrário de outros autores, nunca teve problemas em admitir que escrevia FC e chegou a considerar os livros da série os mais importantes na sua carreira.

O crítico americano Harold Bloom considerou, na altura, a atribuição do Nobel a Lessing “pura correcção política” da Academia Sueca. “Apesar de Doris Lessing ter demonstrado qualidades literárias admiráveis no início da sua carreira, as obras que escreveu nos últimos 15 anos são livros de FC de quarta categoria”, disse à “Associated Press”.

Lessing é um caso raro de uma escritora conhecida que nunca teve medo de assumir que escrevia e gostava de FC. O mesmo não acontece com Margaret Atwood. A autora de “Órix e Crex -O Último Homem” (ed. Asa) classifi ca os seus livros como “ficção especulativa” ou “romance de aventura”, mas nunca como FC.

“Atwood acha que existe uma certa abjecção a pairar sobre o título de FC. Pode ser considerado uma traição, mas consigo entendê-la perfeitamente”, disse o escritor de FC Brian Aldiss ao “Times Online”.

Em 1975, Kingsley Amis, Arthur C. Clarke e Brian Aldiss preparavamse para atribuir o prémio de melhor romance de FC do ano a Salman Rushdie, pelo seu primeiro livro “Grimus”, quando no último minuto os editores resolveram retirar a obra do concurso. “Se Salman Rushdie tivesse ganho o prémio seria classifi cado como escritor de FC e nunca mais ninguém voltaria a ouvir falar dele”, explicou na altura Brian Aldiss.

Nas livrarias, não se encontra o “1984″, de George Orwell, ou “O Admirável Mundo Novo”, de Aldous Huxley, ao lado de obras de Philip K. Dick ou Arthur C. Clarke, apesar de todos pertencerem ao mesmo género. O livro de Orwell é, na edição da Antígona, caracterizado como “sátira”. “O estigma de apelidar um livro de FC de um autor consagrado é tão grande, que a maior parte dos críticos chega mesmo a utilizar palavras como ‘parábola’ ou ‘fábula’”, escreve Michael Chabon, crítico do “The New York Review of Books”, numa recensão a “A Estrada” de Cormac McCarthy -apontado por alguns críticos como um romance de FC. “Nos últimos anos, muitos escritores ‘mainstream’ têm escrito FC, embora não sejam classifi cados como autores do género”, diz ao Ípsilon Felicity Mellor, professora no Imperial College, em Londres, autora de textos publicados nas revistas “Social Studies of Science” e “Public Understanding of Science.” “Os editores sabem que ao classificarem um livro de FC vão limitar a sua audiência”, acrescenta. Existem cada vez mais livros que misturam FC e outros géneros.

A trilogia “Noughts and Crosses”, de Malorie Blackman, “Crónica do Pássaro de Corda” de Haruki Murakami ou “Nunca Me Deixes” de Kazuo Ishiguro são alguns que têm FC, para além de outros géneros. “Isto não quer dizer que os géneros literários tenham deixado de existir e de ser explorados nas suas especificidades. Eles, inclusive, ainda norteiam toda a lógica taxonómica do mercado editorial, os estudos académicos e as normas dos concursos literários” acrescenta ao Ípsilon a escritora brasileira Maria Esther Maciel, que lecionou a cadeira “Seminários sobre Literatura Brasileira e outras literaturas: escritas híbridas na literatura contemporânea”, em 2006, na Faculdade de Letras da Universidade Federal de Minas Gerais, Brasil
>> ÍPSILON – por Eduarda Sousa


ARGENTINA FANTÁSTICA: O PERDIDO REINO DE TRAPALANDA

domingo | 31 | janeiro | 2010

A região da Patagônia, no sul da Argentina, foi vista no passado como que acolhendo um lugar maravilhoso: o Reino da Trapalanda. Era uma espécie de El Dorado tão procurado pelos conquistadores espanhóis. Uma terra fantasticamente rica, onde todas as construções das cidades, ruas e casas, eram feitas de ouro maciço e puríssima prata. Segundo Ezequiel Martinez Estrada, um dos maiores ensaístas da língua espanhola, este mito especioso de existir uma pátria cheia de tesouros ocultos, a espera de quem os encontrasse, nunca teria sido esquecido pelos seus conterrâneos argentinos.

“ O ilusório superou o verdadeiro.
A verdade, a terra ilimitada e vazia, a solidão, sobre isso ninguém adverte.”

E.M.Estrada – Radiografia de la Pampa, 1933

As Cidades dos Césares
Conforme o conquistador Garcia Furtado de Mendonça e seus homens alcançavam as regiões mais meridionais do continente sul-americano, cresciam, intensos, os rumores da existência de um grande e riquíssimo império logo mais abaixo. Instalados no Chile, por volta de 1570, os murmúrios entre os espanhóis foram tão mais fortes que o adelantado, o governador, não teve outro remédio senão mandar um dos seus ir investigar aquela boataria. A soldadesca, aquela altura, falava abertamente no misterioso Reino de Trapalanda, lugar fabuloso, mágico, “onde as cidades tinhas as ruas pavimentadas com lingotes de ouro e as portas das casa eram de prata”. Cidades dos Césares encravadas entre os Andes e a planície.

Região de monstros
O relato dessa aventura, escrito pelo capitão Arias Pardo Maldonado, tornou-se , segundo Luis Sepulveda, o primeiro registro da literatura fantástica em língua castelhana que se conhece. Maldonado descreveu os habitantes de Trapalanda como figuras monstruosas, gigantes de pés enormes, que não precisavam de vestimenta nem de cobertores pois envolviam-se em suas próprias orelhas para dormir. Pior ainda era o cheiro que exalavam. Tal a pestilência que nenhum deles se aproximava do outro, formando uma estranha raça que não se acoplava nem tinha descendência. Nunca se soube a razão desse registro maluco deixado pelo capitão Maldonado. Alguns o imaginam com a intenção de espantar daquelas possíveis maravilhas, a cobiça dos bandos de aventureiros e desertores. Não passava de uma contrapropaganda.

Radiografia do pampa
Para Ezequiel Martínez Estrada, o soberbo ensaísta da Radiografia do Pampa( Buenos Aires, 1933), tais relatos tenebrosos, novelas do pútrido, não alteraram em nada as alucinações de opulência e esplendor que sempre excitaram a imaginação dos imigrantes que vieram para o Novo Mundo. Entre eles o fracassado pai de Ezequiel, um homem de Navarra, Espanha, que se desencantou na Argentina. Cada um que embarcava da Ibéria para as terras austrais vinha atrás da quimérica Trapalanda, sempre esperançosos em poder encontrar as barras douradas acumuladas em algum lugar inaudito, que ninguém vira antes , as quais bastaria por na algibeira e galopar de volta a um porto.

TRAPALANDA NÃO EXISTIA

O gaúcho argentino (Carlos Ferreyra)A decepção porém, chegava de chofre. Por vezes, já no desembarque, em Buenos Aires mesmo. Ao entrarem Pampa adentro, piorava. Espaço vazio, sem vivalma, deparavam-se, além da solidão absoluta, com “ um cansaço cósmico que caia dos céus com todo o seu peso”. Não havia nada no horizonte. Nunca se via onde acabava a terra e começava o céu. O pampa era o pampa. Os olhos, esbugalhados perante aquele mundo sem-fim, logo se desiludiam. Os filhos deles herdavam o malogro. Eram donos do nada, pois nunca ninguém encontrara a propalada Trapalanda. Concentraram-se então em Buenos Aires, que assim virou um enorme depósito de fracassos e frustrações dos que vieram antes e também dos recém chegados. Tornou-se, a capital portenha, um “polipero monstruoso”, como Martinez Estrada preferiu dizer.

A solidão e a imitação
A república argentina, para ele, nada mais era do que “ uma grande cidade de 3 milhões de quilômetros quadrados, com alguns terrenos baldios no seu centro e com dez quarteirões cercados por deserto”. Buenos Aires, então – sublimando as desditas e tentando superar a imensa solidão em que seus habitantes se encontram no perdido mundo americano – , imitou Paris, repetindo-lhe o traçado urbano, as avenidas largas, o obelisco, e o gosto pelos cafés. Importou os costumes da Europa: a ópera, a psicanálise, e até o tango, cujos primeiros acordes ouviram-se no bairro dos gringos: la Boca. Até um poeta cego, Jorge Luís Borges, fez-lhes as vezes de um Homero, enquanto Victoria Ocampo com sua Revista Sur apresentava-lhes a intelectualidade européia em primeira mão. Martinez Estrada apelidou-a de “ a cabeça de Golias”.

A civilização, a felicidade, enfim, veio-lhes de fora. Essa estrutura externa, a “ amplitude, as aparências de vida heróica e rápida…de cidade cosmopolita e rica, de grande destino” não lhe extirpou , entretanto, a alma de vilarejo bárbaro, onde a brutalidade da região se acoitara e que, por vezes, irrompia, fazendo os seus moradores regredirem à cenas de espantoso canibalismo político, como tantas vezes se viu: de Juan Domingo Perón a Jorge Rafael Videla.

A fantasia persiste
Não lhes abandonou também, mesmo quatro século depois, a delirante fantasia de estarem bem perto do Reino da Trapalanda, vizinhos da terra do ouro e do mel, escondida em algum lugar da Patagônia, o que levava os argentinos ao comportamento perdulário, a gastar tudo o que tinham e o que não tinham, porque um dia, tinham certeza disso, todos tropeçariam no baú da sorte, e o tampão do almejado tesouro, escancarado, infalivelmente se abriria para todos.

Síntese da radiografia do pampa
Numa entrevista, dada bem antes da sua morte, ocorrida em 1964, Ezequiel Martinez Estrada resolveu ,ele mesmo, fazer uma síntese das reflexões contidas no seu Radiografia de la Pampa. Começou por ressaltar o papel ilusório que o Reino de Trapalanda exerceu na imaginação dos conquistadores – e naqueles que imigraram depois para a Argentina – , denunciando a abismal desilusão que sofreram ao entrarem em contanto com a realidade. Utopia, diga-se, alimentada e difundida por Domingo Sarmiento, o grande intelectual e estadista argentino do século XIX, teimosos engenheiro construtor de pontes sobre a realidade, que insistia em pôr fraque e cartola nos gaúchos.

Ao invés de acharem tesouros ao rés do chão, os recém vindos deram com uma terra agreste, a qual era preciso lavrar e semear, regando-a com suor e sangue. O choque com esta situação inesperada, conduziu-os para poderem superar a frustração a que concebessem uma espécie de pseudotrapanlanda, fazendo com que o argentino cismasse em querer o que não tem, querendo-o como algum dia quisera ter.

SÓ NUM MUNDO SOLITÁRIO

A solidão do pampa ( tela ‘os peões’ de Carina L. Winschel)O povoador do pampa encontrou-se só num mundo solitário. A mãe dos filhos dele é de outro sangue ( uma índia do pampa). O enorme oceano que o separa da Europa fez com que o continente se assemelhasse a uma ilha, na qual ele se viu desamparado. Porém, ele não se sentia um Robinson, modesto e morigerado, vivendo numa choupana, com um Sexta-feira nativo ao seu lado. Ao contrário, viu-se como um grande senhor em momentânea pobreza. Como Prospero, o personagem de A Tempestade de Shakespeare, passou a supor fazer maravilhas na ilha conquistada. Ao contrário do que os ingleses fizeram na América do Norte, que ergueram uma pátria onde viver e morrer, o recém chegado ao pampa vive chorando a pátria perdida, a Jerusalém da qual ele foi obrigado a desterrar-se. Vive num exílio desconfortável, psicologicamente insatisfeito na terra que lhe deu abrigo.

A erosão do homem e o papel de B.Aires
Neste cenário entram em ação as forças telúricas, as energias primitivas , elementares, que trabalhando com a água, a terra e o vento, dão para destruir suas construções precárias feitas de adobe e couro que eles levantaram como abrigo no meio daquele nada. A terra corrige os erros dos homens, erodindo tudo aquilo que constróem. É então que surge Buenos Aires como a chave do entendimento da obra. A grande cidade, que Lugones disse ser banhada por um rio cor de leão, nada mais é do que a Espanha , “ nossa inimiga em casa” , disse dela Martinez Estrada. Ela absorve, devora, dilapida e corrompe. É um foco de infeção. Ela explora o interior, a nação , o povo, a quem esfola sem piedade. O resto do país é a sua colônia que ela mantém submetida e embrutecida para evitar que, como no passado, indomáveis caudilhos como Facundo Quiroga ou Chacho Peñalosa , a ameaçassem com suas cavalgadas de guerra e seus rastros de desordem.

O natural e o artificial
Há, portanto, na formação argentina, uma duplicidade insuperável entre a capital ( sede das instituições e costumes artificiais importados da Europa, cidade cosmopolita permanente representante de interesses coloniais, requentados e reatualizados, desde a independência, pela plutocracia portenha) , e o interior (nativista e autentico, sempre exposto às extorsões de Buenos Aires).

O resultado disso, desta latente tensão entre o falso e o natural, entre a grande metrópole e os territórios vizinhos (a quem ela vê como a morada dos brutos, dos selvagens a serem amansados), é o medo: o trauma inibitório da vida nacional. Portanto, a vida política esta impregnada por esse temor crônico que tudo invade e que se manifesta em reações irracionais. O que os argentinos entendem como sendo suas estruturas, não passam de edifícios sem pilotis, prédios flutuando sobre uma superfície de ilusões. Um labirinto de enganos, obrigando a todos, angustiados, a tentarem buscar estacas firmes que os mantenham presos ao continente para sempre.

O CONVÍVIO DOS EXTREMO

A tese dele, retrabalhando a dualidade “Civilização ou Barbárie”, exposta por Sarmiento no seu clássico ensaio Facundo (1845), é de que a civilização , no Prata, apesar de todo adamascado de Buenos Aires, com seus ares de grande urbe européia, não superara ou eliminara a barbárie. Convivia com ela, pois, as imperecíveis forças telúricas, selváticas, carnívoras, que muitos imaginavam esquecidas, retornavam a todo o momento como espectros, reaparecendo como a realidade profunda do país. Assim, a Argentina vive num cabo-de-guerra, onde está muito longe de decidir-se para que lado da ponta da corda ela irá pender definitivamente: se para o lado da civilização ou da temível barbárie.

Bibliografia
ESTRADA, Ezequiel Martínez – Radiografia de la pampa ( Colección Archivos-Unesco, B.Aires, 1991)
SARMIENTO, Domingo F. – Facundo: civilização e barbárie no pampa argentino ( Editora da Universidade RS-Edipucrs, P.Alegre, 1996)

>> TERRA – por Voltaire Schilling


O NOSFERATU DE HERZOG

sexta-feira | 29 | janeiro | 2010

Werner Herzog é o melhor diretor alemão da sua geração, que inclui Fassbinder, Wim Wenders e outros pesos-pesados.  Acho Herzog o mais interessante, pela variedade e pelo inesperado dos seus temas, pelo tom alucinatório de muitas das suas narrativas, pelo seu flerte permanente com o fantástico, pelas experiências radicais em que mergulha a si mesmo e sua equipe para realizar um filme.  Pode ser que tudo isso não sejam virtudes propriamente cinematográficas, mas Herzog é um diretor capaz de fazer milagres com uma câmara, meia dúzia de atores e uma trilha sonora.  A prova disso é este filme, um dos melhores filmes de terror de todos os tempos. 

Nos comentários à versão em DVD, Herzog afirma que todo mundo precisa de uma tradição, de uma ligação com o cinema do passado, e que a época hitlerista deixou muito pouco cinema para a geração que se seguiu.  Tiveram que remontar ao tempo do Expressionismo (décadas de 20-30), e, para ele, o melhor filme daquele tempo foi o “Nosferatu” de F. W. Murnau (1922), inspirado no romance “Drácula”, de Bram Stoker.  Daí a idéia de fazer uma nova versão em 1979, versão que ele afirma não se tratar de uma refilmagem.  De fato, trata-se do reaproveitamento de parte do mesmo material (o tema, o enredo básico, alguns personagens) para dar uma interpretação totalmente diversa.

Murnau foi um dos reis do claro-escuro na época do cinema em preto-e-branco; Herzog responde a suas imagens magníficas com um filme a cores em que as luzes e sombras são trabalhadas junto com contrastes de cores, numa fotografia memorável.  A trilha sonora, feita por Popol Vuh, é impressionante (e o áudio é um dos principais elementos narrativos do filme). 

Herzog rejeita as versões de Stoker e de Murnau.  Em Stoker, há a vitória final da ciência, do cavalheirismo masculino, dos valores vitorianos.  Em Murnau, a vitória do altruísmo feminino, do amor que leva ao auto-sacrifício, mas com final feliz (Drácula morre, Harker e a esposa acabam juntos).  Herzog descreve um mundo onde o Mal prevalece porque já está no interior das pessoas.  É Harker quem traz Drácula para destruir sua cidade.  Todo seu trajeto para a Transilvânia é um trajeto para o interior de si mesmo, para atender ao chamado do Drácula que quer emergir.  Drácula é seu retrato de Dorian Gray.

Como num conto de A. E. Van Vogt, em que a mente de um astronauta em hibernação permanece acordada durante séculos, Drácula é alguma coisa que está acordada e imóvel há séculos, ou milênios, na mente de Harker, pedindo para despertar.  É um conjunto de desejos insatisfeitos que giram perpetuamente num círculo vicioso, porque no momento em que encontram satisfação querem repeti-la, sem se darem nunca por saciados.  São como o cavalo do Barão de Munchausen, que bebia água sem parar porque fôra cortado ao meio e o estômago estava aberto.  Drácula é um sorvedouro de energia, vital mas destrutiva, que Harker reprimiu a vida toda e libertou toda de uma vez.
>> MUNDO FANTASMO – por Braulio Tavares

Assita à abertura do filme de Herzog


“RETORNO AO BIG-BANG MICROCÓSMICO”: FAGULHA CÓSMICA

sexta-feira | 29 | janeiro | 2010

O escritor paulistano Denis Moura de Lima lança seu romance de estreia, a ficção científica “Retorno ao Big-Bang Microcósmico”

Só a duras penas, a ficção científica conseguiu se estabelecer como gênero literário respeitável, como objeto de estudos literários que não depreciarão o estudioso. Claro que a mudança não se deu tal o milagre que verteu água e vinho. Ainda resiste muito preconceito (no caso da literatura, o paradoxo da não-leitura). O Brasil, onde ainda persiste vícios de um beletrismo francês, decadente, do século XX, a situação é ainda pior.

No então não faltam resistentes. E recentemente, numa daquelas circunstâncias difíceis de explicar, foi deflagrado um boom de títulos de ficção científica, com repercussões em diversos Estados. O Ceará contribui agora como “Retorno ao Big-Bang Microcósmico” (BNB, 196 páginas
2010
, do paulistano radicado no Estado Denis Moura de Lima.

Com trânsito entre os escritores locais – mais notadamente nas férteis cenas da poesia e do conto -, Denis Moura não se intimidou diante da forma longa e complexa do romance. Formado em Telemática, ele prefere se concentrar no ofício de escritor do que no de cientista (afinal, quem precisa do verossímil em FC?).

Ilustrações de Pedro Uchoa para o livro “Retorno ao Big-Bang Microcósmico”, de Denis Moura de Lima

O clássico e o presente
A leitura do livro mostra que ele não poderia ter seguido outro caminho. Aqui não se trata de uma história estendida, mas de uma narrativa que necessita das bases que o gênero romanesco dá: a possibilidade de se aprofundar na psicologia dos personagens; de trabalhar como tempo em camadas, com presente, passado e futuro; e permitem que o estilo dê reviravoltas, conforme a história avança.

A obra de Denis Moura de Lima é daquelas que se encaixam na concepção de Ursula K. Le Guin da ficção científica. A escritora, autora de clássicos do gênero como “A mão esquerda da escuridão”, diz que a “ficção científica não prevê: descreve”. Em “Retorno ao Big-Bang Microcósmico”, a descrição fica por conta de uma concepção de democracia digital, que rege o mundo em que transitam seus personagens. Não é o caso de dizer onde chegaremos na vida “conectada”, mas de fazer uma caricatura do ponto em que nos encontramos.

Além do suposto exercício de futurologia, que muitos tomam como essencial da FC, há no livro de Denis Moura aquele tipo de especulação existencial que, de fato, é uma das marcas das melhores obras do gênero. Especulação que se dá na revisão de um dos temas clássicos da ficção científica: a viagem no tempo. A diferença é que o escritor deixa que esta viagem sempre traumática modele o texto. O Big-Bang do título pode ser lido como uma pista a respeito da forma escolhida para narrar a história. Diversos fragmentos, difícieis de ordenar ou hierarquizar, mas cuja leitura conferem uma ideia de todo, de jogo, como num quebra-cabeças.
>> CADERNO 3 – por Dellano Rios

Para ver os primeiros capítulos, acessem:
http://bigbangmicrocosmico.blogspot.com/

Assista ao booktrailer do livro:


“GHOSTFACERS”: VEJA A SÉRIE DERIVADA DE “SUPERNATURAL”

sexta-feira | 29 | janeiro | 2010

Ontem o jornal Variety divulgou a notícia de que a série “Supernatural” terá uma spinoff a ser produzida pela Warner e a Wonderland direto para a Internet no formato websérie. Sem ter ainda a confirmação de que “Supernatural” terá ou não uma 6ª temporada, o canal CW já prepara o terreno para uma possível substituição para quando a série tiver que sair do ar. Se a spinoff conquistar uma boa receptividade via Internet, é bem possível que consiga fazer a transição para a televisão.

A spinoff (série derivada de outra) será estrelada e escrita por A.J. Buckley e Travis Wester, os Ghostfacers que já apareceram em pelo menos 3 episódios de “Supernatural”. Os dois são autoproclamados investigadores profissionais das manifestações paranormais e apresentam seu próprio reality show, o “Ghost Ghostfacers”.

Na história da websérie, os dois investigarão ocorrências de paranormalidade, explorando a narrativa documental. Também no elenco estão Brittany Ishibashi, de “E-Ring”, e  Austin Basis, de “Life Unexpected”; sendo que no primeiro websódio a atriz convidada é Kelly Carlson, de “Nip/Tuck”. Serão produzidos 10 websódios de 3 minutos de duração os quais serão exibidos no site do CW e da WB, ainda sem data de estréia definida. Além da websérie, também serão disponibilizados na página oficial, imagens de bastidores, galeria de fotos e mais informações sobre a mitologia da série.

A série “Supernatural” já promoveu a publicação de 18 histórias em quadrinhos, com mais 6 à caminho, além de livros, revistas especializadas e convenções.
>> TV SÉRIES – por Fernada Furquim


FILME B JAPONÊS TEM HOMEM VESTIDO DE MULHER QUE BRIGA COM ESTUDANTES DA LIGA DAS TOTALMENTE NUAS

sexta-feira | 29 | janeiro | 2010

O que é o que é? É filme B protagonizado por um travesti, mas não é “Glen ou Glenda”, clássico trash do “pior cineasta do mundo” Ed Wood. Tem ficção científica, mas não é Jaspion ou Godzilla. Mistura humor com erotismo, mas não é pornochanchada. É filme japonês sobre gangues, mas não foi dirigido por Takeshi Kitano. A resposta é “Sukeban Boy”, filme B japonês inspirado em mangá com humor, erotismo e ficção científica.

O filme japonês de 2006 é daqueles trabalhos que fazem os neurônios do espectador passarem por verdadeiro exercício de contorcionismo. Não que ele tenha uma trama rocambolesca ou seja de difícil compreensão. Longe disso. Mas sua história é uma gigantesca mistura de gêneros que mereceria uma prateleira à parte na locadora.

A história, baseada em um mangá japonês criado por Go Nagai em 1974, é uma comédia com toques eróticos sobre um estudante, o Sukeban do título, que tem que se vestir de garota para poder estudar em um colégio só para meninas.

Na escola, ela – ops, quis dizer ele – convive com colegas pouco amistosas. O caro internauta já deve ter ouvido falar de gangues escolares ou de panelinhas, certo? Pois o protagonista também vai ter que lidar com uma turminha da pesada. O colégio conta com várias gangues como a Liga da Meia-Calça, a Liga das Sem-Sutiãs e a Liga das Totalmente Nuas

Os nomes são bem sugestivos e atiçam a imaginação de qualquer homem. O problema, no entanto, é que o protagonista não vai ter tempo de colocar a sua testosterona em ação. As gangues são barra pesada e estão prontas para uma boa pancadaria. Mas não se trata de socos e pontapés. As garotas das gangues têm algumas armas secretas bem esquisitas. Só para dar o gostinho do arsenal bizarro vale citar uma garota que tem seios de onde florescem botões de rosas (!) que disparam balas como se fossem pistolas (!!).

O cineasta Noboru Iguchi abusou da imaginação e criou brigas que misturam um tanto de gore (prepare-se para ver uma boa dose de sangue jorrando na tela) com leve toque de sadismo.

O trabalho de pouco mais de uma hora de duração sintetiza um certo tipo de ficção nonsense produzido no Japão. É o mesmo gênero que serviu de fonte de inspiração para Quentin Tarantino criar seus trabalhos, em especial, os dois “Kill Bill”. Dá até para traçar um paralelo entre a gangue de Lucy Liu com as estudantes de “Sukeban Boy”. Perdoem o trocadilho, mas, no quesito pancadaria, as duas gangues ficam pau a pau.
>> UOL Tabloide em São Paulo


É UM PÁSSARO? UM AVIÃO? NÃO, É O PRESIDENTE!

sexta-feira | 29 | janeiro | 2010
A política sempre foi uma grande inspiração para os humoristas. No caso dos chargistas, todos os Presidentes da República foram “vítimas” de lápis afiados em livros e jornais, sem desrespeito ou partidarismo. Mas e quando o principal dirigente do país acaba nas páginas dos quadrinhos? Essa situação está se tornando cada vez mais comum.

Nos EUA, a lista de presidentes coadjuvantes em HQs é imensa: Franklin Roosevelt, Ronald Reagan, Jimmy Carter, Bill Clinton e George Bush são alguns deles. Em 1964, John Kennedy aparece num gibi pedindo ajuda ao Superman para divulgar um programa nacional de prática de atividades físicas. Por sua vez, Richard Nixon é provavelmente o recordista de aparições, inclusive na minissérie Watchmen, como o presidente vitalício dos EUA.

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Bush em Ultimates 3

Obama e Sarkozy Na última eleição americana, um gibi com as
biografias de Barack Obama e John McCain foram vendidas aos borbotões. Havia uma versão simplificada de cada candidato e uma no formato “dois em um”. Em janeiro de 2009 a revista Amazing Spider-Man mostrou Obama cumprimentando o Homem-Aranha.“Foi algo natural depois que o novo presidente se declarou fã do personagem”, declarou Joe Quesada, editor-chefe da Marvel.LEIA A MATÉRIA COMPLETA

Obama na capa HQ homem aranha 2009

Na França, é normal as editoras lançarem álbuns durante as campanhas presidenciais, alegando que as vendas até o dia da eleição compensam o investimento. Um bom exemplo é La face karchée de Sarkozy (co-editado pela Fayard e a Vents d´Ouest). Resultado de uma detalhada reportagem do jornalista Philippe Cohen, com roteiro do advogado e cenarista de Richard Malka e desenhos de Riss, o livro biográfico de Nicolas Sarkozy vendeu mais de 200 mil exemplares. O sucesso foi tanto que inspirou o lançamento de outros dois álbuns de autores diferentes: Tout sur Sarko (Tudo Sobre Sarko) e Tout sur Ségo (Tudo Sobre Ségolene Royal, sua adversária política).

LULA EM QUADRINHOS

capa gibi Lula 2002 by Bira Dantas

Se hoje o presidente Lula é tema de filme, a tentativa de transpor sua vida para os quadrinhos aconteceu durante a corrida presidencial de 2002. Um movimento independente lançou o gibi Lula – A história de um vencedor com tiragem total de 580 mil exemplares. A revista contava a trajetória do “mocinho” Luiz Inácio Lula da Silva e apresentando seus então adversários José Serra e Ciro Gomes. Além do idealizador, o desenhista Bira Dantas, participaram do projeto o pesquisador Bargas, o arte-finalista Ricardo Cruzeiro e o cartunista Paulo Caruso, que escreveu a apresentação.

O financiamento para a tiragem inicial de 60 mil cópias veio de um fazendeiro de Ponta Grossa (PR). O lançamento aconteceu num jantar em Curitiba, com a presença do próprio Lula, que não esperava a surpresa.

– Ele não sabia de nada, só a Marisa, que acompanhou tudo, dando palpites nas caricaturas do marido – lembra Dantas.
– Quando o Lula viu a revista em cima do prato e começou a folhear, seus olhos encheram de lágrimas. Para a segunda edição ele só pediu uma mudança: que na cena dele no velório da primeira mulher, houvesse menos flores e que ele não aparecesse abraçando o caixão, que não aconteceu. Claro que atendi ao pedido pré-presidencial.

Membro do PT desde 1980, Dantas lembra que a revista fez sucesso entre os leitores, petistas ou não. Mas teve que passar por mudanças no segundo turno, quando Ciro passou a apoiar Lula.

– Sobre as mudanças, eu sempre fui muito categórico em aceitá-las. Mas quando fizemos a edição na Bahia eu disse: “Bargas, se você pedir para eu tirar o ACM ou Sarney, eu não tiro. Aí é questão de honra!” .

Para a eleição deste ano, Bira diz que aceitaria fazer um gibi com a biografia de Dilma Roussef. Mas e se algum quadrinista fizesse uma revista atacando o seu candidato? O artista acha saudável, desde que a discussão se dê no campo das idéias e propostas.
>> JORNAL DO BRASIL – por Pedro de Luna

Kennedy e Superman em 1964

O DISNEY BRASILEIRO FOI UM JORNALISTA, E NÃO UM QUADRINISTA…

quinta-feira | 28 | janeiro | 2010

Sei que o que vou escrever será visto como insulto por muitas pessoas. Mas, espero que todas elas entendam o que vou dizer.
Hoje, saiu uma nota no Anime News Network acerca de um trabalho do Maurício de Sousa. É um título que ele e Osamu Tezuka pensaram em fazer quando o segundo ainda estava vivo. Há uma tradução do Animepró. A nota original saiu no Asahi. Um fato a ser levado em conta é: a comparação colocada na matéria só foi posta ali, porque alguém aqui do Brasil disse para o jronalista que produziu o material. Eles não teriam chegado a tal conclusão do nada. Ou seja, o dito comentário provavelmente saiu daqui…

Na matéria, fala-se que Maurício de Sousa é o Walt Disney brasileiro. Cara, desculpem não é. Porque para ser o Disney brasileiro, ele teria que ter construido um império a altura. E veja: império no cinema, música, parques, na televisão… Quando vivo, o Walt Disney soube administrar tudo o que conseguiu. E em vários momentos, as empresas dele tiveram problemas, não foram só rosas. Mesmo assim, ele construiu um império.

Muitos podem dizer: “é, mas o Disney tinha apoio do governo americano…” E daí? Leonardo da Vinci também tinha apoio dos mecenas e nem por isso foi menos genial. Mas daí podem dizer, “mas ambos faziam quadrinhos…” Cara, isso não quer dizer nada. Até porque o Disney não fazia quadrinhos, escreveu algumas poucas histórias só…
Se um pesquisador americano ler este comentário de que Maurício de Sousa é o Disney brasileiro, possivelmente, ele faria as seguintes perguntas:

Pesquisador – Maurício de Sousa tem uma produtora de cinema? Uma das maiores do país?
Brasil – Não.
Pesquisador – Tem uma rede de televisão?
Brasil – Não…
Pesquisaodr – Tem algum parque de diversão?
Brasil – Tem até fevereiro…
Pesquisador – Tem uma gravadora?
Brasil – Não…
Pesquisador – Alguém aqui fez, construiu algo parecido?
Brasil – Sim, Roberto Marinho.
Pesquisador – Fale sobre ele…
Brasil – Bem, ele (a família) começou com um jornal. Anos depois conseguiram rádio, editora, depois fizeram uma TV, a primeira rede no país. Hoje, a Globo é tudo isso e mais uma produtora de cinema, além de acionista majoritária da maior operadora de TV a cabo do país…
Pesquisador – Obrigado. Então, o Disney brasileiro foi um jornalista, e não um quadrinhista como me informaram…

Tive a oportunidade em alguns momentos, de ver pessoas que trabalham para o Maurício de Sousa fazer comentários semelhantes, que ele é o Disney brasileiro. O que estas pessoas não percebem é que – além de tudo – compará-lo ao Disney é ruim para o próprio Maurício de Sousa, pois é como se ele não fosse bom o suficiente para ser visto com as próprias pernas… O Maurício de Sousa deveria falar isso para estas pessoas!!!

Maurício de Sousa é Maurício de Sousa é pronto. Não precisa de comparação. Ele é bom. Ele é um cara que sabe o que faz. Compará-lo, sempre, com alguém que não tem comparação, só o coloca muito abaixo do Dinsey, por toda a realização que o americano fez no contexto da comunicação. O Disney criou uma “major”, o Maurício de Sousa não.

Por fim, fazer comparação de trabalhos também não é correto, pois um trabalhou majoritariamente com animação, o outro com quadrinhos.

E só para constar… Não confundam a pessoa Walt Disney com o estúdio Walt Disney. A pessoa foi genial. Os seus estúdios fizeram algumas “bobagens”, como copiar Kimba. Mas, vale lembrar de uma outra coisa. Osamu Tezuka era “devoto” de Walt Disney. Tanto que o Tezuka fez algumas adaptações de animações da Disney para histórias em quadrinhos.

Enfim, coloquem Maurício de Sousa no topo. Ele por ele mesmo. Compará-lo a Disney só faz depreciá-lo e depreciar ao Disney, como se este não tivesse produzido nada na vida econômica das empresas dele…

E parabéns ao Maurício de Sousa pelo trabalho envolvendo Tezuka.
>> PAPO DE BUDEGA – por Sandra Monte


COMPARANDO DISNEY

quinta-feira | 28 | janeiro | 2010

Comparando Walt Disney

Inicio esta coluna com base num post do dia 11/01 no blog da amiga Sandra Monte, o Papo de Budega. Ela levanta uma questão interessante sobre as comparações feitas no Brasil entre Walt Disney e Mauricio de Sousa. E tenta, com argumentos válidos (mas que irei respeitosamente discordar a seguir) de que a melhor comparação de Walt Disney a um brasileiro seria Roberto Marinho. Enfim, vamos primeiro ao Mauricio: 

Tive a oportunidade em alguns momentos, de ver pessoas que trabalham para o Maurício de Sousa fazer comentários semelhantes, que ele é o Disney brasileiro. O que estas pessoas não percebem é que – além de tudo – compará-lo ao Disney é ruim para o próprio Maurício de Sousa, pois é como se ele não fosse bom o suficiente para ser visto com as próprias pernas… O Mauricio de Sousa deveria falar isso para estas pessoas! 

Voltei. Nunca vi o próprio Mauricio de Sousa fazer esta comparação com Walt Disney, mas já vi membros da equipe dele e, claro, muitos fãs, fazerem essa comparação infeliz. É infeliz porque é desproporcional. É infeliz porque acaba menosprezando os feitos do Mauricio, que por si só, não são pequenos. Mas eu acho que deixam por isso mesmo porque ajuda no marketing, e sabemos que isso é que tem destacado os lançamentos da Turma da Mônica nos últimos anos. 

Agora, num exercício maluco de comparação, qual brasileiro poderia ser comparado a Walt Disney? A Sandra em seu post destaca que o Walt “Disney criou uma major” (a grande produtora e distribuidora que é hoje). E faz um exercício de lógica envolvendo um hipotético pesquisador perguntando se alguém fez algo parecido com Walt Disney no Brasil. Vejamos um trecho: 

Pesquisador – Alguém aqui fez, construiu algo parecido?
Brasil – Sim, Roberto Marinho.
Pesquisador – Fale sobre ele…
Brasil – Bem, ele (a família) começou com um jornal. Anos depois conseguiram rádio, editora, depois fizeram uma TV, a primeira rede no país. Hoje, a Globo é tudo isso e mais uma produtora de cinema, além de acionista majoritária da maior operadora de TV a cabo do país…
Pesquisador – Obrigado. Então, o Disney brasileiro foi um jornalista, e não um quadrinhista como me informaram… 

Voltei: A argumentação é válida, mas o tempo e os acontecimentos infelizmente não combinam. O Roberto Marinho foi jornalista e um ótimo admnistrador. Mas nunca foi um executivo criativo. Se formos comparar corretamente, Roberto Marinho está mais para Roy Disney (irmão de Walt, responsável pelas finanças e operações do estúdio) do que para o Walt. 

Roberto Marinho era também intimamente ligado ao mundo da política, se beneficiando dela para aumentar a hegemonia da holding Globo. Walt Disney também foi beneficiário do governo americano em algumas oportunidades, mas nunca foi ligado a política. Pelo contrário, era considerado um ingênuo nessa área. Era um conservador republicano, mas que votara em uma ocasião para um democrata. 

Walt Disney era um homem criativo mais do que administrador. Ouvia seu grupo de artistas e tomava sua própria decisão, certa ou errada com base nas necessidades de suas idéias e na evolução técnica delas. Roberto Marinho tinha seus homens criativos, como foi o caso de Walter Clark. A Rede Globo é o que é hoje graças a um homem chamado Boni, José Bonifácio de Oliveira Sobrinho. É dele essa estruturação de novelas e a formatação do Jornal Nacional e o Fantástico – e todo o ideário de “padrão Globo de qualidade”. Roberto Marinho “apenas” administrou. 

E por fim, Walt Disney não chegou a ver o seu estúdio transformado em uma grande corporação. Na época de sua morte (1966), a Walt Disney Productions se resumia aos estúdios e a um parque temático, a Disneylândia na Califórnia. O Walt Disney World ficaria pronto somente em 1971. A Disney se tornaria uma grande corporação a partir da administração Eisner-Wells em 1984, chegando ao seu ápice com a compra da Capital-Cities/ABC (incluindo a ESPN) em 1995. 

Então, se Roberto Marinho não é uma boa comparação, quem seria? Novamente, é sempre complicado fazer esse tipo de análise, mas é possível um esforço. Os mais próximos do estilo “Walt Disney” de administrar são Victor Civita (fundador da Editora Abril) e Silvio Santos. Ambos personalidades criativas. Victor Civita (1907-1990) tinha sacadas geniais para lançar as revistas, ouvia seus colaboradores e tinha um faro inigualável para arriscar em novidades. Apostou nos gibis Disney e bancou a revista Veja por anos, mesmo dando prejuízo. E assim como Walt, também tinha suas idéias malucas e que não foram para frente como dos Hotéis Quatro Roda (inspirados na revista) e o projeto de um frigorífico. O resultado é o Grupo Abril, hoje responsável por diversos negócios.
 
Na televisão temos Silvio Santos. Personalidade criativa, soube como ninguém adaptar os game-shows que assistia nos EUA para o gosto do brasileiro. Assim como Civita, também é ligado ao universo Disney, exibindo no SBT muitas séries, filmes e especiais. Ouve seus colaboradores, dá preferência para os mais simples, tem um faro para produtos que os demais nunca comprariam para exibição (Chaves é um bom exemplo) e tem uma presença cativante. Como todo gênio, faz suas bobagens, por vezes não tem paciência e muitas vezes erra. Mas essa é uma característica do gênio criativo. O resultado é o Grupo Silvio Santos com o SBT, teatro, bancos, a Tele Sena, hotel no Guarujá, lojas, etc.
 
Agora cabe a cada um equacionar as informações. Mas cada um desses personagens tem características únicas, que os tornam (mais uma vez) peças difíceis de serem comparadas. Sobre o restante do post do blog, sobre “Kimba”, discordo, mas deixarei essa polêmica para outra hora. 
>> ANIMATION-ANIMAGIC – por Celbi Pegoraro


“KICK-ASS” GANHA TÍTULO NACIONAL E DATA DE ESTRÉIA NO BRASIL

quinta-feira | 28 | janeiro | 2010


“Kick-Ass – Quebrando Tudo” chega em 11 de junho aos cinemas daqui

A Universal Pictures acaba de escolher o título nacional de Kick-Ass, adaptação às telas dos quadrinhos de Mark Millar e John Romita Jr.

O nome foi sugerido por um leitor do Omelete, participante da nossa promoção via Twitter. Será Kick Ass – Quebrando Tudo. Várias pessoas enviaram títulos semelhantes, mas o primeiro a mandar essa ideia foi Alexandre Bulhões (@bulhas), de Itabuna/BA.

O vencedor receberá um álbum importado Kick-Ass: Creating the Comic, Making the Movie (de Mark Millar, John Romita Jr., Jane Goldman e Matthew Vaughn).

O segundo colocado – que sugeriu o título Ação Sem Noção – foi Carlos Fischer (@carlos_fischer), que também receberá Kick-Ass: Creating the Comic, Making the Movie.

A distribuidora do filme por aqui, a Paramount Pictures, aproveitou o resultado da promoção para nos informar, com exclusividade, a data do lançamento do longa no Brasil. Será dia 11 de junho.

Kick Ass – Quebrando Tudo narra a história de um adolescente normal, Dave Lizewski (Aaron Johnson), que decide adotar o codinome Kick-Ass, vestir uma fantasia de super-herói, pintar bastões e combater o crime. Christopher Mintz-Plasse, Nicolas Cage, Chloë Moretz, Lyndsy Fonseca, Duke Clark e Mark Strong também estão no elenco, entre outros. Matthew Vaughn (Nem Tudo É o que Parece) dirige.
>> OMELETE – por Érico Borgo


“MENTHALOS” TRAZ HISTÓRIA SADOMASOQUISTA PAUTADA POR REFERÊNCIAS

quinta-feira | 28 | janeiro | 2010

Menthalos. Crédito: capa cedida pelo autor
Capa do álbum nacional, que tem lançamento em São Paulo nesta quinta-feira, na Livraria HQMIX

“Menthalos”, que tem lançamento nesta quinta-feira em São Paulo, marca duas estreias. No campo editorial, representa a entrada da Annablume na área dos álbuns nacionais. Na parte autoral, traz o primeiro roteiro em quadrinhos de Antonio Vicente Seraphim Pietroforte. Professor de Linguística e Semiótica na Universidade de São Paulo, ele construiu neste primeiro trabalho uma narrativa sadomasoquista permeada por referências de várias ordens.

Da Filosofia aos estudos da linguagem, dos quadrinhos à literatura, as citações englobam diferentes campos teóricos e ajudam a moldar a história de 80 páginas. O sadomasoquismo, uma das referências centrais da obra, também já havia sido explorado por ele: organizou em 2008 uma antologia sobre o tema em parceria com Glauco Mattoso.

A tradução visual dos temas ficou a cargo de Jorge Zugliani, que assina como Jozz. Este é o primeiro álbum dele desde “O Circo de Lucca”, publicado em 2008 pela Devir. Nesse intervalo, os quadrinhos de Jozz tem sido publicados no circuito independente.

Na leitura dele, “Menthalos” dialoga com o lado literário de Pietroforte, autor de romances e poemas publicados por diferentes editoras. Nesses livros, as referências também dão o tom. “Acho que o leitor se identifica com uma garota comum em foco e fica mais interessante ver como ela chega a constatações, reflexões e imagens aparentemente absurdas, mas partindo de hábitos simples do meio social”, diz o desenhista.

Paulistano de 45 anos, Pietroforte está na USP desde 2002. Ele foge do estereótipo do professor tradicional da universidade. Destoa nos temas, no visual, no uso de acessórios. O envolvimento com os quadrinhos vem desde criança. Como pesquisador, já abordou o tema em mais de um livro teórico com estudos sobre o processo de leitura das imagens.

A última obra foi lançada no fim do ano passado, também pela Annablume: “Análise Textual da História em Quadrinhos – Uma Abordagem Semiótica da Obra de Luiz Gê”. A Annablume, editora onde ele publicou muitos de seus livros, pediu a ele que pense em outros trabalhos para compor uma coleção de álbuns nacionais.

Página de Menthalos. Crédito: imagem cedida pelo autor

O embrião do selo de quadrinhos da Annablume é um dos temas desta entrevista com Antonio Vicente Seraphim Pietroforte, feito após sucessivas trocas de e-mail. As referências vistas em “Menthalos” pautam também as respostas. Com erudição, mas sem perder a clareza própria de um docente, ele detalha suas influências para a obra.

Blog - Do que trata o álbum?
Antonio Vicente Seraphim Pietroforte
– Antes de tudo, trata-se de uma novela gráfica sadomasoquista, cuja influência principal é George Pichard, com ênfase na podolatria, influenciada, nesse tópico, por Franco Saudelli e Dennis Cramer. Contudo, como Menthalos e suas companheiras são anti-super-heróis, o diálogo com Stan Lee e a Marvel Comics é evidente. Contudo, não se trata apenas disso, há, em Menthalos, pelo menos uma tematização mítico-religiosa, quase esotérica, nas citações de Cornélios Agrippa e Robert Fludd; uma tematização musical, nas diversas citações de instrumentos musicais e músicos de jazz, em especial, do álbum Song X, de Pat Metheny e Ornette Coleman; e uma tematização metalingüística, quando os quadrinhos falam dos próprios quadrinhos, mas, ainda, quando são citados temas da semiótica, das teorias da linguagem e da lingüística moderna, como frases dos lingüistas mais importantes do século 20, Noam Chomsky e Ferdinand de Saussure – este último aparece como personagem da HQ no capítulo 6. Em síntese, o álbum trata da construção do sentido e da projeção da subjetividade erótica nesse processo.
 
É seu primeiro roteiro de quadrinhos, não? O que o levou a ele?
Gosto de transitar por várias linguagens, por isso, mesmo na área de Letras, estudei Semiótica, que me permite não me concentrar apenas em questões de língua e literatura. Depois de haver escrito romances, contos e poesias – trabalhos em linguagem verbal – resolvi fazer roteiros de HQs e, atualmente, estou envolvido em dois projetos: um com o Cleyton Fernandes, Maurício DeBonis, Marcus Pereira, Rodrigo Procknov e o mestre Willy Correia, todos músicos eruditos, em uma proposta de dar forma musical a poemas da literatura brasileira contemporânea; outro com a poetisa Ana Cristina Joaquim, o fotógrafo Lucas Kiler e a performer Milze K., na elaboração de um livro que combine fotos e poemas sadomasoquistas. 
 
Você tem trabalhos de análises semióticas de histórias em quadrinhos em mais de um livro. Uma pergunta dividida em duas: 1) você sente na USP e fora dela algum olhar torto sobre o tema?; 2) como acha que será visto pelos pares agora que é roteirista de quadrinhos?
Não sinto, não, a universidade está aberta a estudar canções populares, histórias em quadrinhos, cinema, etc; o preconceito contra essas linguagens já acabou faz tempo. Meus pares, meus amigos continuarão me vendo como sempre viram. A universidade é habitada por todos os tipos de pessoas, o professor sisudo e mergulhado apenas nas gramáticas e no cânone literário conservador é apenas um estereótipo. Os poetas Horácio Costa e Jaa Torrano são professores da USP, basta ler os livros de poemas “Homoeróticas e Paulistanas”, do Horácio, e “A Esfera e os Dias”, do Torrano, para confirmar o quanto eles podem ser bem “malucos”.
   
Qual a sua leitura do momento atual dos quadrinhos nas universidades brasileiras?
O que eu noto, às vezes, por parte dos alunos interessados no tema, é certo desconhecimento da história da história em quadrinhos e uma concentração em quadrinhos americanos de super-heróis e mangás. Como é quase só isso que circula nas bancas, fica bem difícil acessar artistas como Winsor Maccay, Goerge Herriman, Andrea Pazienza, Vuillemin; no erotismo, o mercado está bastante restrito ao Milo Manara, falta material do George Pichard e do Franco Saudelli, até mesmo do Guido Crepax, muita coisa está esgotada; no quadrinho nacional, pouca gente se lembra de Jayme Cortez, Júlio Shimamoto, Flávio Colin, Luiz Gê.

Há algum outro projeto semelhante em pauta?
Tenho mais três roteiros de histórias em quadrinhos, estou tentando convencer o Jozz para desenhar o segundo. Além disso, eu e o Jozz estamos coordenando a coleção “Em quadrinhos”, do selo [e]xperimental, da editora Annablume, cujo projeto é editar os novos autores do quadrinho brasileiro.

Queria que aprofundasse sobre do que se trata o selo “Em quadrinhos”. Como funciona na prática a seleção das obras e o que foi conversado com a editora?
Dentro da Annablume, os selos Demônio Negro e [e]xperimental cuidam de divulgar a literatura contemporânea – o selo Demônio Negro edita escritores com mais tempo de carreira, como o Augusto de Campos, o Horácio Costa e o Glauco Mattoso; o selo [e]xperimental, escritores mais recentes – dentro dessa proposta de divulgação da literatura contemporânea, surgiu a idéia, até em função da publicação de Menthalos, de fazer também um selo que editasse quadrinhos da nova geração. O Vanderley Mendonça, responsável pelo Demônio Negro, já foi editor de quadrinhos; o Zé Roberto, editor da Annablume, está dando bastante força para o projeto; o Jozz, que está no selo “[e]m quadrinhos” junto comigo, conhece bastante a nova geração de quadrinistas brasileiros. Por enquanto, temos apenas projetos para o futuro; queremos lançar, pelo menos, um álbum por semestre.
>> BLOG DOS QUADRINHOS – por Paulo Ramos 

Página dupla de Menthalos. Crédito: imagem cedida pelo autor


SERVIÇO
- Lançamento de “Menthalos”.
Quando: nesta quinta-feira (28.01).
Horário: 19h30.
Onde: HQMix Livraria.
Endereço: Praça Roosevelt, 142, centro de São Paulo.


SOBRE VAMPIROS

quarta-feira | 27 | janeiro | 2010

Foi-se o tempo em que falar sobre vampiros era o mesmo que querer assustar alguém com algo que poria medo. Os tempos são outros e o antigo monstro, senhor das trevas e fonte de todo mal, é reverenciado como um objeto de desejo por parte das mulheres. Seria mais uma prova de que seus poderes são ilimitados?

Pelo menos no campo da ficção isso parece ser uma verdade incontestável. Quando o personagem “vampiro” (seja qual for o nome que adota, de Dracula a Edward, de Lestat a Angel, de Bill True Blood ao senhor Barlow, de Salem´s Lot, de Stephen King), todos passaram por verdadeiras transformações que vão do comportamento à aparência. O vampiro moderno não lembra em quase nada o clássico, apenas a sede de sangue continua. A grande diferença é que, hoje, o vampiro segue preceitos sociais (mesmo que não pertença a esses círculos) e se torna o príncipe das garotas.

Mesmo que seja um príncipe das trevas… Afinal, o que importa é o momento…

Porém o que se nota mesmo é que, de todos os personagens que se usam desde os tempos mais remotos, o vampiro é o único que passa por atualizações e modificações constantes. Basta ter acesso a uma boa videolocadora e procurar os filmes mais antigos. Alguns apresentam um vampiro magro, orelhudo e pálido, algo entre um cadáver em decomposição e os morcegos que se tornaram sua marca registrada. Já os modernos, além de terem escrúpulos, muitas vezes se tornam alvo de admiração das novas gerações. Afinal, quem nunca sonhou em ser como Edward ou Bill? Com certeza as mulheres de hoje nunca repararam no “tanquinho” que o Drácula possuía. E olha que Bela Lugosi foi um Drácula que meteu medo sem jamais mostrar para as câmeras um único dente canino.

Mesmo o que se conhecia antes sobre o mito desse monstro da noite, não se leva mais em consideração. Até pouco tempo atrás era a figura histórica de Vlad Tepes, senhor da Valáquia, que era apontada como a fonte histórica do Drácula de Bram Stocker e, portanto, a fonte de todos os vampiros. Hoje já há quem afirme que nem mesmo o famigerado castelo Drácula (que, segundo os guias daquela região, hoje parte da Transilvânia) é o correto. Esses pesquisadores colocaram em cheque até mesmo se a denominação Dracula poderia ser usada no caso de Vlad. Essa é uma maneira segura de afirmar que estão querendo tirar de Drácula seu papel de inspiração, o que, com certeza, o mercado turístico nunca vai deixar acontecer…

Mas afinal, se o mito começou com Vlad Tepes, então significa que se trata de uma criação de tempos recentes e, portanto, passível de ser adaptada. Bem, não é assim quando entendemos um pouco sobre toda a mitologia que cerca o vampiro. Em civilizações antigas, como a da Grécia, já havia referências a esses seres da noite, porém com ligeiras (ou melhor, profundas) diferenças. Isso porque há aqueles que são considerados como “vampirólogos”, ou seja, estudiosos de vampiros, que seguem o rastro do mito desde suas origens em histórias onde eram acompanhados de tudo que é ruim e podre (corpos em decomposição, insetos, ratos e névoas animadas) até a forma galante e vegetariana dos vampiros modernos. Ver como tudo mudou e a influência que os diversos veículos de mídia tiveram nessa evolução é algo que deixa qualquer um embasbacado.

E vale também dizer que, se pensar na importância de tal personagem, não seria bem assunto de figuras históricas, não é? Pois bem, se assim fosse não teríamos nomes como o de Voltaire, filósofo francês, que escreveu em sua obra Dicionário Filosófico:

 “Estes vampiros eram corpos que saem das suas campas de noite para sugar o sangue dos vivos, nos seus pescoços ou estômagos, regressando depois aos seus cemitérios”.

Hoje em dia não há tema mais abundante na literatura do que o dos vampiros. Fornecedor de matéria-prima para escritores internacionais como a mãe dos vampiros modernos, Stephanie Meyers, também é porta de entrada para escritores nacionais fazerem sua estréia no gênero, batizado de literatura fantástica. O mais famoso deles, claro, é André Vianco, mas há outros nomes tão famosos quanto e que escrevem com mais freqüência e variedade, como Martha Argel, Giulia Moon, J Modesto, Nelson Magrini e Kizzy Ysatis, entre outros.

Na tv e no cinema o vampiro tem seu lugar garantido em produções luxuosas e que conquistam milhares de fãs, como a série original da HBO True Blood e Diários de um Vampiro (The Vampire Diaries), inspirada numa série de literatura. O cinema, claro, se rendeu à saga criada por Stephanie Meyers e os vampiros que não saem ao Sol porque suas peles brilham hoje são os prediletos do público feminino.

Uma das últimas séries a ganhar o gosto do público foi Moonlight, que conta a história de Mick St. John (Alex O’Loughlin), um detetive particular ao estilo noir, que descreve seus pensamentos enquanto se envolve em casos exóticos. Ele se tornou vampiro em 1952, quando foi mordido por Coraline (Shannyn Sossamon), sua noiva, que o transformou no dia do casamento. Mick a abandonou com raiva e repulsa, mas nunca se viu livre dela, que ainda o ama. Nesta série muito da mitologia é deixada de lado: os vampiros andam temporariamente ao Sol (e não brilham) e não morrem com estacas, apenas ficam paralisados. Apesar do sucesso, a série foi cancelada depois de apenas 16 episódios, mas marcou os fãs, que buscam na Internet e nas chamadas fan fic (histórias criadas por fãs) possíveis continuações.

Quando todos pensam que já houve o suficiente para os seres que se transformam em bebedores de sangue, sempre há uma contribuição que os tira de seu estado letárgico e os coloca de novo sob a luz dos refletores (Sol, não!).
>> CANTO DO ORÁCULO – por Sérgio Pereira Couto


VAMPIROS: AS EDITORAS DE LIVROS ESTÃO DE OLHO NESSA ONDA

terça-feira | 26 | janeiro | 2010


A estudante de psicologia rio-pretense Shya Alana, 25 anos,
leitora da saga Crepúsculo e dos livros de André Vianco
(como ‘Os Sete’): interesse pelo surreal (foto: Ferdinando Ramos)

 

Vampiros! Eles estão por toda parte. Seja na ficção literária, nas telas do cinema, na tevê. E quem sabe não exista mesmo um agora aí do seu lado, fazendo o que mais gostam: sugando a energia vital. A bem da verdade, atualmente, eles estão mais para mocinhos do que bandidos, já que se tornaram queridos graças às novas características românticas atribuídas aos personagens Edward e Bela, já há algum tempo a febre da ficção literária (e agora cinematográfica) jovem. Mas os sugadores de sangue têm cativado não apenas um público adolescente, mas arrastado adultos, vários adultos, para dentro de suas histórias – e não por acaso têm, com frequência, liderado rankings de bilheterias de cinema ou lista de livros mais vendidos.

“Uma loucura só”, é como Cristiane Freitas Ferreira, gerente de uma rede de livraria de Rio Preto, define a frequência na loja de aficionados pelo gênero logo após os lançamentos de filmes como os da saga “Crepúsculo”, da autora norte-americana Stephenie Meyer, publicados no País pela editora Intrínseca – cujo segundo episódio da série, “Lua Nova”, está no momento em cartaz.

O momento favorável à literatura de vampiro é tão grande que até editoras novas, menores, sem tradição, estão explorando o gênero. Não é o caso da editora Rocco, que já publicava livros com histórias de vampiros bem antes que Stephanie Meyer pensasse em escrever. É a editora, por exemplo, quem publica no Brasil a norte-americana Anne Ricce, responsável por criar os primeiros seguidores do gênero por aqui, ainda nos anos 1970. Anne tem mais de 20 livros publicados, entre eles “Vittorio, o vampiro”, “A hora das bruxas”, “A rainha dos condenados”, “Lasher”, “Taltos”, “Memnoch”, “Pandora”, “O vampiro Armand”, “O vampiro Lestat”, todos editados pela Rocco, que detém direitos sobre 15 obras da autora.

Mas não há como negar a força de “Crepúsculo” para esta novo estado de fama experimentado pelos vampiros. Tanto que, após arrecadar milhões de dólares em livros e filmes, a franquia vai explorar agora a linguagem das HQs. Sim, o fenômeno teve sua primeira história em quadrinhos, “Twilight: The Graphic Novel”, anunciada pela revista Entertainment Weekly, que divulgou uma das páginas, no último dia 20. O lançamento, marcado para o dia 16 de março, será por enquanto apenas no mercado americano.

As histórias estão sendo elaboras pelas mãos da artista Young Kim, que garante que os personagens Bela e Edward também vão virar desenho, em uma adaptação fiel do livro da escritora. O empresário e editor Paulo Tadeu, da Matrix, afirma que o primeiro projeto da editora nesta linha, “Vampiros, Origens, lendas e mistérios”, de autoria de Marcos Torrigo, pegou bem a carona do tema. “Já foram quase três mil livros da primeira edição em pouco mais de três meses, então, estou pensando em trabalhar mais títulos que forem chegando com a mesma temática. O livro lançado por aqui saiu em outubro e já está indo para a segunda edição.”

Tadeu explica que a obra chegou justamente quando estava começando o fenômeno Crepúsculo. “Foi uma aposta da editora. E ela tem se mostrado acertada. Afinal, toda essa onda em torno dos vampiros gera procura não só pelos livros da série, como por tudo que se relacione. Tem muita gente querendo informações sobre como os vampiros são, como se propagou a lenda, e daí por diante.”

Fãs do gênero se multiplicam
Mesmo quem nunca gostou de histórias de vampiros hoje se dobra à leitura de títulos como “Crepúsculo”. É o caso da enfermeira Eliene Minarini Alves, de 23 anos, que já leu toda a saga de Edward e Bella e ainda incentivou a irmã de 34 a se tornar fã. “Vi o filme e decidi ler o livro. Gostei tanto que não consegui parar enquanto não terminei a saga. Acho que o romance por trás da história é o que mais estimula”, diz.

Quem também não parou enquanto não concluiu a leitura de todos os títulos (Crepúsculo, Lua Nova, Eclipse e Amanhecer) foi a estudante de psicologia Shya Alana M. Lim, de 25 anos. Como leitora de tudo que lhe cai às mãos, afirma que após ler “Os Sete”, de André Vianco, passou a se interessar pelo universo vampiresco. “Acho que o fato de ser algo tão surreal é que faz com que se torne interessante”, diz.

“O primeiro livro da série foi avaliado por nosso editor, Jorge Oakim, em um final de semana. Ele levou o livro para ler na sexta-feira e, no dia seguinte, sábado, já tinha certeza de que se tratava de um sucesso, tanto pela originalidade da história quanto pela qualidade do texto, que prende a atenção do leitor, um fenômeno chamado de ‘turning pages’”, diz Juliana Cirne, da editora Intrínseca. “ O enredo de Crepúsculo representa um retorno ao romantismo, uma nostalgia do amor romântico que tem forte apelo para os jovens.”

Outros produtos
O potencial dos vampiros despertou a atenção também dos produtores de tevê. Duas séries sobre o tema fazem sucesso atualmente nos canais por assinatura: “True Blood”, que teve duas temporadas exibidas pelo HBO, e “The Vampire Diaries”, pela Warner (o SBT também adquiriu os direitos e garante exibi-la este ano).

Eles já estavam presentes na mitologia grega
Para a antropóloga Niminon Suzel Pinheiro, professora da Unirp, o vampirismo está relacionado à crítica e ao moralismo cristão desde sempre. Seja por sua ligação com o humano à tensão entre a imaginação e a moralidade, a percepção do daimonismo na natureza e a culpa. “A dúvida e ansiedade daí decorrentes podem provocar e gerar a criação e o sucesso desse tipo de ficção”, afirma.

“Ao longo do processo histórico e social, diferentes figuras representaram o lugar hoje ocupado pelos vampiros. A Górgona grega mostra bem isso”, diz. Na arte antiga, ela é representada com uma cabeça sorridente, de barba e presas.

A professora observa que o vampirismo é como um escudo ou um ímã. “Nos vemos nele, se agimos mal, somos atraídos e engolidos e agimos bem. Ele nos fortalece. Observe que os navios antigos tinham cabeças de monstros na proas dos navios para desviar más influências. Nem tudo que parece do mal traz o mal. Eles servem para afastá-los, conforme a ideia de similaridade”, desafia.

Niminon propõe pensar outra questão importante. “O vampirismo da atualidade veiculado pela mídia e refinado pela imaginação popular é a relação com o sexo. Isso decorre da ideia, também antiga, da tocaia, do estupro e do devoramento da presa após o ato sexual. Assombrações, feiticeiros, duendes, gnomos, hárpias, seres das trevas, demônios errantes, morte e renascimento, partes complementares do ciclo da mãe-natureza, que sintetizam-se no vampiro glamurizado nas telas de hollywood”, diz.

Na internet
Nem todos os escritores do gênero vampiresco são conhecidos da grande mídia. Porém, a democracia de acesso do mundo virtual lhes permite atrair muitos fãs. É o caso do paulista Adriano Siqueira, diagramador e design gráfico de 44 anos que se tornou conhecido graças a seu trabalho no site www.adoravelnoite.com, seguido de perto por milhares de internautas.

“A humanidade tem uma atração por conhecer seres poderosos, dominantes, sedutores e solitários e com muita ênfase em Paixões proibidas. Os vampiros são os únicos seres sobrenaturais a ter tudo isso em suas histórias. Isso prende o leitor”, diz.

Na entrevista abaixo, concedida pelo paulista Adriano Siqueira, de 44 anos, diagramador e design gráfico, autor do site Adorável Noite, o leitor vai conhecer um pouco mais sobre o leitor que de tanto colecionar livros, HQs, filmes, Cds e tudo mais que existe sobre vampiros, acabou por transformar isto em sua profissão. Ele conta como tudo começou e, garante, que já conseguiram – ele ao lado de vários outros escritores nacionais, que participam da criação do grupo de novos escritores “Tinta Rubra”, há dez anos – cravar seus dentes pontiagudos no cenário cultural do País. Hoje, além de escrever, Siqueira é consultor de novos sites sobre
vampiros, ministra palestras sobre vampiros, participa de exposições, e também concede entrevistas às diversas mídias, além de produzir curtas metragens, HQs e radionovelas sobre vampiros. Acompanhe a íntegra da entrevista.

Diário – Como começou a escrever sobre vampiros?
Adriano Siqueira – Foi em 1996, quando comprei um computador e tive acesso as BBS´s (sistema offmail de comunicação) A onda sobre vampiros crescia muito por causa do RPG que era a novidade dos vampiros. Comecei a escrever contos pequenos e em pouco tempo comecei a ter muitos leitores que apreciavam as histórias que eu escrevia. As raízes dos vampiros se fortaleciam a cada dia. Foi naquela década que passou nos cinemas, o Filme Entrevista com o vampiro e Drácula do Ford Copolla. Na TV passava o Seriado Buffy a caça-vampiros, o Seriado Maldição Eterna e o seriado Kindred – Irmãos de sangue, que era sobre RPG. A década de 90 também tivemos o lançamento do “Livro dos Vampiros” do autor Gordon Melton. Tudo isso fez com que a vitalidade do assunto sobre os vampiros crescesse muito e foi nesta década que comecei a escrever.

E como surgiu a idéia do site?
Criei um site em 1999 para colocar os contos que escrevia e logo em seguida criei o site Conto noturno (atual Adorável Noite) para divulgar mais ainda os meus contos. A ideia foi tão positiva que comecei também a divulgar os livros sobre vampiros. Eu precisava de mais apoio. Então pedi ajuda para um site que tinha muitos grupos no antigo e-groups (hoje é o Yahoo), sugerindo a criação de um grupo específico para contos de vampiros. Foi assim que no ano 2000, nasceu o primeiro grupo de contos de vampiros do Brasil, o Grupo Tinta Rubra. Com este grupo ficou bem mais fácil divulgar meu trabalho e o dos novos escritores de vampiros. Aliás, muitos livros existentes hoje são de autores que já passaram por ele. Até porque, o site Adorável Noite (www.adoravelnoite.com) e o grupo Tinta Rubra, completam este ano, 10 anos de vida!

Além deste grupo de escritores, o site deu origem a outras situações?
Em 2008 estreia o primeiro livro com a minha participação. “Amor Vampiro” junto com mais seis autores; em 2009, teve o livro “Draculea” – o livro secreto dos vampiros ao qual participei com um conto chamado Filosofia Vlad e em seguida “Metamorfose” a fúria dos lobisomens com uma história sobre um vampiro e um lobo.

O que, em sua opinião, cativa tanto os leitores, quando se aborda este assunto?
A humanidade tem uma atração por conhecer seres poderosos, dominantes, sedutores e solitários e com muita ênfase em paixões proibidas. Os vampiros são os únicos seres sobrenaturais a ter tudo isso em suas histórias. Isso prende o leitor. O vampiro tem muitas vertentes. E a cada livro, a cada autor, o leitor fica interessando em saber sobre qual o tipo de vampiro que o personagem é. As armadilhas sedutoras que o vampiro planeja para conquistar as suas vítimas deixa a dúvida se ele está apaixonado ou se ele só faz estes jogos para se alimentar. A curiosidade sobre o assunto é tão vasta que certamente ainda teremos muitas histórias a serem contadas.

Acredita que em algum momento este tipo de literatura terá tanto espaço, quanto tem hoje, os livros de auto-ajuda, por exemplo?
Faz pouco tempo que temos a categoria terror nacional nas livrarias. Antes, era tudo colocado em literatura nacional, romance ou infanto juvenil. Os vampiros ainda terão uma categoria própria, pois a quantidade de livros aumentam, a pesquisa que fiz em 2009 mostrou que tivemos mais de 20 livros sobre vampiros em um único ano. Isso é um record brasileiro. Se continuar assim neste ano vamos ter o dobro. O Brasil é uma forte potência sobre o tema. Tem escritores experientes e existem mais aparecendo. Tudo indica que em breve teremos mais editoras acreditando neste tema. Abrindo mais as portas para os escritores nacionais que escrevem sobre vampiros.

Como você vê a expansão da abordagem deste tema, com a repercussão de livros como “Crepúsculo”, e os demais da autora?
Foram os livros da Stephenie Meyer sobre vampiros, que fizeram com que a mídia fosse tomada pelo tema e as editoras abrissem mais ainda as portas para os escritores nacionais. Já vimos esta moda de vampiros no Brasil quando estreiou a série Buffy – a caça-vampiros e mais tarde com a novela “Beijo do Vampiro”. A cada década sempre tivemos os vampiros na moda. Na década de 90, foi o filme “Entrevista com o vampiro” que personalizou até a roupagem dos vampiros; na década de 80, foram “Os Garotos Perdidos” que estabeleceu a rebeldia dos adolescentes em sua eterna vida noturna; a década de 70, vieram os filmes do Chirstopher Lee sobre Drácula, que mostrou como um homem completamente desconhecido pode dominar as mulheres com poucas palavras. Nesta nova década, quem sabe não será a vez do Brasil, finalmente tomar a frente com suas próprias histórias.

Tem alguma publicação independentes sobre vampiros?
Eu organizo o Fanzine Adorável Noite – Contos de Vampiros. Ele foi criado em 2001, e tem por objetivo divulgar os contos e poemas de autores nacionais. O fanzine é entregue em casas noturnas e eventos sobre o tema. Se alguém estiver interessado em participar deste fanzine, ou mesmo ler alguns, pode fazê-lo através do site http://www.adoravelnoite.com/fanzines/index.html que é totalmente gratuito.
>> DIÁRIO DA REGIÃO – por Cecília Dionizio


“CAPRICA”: ASSISTA AO TRAILER DO SERIADO

terça-feira | 26 | janeiro | 2010

O canal americano SyFy revelou o trailer da primeira temporada de Caprica, série que será um prequel de Battlestar Galactica.

Confira o vídeo abaixo.

Caprica serve como prólogo a Battlestar Gallactica, e mostra a colônia estelar homônima 50 anos antes dos ataques dos Cylons. O ator Eric Stoltz, que nos anos 90 fez Pulp Fiction, é o protagonista da ficção, que ainda tem Polly Walker, Esai Morales e Paula Malcomson no elenco. A produção fica por conta de Ronald D. Moore e David Eick, os mesmos de Battlestar Galactica. O time de roteiristas também será o mesmo.

A trama mostra como surgiu a rivalidade entre os Adamas e os Graystones, que viram suas filhas morrerem em uma tragédia. Os personagens principais da produção são Joseph Adama (Esai Morales) e Daniel Graystone (Eric Stoltz).
>> HQ MANIACS – por Leandro Damasceno


“CONAN”: ESCOLHIDO O NOVO BÁRBARO DA CIMÉRIA NO CINEMA

terça-feira | 26 | janeiro | 2010

A Nu Image e a Millennium Pictures definiram o nome do ator que viverá o guerreiro cimério de Conan, reinício da saga nas telonas. Depois de conseguir os nomes dos três finalistas ao papel, o blog Deadline Hollywood crava o escolhido: Jason Momoa, de 30 anos, o Ronon Dex de Stargate: Atlantis.

Ao mesmo tempo, o Latino Review diz que as produtoras já estão atrás do resto do elenco. Um convite teria sido feito a Mickey Rourke para que ele interprete o pai de Conan, Corin.

O roteiro é de Thomas Dean Donnelly e Joshua Oppenheimer (dupla de Sahara) e as revisões ficaram a cargo de Dirk Blackman e Howard McCain. Marcus Nispel (Sexta-Feira 13) dirige.

As filmagens começam em 15 de março, na Bulgária.

A Nu Image e a Millennium Pictures definiram o nome do ator que viverá o guerreiro cimério de Conan, reinício da saga nas telonas. Depois de conseguir os nomes dos três finalistas ao papel, o blog Deadline Hollywood crava o escolhido: Jason Momoa, de 30 anos, o Ronon Dex de Stargate: Atlantis.

Ao mesmo tempo, o Latino Review diz que as produtoras já estão atrás do resto do elenco. Um convite teria sido feito a Mickey Rourke para que ele interprete o pai de Conan, Corin.

O roteiro é de Thomas Dean Donnelly e Joshua Oppenheimer (dupla de Sahara) e as revisões ficaram a cargo de Dirk Blackman e Howard McCain. Marcus Nispel (Sexta-Feira 13) dirige.As filmagens começam em 15 de março, na Bulgária.
>> OMELETE – por Marcelo Hessel


SAMUEL L. JACKSON ESCREVERÁ HISTÓRIAS EM QUADRINHOS

terça-feira | 26 | janeiro | 2010

O Boom! Studios revelou nesta segunda-feira que o ator Samuel L. Jackson escreverá uma nova HQ para a editora, chamada Cold Space. Os roteiros serão feitos em parceria com Eric Calderon, e os desenhos ficam por conta de Jeremy Rock.

O que? Você achou que Samuel L. Jackson iria escrever Os Supremos para a Marvel Comics? Não entendeu? Bem, Jackson foi a base para a versão de Nick Fury presente em Os Supremos. No fim das contas, o ator agora interpreta Fury nos filmes da Marvel.

A revista terá seu personagem principal baseado no próprio ator, como você pode conferir acima. O herói será um forasteiro que cai em um planeta alienígena bem no meio de uma guerra civil.

Cold Space ainda não tem data para sair.

O Boom! Studios foi inaugurado em 2005, com a proposta de viabilizar projetos autorais de grandes nomes dos quadrinhos. A editora possui uma série de títulos em vários gêneros diferentes, entre os quais se destacam Hero Squared, Zombie Tales, Cthulhu Tales e títulos com personagens da Pixar e Disney. Mark Waid é seu atual editor.
>> HQ MANIACS – por Artur Tavares


“OS PASSARINHOS”: PRÉ-VENDA AJUDA A PAGAR CUSTOS DE LIVRO DE TIRAS

terça-feira | 26 | janeiro | 2010

Os Passarinhos. Crédito: divulgação

A internet se tornou um rica janela virtual para expor trabalhos em quadrinhos. De graça, porque não se ganha para produzir tiras e histórias num site ou num blog. A falta de pagamento é contornada com ganhos indiretos – eventual publicação em jornal, por exemplo – ou com o uso da criatividade para não ficar no vermelho.

Foi exatamente com criatividade que o desenhista Estevão Ribeiro conseguiu viabilizar a publicação em papel das tiras de “Os Passarinhos”, até então exclusivas de seu blog.

O jeitinho que o autor encontrou foi dividir os custos com o leitor. O internauta que segue a página faz um pagamento prévio da obra. E parte desse dinheiro que foi feito o livro, que tem lançamento nesta segunda-feira à noite no Rio de Janeiro e no mês que vem em São Paulo.

O sistema de pré-venda já é usado há alguns anos em diferentes sites, inclusive de editoras brasileiras. A estratégia é oferecer a compra antecipada de determinado produto dias ou semanas antes de ele ser posto à venda.Cada leitor do blog com as tiras de “Os Passarinhos” foi convidado a fazer um depósito entre R$ 8 e R$ 9,50. A diferença é por causa da variação do frete para o envio da obra.

Em troca, além do recebimento do livro, os patrocinadores terão os nomes impressos no livro como forma de agradecimento. 72 pessoas ajudaram e serão mencionadas na obra.Segundo Ribeiro, o esquema não permitiu o pagamento de toda a obra, mas garantiu 25% do custo total. Ele arcou com outros 25% e metade com a editora, a estreante Balão.

No entender do desenhista, o apelo direto ao leitor ajuda a contornar a burocracia de outras formas de viabilização de um projeto como esse, como as leis de incentivo cultural. O retorno foi uma surpresa. Alguns fãs depositaram dinheiro a mais. Outros aproveitaram para comprar outros trabalhos escritos por ele, como o livro “Contos Tristes”, segundo lugar no Prêmio Capixaba de Literatura Infanto-Juvenil, em 2007.

Quem não fez o depósito poderá ler as tiras do mesmo jeito. As inéditas – metade da obra – serão colocadas no blog algum tempo depois do lançamento do livro. “Algumas pessoas podem não querer desperdiçar numa publicação que estará on-line em três meses, e eu não as culpo”, diz Estevão, que está com 30 anos.

O desenhista, que também é ilustrador do jornal carioca “O Dia”, pretende repetir a experiência da pré-venda. Planeja lançar mais livrinhos da série ainda este ano. Este primeiro foi feito em formato horizontal e com as páginas grampeadas. São 102 tiras em preto-e-branco, uma por página. O preço R$ 9, um pouco mais caro que a pré-venda. O conteúdo mostra em papel o que o leitor virtual já conhece. A série tem como protagonistas dois passarinhos, Afonso, parecido com um sabiá, e o baixinho Hector.

Segundo o autor, os dois surgiram por acaso. “Eu estava num estúdio de animação esperando para apresentar um teste de roteiro e comecei a desenhar para passar o tempo.” “Em poucos minutos, eu fiz a ilustração do Hector, o passarinho menor. Fiz mais alguns desenhos dele, até que pensei que poderia fazer algo legal com o personagem. Então, decidi fazer outro personagem para acompanhá-lo e criei o Afonso, que inicialmente era para ser um periquito.”

Os Passarinhos. Crédito: reprodução do blog do autor

Da concepção para a realização. Estevão Ribeiro deu início ao blog da série em julho do ano passado. Desde então, tem usado a internet como ferramenta de divulgação. “Às vezes damos foras, eu tenho sido chamado de chato por algumas pessoas na Internet. Tento compensar com qualidade de trabalho”, diz o desenhista, nascido em Vitória (ES) e morando há quase dois anos em Niteroi (RJ).

O burburinho virtual teve seu ápice com a criação de Piu Gaiman, paródia em forma de ave de Neil Gaiman, conhecido por ser o roteirista da série norte-americana “Sandman”. O link com a tira com o personagem foi divulgada no Twitter e foi descoberta pelo próprio Gaiman. O escritor mencionou o trabalho e ajudou a pôr o blog brasileiro em evidência.

“Naquele momento, meu Twitter entrou em parafuso: pessoas comentando, repassando a mensagem do Neil Gaiman para outros”, diz o desenhista de 30 anos. “Ao todo, foram 65 ´recomendações´ para os seguidores, resultando mais de 1.200 acessos no blog. Foi o maior número de acessos num só dia.”

O blog de “Os Passarinhos” soma até agora 18 mil visitas, segundo o autor. A meta de Ribeiro é acentuar a popularização da série e publicar outro projeto. Ele organiza o livro “Pequenos Heróis”, que tem como ponto central a criação de histórias que tenham como fundo os superseres da editora norte-americana DC Comics.

“´Pequenos Heróis´ é um álbum em quadrinhos que conta oito histórias de crianças e adolescentes que tem algo em comum: num determinado momento da história eles agem heroicamente, fazendo referência a grandes super-heróis.” O livro irá fazer referência a Super-Homem, Batman, Mulher-Maravilha, Flash, Aquaman, Canário Negro, Ajax e os Lanternas Verdes. Estevão assina os roteiros, todos sem balões.

Serão oito histórias, cada uma com arte de um desenhista: Mário César, Emerson Lopes, Fernanda Chiella, Vitor Cafaggi, Jaum, Leo Finocchi, Ric Milk & Dandi – arte e cor – e Raphael Salimena.

Estevão aguarda a finalização de duas das histórias. Planeja lançar a obra ainda este ano e, depois, levá-la ao exterior. Ele já imagina também duas sequências, uma com heróis da Marvel – Homem-Aranha, Hulk, entre outros - e de clássicos, como Flash Gordon e Spirit.
>> BLOG DOS QUARINHOS – por Paulo Ramos

Os Passarinhos. Crédito: reprodução do blog do autor 

Serviço – Lançamentos de “Hector & Afonso – Os Passarinhos”
Rio de Janeiro. Quando: nesta segunda-feira (25.01). Horário: 19h. Onde: Blooks Livraria. Endereço: Praia de Botafogo, 316
São Paulo. Quando: 20 de fevereiro. Horário: a partir das 17h. Onde: Quanta Academia. Endereço: rua Dr. José de Queirós, 246, Vila Mariana


J.J. ABRAMS: CINEASTA FALA SOBRE “LOST”, “FRINGE”, “STAR TREK” E SUA PRÓXIMA SÉRIE, “UNDERCOVERS”

segunda-feira | 25 | janeiro | 2010

J.J. Abrams esteve na festa do canal Fox para a turnê de inverno da Associação dos Críticos de Televisão representando o seu programa Fringe. Mas, com tantas coisas rondando sua escrivaninha, como o final de Lost, a nova série Undercovers e a sequência de Star Trek, o cineasta teve de falar sobre um pouco de tudo.

Quem esteve por lá foi Sara Wayland, da equipe de colaboradores do Collider, parceiro do Omelete em Los Angeles. Confira o que ele falou sobre os seus trabalhos:

Os dois universos de Fringe vão finalmente começar a colidir?

Tem várias coisas muito legais que vão acontecer até o fim da segunda temporada. No entanto, o Jeff [Pinkner] e o Joel [Wyman], que estão realmente comandando o programa, ameaçaram me matar se eu revelar alguma coisa. Eu vou dizer que a trama que eles tinham no início dessa temporada, e que conversamos também com o Akiva Goldsman, vai ter um encerramento muito bom. Estou muito empolgado com isso. 

Vai ter mais William Bell interpretado pelo Leonard Nimoy?

Existe uma chance disso, com certeza. Eu não quero dar certeza nem para sim, nem para não, mas definitivamente existe a possibilidade. 

Em que estágio de desenvolvimento está o seu novo piloto para a NBC, Undercovers?

Nós começamos a filmar na segunda-feira. Então estamos bem mais adiantados do que eu sinto que estamos. 

Esse é mais um projeto de ficção científica?

Não. É uma série romântica que é uma comédia-drama sobre um casal de espiões. 

Com Lost chegando ao fim nesta temporada, você vai dirigir o último episódio?

Não. O Jack Bender realmente é o cara desse programa, como produtor/diretor, então seria errado da minha parte chegar e dizer “Olha, chega pra lá que eu vou dirigir”.

Mas você dirigiu o primeiro episódio. 

Eu sei, mas de alguma maneira seria estragar todo o trabalho incrível que ele fez. Mas o fato é que ele está morando no Havaí com o elenco, então ele vai dirigir o último episódio. 

Você vai cuidar da direção no seu novo programa?

Eu vou dirigir o piloto de Undercovers, sim. 

A NBC parece receptiva para novos dramas, agora que eles vão vagar o espaço das 22h de novo?

Eles já eram um lugar receptivo quando compraram o piloto, então eu estou muito feliz de estar lá. De repente há mais horas disponíveis por semana, o que é bom, mas isso não a torna mais ou menos receptiva. As pessoas da NBC têm sido extraordinariamente gentis e deram muito apoio a este piloto. É o início de um relacionamento. É uma coisa esquisita. Quando você faz um piloto com uma nova emissora, ou até com uma conhecida, e com atores com quem você nunca trabalhou, é sempre uma questão de fé. Você está entrando apressadamente num casamento com pessoas que você acredita que são ótimos parceiros, mas não tem certeza. Tudo que você pode fazer é, no dia-a-dia, perguntar “O que você acha disso? Me parece bom” ou “Isso está me incomodando, então vamos conversar sobre o assunto”. É literalmente como estar num relacionamento. Por enquanto ainda não tivemos brigas, estamos no período de lua-de-mel. 

Com terroristas ao redor do mundo e guerras acontecendo, você consegue fazer dramas sérios sobre terrorismo e medo, ou é melhor fazer algo mais leve?

Uma das coisas divertidas desta nova série que estamos fazendo é que ela é muito mais divertida, leve e escapista, ao invés de um drama pesado e complexo. Para mim, a ideia de combater qualquer coisa que se assemelhe ao terrorismo de verdade, não é bem o que eu quero assistir nesse momento. Eu não estou dizendo que isso é uma coisa que eu não assistiria, caso alguma outra pessoa fizesse, mas não é o que eu estou focando neste momento. 

É uma aposta mais arriscada tentar fazer uma coisa assim, com a situação do mundo agora? 

Quando se trata do que as pessoas estão indo assistir no cinema, pelo menos, está mais difícil fazer histórias de guerra. No entanto, uma das melhores coisas que a TV oferece é não só saber as notícias de tudo que está acontecendo nesse exato momento, em qualquer lugar do mundo, mas também a oportunidade de escapar de tudo isso. Querer uma dose de desejos realizados e diversão escapista é uma coisa que, como fã de televisão, eu consigo compreender, agora mais do que nunca. 

Você acha difícil passar de drama de ficção científica para um seriado mais leve?

Não, é sempre um alívio pular de um gênero para o outro porque, por mais que você esteja se divertindo e que tudo esteja dando certo, depois de trabalhar numa coisa por certo tempo, é refrescante trabalhar em alguma coisa que tenha outro ponto de vista. Uma outra abordagem e outro gênero. 

Você vai mesmo colocar a mão na massa nesse novo seriado? Você vai se envolver no dia-a-dia ou vai lançar, como com Lost e Fringe, e depois confiar na sua equipe?

Eu acho que, no começo, eu vou estar presente no dia-a-dia do programa. Eu vou dirigir o piloto, mas depois eu acho que o Josh Reims – com quem eu já trabalhei antes em Felicity – vai comandar o programa no dia-a-dia. Mas é importante para mim que a gente acerte o tom, consiga a energia e a dinâmica certa com os personagens. 

Você gostaria de dirigir um episódio de Fringe?

Eu adoraria. Isso foi antes do surgimento de Undercovers, mas não diminui minha vontade de fazer o episódio. Eu nunca consegui a chance de trabalhar com o Josh [Jackson], Anna [Torv] e John [Noble], e colocar a mão na massa, então eu ainda gostaria muito de fazer isso. Com certeza não é uma possibilidade que eu estou eliminando. 

Você acha que a Fox quer mesmo fazer uma terceira temporada de Fringe?

Eles têm dado um apoio maravilhoso. Eu não tenho nenhuma reclamação sobre como a Fox tem lidado com a gente. Apesar de não haver nenhuma notícia oficial sobre nada, eu tenho esperanças de que, apesar de tudo, nós vamos manter nosso território com eles. 

Essa temporada vai terminar com um gancho empolgante para a próxima?

Ela não vai terminar concluindo a série. 

Você já está mais próximo de uma decisão sobre dirigir ou não o próximo filme de Star Trek?

Não. Nós ainda não temos um roteiro nem nada, mas temos uma data de estreia [29 de junho de 2012 nos Estados Unidos]. A ideia é que eles tenham fé na equipe para esse filme. 

Foi gratificante descobrir sobre a indicação ao prêmio do Writer’s Guild para o primeiro filme?

Eu estou muito feliz pelo Alex [Kurtzman] e pelo Bob [Orci].

Você esperava que isso acontecesse? 

Não. Estou muito feliz por eles. A verdade é que eles são incrivelmente talentosos e trabalhadores e muitas vezes acabam marginalizados porque são tão bem sucedidos. Mas eles são ótimos escritores e é maravilhoso ver que estão ganhando o tipo de reconhecimento que merecem. O designer de produção Scott Chambliss foi indicado. A equipe de maquiagem foi indicada. Os efeitos visuais também foram indicados. É ótimo ver as indicações desses artistas incríveis e que trabalharam tanto, que poderiam ser facilmente marginalizados porque é algo chamado Star Trek. Eles são muito bons. Espero que o Michael Kaplan, que fez um trabalho incrível com o figurino, seja reconhecido também. Pessoas maravilhosas trabalharam nesse filme. 

Estão rolando boatos de que o filme poderia ser indicado ao Oscar. O que isso significaria para o filme?

Eu não consigo nem imaginar, mas seria uma coisa maravilhosa para todos os envolvidos. É difícil imaginar isso. 

Em Lost, como você já sabia o que [os produtores-executivos] Damon Lindelof e Carlton Cuse iam fazer, conforme a última temporada foi se desenrolando você sentiu momentos verdadeiros de empolgação, ao descobrir o que ia acontecer?

Nessa temporada, eles estão fazendo umas coisas incríveis e complicadas que são realmente inesperadas e diferentes, em vários aspectos. O jeito que vai terminar é consistente com o histórico incrível que eles têm em contar histórias. Histórias que são surpreendentes, de jeitos que te explodem a cabeça, que é justamente o ponto-chave do programa e que eu acho que eles fizeram maravilhosamente bem. 

O fim da série é o que você achava que seria, desde o começo? 

Nossa, de maneira alguma! Não. Existem pequenos fios e elementos aqui e ali, mas na verdade, quando começamos, nós não sabíamos exatamente o que ia sair. Nós tínhamos ideias, mas não sabíamos até que ponto elas iriam. A ideia dos Outros estava lá, mas nós não sabíamos exatamente o que isso ia significar. Damon ainda não tinha tido a ideia dos flash forwards. Ver onde estamos agora e o que eles criaram é insanamente gratificante e é algo que ninguém teria previsto no começo. A evolução da série realmente faz parte do incrível experimento deles de pegar uma série que no começo nós falávamos “Como você transforma isso numa série?”. Ver o que o Damon e o Carlton fizeram é realmente incrível para mim. 

Mas você que teve a ideia para a base da série, certo? 

Existiam muitas ideias, mas o jeito como as coisas aconteceram faz parte daquela questão de fé, de acreditar que vai dar certo. Isso não significa que você planeja tudo. Você tem grandes ideias, mas quando as ideias melhores e maiores aparecem, você segue com elas. 

O que você aprendeu com Lost que vai conseguir levar para outros seriados de gênero?

Lost é um caso especial. É difícil saber. Podemos dizer que é melhor que você não fique muito “serializado” porque, em um certo momento, é difícil. Mas a verdade é que eu não sei se Lost teria dado certo se fosse qualquer outra coisa. E não sei como aquilo se aplicaria a qualquer outro seriado.  

Se os detalhes e a mitologia de Lost não tivessem dado certo com o público, você teria tentado mudar, ou teria simplesmente desistido?

É difícil imaginar a versão de Lost em um universo paralelo, em que você pensa “Olha, essa é a versão do outro jeito de contar a história”. Realmente parece uma trajetória que começou sem um lugar óbvio para terminar. Com o tempo, eles criaram essa narrativa incrível, que é simplesmente resultado daquele momento de fé, e de confiar que os personagens vão nos mostrar o que é a série, tanto quanto qualquer coisa. Damon e Carlton realmente fizeram um trabalho incrível. 

A ABC anunciar tão cedo uma data para o fim da série ajudou, na questão de contar a história? 

Isso é uma coisa que o Damon e o Carlton insistiram muito. Eles disseram “Nos digam quanto tempo nós temos, para que a gente saiba onde o jogo acaba e onde é a linha de chegada”. Se você não sabe se serão 10 temporadas ou 6 temporadas, você não vai sair do lugar. Estou muito feliz em ver os outdoors que dizem “A Última Temporada”. Você não vê isso com frequência. Saber que uma série está acabando por conta própria traz uma sensação de inevitabilidade, ao invés da sensação de que a série está reagindo ao mercado e aos números de audiência. Isso é muito bacana. 

 Você acha que essa última temporada vai satisfazer aqueles que acompanharam a história desde o começo?

Acho que vai ser agri-doce. Ao mesmo tempo que eu acho que será muito satisfatório, também acho que será o fim de uma coisa que, para o elenco e todos os envolvidos, foi uma aventura mágica. Então a ideia que vai acabar é meio triste, mas é muito melhor que acabe assim do que com a impressão de que deveria ter acabado dois anos atrás. Eu acredito que será um final muito satisfatório, com certeza. 

Você gostaria de ter um plano parecido para Fringe, terminar a série numa data específica?

Eu acho que isso seria maravilhoso. Acho que não tem como dar errado quando você já sabe até onde ir. Algumas séries não precisam disso, porque são tão engraçadas que você não quer que elas acabem. Mas, numa série como Fringe, chega um momento em que você precisa saber quanto tempo você vai ficar no ar. 

Você tem alguma ideia de onde quer levar a série?

Ah, claro. Nós tivemos algumas ótimas conversas, logo no início, sobre onde isso poderia ir parar. Mas não importa o quando você converse sobre o assunto, quando chega no espisódio 40 e alguma coisa de uma série, ela também está te falando pra onde ir. Já evoluiu bastante, mas qualquer série é assim. 

O que aconteceu nessa temporada que você não estava esperando?

Teve algumas histórias, especialmente a do Walter e Peter, e algumas coisas com a Olivia, que na verdade iam durar mais tempo mas que nós antecipamos e fizemos antes. E tem algumas outras coisas que tínhamos conversado, como o padrasto dela, que acabamos adiando. Existem muitas oportunidades de caminhos a seguir além desta temporada, e vou ser otimista em relação a isso. Eu sinto que ainda temos um longo caminho a percorrer, mas a evolução é essencial. O programa encontrou um ritmo que é agradável de assistir e eu estou muito orgulhoso de todos os envolvidos. 

Você sabia que as pessoas estavam tendo problemas para aceitar a personagem Olivia (interpretada pela Anna Torv)?

Sim. Mas isso sempre foi parte da ideia. A personagem dela é naturalmente alguém que está nesse mundo estranho com esses personagens e situações, e é meio difícil para ela ser receptiva e fofa nesse papel. Então foi uma questão de dar a ela um pouco de vulnerabilidade e incerteza em sua própria vida, sobre de onde ela veio e para onde ela está indo. Esse foi um caminho. 

Você imagina um arco de seis anos para Fringe, da mesma maneira que para Lost?

Em Lost foi só na terceira temporada que nós chegamos a um ponto em que falamos “Precisamos saber onde é a metade do caminho”. Eu acho que isso é uma coisa que, se nós tivermos sorte o suficiente para continuar. Seria inteligente pensar realmente qual é a data do fim, para que a gente saiba até onde levar as coisas. 

Mas vocês ainda não chegaram lá?

Ainda não. 

Você se dedica tanto, coloca tanto de si na televisão e agora você também tem o cinema. Como você vai equilibrar os dois?

Uma parte é trabalhar com pessoas que são incríveis e cujo trabalho te surpreende, e isso se aplica tanto ao Jeff e Joel em Fringe como ao Damon e Carlton em Lost. Existem alguns produtores que encontram um material, ajudam a colocar no ar e depois supervisionam ao lado de uma equipe que trabalha com eles. É isso que eu faço, mas às vezes eu também escrevo e dirijo. Pode parecer que eu estou abandonando o negócio, mas o que eu estou tentando fazer é deixá-lo de pé. Eu posso não ter a paciência de pessoas como o Joss [Whedon], David Kelley, Damon ou Chris Carter, que ficam lá desde o começo, por diversas razões, porque eu tenho um pouco mais de déficit de atenção que eles, mas eu nunca deixaria uma série sem a certeza de que ela está em excelentes e dignas mãos, que eu sinceramente acredite que farão um trabalho muito melhor, no longo prazo, do que eu poderia fazer. Eu nunca sei exatamente como as coisas vão acontecer, mas é assim que tem sido até agora. 

O que você acha da data de estreia de Homem-Aranha 4 batendo com a de Star Trek 2 no verão de 2012? 

Estão ansiosos para ver como será isso. Eu sei que eles estão falando sobre um reboot de Homem-Aranha, então será interessante. Eu acho que existe espaço para todos nós. 

Você tem uma data para entregar o roteiro de Star Trek 2?

Não muito. Eu tenho certeza que existe um prazo, mas eu ainda não decidi quando isso será. Você pode trabalhar de trás para frente e descobrir que precisa de alguma coisa para, merda, agora! 

>> OMELETE – por Carina Toledo


FICÇÃO CIENTÍFICA À PORTUGUESA

domingo | 24 | janeiro | 2010

Há muito que o género perdeu a sua estante exclusiva nas livrarias. Por quê? 
Viajar no tempo, usar um manto de invisibilidade ou dar um passeio pelo centro da Terra são impossibilidades que um dia a Ciência poderá concretizar. Por enquanto, resta sonhar. Ou ler Ficção Científica. Mas será fácil? Basta entrar numa qualquer livraria e perguntar pela secção de livros de Ficção Científica (FC). A resposta mais comum é a de que isso não existe. Há muito que o género perdeu a sua estante exclusiva. Os livros ou estão dispersos, sem pouso fixo, ou sobrevivem no meio da literatura de género Fantástico e de divulgação científica. Longe vai a “Idade de Ouro da FC”. Entre os anos 30 e 50, o género recebeu a ampla atenção do público e surgiram autores como Isaac Asimov, Robert A. Heinlein e Arthur C. Clarke, hoje clássicos. Meio século depois, o retrato que os livreiros traçam é unânime: a FC já não está na moda. 

A constatação vem de quem vende e de quem publica. Nos anos 80, a Caminho apostou numa colecção dedicada à FC e criou o prémio Editorial Caminho Ficção Científica. O último romance saiu em 2001. A colecção de capa azul morreu. 

Na série de FC mais antiga e prestigiada do país – Argonauta (Livros do Brasil) – já não se publica um livro desde 2006. Na década de 60, as tiragens dos livros da Argonauta rondavam os 20 mil exemplares. As últimas edições não ultrapassam as 5 mil unidades. O próximo volume está, no entanto, agendado para Fevereiro. 

A colecção “Livros de Bolso – Série Ficção Científica”, da Europa-América, está sem novidades desde 1998. A outra chancela do grupo dedicada a este tipo de literatura, a Nébula, está com mais sorte apesar do ritmo de publicação ter diminuído. 

O editor da Europa-América, Tito Lyon de Castro, reconhece que o mercado de FC já viveu melhores dias e está, neste momento, “fraco”. 

“Viajantes no Tempo” é a série da Presença que surgiu em 2002. “Apesar do mercado internacional apostar no género como nova tendência, a colecção da Presença nunca obteve vendas significativas”, refere o director de marketing Francisco Pinto Espadinha. No início do ano, a colecção parou. Em 2005 a Saída de Emergência começou a publicar FC apesar do editor Luís Corte Real reconhecer que o género é “comercialmente desinteressante”. 

“Editamos por carolice. Não existe um retorno financeiro expressivo com a publicação deste tipo de literatura”, assegura. Apesar do mercado não estar virado para a FC, existem sempre algumas editoras que decidem remar contra a maré. É o caso das Edições Chimpanzé Intelectual que abriram o catálogo, em 2006, com a antologia “Ficções Científicas e Fantásticas” de nove escritores portugueses. “Começamos pela colectânea ‘Ficções Científicas e Fantásticas’ por estes serem géneros que em Portugal têm pouca tradição e reduzido espaço de afirmação, apesar de continuarem a dar azo a grandes obras da literatura mundial, assumindo um papel de contracultura importante”, justifica o editor Miguel Neto. Este ano, a editora já lançou “A Bondade dos Estranhos”, de João Barreiros. É o primeiro volume da primeira trilogia portuguesa de FC. A Gailivro também arriscou e publicou o romance “Ar”, de Geoff Ryman. 

O passado, não o futuro 
Este panorama sombrio não impediu, contudo, que um núcleo português de criadores do género saísse da obscuridade graças à extinta colecção da Caminho. João Barreiros, um dos autores que publicou nessa colecção, acha que o público português não lê FC porque está mais interessado no passado -o sucesso dos romances históricos é disso exemplo -e não consegue visualizar o universo que o rodeia. 

“O maior problema deste tipo de literatura deve-se ao desconhecimento do público em relação aos livros que são publicados”, opina também Luís Filipe Silva, vencedor do Prémio Ficção Científica Caminho 1991 com “O Futuro à Janela”. “Neste momento, as editoras publicam muitas obras de género Fantástico. Os escassos livros de FC que vão saindo acabam por desaparecer rapidamente da exposição nas livrarias.” O universo destes dois géneros de literatura não poderia estar mais distante: a Ficção Científica especula sobre situações que um dia a Ciência poderá vir a concretizar; a literatura Fantástica usa o sobrenatural, algo extraordinário que deriva da imaginação e se supõe não existir. 

A “iliteracia” dos leitores é, para o ex-realizador e escritor de FC António de Macedo, a causa da fraca adesão a este género: “A FC de agora é mais exigente, ao contrário da que surgiu nos anos 50, e o público tem dificuldade em ler algo que o obrigue a participar activamente na leitura. Mas os leitores pensam que para lerem FC precisam de conhecimentos científicos, o que não é verdade”, acrescenta. 

Rogério Ribeiro, presidente da Associação Portuguesa do Fantástico nas Artes -Épica, destaca a “má fama” de que a FC goza por estar ligada demasiadas vezes a obras de qualidade inferior. “Na verdade, a FC terá a mesma proporção de más obras do que qualquer temática literária”, ressalva. As “más traduções” e a “publicação das obras mais obscuras dos autores mais medíocres” são outras razões que, diz João Barreiros, levam os portugueses a não consumirem esta literatura. 

Mais optimista está Luís Miguel Sequeira, presidente da Associação Portuguesa de Ficção Científica e Fantástico -Simetria: “Não creio nada que o público português não se interesse por FC. Está é a consumila sem se aperceber do género que está a ler”. O problema não parece estar, para Sequeira, do lado das editoras, porque tem visto boas edições que não recebem a recepção do público. Todos parecem estar de acordo num ponto: a comunicação social não dá atenção ao que se vai publicando dentro do género. 

As vendas de FC editada em Portugal não reflectem, contudo, o entusiasmo dos leitores do género. Cristina Alves, bióloga, lê dois ou mais livros do género por mês. Apesar de ter começado por obras traduzidas em português, rapidamente saltou para as edições originais que compra na Net. “Os livros mais recentes nunca estão traduzidos. As compras online colocam os livros nas mãos três dias depois de serem publicados. Para quê esperar 10 anos pela tradução portuguesa?” pergunta João Barreiros. 

FC à portuguesa? 
A leitura de FC está em crise e o espaço reservado para os escritores portugueses não gozará de melhor saúde. Na colecção Argonauta não encontramos um único autor luso. A Nébula (Europa-América) precisou de editar primeiro 100 livros de autores estrangeiros para dar à estampa “Os Nogmas”, da portuguesa Cátia Palha. 

Os autores nacionais só encontraram um espaço de acolhimento visível no mundo editorial no final dos anos 80 com a colecção Caminho Ficção Científica. Excluindo este período de vitalidade, a publicação deste tipo de narrativas escritas por portugueses sempre viveu na clandestinidade, nota a investigadora e docente Teresa Sousa de Almeida, na antologia Fronteiras, publicada pela Simetria em 1998: “Em Portugal a FC é completamente ignorada pela instituição literária nacional, pela escola e, salvo honrosas excepções, pela crítica. Tem sido relegada para edições de autor, colecções especializadas, fanzines de duração efémera e algumas antologias que fizeram história. Face a esse esquecimento, responde na mesma moeda”. 

Mesmo não sendo muito visível, António Macedo acredita numa FC portuguesa. Mais céptico é Luís Filipe Silva que reconhece a existência de uma FC escrita por portugueses mas prefere não reivindicar o estatuto de Ficção Científica Portuguesa por serem poucos os escritores lusos e não se inspirarem em elementos de identidade nacional. “Os romances inspiram-se em tradições não portuguesas e por isso caem num vazio conceptual no nosso meio literário, o que não abona em favor deles”. 

“Os autores portugueses de FC são herdeiros espirituais de Eça de Queirós ou de Júlio Dinis” acrescenta Luís Miguel Sequeira. A ironia, a paródia, a preocupação com a realidade portuguesa e uma ligeira tendência para ficções de natureza política são as características da FC escrita por autores portugueses que a investigadora Teresa Sousa de Almeida destaca. 

Existem discussões e especulações sobre a morte da FC. Na Internet, os argumentos são muitos, desde o rápido avanço da ciência que a FC não acompanha, até à constatação de que já vivemos num cenário de FC, o que torna o género obsoleto ou redundante. 

“Quando existe algo que se torna realidade, surge sempre outra coisa que é preciso inventar”, diz António de Macedo que não acredita no fim deste tipo de literatura. Menos certezas têm João Barreiros: “Não sei se a FC está a morrer devido ao desinteresse crescente pelo futuro, mas se assim é, estamos todos em perigo. Daqui a 200 anos quem é que se lembrará do ‘Memorial do Convento’, de José Saramago? Mas a ‘Máquina do Tempo’ do Wells, o ‘Frankenstein’ da Shelly, ‘O Deus das Moscas’ de Golding, o ‘Admirável Mundo Novo’ de Aldous Huxley ou a ‘Laranja Mecânica’ de Burgess continuarão a ser lidos”, vaticina. O que a FC precisa é, segundo Luís Filipe Silva, de se reinventar, “Mais tarde ou mais cedo, a FC acabará por conquistar um público mais expressivo em Portugal”, prevê Francisco Espadinha. Um núcleo de escritores e entusiastas no nosso país está pronto para jogar. Mas, para isso, precisam que a literatura de FC acorde do longo sono em que mergulhou para viajar à velocidade da luz pela mente dos leitores. Em direcção a mundos desconhecidos. 

A jornada pode já começar com algumas das próximas publicações do género em Portugal: “Brasil” de Ian McDonald chegou às livrarias, com o selo da Gailivro; “A Máquina do Tempo Acidental”, de Joe Haldeman, será publicado em Dezembro na Nébula; “The Memory Cathedral” de Jack Dann está agendado para Fevereiro de 2009, pela Saída de Emergência. 
>> íPSILON – por Eduarda Sousa


ORWELL VERSUS HUXLEY

domingo | 24 | janeiro | 2010

MUTARELLI E OS CADERNOS LIBERTÁRIOS

sábado | 23 | janeiro | 2010

Um dos mais respeitados autores do País estreia no Estado de São Paulo com a tira Ensaio Sobre a Bobeira


ARTISTA – Tiras vão revelar suas experimentações, oriundas de notas e esboços

Um dos mais celebrados autores de obras em quadrinhos contemporâneas, no Brasil e no exterior, o paulistano Lourenço Mutarelli, de 46 anos, é o primeiro novo “reforço” da página de quadrinhos do Caderno 2. Mutarelli estreia amanhã com a série Ensaio Sobre a Bobeira, uma experiência gráfica cheia de nonsense e estranhamento, um tipo de comentário visual sobre a natureza humana.

A página de quadrinhos foi reformulada para abrigar novos autores, cujo trabalho não pode ser simplesmente definido como “tira de humor” ou “tirinha”. São visões arrojadas de uma nova perspectiva gráfica.

Lourenço Mutarelli é um artista múltiplo. Já lançou cinco romances, além de escrever peças de teatro e roteiros para filmes. Dele a Companhia das Letras publicou também O Natimorto e Miguel e os Demônios. Assinou a arte do filme Nina, dirigido por Heitor Dhalia, e seu romance O Cheiro do Ralo foi adaptado para o cinema, estrelado por Selton Mello.

O criador prossegue em fase ebulitiva. Em outubro, ficou entre os vencedores do prêmio Portugal Telecom com o livro A Arte de Produzir Um Efeito Sem Causa. No dia 18 de março, estará no palco no Festival de Teatro de Curitiba ao lado de Mario Bortolotto e Paulo de Tharso. Em 2011, volta definitivamente aos quadrinhos com o álbum Quando Meu Pai se Encontrou com o E.T. Fazia um Dia Quente, que será lançado pela Companhia das Letras e RT Features.

Há quanto tempo você não fazia quadrinhos?
Faz tempo, não me lembro ao certo. Vamos ver… Tá aqui… 2005. Foi o último que desenhei, Caixa de Areia, saiu pela Devir Editora. Eu tentei parar de desenhar para reformatar o cérebro, para ver se mudava alguma coisa.

Mas nessa época você já escrevia prosa, não?
Tava escrevendo, já tinha publicado algumas coisas. Aí eu quis tentar parar de desenhar. Parei um ano e alguma coisa, nenhum rabisco, nada. Aí comecei a fazer os gráficos para o livro A Arte de Produzir Um Efeito Sem Causa. Acho que não estava mais aguentando ficar sem desenhar e comecei a criar uns gráficos. Em 2007, fiz uma viagem e comecei a usar uns cadernos de esboços Moleskine.

Quantos cadernos você já desenhou?
Tenho uns 22 cadernos. São estudos, começou com uma mistura de texto e imagem e agora passou à coisa somente visual. Tem uns estudos da nova história que estou começando, e umas coisas que estou fazendo para o Estado. Batizei de Ensaio Sobre a Bobeira, e a série chama Moças com Bifes Sobre o Rosto. São coisas assim, pin-ups, coisas nonsense. Tenho usado muito acrílico agora. E é meio nessa linha o que estou fazendo para o Estado, coisas mais experimentais.

Você consegue definir precisamente, nesses cadernos, onde há um trabalho que não tem intenção de ser prosa e outro que é só gráfico?
Aqui eu consigo uma coisa que é um meio-termo. Às vezes faço um desenho e, a partir do desenho, crio algum diálogo, algum texto, que é um processo inverso de você fazer um roteiro de quadrinhos. Você cria uma imagem e vê o que essa imagem quer dizer, complementa ela com alguma frase. A minha ideia com esses cadernos é uma experimentação total, tentar chegar a alguma coisa antes de filtrar, tanto técnica – usando material que limite um pouco o meu domínio técnico – quanto na parte criativa. E faço e viro a página e vou indo, e depois de um tempo vou olhar o que eu gerei.

O esboço tem alguma vantagem sobre a produção em série, para um álbum em quadrinhos, por exemplo?
Eu acho que é um exercício. O problema é que acabo gostando. No estágio em que estou, que é o estágio natural de qualquer pessoa que trabalha muito com desenho durante muito tempo, é você querer voltar ao espontâneo, à liberdade. E quando é um estudo, consigo chegar a isso bem, mas se eu diagramar uma página para tentar fazer essa coisa espontânea, ela não vem. Só de diagramar, só de saber que tem um propósito, isso já começa a endurecer o traço e bloquear essa liberdade criativa. Por isso que tô fazendo assim. A ideia do Ensaio Sobre a Bobeira justifica o que vier, sem muita elaboração, e tendo esse prazer de… nem sei o que quer dizer, não é pensado, não tem uma mensagem.

Você faz alguma leitura psicanalítica daquilo?
Com o tempo eu acho que algumas coisas se encaixam. Quando faço, acho que é tudo fábula, tudo ficcional, mas às vezes passam meses, um ano, e cai a ficha de alguma coisa interna.

Você foi dos quadrinhos para o cinema e para o teatro. Quando você viu O Natimorto materializado no teatro, ficou satisfeito?
O Natimorto foi um dos meus trabalhos muito febris, tinha uma ideia conceitual e fui em frente. Eu tinha um estudo sobre o tarô, que era para casar com as imagens, mas a estrutura da história foi se formando. A coisa de ver isso adaptado para o teatro, o grande prazer disso é que você tem um retorno imediato do que você fez. Mario Bortolotto (diretor da montagem) foi muito fiel ao original, não deixava os atores colocarem nem um caco, mudarem nem uma vírgula. O que estava escrito era o que era dito. Eu vi muitas vezes a peça e estar ali, misturado com a plateia, tinha uma resposta imediata a alguns diálogos, algumas brincadeiras. Esse retorno é muito interessante de se sentir.

A sua experiência como ator no cinema, em O Natimorto, parece que você não gostou muito…
Eu gostei muito de participar do projeto, de acompanhar o processo de filmagem, ver o filme pronto. Mas minha mulher tinha falado: na hora que o filme sair, você não vai estar pronto para isso. E a hora que o filme passa, de fato, você fica muito exposto, você ouve muita coisa. Não foi agradável estar ali perto quando o filme foi passado… Adoro o trabalho do Paulo Machline, que adaptou para o cinema, e que é completamente diferente do trabalho do Mario Bortolotto, são visões muito distintas de um mesmo texto, mas é muito difícil você se ver sem o olhar crítico.

O quadrinho é uma atividade muito solitária. E você fez isso durante décadas…
Durante décadas. Algumas pessoas dizem isso, e parece brincadeira, mas ou você faz quadrinhos ou você vive. Quando eu fiz O Cheiro do Ralo, e ele acabou sendo adaptado, passei a viver e a escrever de forma compulsiva. Eu tinha poucas horas e passei a viver muito. Só fazer besteira, mas esse é o lado bom. E agora tô voltando aos quadrinhos, voltando a desenhar. Tem de ter uma disciplina, tem de baixar a cabeça e desenhar, não tem jeito.

É muita pesquisa, não? Mas a literatura também envolve bastante pesquisa, não?
É diferente. Se bem que a literatura, seus jogos de palavras, suas associações de ideias vão se limitando, você precisa se reciclar, pesquisar alguma coisa que é diferente para me contaminar daquele universo.

Por que você resolveu desenhar justamente para o meio jornal?
Vou te responder sinceramente: quando comecei a desenhar, eu tentei publicar em jornal e não consegui. Não conseguia desenvolver, meu trabalho tem uma estranheza que não cabia muito. Desisti e nunca mais quis, nunca mais tive vontade. Mas o convite do Estado pesou muito, é um jornal que eu respeito e admiro. Hoje em dia eu tenho uma liberdade, construí um nome que me permite isso. E o fato de ter essa liberdade num lugar que eu respeito, e a possibilidade de trazer gente nova. O que me incomoda às vezes nas tiras, e hoje até que está mudando isso, é que havia um monopólio de alguns, e não se abre espaço para o pessoal novo. E acho que tem de haver um lugar onde os novos possam mostrar seu trabalho. Tem de vir a molecada, esse pessoal tem de vir. Quando comecei, era difícil e havia um monte de revistas em bancas. Hoje em dia não tem revista em banca, e se não houver espaço não tem como desenvolver.

E como você definiria sua tira Ensaio Sobre a Bobeira?
Tem um personagem, que é o Bob, uma brincadeira com o bobo. São figuras de máscaras, e ele geralmente responde a perguntas estranhas que me ocorrem. É uma piada que está sendo contada para mim naquele momento que estou fazendo. Quando ando pela rua e me ocorre alguma eu anoto. E tem esse ensaio, uma homenagem ao Zéfiro, essas mulheres com bifes sobre o rosto, que é só para eu ser perseguido pelas feministas (risos).
>> O ESTADO DE SÃO PAULO – por Jotabê Medeiros


Assista entrevista com Lourenço Mutarelli


MARCELLO QUINTANILHA: DE REPORTAGENS A CAPA DE DISCO

sábado | 23 | janeiro | 2010

Artista já fez de tudo um pouco antes de se tornar um ilustrador cultuado no Brasil e no exterior
 


SALVADOR DA BAHIA, SEGUNDO QUINTANILHA – Autor desenhou sua visão da capital baiana para a elogiada série editorial Cidades Ilustradas

Entre os trabalhos destacados de Marcello Eduardo Mouco Quintanilha (nome completo do autor, de 38 anos) está a homenagem que fez à cidade de Salvador no projeto Cidades Ilustradas, da editora Casa 21. Quintanilha retratou os monumentos, ruas, feiras, praias e praças da capital baiana em um livro ricamente ilustrado, no qual a paisagem é importante, mas a paisagem humana é mais importante ainda.
Cidades Ilustradas é um projeto editorial que buscou realizar uma série de livros cujo tema são as principais cidades brasileiras vistas através do traço e arte de desenhistas nacionais e internacionais. O inglês David Lloyd (de V de Vingança) desenhou São Paulo. O francês Jano desenhou o Rio de Janeiro.

Quintanilha explora, como diz, “bastidores do futebol; histórias ou desestórias de amor; cotidiano”. Começou a carreira na Editora Bloch, desenhando Mestre Kim. Após publicar na Heavy Metal, ganhou prêmios nas Bienais de Quadrinhos do Rio de Janeiro de 1991 e 1993. Ilustrou para revistas, como Trip, Bravo!, República, Vip, Sabor, entre outras; fez capas de livros, como da biografia do sambista Martinho da Vila, para a Editora Record; e desenhou um encarte de um CD do grupo Planet Hemp; entre outras atividades.

Nos anos 1990, quando ainda assinava Marcello Gaú, Quintanilha começou a conquistar muitos leitores no Brasil com seus trabalhos publicados nas revistas General, Nervos de Aço e Metal Pesado e no álbum Fealdade de Fabiano Gorila (que tem o hipercitado prefácio do músico Aldir Blanc, no qual ele compara o quadrinista a Rosselini). Fealdade foi um dos primeiros títulos de quadrinhos da então emergente Conrad.

Atualmente, além de trabalhar na série de quadrinhos Sept Balles Pour Oxford, em parceria com Jorge Zentner e Montecarlo (para a editora belga Editions du Lombard), ele faz ilustrações para revistas brasileiras e foi premiado nas bienais de quadrinhos do Rio de Janeiro e Belo Horizonte. Também colabora com a revista virtual Zé Pereira, que tem várias HQs dele postadas

“Trabalho basicamente com grafite e aquarela. O grafite é um eco da imprensa do século 19, de imagens litográficas, e cujo objetivo é recuperar essa estética, esse grafismo, como ponto de partida para uma proposta pessoal. Aliado à aquarela, a intenção é simular o efeito de realidade que acho tão importante.”

Sábado dos Meus Amores, no ano passado, veio coroar uma carreira de grande coerência. Há um grande componente lírico na obra, para que os leitores não pensem que o título é mero efeito. Por exemplo, na história do amor de uma moça simples semianalfabeta por um pescador sagaz, que é especialmente tocante. “Tiago é macumbeiro eu sou evangélica mas eu vou rezar pra Iemanjá trazer o barco dele de volta são e salvo”, ela escreve em sua cartilha.

Com mais de 20 anos de carreira, sempre se batendo para publicar num mercado rarefeito, não avalia com entusiasmo desmesurado o momento brasileiro de quadrinhos. “Esse mercado ainda é incipiente e as iniciativas de muitas editoras em lançar títulos na esteira da visibilidade que os quadrinhos têm hoje não necessariamente colabora para sua consolidação. É difícil dizer o que pode decorrer do momento que vivem os quadrinhos no Brasil, quando os títulos migram cada vez mais para as livrarias e lojas especializadas, mas, sem dúvida, pode ser um passo importante para conquistar novos leitores.”
>> O ESTADO DE SÃO PAULO – por Jotabê Medeiros


PEQUENO FORMATO COM QUADRINHOS E HUMOR EM GRANDE FORMATO

sábado | 23 | janeiro | 2010

Nem sempre a boa produção de HQs e Humor estão disponíveis em livros de grande formato e muitas páginas. Muito menos são divulgadas pela mídia impressa habitual ou estão à venda em grandes redes de livrarias. Mas isso não impede que a qualidade e originalidade também estejam presentes nessas publicações.

Levadas pelo baixo custo de produção e facilidade de exposição e manuseio do produto – sem contar a crise que nos ronda ou a consciência ecológica de não desperdiçarmos materiais – muitas edições independentes têm adotado o pequeno formato (quase do tamanho de um celular ou uma carteira) como uma solução para poder mostrar e divulgar o trabalho de artistas do traço e da palavra.

Destaco aqui três delas que foram lançadas recentemente e que merecem ser conhecidas pelos leitores de quadrinhos e de humor:


ZINE ROYALE #4

É uma grande revista em pequeno formato. Seu número 4, uma edição latino-americana, traz boas HQs de vários artistas brasileiros, um mexicano e uma argentina. Além disso, apresenta uma entrevista com Eloar Guazzelli e um artigo sobre os quadrinhos da América Latina e sua quase inexistência no mercado brasileiro.

Editada com competência pelo quadrinhista Jozz e com o selo do coletivo de produtores de quadrinhos independentes Quarto Mundo, Zine Royale é uma ótima revista que ocupa, com algumas outras publicações, o espaço de revistas de HQ de autor, negligenciado pelas editoras comerciais.
zineroyale.wordpress.com

colecao_tulipio.jpg image by zine_brasil

TULÍPIO Nº 9

Tulípio é uma revista de humor onde o personagem beberrão, criado por Paulo Stocker e Eduardo Rodrigues, protagoniza cartuns com situações e piadas de botequim. Neste número da publicação há várias participações especiais: um cartum de Luiz Gê e textos de Aldir Blanc e Moacyr Luz.

A revista, colorida e muito bem produzida, não é vendida. Ela é distribuída em bares, botecos e algumas livrarias especializadas em São Paulo e no Rio de Janeiro. E Tulípio também acaba de ganhar uma versão em livro (pela Devir), com uma seleção das tiradas bem humoradas desse personagem inspirado no típico brasileiro frequentador de bares pelo Brasil afora.
tulipio.com.br


MACACO ALBINO Nº 2

Macaco Albino é uma criação de Leandro Robles e, para quem ainda não conhece, é uma ótima surpresa. O personagem irreverente, às vezes violento, às vezes reflexivo, tem um quê de Macunaíma. Um Macunaíma atual, que se propõe a escrever best-sellers, se aventura no trânsito maluco e, com seu pavio curto, se revolta contra muitas coisas que fazem parte do dia-a-dia e que nem percebemos como vão minando nossa vida.

Com um humor inteligente e inovador, a revista ainda dá espaço para mais de uma dezena de colaboradores, que enriquecem a publicação e ampliam a visão do personagem. Surgido na tira infantil Escola de Animais, Macaco Albino depois ganhou vida própria, com um conteúdo mais adulto. O site do autor ainda traz uma infinidade de tiras do macaquinho que, com seus companheiros, divide sua vida entre a filosofia e a ação.
escoladeanimais.com

>> TERRA MAGAZINE – por Claudio Martini


DIA DO QUADRINHO NACIONAL EM PERNANBUCO

sábado | 23 | janeiro | 2010

Dia do Quadrinho Nacional

AUDITÓRIO CAPIBA – FAC. MAURÍCIO DE NASSAU – BLOCO C
RUA JOAQUIM NABUCO, N. 778, GRAÇAS.

Programação

13h05| Abertura do Evento
Boas Vindas ao Público

Inauguração da Exposição “Pré-história das Histórias em Quadrinhos”

13h15 | Conferência de Abertura
Por uma (pré)História das Histórias em Quadrinhos
Prof. Ms. Amaro Braga – Fac. Maurício de Nassau/CDICHQ

13h35 | Palestra
O Papel do FIHQPE na História dos Quadrinhos Pernambucanos
Laílson de Hollanda Cavalcanti

14h05 | Apresentação de trabalho
Pernambuco tem História,  em quadrinhos!
Prof.ª  Esp. Danielle Jaimes – CDICHQ
Prof. Ms. Amaro Braga – Fac. Maurício de Nassau/CDICHQ

14h25 | Apresentação de Vídeos e TCC´s sobre Quadrinhos

14h45 |Mesa-Redonda
Mercado em Quadrinho no Nordeste
- Papel da Marca de Fantasia nos quadrinhos do Nordeste
Prof. Dr. Henrique Magalhães
- A trajetória da PADA nos quadrinhos em Pernambuco
Arnaldo Luiz Nazario e Milson Marins – PADA/Prismarte
- De Gost-Drawer ao Reconhecimento:  um relato de experiências na produção de quadrinho para o mercado americano
Pedro Ponzo – Impacto Studios

15h45 | Palestra de Encerramento
Jornalismo sobre Quadrinhos em Pernambuco


MAFALDA, A PEQUENA NOTÁVEL

sábado | 23 | janeiro | 2010

Sempre que pode, o cartunista argentino Quino diz não se arrepender de ter parado de desenhar Mafalda nove anos depois da primeira tirinha, quando seu personagem tinha um número crescente de fãs. Entretanto, ele admite que se arrepende de algo que fez nas primeiras tiras da personagem: ter criticado tão duramente a presidência de Arturo Illia, que comandou a Argentina entre 1963 e 1966. E não é que aquele governo tenha sido assim tão bom. Quino é que não sabia que, depois do golpe militar que encerrou o mandato de Illia, a situação iria piorar tanto.

Mafalda apareceu pela primeira vez em 29 de setembro de 1964, na mais importante revista semanal argentina da época, a Primeira Plana. No ano seguinte, as tiras passaram a ser diárias, veiculadas no jornal El Mundo. Em 1967 Mafalda foi para a revista semanal Siete Días Ilustrados, onde ficou até a última historieta, publicada no dia 25 junho de 1973. Suas 1 928 tiras já foram publicadas em mais de 20 idiomas, incluindo russo, polonês e norueguês. Praticamente todas essas histórias, que ainda saem em jornais ao redor do mundo, estão reunidas na hilária coletânea Toda Mafalda.

Depois do golpe, as histórias da personagem e de seus amigos revelam as diferentes fases da ditadura argentina: a ineficácia do governo, a crise econômica, o endurecimento do regime. Durante quatro governos militares, Mafalda não se intimidou e permaneceu questionando a situação do país e fazendo perguntas bombásticas a seus pais. Para acompanhar a trajetória desse difícil trecho da história argentina, Toda Mafalda é uma verdadeira enciclopédia. Apesar de já ser quarentona, a personagem continua muito atual quando o assunto é a insatisfação diante da realidade social e política da América Latina.

Mudança de ares
Enquanto permaneceu no comando da Argentina, Arturo Illia sofreu críticas de todos os lados. Era comum que, dada sua lentidão em tomar decisões, ele fosse comparado a uma tartaruga – justamente o animal de estimação que Quino deu a Mafalda e batizou de “Burocracia”. “De um lado, Illia foi um presidente honesto e cauteloso, que evitou transformações abruptas num momento em que nacional e internacionalmente elas significariam riscos grandes”, afirma Júlio Pimentel Pinto, professor de História da América Latina da Universidade de São Paulo. “De outro, teve uma atuação inexpressiva na condução da economia e da política interna e externa.” Apesar do cenário desanimador, os argentinos pelo menos estavam vivendo um período de liberdade – algo muito valioso num país que tinha assistido a golpes de Estado nas três décadas anteriores. A imprensa aproveitava para satirizar Illia, coisa que Quino fazia muito bem.

Isso tudo tinha data para acabar. Não tardou para que os militares tomassem o poder e resolvessem as coisas à sua moda: o general Juan Carlos Onganía assumiu a presidência em 1966, onde permaneceu até 1970. Seus colegas de farda ficariam no poder até as eleições de 1973. A ascensão dos militares foi, como de costume, acompanhada por repressão. Quino respondeu à nova realidade de várias formas. Uma das mais geniais foi a última personagem criada por ele para a turma de Mafalda. Filha de hippies e esquerdista, ela tem duas características que a tornam uma metáfora explícita: é muito pequenina (tem menos da metade do tamanho de Mafalda) e se chama Liberdade.

Crise sem fim
Durante os nove anos das aventuras da Mafalda, foram várias as crises econômicas presenciadas pelos argentinos e registradas por Quino. Em 1964, por exemplo, havia uma conjunção de desvalorização constante da moeda e fraco desempenho agrícola. A conseqüente recessão deixou desempregados quase um terço dos trabalhadores. Apesar de alguns períodos mais prósperos (como em 1966, quando a taxa de crescimento anual foi de 5,6%), o que predominou, como podemos ver em Toda Mafalda, foi a crise generalizada e a estagnação. Quando tomou o poder, o general Onganía lançou seu Plano de Estabilização e Desenvolvimento. Uma das principais medidas foi facilitar a entrada de produtos estrangeiros no país, o que causou a falência de centenas de empresas argentinas, incapazes de competir com os importados.

O personagem que Quino melhor usa para falar de economia é Manolito, que trabalha na mercearia do pai, freqüentada pela turma de Mafalda. Seu sonho é ter uma cadeia de supermercados e ganhar muito, muito dinheiro – em busca desse objetivo, não é raro que ele tente enganar seus clientes. Manolito, que adora o modo como a inflação faz aumentar o preço das mercadorias que vende, vai muito mal na escola e não dá valor a “superfluosidades” – tais como as canções dos Beatles.

Repressão em alta
A partir de 1966, a Argentina viu sua liberdade ser dramaticamente reduzida. Estudantes viravam alvos da polícia, jovens desapareciam de um dia para o outro, jornais eram censurados – fenômenos bastante parecidos com o que ocorreu no Brasil e em outros países latino-americanos no mesmo período. As medidas autoritárias e impopulares do general Onganía, como o congelamento de salários, incomodavam muito os trabalhadores. Com a justificativa de combater o “comunismo”, o governo militar criou a Dipa (Direção de Investigação de Políticas Antidemocráticas) para perseguir, encarcerar e torturar militantes políticos e sindicais contrários ao governo. Onganía dissolveu partidos políticos e interveio nas universidades com ações violentas.

Dois episódios marcaram o aumento de violência do regime e foram, de maneira mais ou menos velada, retratados por Quino em tiras presentes em Toda Mafalda. O primeiro, ocorrido em 29 de julho de 1966, ficou conhecido como La Noche de Los Bastones Largos (ou “a noite dos cacetetes compridos”). Professores, diretores e alunos da Universidade de Buenos Aires foram arrancados das faculdades pela polícia, que tinha a ordem de não economizar no uso de seus bastones.

Três anos depois, um protesto semelhante aconteceu em Córdoba, com conseqüências ainda mais desastrosas. O ápice da truculência policial e militar foi batizado de Cordobazo e é considerado o equivalente argentino dos conflitos que marcaram o mês de maio de 1968 na França. Em 29 de maio de 1969, a maior manifestação de estudantes e trabalhadores já vista no país foi violentamente reprimida pelo exército (pois a polícia já havia se rendido diante da força dos manifestantes) e deixou dezenas de mortos e centenas de feridos. Marco na história recente da Argentina, o Cordobazo acabou tendo um efeito multiplicador, incitando manifestações país afora e enfraquecendo o regime militar.

Intragável censura
Mafalda odeia sopa. Todos os (muitos) dias que sua mãe insiste em lhe servir a iguaria, a menina faz questão de mostrar seu descontentamento. Esse foi um dos modos que Quino encontrou para manifestar seu desgosto com relação à ditadura. A sopa, segundo o cartunista, era “uma metáfora do autoritarismo militar”, assunto que não permitia abordagens muito diretas. Durante a ditadura, os veículos de comunicação que publicavam as tiras de Mafalda deixavam os limites bem claros: “Logo me advertiram que havia temas, como sexo, militares e repressão, em que não se podia tocar”, disse Quino em entrevista publicada no jornal argentino Clarín em 28 de julho de 2004.

Em Toda Mafalda, entretanto, existem tirinhas que dão a impressão de que os censores argentinos não eram assim tão rigorosos. Quino é bastante incisivo em certas alusões à tortura e à falta de liberdades democráticas, por exemplo. No fim dos anos 60, cartuns com esse conteúdo dificilmente poderiam ser publicados no Brasil – onde, após o Ato Institucional nº 5, de 1968, toda a produção jornalística e cultural foi ferozmente censurada. “Pode-se dizer que, no período que vai de 1968 até 1976, a censura foi um pouco mais branda na Argentina do que aqui”, diz o historiador Júlio Pimentel. “Entretanto, com o golpe militar argentino de 1976, a situação por lá ficou realmente complicada.” Quino acabou dando sorte, já que, nessa época, Mafalda não era mais publicada.

Mafalda se cala
Em 1973, Quino decidiu que era hora de deixar de desenhar Mafalda. Na época, ao se justificar, o cartunista disse que, diante do novo panorama argentino, a personagem teria de presenciar coisas que não suportaria. O curioso é que Quino não se referia a mais uma medida infeliz dos militares. A ditadura havia acabado e Héctor Cámpora havia sido eleito presidente em março daquele ano. O problema é que ele era um mero fantoche nas mãos de Juan Domingo Perón, líder populista que já tinha governado a Argentina por duas vezes. No exílio havia quase 18 anos, Perón tinha sido proibido pelos militares de se candidatar.

Em 20 de junho, Perón retornou ao país, vindo da Espanha. Uma recepção havia sido armada no Aeroporto de Ezeiza, nos arredores de Buenos Aires. Mas o local acabou sendo palco de um sangrento confronto entre facções rivais de peronistas. O evento, que ficou conhecido como Massacre de Ezeiza, deixou um saldo desconhecido de mortos e feridos. O ex-presidente pousou em outro local, mas o estrago já estava feito, revelando a grave crise no peronismo. Como Quino suspeitava, o retorno de Perón (que em setembro, após a renúncia de Cámpora, voltaria a ser eleito presidente) traria instabilidade à Argentina. Cinco dias depois do massacre, Mafalda despediu-se de seus fãs. Quino só voltaria a desenhá-la raríssimas vezes, como numa campanha do Unicef (o Fundo das Nações Unidas para a Infância) realizada em 1977 para divulgar a Declaração dos Direitos das Crianças.

“M” de Mansfield
Quino criou Mafalda para uma campanha publicitária
Foi só aos 7 anos, ao ingressar na escola primária, que o argentino Joaquín Salvador Lavado descobriu que não se chamava Quino. Haviam lhe dado esse apelido logo após o nascimento, em 17 de julho de 1932, para que não fosse confundido com seu tio Joaquín Tejón, que era desenhista publicitário. Além do primeiro nome, Quino compartilhou com ele desde cedo a vocação para o desenho. Aos 13 anos, enquanto retratava vasos e naturezas mortas na Escola de Belas Artes de Mendoza, o jovem descobriu a revista de quadrinhos Rico Tipo e decidiu que queria ver seus desenhos publicados nela. Em 1951, depois de ter abandonado a Belas Artes, Quino visitou todas as redações de Buenos Aires em busca de emprego como cartunista, sem sucesso. Só em 1954 ele veria seu primeiro desenho publicado, no semanário Esto Es.

A partir daí, seus trabalhos passariam a sair em diversos veículos, incluindo a Rico Tipo – onde começou a colocar texto em suas tiras. Em 1960, se casou e passou a lua-de-mel no Brasil, onde entrou em contato com colegas e editores estrangeiros pela primeira vez. Dois anos depois, publicou a primeira compilação de seus desenhos. O cartunista criou sua mais conhecida personagem em 1963, para estrelar uma campanha publicitária da marca de eletrodomésticos Mansfield (a empresa exigia que o nome de sua mascote também começasse com “M”). Como a campanha não vingou, Mafalda só apareceria no ano seguinte, na revista Primeira Plana – as tiras dessa época, consideradas ruins pelo próprio autor, não estão em Toda Mafalda. Hoje, mais de 30 anos após ter parado de desenhar regularmente sua mais famosa criação, Quino continua fazendo tiras que abordam temas como a vida moderna, o poder e a corrupção. Mas elas não têm personagens fixos.
>> O PARAISO É UMA BIBLIOTECA – por Paulo